Minha cama é o chão,
meu teto é o céu.
A cidade passa por cima
como se eu nunca fosse eu.
O papelão é cobertor,
o cachimbo engana o frio.
A fumaça abraça primeiro,
depois empurra pro vazio.
Na madrugada ninguém ama,
ninguém pergunta quem eu sou.
Os corpos se encontram por calor,
quando o inverno apertou.
É beijo sem promessa,
é abraço por precisão.
Quando o sol rompe o concreto,
cada um leva a solidão.
Durmo na porta dos templos,
debaixo do nome de Deus.
Quando o portão se abre cedo,
o primeiro milagre é um chute nos meus.
Dizem que Deus mora ali dentro,
mas eu só conheço a calçada.
Rezo olhando pro céu aberto,
porque a porta vive fechada.
A pedra cala a fome,
a pinga adormece a razão.
Não é prazer, é armadura
contra o frio e a humilhação.
A cidade desvia os olhos,
como quem desvia da cruz.
É mais fácil culpar o caído
do que acender uma luz.
Já tive fotografia,
endereço e profissão.
Hoje carrego nos bolsos
só a fumaça e a contramão.
Se algum dia eu desaparecer,
ninguém vai notar meu adeus.
Talvez só o banco da praça,
a marquise...
e Deus.














