Por sorte Nyxie e Gaspard conseguiram encontrar a chave correta, abrindo a grande porta de ouro nos fundos do centro comunitário. Do outro lado deram de cara com uma floresta estranha, com uma cabana aparentando estar abandonada há alguns meses. Qualquer um esperto o bastante não atravessaria a porta sem pensar muito bem antes, mas o grupo de semideuses não teve muita escolha quando Stormy foi correndo em direção à cabana. “Titia! Titia!”
Foi só eles passarem pela porta atrás da criança que ela desapareceu, deixando-os presos ali sem opção a não ser entrar na cabana junto de Stormy, onde foram recepcionados por mais esferas como a que estava na praia horas antes, zanzando pela cabana e ao redor da garota alegremente. Parecia seguro, e Stormy estava feliz, então por que aproveitar para descansar, né? Até porque já podiam ver o pôr do sol dali, e não parecia ser muito inteligente explorar aquela floresta no escuro.
❛ㅤㅤ Seja para a sorte ou para o azar do grupo de semideuses, quando Nyxie girou a chave na fechadura pode ouvir um pequeno “click” que indicava que a porta estava sendo destrancada. Assim, sem hesitar, virou a maçaneta por completo e empurrou a grande porta dourada para ver o que havia do outro lado do Centro Comunitário de Liberty.
✞ ━━ ❝ O click da porta se destrancando era quase ensurdecedor para Anael depois de toda aquela confusão. Estava esgotada, para se dizer o mínimo e a bem da verdade, queria voltar para casa. Pediu, por um momento, que seja lá o que tivesse do outro lado da porta fosse uma passagem só de ida para o meio sangue. Já tinham conseguido o que precisavam certo? A ilha tinha sido invadida por demônios egípcios, todos tinham morrido ou desaparecido, era difícil dizer, encontraram a maldita criança que se assemelhava muito a péssimas escolhas com Akali e tinha a tal mulher urubu. Que fuçassem a mente da garota agora se quisessem mais…
Após todas as chaves serem testadas, a porta dourada do centro comunitário finalmente se abriu com um silêncio suspeito. Liza esperava ver uma multidão do outro lado, um refúgio dos semideuses desaparecidos de Liberty, no entanto, tudo que havia era uma floresta com uma cabana, um portal para a história de Chapeuzinho Vermelho. Decepcionante, ainda assim, se espremeu atrás de Nyxie e seguiu Stormy. O que mais iria fazer? Os portões do centro comunitário estavam trancados, aquela era a única saída. Certo, talvez não fosse a única saída, conseguia pensar em pelo menos cinco jeitos de fugir, mas precisavam seguir o caminho da missão.
[ 🔥 ] Anael girou a chave e… nada aconteceu. Asami franziu o cenho. Talvez não fosse daquela porta. Talvez tivessem outras duas escondidas pelo lugar, uma para cada chave dourada restante. Ou… Talvez seu dispositivo não estivesse bem calibrado. Aquela última possibilidade a incomodava. Ela trouxe o relógio de pulso para perto dos lábios outra vez e ligou o gravador de voz.
— Checar o rastreador — adicionou o lembrete na lista de tarefas.
♫ ━━ ❝ Barbara esperou que as chaves fossem algum tipo de boa premonição, embora o quebra cabeça de qual chave abre a porta acabasse deixando-a um pouco ansiosa. No final ela começava a se perguntar se era realmente uma boa ideia abrir a porta. Quem afinal tinha deixado aquelas chaves ali? Com qual propósito…? Ela torceu os lábios enquanto os assistia contemplar sobre as chaves…
———— A gente não devia pensar melhor sobre isso…?
Ela perguntou um pouco receosa. Podiam voltar, não podiam? O barco de River estava atracado no píer e a bem da verdade Barbara não era do tipo extremamente curiosa que colocaria tudo em risco para descobrir um mistério. Gostava do seguro. Mas a porta foi aberta e o que viram não foi uma passagem para casa ou qualquer lugar meramente conhecido. O que tinha do outro lado era uma floresta, uma cabana vazia e promessas de mais confusão. Barbara suspirou e nem quando Stormy e ainda outros saíram correndo ela se moveu. Olhou ainda por cima do ombro em direção à saída da área do centro comunitário onde estavam, podiam ir embora. Mas aparentemente sem escolha, atravessou o portal a passos cautelosos, esperando que qualquer coisa surgisse e os atacasse como foi quando chegaram na ilha.
Nada, no entanto. Liza apareceu os chamando para dentro e Barbara se adiantou até a porta, adentrando a cabana para encontrar as luzes como a esfera que os receberam ao chegar em Liberty. Com os lábios torcidos ainda em desconfiança, a filha de Poseidon se encostou em uma das paredes na extremidade, de forma que pudesse ver o lado de fora pela porta, assim, caso algo se aproximasse, conseguiria enxergar antes de serem pegos de surpresa.
———— Acho que se as luzes que protegem as pessoas que estão aqui, talvez seja seguro. Espero apenas que por tempo suficiente para descobrirmos como ir para casa. —— Stormy também parecia confortável ali e se a garota não era perigosa, o que ainda não tinham chego a uma conclusão, queria dizer que podiam relaxar um pouco. ———— De qualquer forma, concordo com a ideia de nos dividirmos em grupos pra vigiar. Podemos nos separar por habilidade… Como eu tenho benção de Apolo e sou filha de Poseidon funciono melhor quando ainda tem sol. Anael e Nyxie certamente ficam mais alertas e energizadas de noite… —— exemplificou para que acompanhassem seu raciocínio, esperando para ver se concordavam com o que tinha pensado, buscando pelo olhar de Gaspard como aprovação, como costumava fazer sempre quando tinha alguma ideia, até porque se alguma ideia era realmente boa era ele quem costumava ser sua afirmação.
Seus olhos foram de toda a turma para Gaspard, vendo ele lhe lançar perguntas sobre água e rio que a fizeram imediatamente lembrar do que ele tinha medo. Por um momento a semideusa fechou os olhos e se concentrou, vasculhou todo o ambiente até onde seu poder conseguiu se estender,mas no final, tudo que conseguia sentir era a água encanada da casa. Quando ela abriu os olhos e encarou o amigo, negou com a cabeça, antes de esticar a mão e acariciar seu braço tentando confortá-lo.
———— Vamos dar um jeito nisso antes que algo pior aconteça, ok? Vai ficar tudo bem. —— e se não conseguissem, Barbara estaria lá para protegê-lo.
Ainda que a cabana parecesse segura, todos pareciam de acordo que não dava para simplesmente relaxar e dessa forma se dividiram para vigiar, dividindo-se em grupos. Ficou então com o primeiro turno, junto de sua irmã e Asami, todas as três se espalhando pela casa de forma que pudessem cobrir todos os cantos por onde alguém pudesse se aproximar. Juntando os punhos ainda, Barbara fez a Lira de Apolo surgir em sua mão e de hora em hora, apenas para reforçar os dispositivos da filha de Hefesto, tinha a intenção de liberar uma onda sonora que lhe diria se algo começasse a se aproximar demais da velha cabana.
Parada ali na porta da cozinha, encarando a janela do seu lado da casa para vigiar o lado de fora, Barbara se perguntava de que forma conseguiriam sair daquele lugar. Não sabiam se andar por ali era seguro. Viria alguém? Ou teriam que desvendar mais um quebra cabeça? Dariam falta deles no acampamento finalmente? Quase sem notar, por conta de sua ansiedade, dedilhava contra as cordas da lira notas que pareciam traduzir os sentimentos da filha de Poseidon, música afinal era seu meio de comunicação.
Os olhos de Barbara se mantinham no horizonte, como se em algum momento, através da janela da cozinha, fosse ver alguém ou alguma coisa se mover. Com alguma sorte podia ser alguém do lado deles, mas aquela altura imaginava que estavam por conta. Como voltariam pra casa era uma incógnita, e ela começava a pensar que talvez não estivessem nem mais no mesmo plano ou dimensão. E se não estavam, pra que lugar haviam sido enviados então?
———— Hm...? Fome...? —— questionou com o cenho franzido, encarando a irmã do outro lado do cômodo. Haviam acabado de comer, era impossível que estivessem com fome. Acabou só negando com a cabeça. ———— Eu também posso revitalizar alguma coisa pra te deixar com a sensação de mais energia, se precisar. —— comentou, quando Asami falou do miojo, sentindo falta de comer besteiras no acampamento. Há quanto tempo já estavam naquela ilha afinal de contas? ———— O que parece é que na realidade estamos a uma eternidade nessa ilha, mesmo fazendo poucos dias. —— comentou com elas, assentindo quando Asami falou do arco-íris, se lembrando que já fazia tempo que não tentava contato com o acampamento também.
Ela se levantou, soltando a lira no ar apenas para que o objeto desaparecesse, caminhando em direção à filha de Hefesto enquanto se concentrava para puxar a água da encanação da pia da cozinha, levando consigo a matéria até o facho de luz que entrava pela janela da sala. Um arco-íris apareceu diante deles e Barbara sorriu para a amiga.
———— Prontinho, é só ligar agora.
O estranho foi quando não deu certo… Há quanto tempo não falava com o acampamento? Tentou se lembrar da última vez que falara com Gabe e realmente… Já fazia tanto tempo. Sentiu o peito apertar de uma saudade insana. Deuses, sentia falta de casa. Sentia falta do melhor amigo e de seus comentários tão fora de hora com o sorriso sacana a ponto de fazer com que ninguém conseguisse odiá-lo…
———— Ué… —— ela murmurou e se afastou de Asami, vendo ela se concentrar na ideia do miojo enquanto a filha de Poseidon se sentava num canto, manipulando mais da água. Jogou o primeiro dracma contra o arco-íris e pediu para falar com o amigo. Nada… Fez de novo e mais uma vez, até ficar irritada. ———— Ótimo! Estamos presos nesse inferno e se eu morrer eu sequer posso me despedir! Que maravilha!
Ela bradou, se levantando para se apoiar contra uma janela, negando com a cabeça para Asami quando ela insistiu em comer. Não queria nada daquele lugar. Queria sua cama no seu chalé, refrigerante e salgadinho, filmes clichês e sua melhor companhia para aquele tipo de programa.
Não viu o tempo passar depois disso, muito focada em sua irritação, foi rendida por Nyxie e Anael e notou o quão cansada estava. Precisava dormir pelo menos um pouco antes de ter que resolver o problema de Gaspard e deles também, assim, se encolheu contra o sofá da casa e antes que pudesse notar, já estava dormindo. ❞
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Sabia da missão desde que Asami tinha batido em seu chalé com a notícia, tinha até mesmo feito algumas modificações no projeto inicial do rastreador para que fosse útil, de certa forma, em uma missão como aquela. No entanto, mesmo que sua natureza agora não se importasse em manter presença diante da despedida, Thorn não conseguiu evitar que os passos e sua mente racional vagassem em direção à praia, de onde eles embarcariam.
Estava de braços cruzados fitando de longe, evitando ao máximo o contato com todos eles. Já tinha sido ele, muitas vezes antes, à estar em situação semelhante, sem saber se voltaria e como desvendaria aqueles mistérios. Porém, seu coração continuava o mesmo, as batidas regulares, nenhum suor a mais nem a menos, o rosto fechado em uma expressão despreocupada. Quase como se não fosse parte deles seus amigos próximos que estariam viajando sem previsão de volta.
Claro que suas tentativas de se manter discreto não seriam suficientes quando era Barbie quem veio falar consigo no meio do caminho. Brekker suspirou, um risinho de canto surgindo em sua expressão séria ao lembrar do ocorrido. “Se eu não tivesse arrumado confusão com filhos de Afrodite não seria eu, você sabe.” Concordou com um dar de ombros, os braços cruzados à frente do peito. Ele analisou Bárbara por alguns segundos, umedecendo os lábios para rebatê-la.
“Mais é claro que irei chorar todas as noites, vou dormir chorando e vou acordar dizendo ‘Barbie pelos Deuses você voltou!” Riu com desdém daquela ideia, mas logo abriu os braços para um abraço. “Tente não morrer, e tente não deixar Asami e Liza morrerem também.” Era o que seu eu racional diria e disse, embora não sentisse de verdade a angústia de uma possível perda. “Vou dizer pra Nyxie tomar ordem nessa missão, não confio em vocês o suficiente. Se morrerem iriam logo vim me atazanar e eu particularmente não sou muito fã de fantasmas.”
.
♫ ━━ ❝ Barbara riu. Desde que conhecia Thorn o via em memoráveis desentendimentos com as proles da deusa do amor e se perguntava porque. Imaginava ela, pelo pouco que sabia das interações humanas — porque estas eram complicadas demais para se dizer que sabia muito sobre — que havia algo de muito pessoal para que o semideus se sentisse tão pessoalmente atacado por eles. Também pensava que por nunca ter um alvo em específico que em nada tinha a ver com os filhos da divindade e sim com a mulher em si, mas nunca havia ousado perguntar para ele, principalmente porque se o mais velho não falava sobre, não seria ela a invadir o seu espaço. Pensava apenas que ele perdia tempo em conhecer boas pessoas por uma raiva que não pertencia à elas, mas quem era Barbara para dizer algo do tipo para Thorn que já tinha vivido tão mais que ela?
———— Eu imaginei que fosse algo do tipo mesmo... —— mentiu descaradamente porque o que rolava pelo acampamento é que dessa vez a raiva do outro tinha um endereço muito mais pessoal do que das vezes anteriores, ou ao menos, pessoal o suficiente para ser comentado com maior afinco. ———— Você tem um dom especial para pegar no pé deles, hm? Daqui a pouco vão começar a achar que isso não é bem ódio... —— ela brincou rindo, mas não quis se meter mais do que o outro compartilhava consigo.
Em vez disso aceitou os braços abertos do maior porque o abraço era confortável e para dizer a verdade sentia medo do que os aguardava na ilha de Liberty. Aquela missão não era como qualquer outra, tinha a ver com a guerra que acontecia em todos os acampamentos e bem sabia que algo de tamanha magnitude não simplesmente seria fácil, se é que todos voltariam vivos e deuses a livrassem do pensamento de que alguém poderia morrer. Ela suspirou contra o peito do mais velho antes de apoiar o queixo ali para olhar para cima, Thorn era muito mais alto que ela.
———— Vou garantir para que todos fiquem bem, eu prometo! —— ela assentiu de leve ———— E tentar não morrer também. —— ela completou rindo, revirando os olhos para a piada dele sobre voltarem para atazanar sua vida, ainda que tivesse um riso pequeno nos lábios que denunciasse que achava graça das coisas que o maior falava. ———— Pois se acostume com a ideia de ser um semideus mal assombrado porque eu não vou a lugar nenhum, ok? Voltarei pra encher o seu saco e dizer Thorn, tenha mais juízo!, serei como sua voz da consciência. Talvez você precise um pouco disso. —— ela brincou com uma risada baixa. ❞
Em frente ao espelho, Gabriel passou as mãos por seu terno de cor malva. Estava elegante e chamativo como gostava, mas tinha feito o esforço de não parecer tão extravagante naquela noite. Afinal, a verdadeira estrela era Barbie. E ela estava… (ele notou o ar escapar dos pulmões ao avistá-la saindo do banheiro) Estava deslumbrante.
— O que é isso, uma princesa? — Galanteou de brincadeira, os cantos dos lábios curvando num sorriso, tomando a mão dela para uma pirueta a fim de analisar a roupa por todos os ângulos. Uma das vantagens de ser amigo de uma cantora famosa certamente estava nos convites para eventos de gala. Gabriel se divertia não somente durante eles, mas também após – uma revista de fofoca ou outra sempre acabava teorizando sobre a proximidade de ambos, quando iriam assumir o relacionamento para a mídia, se havia um significado maior naquele olhar de cinco segundos trocado durante o anúncio de mais uma premiação vencida. Gabriel fazia questão de interpretar sua faceta mais pseudo-heterossexual possível nas câmeras, uma espécie de piada interna entre ambos. Para ele, era também um instinto de proteção. Se pensassem que estava realmente acompanhada, Barbie poderia curtir aqueles eventos mais confortavelmente, sem grandes níveis de investidas masculinas.
— Só falta uma coisinha pra ficar perfeito. — Anunciou com o indicador erguido. Parecia ter se lembrado de algo importantíssimo, movimentando-se ágil até uma mesinha ali perto. Quando voltou, suas mãos estavam ocupadas por dois itens: um pequeno ramo de flores preso a um grampo chique e um corsage. A flor de ambos era malva-rosada, como o terno e os fios curtos de seu cabelo.
— Se o tema da festa é “baile de formatura”, nada mais justo do que fazermos isso direito, huh? — sugeriu. Havia crescido parte preso num mosteiro e parte fazendo entregas em cantos remotos do mundo; nunca tinha participado de um baile de formatura, mas assistia filmes o suficiente para conhecer o ritual. Corsages significavam respeito e consideração, ele tinha pesquisado.
♫ ━━ ❝ Era época de MTV Video Music Awards naquele ano e Barbara estava mais do que ansiosa, como se isso fosse possível. Ela já havia sido indicada ao prêmio três anos desde que havia começado a seguir carreira na música, contanto com aquele, mas nunca tinha levado o prêmio e daquela vez ela e a sua equipe, com o sucesso que suas composições vinham fazendo desde então, esperavam ter um resultado diferente.
Com o evento sendo voltado para o público jovem o tema da noite era baile de formatura, algo que particularmente a semideusa nunca tinha tido na vida, tendo deixado a escola ainda quando era muito nova, na época em que a depressão havia lhe acertado com força, antes mesmo de ser levada para o acampamento por Apolo. Ainda naquele dia, sua equipe tinha se reunido para decidir como ela deveria se parecer naquela noite: uma jovem inocente e delicada em seu primeiro baile ou uma mulher pronta para ser coroada? Optaram pela segunda opção.
O vestido que escolheram para ela ousava na transparência e brilho, algo que não deixava de fato Barbara muito confortável, desacostumava a usar aquele tipo de roupa fora dos estúdios de gravações. A maquiagem era mais leve, para que não parece um grande circo e pudesse contrastar no rosto a leveza que a roupa não tinha. Seus sapatos de salto alto eram de tom nude também e ainda no corpo a base estava bem espalhada pela sua equipe de maquiagem para esconder as marcas de cortes que ela mesmo tinha causado em si na infância. Barbara só esperava que fosse suficiente para que nenhum tabloide levantasse questões sobre a sua saúde mental porque ela estava bem agora. Quando saiu do banheiro e encontrou Gabe, não pode evitar um sorriso tímido e bochechas coradas com o comentário dele, esperando pela coisinha que faltava.
———— Gabe! —— ela exclamou rindo baixo e se adiantando na direção do melhor amigo ao vê-lo pegar o corsage, incapaz de fazer seu sorriso nos lábios diminuir. ———— É perfeito! —— ela exclamou, segurando o rosto do melhor amigo para beijar-lhe a bochecha. Era principalmente por isso que gostava de tê-lo ali. Não importava o quão nervosa estivesse, o quão terrível o resultado de um prêmio ou uma crítica pudesse ser, o Ertois fazia parecer tudo um sonho incapaz de se tornar ruim. Tê-lo ao seu lado tornava tudo mais fácil e tranquilo de uma maneira que fazia Barbara sentir que podia sim lidar com toda aquela loucura. Ela estendeu o braço para que ele pudesse ajeitar o adereço ali, ouvindo a produção dizer na porta que se não andassem logo iam se atrasar. ———— Ouvi eles dizerem que alugaram uma limusine com globo de luz. Podemos fazer nossa própria festa depois do prêmio, te deixo escolher o lugar pra onde vamos. —— acabava sempre retribuindo o fato dele acompanhá-la nos eventos levando Gabe a todo tipo de festa e lugares legais que conhecia por ai, era o mínimo que podia fazer. ❞
♫ ━━ ❝ O churrasco tinha sido nostálgico para Barbara que sentia falta do Brasil, de onde sua mãe tinha vindo, mas agora o tempo de nostalgia tinha que ficar para outro momento, afinal, Quíron à tinha convocado para a Casa Grande não para uma tarefa qualquer que o acampamento precisava mas para compor um time em uma expedição que tinha vindo de uma profecia. Já havia saído em missões antes, quando era muito mais nova aliás, mas as coisas tinham mudado para Barbara a muito tempo e desde que havia assumido uma carreira no mundo mortal tinha poupado sua imagem e o acampamento entendia. Ela tentava ajudar de outras formas.
Era conselheira de seu chalé, ajudava com os estábulos, com aulas de natação ou navegação, mantinha a ordem e recebia campistas novos... bom, fazia tudo o que estava em seu alcance mas que não a colocasse tão em risco como antigamente porque agora tinha uma imagem a zelar, algo que havia mudado desde o ataque no natal, quando soube de Lycaon, das mortes... Não podia deixar de pensar que podia ter feito a diferença se estivesse lá e por isso tinha suspendido todos os seus compromissos como cantora para dar atenção à sua família.
Encontrou Thorn no meio do caminho entre os chalés e a praia, onde a embarcação aguardava os integrantes da missão. Ainda tinha que passar nos estábulos onde sabia que encontraria Gabe, para se despedir dele, mas tinha tempo, pensou, e Thorn era também um amigo quem presava muito e por isso se aproximou do mais velho com um fraco sorriso. Já fazia algum tempo que não paravam para conversar, podia se dar aquele luxo antes de partir.
———— Oi grandão. Fiquei sabendo que você armou a maior confusão no dia do churrasco lá na orgia... —— ela brincou, rindo ao parar diante dele com um sorriso, tendo de olhar para cima para conseguir encarar os olhos claros do filho de Caos. Aquele, na realidade, não era o assunto, mas ela não podia deixar de comentar, porque ainda era muito engraçado no final das contas pensar em Brekker fazendo um escândalo. ———— Eu vim me despedir... Estou saindo em missão e não sei quando volto e não quero que você chorede noite com saudades, sabe? ❞
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Por mais que as coisas parecessem tranquilas na pequena cidade, era estranho ver tudo abandonado. Ainda existiam rastros da população da ilha por todos os lados, mas não era possível ouvir nem o som de animais conforme o grupo seguia a esfera brilhante.
Chegando no destino final do mecanismo, contudo, tiveram uma surpresa: gritos. Na esperança de encontrarem alguém que soubesse o que havia acontecido com o resto dos semideuses dali acabaram entrando tão rápido no centro comunitário que não pensaram nem na possibilidade daquilo ser uma armadilha, e agora estavam trancados. Para piorar, um grupo de oito demônios estava tentando alcançar uma menininha de dez anos que estava pendurada no parapeito do segundo andar, oito metros acima do chão e ameaçando a cair a qualquer momento.
Agora os semideuses só tinham duas escolhas: ou destruiam os demônios e salvavam a garota, ou todos iriam morrer ali.
❛ㅤㅤ Nyxie havia aprendido muitas coisas ao longo de seus dezesseis anos morando no Palácio da Deusa da Magia no Submundo, infelizmente ser uma boa irmã mais velha não era uma delas. Mas ela tentava, do seu jeito estranho, compensar aquilo da melhor forma possível e ainda sentia que falhava sempre. Principalmente com Anael. Por isso ficou tantas horas pensando sobre o assunto “relacionamento” antes de finalmente ter coragem de dizer algo a mais nova. Não teve muitas experiências como aquelas ao longo da vida, e as poucas não acabaram tão bem. Tinham se fechado para o amor. Porém, apesar de todos os pesares, ainda conseguia se lembrar das coisas boas. E assim, ainda no barco aproximou-se da irmã e voltou a tocar no assunto, enquanto os olhos cinzentos focaram-se no mar.
「♢ ――― 」 Não houve muita conversa enquanto seguiam a bola de luz, todos pareciam estar sérios e não seria ele a quebrar o silêncio. Aproveitava o caminho para observar todos os detalhes possíveis da ilha. As construções, os objetos deixados para trás, as marcas no chão, até os cheiros e sons que pudesse identificar, qualquer informação que pudesse ajudá-los de alguma forma.
ㅤㅤA filha de Netuno não esperava coisas boas vindo daquele lugar. Ainda caminhava atrás dos demais, sempre de olho em tudo e a todos. Desconfiava até mesmo da própria sombra, afinal se havia uma esfera de luz estranha, nada impedia que criaturas das sombras surgissem por ali. Fantasmas já haviam surgido para atrasarem o grupo, além de estarem no triangulo das Bermudas que em suma já era um local extremamente perigoso. Logo, as chances de as coisas darem muito erradas só aumentavam ainda mais. Era um pensamento valido e até mesmo tenebroso de se pensar, mas estava disposta a lutar e dar o seu sangue para tudo ocorrer da melhor forma possível, sendo assim deveria manter sempre seu psicológico preparado para qualquer coisa. Pois desta forma, não seria pega de surpresa.
♫ ━━ ❝ Enquanto ainda estava no navio, Barbara aproveitou as horas que restavam para chegar em Liberty para ligar para Gabe. Bastou manipular um pouco de água do mar contra a luz do sol e jogar um dracma no arco íris que se formava. Ligar para Gabe, ela murmurou para as luzes diante de si e em pouco tempo a imagem tremeluzente do filho de Íris estava diante de si. Ela sorriu antes mesmo de ser notada, feliz apenas de vê-lo, antes de finalmente se pronunciar:
———— Espero não estar atrapalhando nada. —— e se estivesse, era bom que ele parasse qualquer que fosse a coisa que estivesse fazendo. Com um suspiro, ela completou: ———— Já estou com saudades. A missão mal começou e as coisas já estão uma loucura por aqui. Estamos atravessando o Mar de Monstros. —— e foi assim que começou a contar sobre a missão e tudo que tinha acontecido até aquele momento, com todos os detalhes sórdidos que podia se lembrar agora.
A filha de Poseidon se lembrava de uma época em que não tinha alguém como o semideus para dividir o peso de suas costas. O momento mais escuro de sua vida. Seu corpo e sua alma havia ficado marcados para sempre e mesmo depois de tanto tempo havia uma pequena parte de si que por vezes visitava aquela escuridão, mesmo que sem querer. Naqueles dias, no entanto, tinha o Ertois para ajudá-la a achar o caminho de volta e as coisas tinham ficado definitivamente melhores desde então. Não conseguia se imaginar mais sem o garoto em sua vida, parecia doloroso demais para se considerar.
Barbara só desligou a ligação quando estava caindo de sono, ou teria sido o outro…? Ou teria dormido na ligação? Ela sequer se lembrava, acordando apenas com o som da voz de alguém anunciando terem chego na ilha agora vazia.
[...]
Seguiram a bolinha brilhante por algum tempo, sendo levados pela ilha por um longo caminho. Chegou a pensar que talvez pudesse ser uma armadilha, porque se não havia ninguém ali, quem era que estava emanando a luzinha? Ou talvez a bola flutuante só levasse pessoas de confiança para o lugar certo…? Chegou a cogitar que Liberty seria mais ou menos como o acampamento e por fora parecia apenas uma floresta densa, mas eles eram semideuses também, certamente veriam através da névoa, o que a deixava sem respostas definitivas para cessar a ansiedade que fazia seu peito apertar.
Finalmente chegaram perto de uma construção de dois andares que, como todo o resto da ilha, parecia vazio. Ia sugerir que ao menos explorassem o local atrás de qualquer pista quando ouviram os gritos vindo de lá de dentro mesmo. Seus instintos a fizera correr em direção ao som, assim como para todos. Péssima ideia, pensou logo que se viu trancada ali dentro, puxando do pescoço o cordão de prata que começou a se alongar nas correntes de cinco metros que tinham em ambas as pontas tridentes afiados. Fosse o que fosse, era bom estar pronta.
Que porra é essa?, ouviu a voz de Liza, mas não se dignou a tentar responder, não fazia a menor ideia do que era aquilo, e ficou grata pela explicação de Asami, embora não visse como aquilo podia ser bom. Parecia muito mais que estavam prestes a morrer mesmo, junto da garotinha que estava pendurada no parapeito, que a cada vez que vacilava, ameaçando cair, fazia a filha de Poseidon sentir o coração parar de bater. A amiga de D&D estava certa! Precisavam salvá-la.
———— E aí todos os oito vão atrás de você? Sem chance! Acho que fica… menos pior se tentarmos lutar com eles? Não acho que vai ter outro jeito. —— ela disse fazendo uma careta enquanto firmava a mão em torno de Contra-Corrente. ———— Alguém tem alguma ideia…? Gus? —— ela se voltou para Gaspard, procurando por uma estratégia que fosse ajudá-los a ganhar tempo antes de morrer, ou quem sabe, em uma chance contra cem, vencerem. Uma possível estratégia no entanto foi por água abaixo quando Akali, sem mais nem menos, correu na direção das criaturas.
Assim que os demônios se distraíram da menina para correrem na direção dos semideuses, Barbara jogou a corrente para envolver o pé de um deles, a fim de derrubá-lo, mas assim que a corrente chegou perto da coisa, a mesma agarrou-a e puxou Barbara, que pendeu para frente aos tropeços até cair. O golpe veio em sua direção e o tilintar das lâminas ficava mais próximo a cada milésimo de segundo. A semideusa rolou para o lado a tempo de ver a cabeça — ou seja lá o que era aquele monte de espadas e facas era — cravar no chão. Barbara encolheu uma das pernas e chutou a lateral do corpo do demônio para vê-lo cair de lado contra o chão. A semideusa agarrou o cabo do tridente mais próximo do demônio e o empurrou contra seu corpo, mas a força descomunal da criatura venceu-a e a semideusa teve de recuar, tentando se recuperar e pensar em uma estratégia.
Quase como um touro a criatura correu em sua direção, as lâminas apontadas para si. Barbara em vez de correr dela, correu em sua direção, jogando a corrente para ultrapassar o demônio enquanto saltava sobre sua cabeça, usando toda a experiência dos treinos para conseguir passar por cima dela, pegando a corrente do outro lado de seu corpo e a envolvendo finalmente com o metal. Com os dois tridentes em mãos agora, Barbie voltou a correr na direção da coisa e tentou cravar ambas as lâminas em suas costas, mas o oponente foi mais rápido, batendo suas lâminas contra as da filha de Poseidon, que deixou-as cair no chão e vacilou, abrindo a guarda para que fosse acertada no ombro direito.
Barbara gritou de dor, tendo a consciência levada por um segundo enquanto agarrava o que deveria ser o pescoço do bicho, mas eram os cabos das espadas, na tentativa de afastá-lo de si. A outra mão da semideusa agarrou o corpo do demônio e sabia que precisava fazer algo antes que as lâminas chegassem em seus ossos e perdesse o braço de vez. Dessa forma, concentrou-se na única coisa que era fácil para si: água.
Podia sentir a fonte da vida correndo dentro do corpo do oponente e fosse um ser greco-romano ou não, precisava daquilo para viver. E garantiria que ele não viveria. A dor tornava difícil focar, mas usava toda a energia de sua mente para começar a manipular o líquido e por algum tempo nada aconteceu, mas gradativamente a força da criatura foi diminuindo e ainda que sentisse o ferro em sua carne já não sentia mais o avanço do ataque. E tão logo água começava a escorrer pelo corpo do bicho, saindo por sua pele, por seus orifícios… Um, dois, três por cento…
O que sabia era que, apesar de demônio, a criatura tinha corpo humano e isso significava que devia de alguma forma funcionar parecido com seu próprio corpo. Com cinco por cento da água levada embora já era possível notar os primeiros sinais de desidratação, a desorientação atingindo seu oponente que recuou, tonto, sem forças para continuar lutando com a semideusa que agora tinha forças o suficiente para empurrá-lo para longe. Barbara caiu sentada no chão, uma das mãos contra o ombro ensanguentado mas os olhos azuis como o oceano profundo ainda focalizando a criatura, sugando cada vez mais água dele. Dez por cento era o suficiente para dar uma pane geral. Os eletrólitos abandonavam seu corpo junto da água, fazendo-o incapaz de exercer qualquer ação.
Qualquer pessoa normal procuraria por água imediatamente, mas ser filha do deus dos mares lhe dava conhecimentos que poucos sabiam: não adiantaria nada o consumo de água, pelo contrário, as coisas só se tornariam pior.
Seu foco foi da criatura já caída no chão para a piscina a metros de si, fechando os olhos para manipular a maior concentração de água que conseguisse reunir e fazer vir até si como uma pequena tsunami — o suficiente para envolver o corpo da criatura. O choque era instantâneo. Alguém que tivesse uma boca para vomitar certamente já o teria feito, eliminando ainda mais água e levando seu próprio corpo à morte. Barbara deixou que o bicho se torturasse sozinho, deixando-o imerso no líquido por cerca de dois minutos antes de fazer a água dispersar, vendo a criatura convulsionar e colapsar.
A filha de Poseidon se levantou do chão, agarrando o cabo do tridente de Contra-Corrente e caminhando até o demônio imóvel. Dali, sabia que ele só seguiria perdendo água até morrer por contra própria, mas não tinha tempo para vê-lo definhando e em vez disso cravou o tridente contra seu peito, abrindo um buraco profundo no local, finalmente vendo-o desfalecer. Barbara então seguiu adiante para procurar os demais, que acreditava estarem lutando com seus próprios demônios e foi quando achou Liza caída no chão junto de sua armadura, dizendo que precisava de fogo. Algo que ela não poderia criar. Ainda assim a semideusa correu para perto da amiga, se ajoelhando ao seu lado. Podia ao menos dar tempo de Liza se recuperar e dessa forma, juntou os punhos para invocar a lira de Apolo.
A marca em seus braços havia surgido junto da bênção do deus do sol, as metades de uma lira que quando os braços eram colocados lado a lado formavam o desenho completo. Com isso ela podia invocar o instrumento e usá-lo, caso não tivesse um em mãos. Seus dedos logo se posicionaram contra a corda, a própria Barbara precisando ser curada, mas estando num estado melhor do que o da amiga, priorizou-a. Poderia se curar depois.
———— Calma… Isso vai ao menos te dar mais energia, ok?
Ela prometeu à filha de Hefesto enquanto começava a dedilhar notas e cantarolar uma música antiga no idioma grego, sentindo a magia fluir de sua voz e das cordas do objeto. Fraca como estava, no entanto, via apenas o sangramento da outra diminuir o suficiente para que ela se sentisse minimamente melhor, mas não conseguia ainda fechar suas feridas e revitalizá-la a ponto de que ela estivesse cem por cento de novo, mas podia conseguir dez por cento e se isso era suficiente para matar o demônio tinha que ser o suficiente para que Liza se reergue-se e terminasse o processo de cura por conta própria. Quando acabou, estava ofegante e suada. Todo o gasto de energia tomando seu corpo agora.
———— Você está bem? Consegue levantar agora? Eu não tenho fogo mas acho que pode lidar com isso sozinha agora, certo? —— perguntou para garantir antes de se levantar, a lira sumindo de seus dedos quando não mais necessária ———— Eu preciso… de cinco minutos, ok? E vamos atrás dos outros.
Ela pediu para a semideusa, já se sentindo fraca demais com a perda do sangue do ferimento de seu braço e caminhou aos tropeços em direção à área da piscina. Era como se a água lhe chamasse… E ao chegar na beirada da mesma tudo que ela fez foi se jogar na água, afundando, e ficou ali até que sentisse seu braço parar de doer, seu corpo recobrar a energia gasta e até que seu bem estar não fosse mais a emergência de prioridade. Nadando para a beirada, ela se apoiou contra o chão do cômodo do Centro Comunitário, içando-se para fora e sentando contra o piso frio, logo se levantando para procurar pelos demais. Achou-os reunidos junto da garotinha agora, Nyx expondo seu ferimento que acarretou uma careta na expressão de Barbara.
———— Nyx! Nós temos uma criança aqui… —— lembrou a garota, se aproximando para puxá-la para longe da visão da menininha. ———— Eu te ajudo. —— completou, buscando o canto mais escuro do ambiente onde estavam e fez Nyx se sentar. Dali ainda podiam interagir com os demais, mas as sombras ajudariam enquanto a filha de Poseidon cuidava do ferimento. Logo buscou o kit de primeiros socorros em sua mochila, achando agulha e linha ali. ———— Vai doer um pouco.
Enquanto usava da costura para manter a carne no lugar onde deveria estar, Barbara começou a cantarolar uma canção antiga em grego, uma das canções de Apolo, que junto de seu dom e benção, serviam para curar tanto a si mesma, quanto os outros. A magia agiu com maior facilidade agora que estava recuperada também e o sangue que escorria parava de fluir, assim como aos poucos a pele ia se unindo, até que o que sobrasse não fosse mais que um pequeno corte que precisaria apenas de pouco cuidado para fechar. Por fim ela sorriu, encarando a prima.
———— Melhor assim.
Declarou, antes de ouvir Asami se aproximar, perguntando por roupas. A semideusa virou o pescoço para entender o que estava acontecendo e encontrou-a completamente nua, o que fez a filha de Poseidon sentir as bochechas quentes, significando estar corada. Ela se ergueu rapidamente e foi até a sua mochila, mexendo na mesma em busca de suas peças de roupas e estendeu para a garota. ———— Tudo bem. —— respondeu quando ela disse que lhe devia uma, sem realmente pensar em cobrar qualquer coisa dela.
Tentando não focar sua mente na visão de Asami nua, literalmente exposta para que qualquer olhar curioso pudesse vê-la, e com Akali claramente satisfeita com isso, a semideusa passou os olhos atrás de todas as pessoas, para ver se todos tinham voltado bem, uma vez que não tinha parado ainda desde que vencera seu próprio demônio, o que levou à constatação de que não via Gaspard próximo em lugar nenhum?
———— Alguém viu o Gus?
Ela perguntou, o desespero começando a tomar conta de seu ser. Haviam poucas pessoas na vida que ela se importava o suficiente. Gaspard era uma dessas pessoas. Tinham compartilhado a dor da perda junto e depois disso era como se tivessem criado um elo. Definitivamente não estava pronta para perdê-lo também e antes que pudesse encontrar uma resposta da boca dos colegas de missão, saiu apressada para procurar, chamando pelo nome dele enquanto avançava pelos cômodos. No final, não precisou vasculhar demais, achou-o contra uma parede, sujo de areia, o que ao menos dizia que ele tinha lidado com sua criatura também. A passos apressados ela se adiantou na direção dele e conforme se aproximava se dava conta que areia não era a única coisa que o sujava.
———— Oi… —— ela tentou sorrir sem parecer apreensiva, usando do polegar para limpar um pouco do sangue que havia escorrido pelo canto de sua boca. ———— Deu tudo certo. —— ela disse para que ele soubesse que os outros estavam bem enquanto usava das mãos trêmulas para procurar os ferimentos mais graves de seu corpo do amigo. Com cuidado levantou sua camisa apenas para ver o corte profundo de sua barriga, o sangue escorrendo e sujando suas roupas e fazendo uma poça no chão. Explicava ele estar tão pálido. Para piorar, ainda podia ver os ossos despontar da pele onde a fratura na costela havia sido feita. Com a visão, teve de engolir um suspiro, sem saber se seria sequer capaz de curar tudo aquilo. ———— Tudo bem. Vou dar um jeito nisso, ok? Só… fica comigo, por favor…!
Ela implorou, tendo consciência de que havia demorado demais para se dar conta de que ele não havia voltado, de que Gaspard já tinha perdido muito sangue até aquele ponto… A semideusa afastou as mãos do filho de Atena e juntou os punhos virados para cima. Expostos assim era possível ver por debaixo da marca de Apolo os cortes que num momento difícil de sua vida, havia causado em si mesmo. Logo tinha a lira nas mãos e mesmo com os dedos trêmulos, começou a dedilhar a música.
———— Isso pode doer um pouco. —— ela alertou, antes de começar a cantar, mas estava nervosa demais. Podia lidar com Liza, com Nyx… mas se fizesse algo errado com Gaspard poderia só piorar a situação dele e sentiu a magia vacilar conforme tentava conjura-la. ———— Inferno! Desculpa… isso tudo não está sendo nada fácil. —— Gaspard já estava em estado crítico, essa era a verdade, e tinha medo de que sua magia não fosse suficiente para salvá-lo. Tinha que ser. Por favor, ela pediu em sua mente, me permita ajudá-lo, orou à Apolo, antes de retomar.
Desejou de forma egoísta que tivesse achado Gaspard primeiro, não teria gasto tanta magia ainda e certamente a coisa sairia com maior facilidade. Respirando fundo, ela fechou os olhos por um momento, dedilhando outra vez a lira enquanto cantava, evitando olhá-lo para manter a mente firme. Da segunda vez sentiu-se agir com maior precisão, quase como se uma vibração passasse de seu corpo para o do outro, um calor aconchegante proveniente de sua benção e aos poucos os ferimentos reagiam, acelerando o processo de cura. Ao mesmo tempo que o fazia, Barbara se concentrava também em água.
Não adiantaria de nada curar os ferimentos dele se Gaspard ainda não tivesse a quantidade necessária de sangue no corpo e felizmente o líquido também continha a matéria da vida. Sua mente tentava trabalhar com tudo ao mesmo tempo e pela primeira vez em todo o seu estudo na benção que tinha recebido e no foco em cura estava conseguindo um exímio trabalho. O sangue, pelo menos o suficiente para manter o amigo vivo, voltava para o lugar, não apenas estancando mas procurando o caminho de volta para as veias e então os órgãos feridos se regeneravam, fechando cortes e parando de sangrar, os ossos achavam seu lugar de volta em seu corpo, se moldando até que estivessem inteiros. Junto disso ainda, uma dose de vitalidade o faria se sentir forte o suficiente para buscar reforço no descanso e na alimentação até que estivesse melhor recuperado e quando Barbara finalmente abriu os olhos ele já estava aparentemente inteiro.
———— Não se mexe ainda. —— ela pediu, porque apesar de vitalizado, não sabia como ele realmente estava. Barbara voltou a analisá-lo, checando onde antes tinha visto os ferimentos mais graves de seu corpo e agora eram apenas cicatrizes e cortes superficiais. Com um suspiro aliviado, ela deixou o corpo relaxar, esfregando os olhos marejados. ———— Droga! Você me deu um susto! —— ela resmungou, antes de se permitir abraçar ele, tomando todo o cuidado de não colocar força demais a ponto de fazer ele sentir dor. ———— Precisa de ajuda ou consegue se levantar agora?
A pergunta acabou sendo retórica porque assim que Gaspard começou a se mover para se levantar, Barbara se adiantou para apoiá-lo e mesmo que ele se sentisse capaz de andar sozinho, não permitiu que o fizesse, por precaução, levando-o para os demais reunidos junto de Stormy e também ainda se recuperando. Ela própria estava exausta e depois de deixar o amigo, buscou se encostar num canto qualquer do ambiente, com seu cantil de água, hidratando o corpo em busca de se recuperar mais rápido e enquanto o fazia, se deixou apenas prestar atenção no interrogatório que o filho de Atena fazia com a criança, mas Stormy era isso, apenas uma criança, como poderia dar informações boas para eles? Certamente Gaspard seria inteligente em descobrir algo porque ela só ficava com mais dúvidas. Quando a tentativa de descobrir algo acabou e a irmã romana falou sobre pegarem comida, a semideusa assentiu.
———— Eu concordo. Estão todos cansados e machucados ainda… Não sabemos o que vamos encontrar então é melhor que estejamos o mais perto de cem por cento possível, eu posso ajudar. Quem não estiver ferido e puder ajudar, tentem achar o máximo de comida possível, bebida… enfim, o suficiente para nos alimentar bem.
Enquanto os demais procuravam por comida, Barbara vasculhou até achar uma toalha que serviria para forrar a mesa da cantina, juntando-as para que pudesse suportar todos os semideuses em torno dela, inclusive a criança, e onde pudessem colocar a comida em cima, arrumando como um grande banquete improvisado que ela ia preenchendo com o que lhe era trago. Mais uma vez naquele dia ela juntou os punhos fazendo com que a imagem da lira se completasse e trouxesse o instrumento para si. Era maior do que das outras vezes, grande a ponto de ter que ficar apoiado no chão. A filha de Poseidon sentou-se diante da mesa, a lira entre as suas pernas para que então ela começasse a tocar e cantar.
“Are you going to Scarborough Fair?
Parsley, sage, rosemary and thyme
Remember me to one who lives there
For once, he was a true love of mine
Tell him to make me a cambric shirt
Parsley, sage, rosemary and thyme
Without no seam nor fine needlework
And he shall be the true love of mine
Tell him to wash it in yonder dry
Parsley, sage, rosemary and thyme
Where water sprung and rain never fell
And he shall be the true love of mine
Tell him to buy me an acre of land
Parsley, sage, rosemary and thyme
Between salt water and the sea sand
And then he'll be the true love of mine
Are you going to Scarborough Fair?
Remember me to the one who lives there
For once he was a true love of mine
Are you going to Scarborough Fair?
Parsley, sage, rosemary and thyme
Remember me to the one who lives there
For once he was a true love of mine
For once he was a true love of mine”
A magia era visível e corria das cordas do instrumento e da própria semideusa sobre a comida num tom azulado, envolvendo cada pedaço de fruta, cada lata de bebida ou comida que estava diante dela. A voz de Barbara chegava a preencher o lugar, passando uma sensação calorosa para quem estava mais perto dela. Ao fim da música era como se a comida parecesse muito mais suculenta, mais bonita e brilhante. Antes de dizer qualquer coisa a morena estendeu a mão e pegou um pedaço de pão para comer, sorrindo ao notar que havia dado certo e por fim se voltou aos colegas de missão.
———— Podem comer… vão se sentir muito melhor depois disso.
Ao tirar as mãos da lira, que cumpriu o seu propósito, o objeto desapareceu e a semideusa pode se acomodar melhor a mesa, se permitindo servir da comida enquanto voltava aos seus questionamentos sobre o que tudo o que tinha acontecido ali significava. Com um suspiro, ela olhou os demais, não queria perturbar o momento de descanso, mas queria saber o que eles achavam.
———— Vocês… tem alguma ideia do que pode ter acontecido? Eu acho que aqueles demônios… Bom, alguns deles já estavam sujos de sangue quando chegamos. E essa tal mulher urubu… Os egípcios são conhecidos por terem formas de animais, não é? Corpo de gente, cabeça de animal… Acham que os outros podem estar envolvidos nisso? Que não é só coisa da Psiquê e sim de algo muito maior? —— ela perguntou, iniciando a conversa.
Ouvia as especulações e gostava cada vez menos delas. Anael achava que a garota era um perigo e Gaspard parecia não discordar totalmente da filha de Hades o que fazia a filha de Poseidon encarar a garotinha distraída com a sua meio-irmã. Eles tinham razão, em certo ponto. Porque ela não sabia de nada? Com dez anos Barbara já sabia lutar e todas aquelas coisas que os semideuses faziam e ainda que aquele devesse ser um lugar seguro, mesmo legados costumavam aprender a se defender se caso alguma coisa como o que tinha acontecido ali os alcançasse.
———— Talvez os semideuses que viviam aqui queriam que ela pudesse aproveitar a infância que eles, assim como nós, não pudemos. Ou então estamos fodidos de vez, porque se Anael estiver certa não estamos seguros com ela aqui também. —— tentou amenizar as acusações, mas no final só não sabia mais o que era certo e errado. ———— Eu acho que… bom, em todo o caso nenhuma informação, ainda mais de uma criança, é totalmente confiável. O que ela diz é uma interpretação confusa, como Gaspard disse. O melhor é tentarmos achar respostas de outra maneira.
Depois de comerem e descansar era hora de definir o que fazer a partir dali e ficou claro que precisariam explorar mais para ter respostas. Logo estavam divididos em duplas e seguindo para as direções indicadas. Barbara se dirigiu até Liza, vendo-a ainda muito abalada, conhecendo a expressão no rosto da amiga. A filha de Poseidon lhe ofereceu um sorriso terno e tocou sua mão, acariciando o dorso da mesma. ———— Vamos...? —— chamou, puxando a garota para que ela finalmente se afastasse de sua irmã. Asami ficaria bem! Era uma garota forte! Barbara não tinha dúvidas. ———— Você está bem? —— perguntou, enquanto guiava a semideusa para o segundo andar, onde tinham o dever de vasculhar para acharem qualquer coisa que fosse útil para dar informações sobre o que tinha acontecido no centro comunitário.
Barbara prensou os lábios enquanto ouvia ela dar a desculpa, embora, na realidade, pensasse que cansaço era um bom motivo, afinal todos deveriam estar se sentindo cansados aquela altura. Tinham lidado com fantasmas e agora com demônios e tudo que Barbara queria era voltar para casa logo, estar com Blue Jeans, seu grupo de RPG, Gabe e os demais. Quase como se a outra ouvisse seus pensamentos, ouvia perguntar com quem falava e corou. Não devia ser complicado dizer que estava conversando com o melhor amigo, mas pegou-se tímida com o fato, o que a fez morder o canto do lábio em busca de extravasar o pequeno nervosismo que a acometeu. ———— Com... com Gabe. O filho de Íris, sabe...? —— ela deu um risinho sem graça. ———— Eu não achei que estivessem acordados. Eu atrapalhei seu sono? Desculpa... É só que... que... bom, ele me fez prometer que o manteria à par do que estava acontecendo. Eu não vi que tínhamos ficado até tarde.
Os lábios da semideusa se comprimiram diante da risada fraca da amiga. Não sabia se ela acreditava em si ou não e tão pouco queria parecer suspeita. Deuses, onde estava com a cabeça afinal de contas? Gabe era seu amigo... Uma das pessoa que mais confiava na vida. Não havia nenhum desconforto perto dele, ao contrário disso, sentia que podia se expor ao filho de Íris sem medo de ser julgava. Tinha que começar a complicar as coisas agora? Ela se deu um momento para se afastar de Liza enquanto adentrava a sala, olhando de um lado para o outro, tentando ignorar seu reflexo no espelho ao notar que de fato parecia ter saído de uma batalha e quase morrido no processo. ———— Maquiagem...? Eu... Não. —— murmurou, torcendo os lábios e indo até a amiga. ———— Está tentando impressionar alguém? —— deu uma risadinha e ergueu as mãos para ajeitar seus cabelos, tentando alinhá-los melhor, além de tirar um rastro de sangue de sua bochecha. ———— Todo mundo está meio bagunçado. E você fica bonita de qualquer jeito, não se preocupe com isso.
Barbie riu, sabendo naquele momento que era mentira o que a amiga dizia, mas não quis forçar aquela conversa se ela não queria falar. ———— Nenhuma de nós somos, Liz... mas se tem uma coisa que eu aprendi é que vamos atrair muitas pessoas quando estivermos no nosso melhor, mas só ficam aquelas que realmente gostam de nós quando estamos no nosso pior. Claro... não mata tentar realçar nossa beleza, mas você está ótima como está. Bom... ótima depois de uma luta contra um demônio. E viva! —— bateu o indicador no nariz dela de leve e se afastou. ———— Onde será que estão as pessoas...? Você acha que aqueles demônios...?
Pensar que os moradores dali tinham morrido nas mãos daquelas coisas tinha deixado um gosto amargo na boca de Barbie. Se tivessem chego mais cedo será que teriam ajudado? Ou só teriam sido mais vítimas? Quantos demônios tinham invadido a ilha no final das contas? Haviam tantas perguntas para serem respondido que a semideusa se sentia impotente. ———— Claro... mais informações. —— a quadra tinha muito mais coisas. Sinais de que havia sido usada, mas não dava para dizer quando, além de todos os utensílios do lugar. ———— Eu vou pra um lado e você para o outro! Vamos ver se achamos algo. —— apontou, pegando o caminho para a esquerda da quadra.
Do lado que ia também tinha arquibancadas. Uma cesta cheia de bolas e uma barraquinha de cachorro quente vazia. Barbie buscava por sinais, qualquer pegada diferente, qualquer movimentação estranha... Estava concentrada nos pequenos detalhes quando Liza gritou seu nome fazendo-a erguer a cabeça. ———— O que...? —— ela se adiantou em direção a amiga com passos apressados vendo a chave velha que destoava da paisagem geral. ———— Acho melhor levar isso para os outros! Talvez possamos encontrar o que isso abre. Não parece ser feito pra esse lugar. Deve ter um destino.
Com Liza concordando consigo, saíram apressadas daquele andar para encontrar os demais, descendo as escadas em caracol. Barbara seguiu as vozes dos amigos até a área da piscina, Liza dizendo terem encontrado a chave. Bom… agora sabiam o que significava. Estava olhando direto para uma porta dourada que ela não fazia ideia se tinha estado ali o tempo todo ou não, mas parecia ser a solução, ou quem sabe mais problemas para eles.
A coisa parecia simples, não era preciso juntar dois mais dois. Estavam presos ali e tinham uma porta e três chaves, alguma delas devia dar para algum lugar. Ou todas elas davam pra um lugar diferente? Seu olhar alcançou o de Liza enquanto ela também parecia entender que chave e porta podiam ser uma combinação e a viu ir em direção da mesma para testar, esperando que algo de bom finalmente acontecesse. ❞
Depois de Quíron e Lupa escolherem os semideuses para partirem naquela missão, eles fizeram uma reunião de emergência na casa grande para explicar tudo o que eles precisavam saber antes de partir. Quíron contou sobre a profecia do áugure, a história da ilha e lhes entregou um mapa para localizá-la. Lupa também revelou para o grupo que eles receberiam a ajuda de River Yeong, filho de Netuno, que lhes emprestou seu navio pirata Manwol VI.
Eles tiveram uma hora e meia para se prepararem antes de partir, ficando combinado que se encontrariam na praia do acampamento Meio-Sangue.
A viagem pelo mar até as coordenadas de Liberty foi tão tranquila quanto um dia comum na vida dos semideuses — não muito —, mas foi só o grupo de semideuses atracar na ilha que notaram algo de estranho. Por todos os lados que olhavam, não conseguiam encontrar ninguém. Era como se a cidade estivesse abandonada.
E, esperando por eles no cais, havia uma esfera branca, que começou a se mover rapidamente quando se aproximaram mais dela.
Pobre Liza. No auge de sua ingenuidade, há quatro anos fugindo com sucesso de missões, pensava que tudo que Quíron desejava era uma arma nova ou um reparo qualquer no acampamento. Foi apenas quando se deparou com Gaspard e um grupo cada vez maior que percebeu o que estava acontecendo. Não. Não. Não. Ele estava louco? Por que precisava dela em uma missão? Pior: ela e Asami. O que seria da forja sem as duas? O acampamento estaria caindo aos pedaços antes mesmo de voltarem. Liza puxou as mangas da camiseta, já esgarçadas pela mania, até esconder as mãos trêmulas. Sem Lisander e Milton para ajudá-la, precisaria manter alguma postura, impor respeito diante do maldito centauro que ainda a tratava como se tivesse dez anos de idade.
ㅤㅤㅤㅤFazia muito tempo desde a última vez que Akali havia sido convocada para uma missão. A última acontecera na metade do ano anterior, sendo inclusive algo simples de se fazer, ao qual não apresentara risco para ninguém. Alguns até veriam aquilo como algo tedioso, mas missão era missão e a filha de Netuno apreciava uma boa ação. Porém, sua última ação havia sido no natal, onde inclusive perdera sua mão. Em todos os seus anos ali, aquilo nunca havia acontecido ao ponto de deixa-la mal. Muitos ali enfrentaram as feras que tinham o dobro de suas alturas ou eram mais fortes, mas a maioria ali sairá ileso dos combates. Menos Akali, que com toda sua arrogância percebera que não era tão forte quando achava ser. Precisava melhorar, tinha que melhorar.
❛ㅤㅤ Após passar alguns dias longe do acampamento, a filha de Hades voltava sem qualquer informação ou resposta para as suas muitas dúvidas, o que era deveras frustrante para alguém que tinha muito conhecimento acumulado sobre o oculto. Cerberus trouxe a ela algumas questões que estavam fora de seu conhecimento, e o Senhor dos Mortos não estava disposto a respondê-las. Felizmente não necessitava dar explicações para ninguém de onde esteve ou o que tivera feito naquele período de tempo afastada da morada dos semideuses, uma vez que nem sequer tinha informado os irmãos onde iria. De toda forma, imaginava que eles estariam distraídos demais com as festividades para se importar. Por isso, quando retornou apenas agiu o mais naturalmente possível, tentando deixar todos aqueles pensamentos que rondavam a sua mente de lado. “Na hora certa” tinha dito a si mesma mais vezes do que poderia se lembrar, na esperança de se convencer que tudo seria esclarecido em breve e não havia com o que se preocupar. Os deuses sabem o que fazem, ao menos era o que a morena esperava.
Não vou te desapontar, pensou ao fim do discurso de Quíron. Mesmo sentada, sua postura era austera e centrada, como um soldado faria ao receber ordens diretas de seu general. A figura imponente de Lupa ao lado do centauro trazia memórias — ou a falta delas — cujas sensações acreditava jamais ser capaz de deletar por completo. Ainda remoía a culpa pela ausência no Natal. Ainda se sentia quebrada. Talvez por isso, nos últimos meses, tivesse empenhado tanto tempo auxiliando na reconstrução do acampamento, forrando os lençóis da própria cama, forjando armas e mais armas e tentando, só… tentando consertar tudo o que via pela frente, até mesmo o que não lhe dizia respeito.
✞ ━━ ❝ Como sempre fazia na sua rotina, Anael tinha Sirius ao seu lado, caminhando em direção à praia. Dessa vez, no entanto, estava acompanhada não apenas do cão, mas também de sua irmã, Nyxie. Era absurdo como um pequeno grupo de desajustados podia acabar se apoiando tão bem. Ela, a irmã e Ash acabaram achando uma maneira de serem o apoio um do outro e ela não podia se sentir melhor. Tinha uma família, era o que podia dizer. E não era em nada como a sua família mortal, que havia torturado sua mente e o seu corpo em busca de um bem maior, não… Pela primeira vez na vida sentia como se tivesse pessoas que se importavam consigo de verdade, para além do que ela era e o que podia oferecer. Confiava neles com a sua própria vida e isso era mais do que um dia havia sentido por alguém.
「♢ ――― 」 Eram raros os seus momentos de paz, quando eles surgiam, tentava ao máximo aproveitá-los para organizar seus pensamentos e idéias. Não tinha feito nem uma semana desde que voltou da missão na qual sua mãe o enviara e suas novas descobertas sobre os deuses persas e ainda não tinha certeza do que faria com aquelas informações. Ironicamente, a única pessoa da qual tinha conversado sobre os eventos em Washington tinha sido Brenna Carstairs, isso apenas porque a moeda disse que ele deveria, ou pelo menos foi assim que ele interpretou.
♫ ━━ ❝ Estava nos estábulos, como sempre, quando um dos sátiros a encontrou, dizendo que Quíron precisava dela. Enquanto caminhava até a Casa Grande, se perguntava que problemas o chalé 3 tinha arrumado ou que tipo de tarefa estranha o diretor tinha para si. Esperava qualquer coisa menos uma missão. E não só qualquer missão, mas uma profecia. Barbara tinha medo delas, principalmente porque vinham acompanhadas de maus presságios e uma que demandasse tantas pessoas só podia ser algo muito ruim. Não que a filha de Poseidon gostasse de ser pessimista, pelo contrário, era a pessoa que sorria e dizia que as coisas iam ficar bem, mas levando em consideração a situação recente dos acampamentos, a chegada de novas pessoas e agora aquilo, não conseguia manter a boa energia. Durante toda a reunião, enquanto ouvia os dizeres do centauro, estava calada, olhando os rostos das pessoas ali. Akali, Gaspard, Liza, Asami… Aqueles nomes tinham significado em sua vida e em uma missão daquelas raramente saíam sem baixas. “Pai… não permita que nada aconteça à eles”, ela pediu em sua mente, quase sem prestar atenção nas instruções finais de Quíron. Poderia lidar com qualquer coisa que acontecesse consigo, mas com eles, jamais. Pelo restante do tempo que ficou ali a morena se concentrou nas estratégias criadas pelo grupo: Gaspard por ser filho de Atena ficaria no comando. Barbara, Akali e Gaspard por terem conhecimento com barcos ficaram revezando da direção, para que ninguém se cansasse. Os demais, até a necessidade, ficariam no suporte. Depois disso, saiu da casa grande em direção ao seu chalé para reunir suas coisas.
Com a mochila pronta com tudo que era necessário para aquela viagem, além de Contracorrente em seu pescoço como um colar comum e seu ukulele pendurado nas costas, a garota caminhou tranquilamente em direção aos estábulos para se despedir de Blue Jeans, achando-o tranquilamente em sua baia, comendo um pouco de feno. O pégasus relinchou com a sua proximidade e sua dona sorriu, estendendo a mão para acariciar seu focinho.
———— Oi garoto… Pelo visto Gabe continua te mimando. Vai ter que ser assim por mais um tempo, ok? Eu estou de saída, fui convocada para uma missão e não sei quando volto. Se comporte! E não coma tantos torrões de açúcar. Prometo que quando eu voltar vamos sair um pouco, tá bem? Você está precisando.
Não tivera tempo, no entanto, de se despedir dos demais. Faria o possível para entrar em contato com Gabriel assim que tivesse tempo, sendo este mais fácil, pois tinha as mensagens de íris. Thorn certamente não se importaria com a sua ausência e logo acabaria sabendo, de qualquer maneira, que ela teria saído em missão, essas coisas eram comentadas por aí afinal de contas, assim como Tim também acabaria descobrindo e certamente não se chatearia com sua ausência repentina. Seu grande problema era Julian…
Desde o ataque no Natal e a morte de Frankie o rapaz tinha se afastado completamente, mais uma vez, e não havia mais a garota para trazê-lo de volta. Ainda se lembrava bem da primeira vez que tinha acontecido. Julian havia começado a andar com pessoas completamente diferentes do grupo deles, bebia demais, fazia brincadeiras estúpidas demais… Por um tempo a maioria ficou meio revoltado. O filho de Dionísio sequer demonstrava interesse em estar mais com eles, Barbara havia sido uma dessas pessoas que inclusive havia dito para a filha de Hefesto que se o Kane não queria estar com eles, que não estivesse então, era desconfortável para todos afinal de contas. Não sabia dizer se Frankie era teimosa demais ou se sabia mais do que eles mas no final estava certa… ele precisava daquilo tanto quanto eles. Dessa vez Barbara tentava assumir um papel parecido, mesmo sabendo que não podia ser na vida do outro a mesma imagem que a outra havia sido, mas, em todo o caso, a semideusa não teria desistido de Julian e tão pouco Barbara o faria e não importava quantas vezes ele tentasse fechar a porta em sua cara, tentaria abrir ela de novo até que pudesse trazê-lo de volta do lugar escuro onde tinha se metido.
Mas já não havia tempo para avisar e tudo que podia esperar era que de alguma forma aquela missão também afetasse positivamente Julian. Se dessem um fio aquela insanidade de Psiquê quem sabe aos poucos o filho de Dionísio não pudesse superar e seguir em frente? Viver as boas lembranças e não remoer a culpa? Estava fazendo aquilo por ele também, e foi com esse pensamento se preparou para subir no convés do navio emprestado pelo irmão. O pensamento em River fez Barbara suspirar, não fazia ideia de onde ele estava, porque tinha ido e se voltaria. Se voltasse, era bom que estivesse preparado para um longo monólogo, porque ela tinha muito a dizer.
Sua surpresa no entanto foi ver Gabe correndo ao longe para alcançar a praia, acenando e gritando seu nome para chamar sua atenção. Um sorriso involuntário se alargou em seu rosto, que voltou-se completamente para o garoto e se adiantou até a sua direção, o recebendo com um abraço. Apertou-o contra si assim como sentia os braços do amigo lhe apertar. Nunca tinha noção do quanto precisava do apoio de Gabe até tê-lo de fato. Só ali, em seu abraço, sentia o quanto estava com medo daquela missão e como queria poder ficar com ele, cuidando dos estábulos. E era por isso também que voltaria. Por ele e por todos os outros que faziam parte de sua vida agora.
———— Tome conta de Blue Jeans por mim, ok? E não se meta em confusões enquanto eu não estiver por aqui, porque não vou conseguir livrar sua bunda! —— ela riu, se esticando para beijar sua bochecha antes de se afastar de fato. ———— Eu te amo! Vou tentar ligar todos os dias. —— prometeu, antes de ir em direção à embarcação.
Com todos em seus lugares, Barbara deixou sua bolsa em uma das cabines dispostas no navio e voltou para fora com seu ukulele. Com a função de dividir o trabalho com Akali e Gaspard a filha de Poseidon sentou-se próximo do leme, encarando o mar diante de si enquanto dedilhava notas em seu instrumento. Não era nada parecido com sua música, no entanto, lembrava muito mais cantigas antigas de marinheiros e dava uma sensação de familiaridade com o mar. O fazia de propósito, no entanto, em busca de fazer com que aqueles que não se sentissem bem sobre a embarcação pudessem ao menos estarem estáveis por aquele tempo. Por um tempo foi assim, sua música tocando, conversas paralelas e vez ou outra se interrompia para responder Gaspard ou Akali, vez ou outra ainda se distanciando para se juntar aos demais e conversar um pouco.
Dessa vez estava junto dos outros ouvindo suas histórias quando Liza parou repentinamente. Conhecia a garota já a muito tempo para saber o que vinha depois daquilo, mas não esperou estar envolvida junto. Claro, Apolo adorava brincar consigo e a bem da verdade Barbara não se incomodava. Estava definitivamente aproveitando o pequeno momento de profecia da garota enquanto cantava ópera e era quase como se nem estivesse realmente sendo controlada, afinal ela adorava cantar. Quando tudo acabou a garota estava rindo e com um pequeno agitar de mãos demonstrou estar tudo bem para a amiga.
Voltaram para perto do grupo depois do momento apenas para encontrar uma conversa calorosa entre os demais participantes da missão. Barbara franziu o cenho de aproximando para ouvir o que estava acontecendo quando Liza verbalizou seu próprio questionamento, os olhos acompanhando enquanto tentava juntar as informações soltas de forma confusa. O básico: fantasmas. Teriam de lidar com fantasmas. Os dedos pesados em sua pele fizeram-na acordar do pequeno transe de preocupação. Barbara levou a mão até a de Alcott em seu braço e carinhosamente esfregou o polegar sobre a derme da outra em busca de mantê-la calma, os olhos azuis da filha de Poseidon focando as adagas da loira filha de Hades. Contracorrente pesou em seu pescoço, sabendo que talvez tivesse de ser utilizada.
———— O que a gente vai fazer...? Lutar? —— seria fácil para ela que em alto mar se sentia mais forte, mas e para os outros? Agora mais do que nunca, via que a missão estava realmente começando.
Quando Liza se sobrepôs a sua voz, com suas perguntas desesperadas, a filha de Poseidon prensou os lábios, focando mais nela do que em Gaspard, mas ouvindo o que ele tinha a dizer, principalmente quando seu nome foi citado. Ela deu um breve aceno de cabeça de forma positiva para o que ele dizia, confiava nas estratégias do amigo e sabia que as chances de dar errado eram mínimas e ao encará-lo por uma fração de segundo, seus olhos o desejavam boa sorte porque sabia o que ele estava prestes a fazer. Logo no entanto sua atenção voltou para Liza quando Asami soltou-se de si para socorrer a garota e Barbie se adiantou para ajudá-la a sustentar o peso do corpo da filha de Hefesto, ajudando Asami a deitá-la no chão. Mais uma vez se viu apreensiva quando notou a irritação da filha de Hefesto desperta com Gaspard e antes que pudesse resultar em algo mais, disse:
———— É melhor tirá-la daqui, se tivermos de lutar, lá é mais seguro.
Com isso, tiraram a garota dali, deitando-a mais confortável próximo do leme onde Barbara tinha que auxiliar a irmã romana e enquanto lidavam com a direção, a morena observava ansiosa enquanto as duas filhas de Hades e o amigo tentavam convencer sem luta que os fantasmas os deixassem em paz, sem saber se aquilo realmente daria certo. Seus olhos estavam fixos no mar abaixo dele, os nós dos dedos esbranquiçados enquanto se apertavam na madeira. "Por favor pai… precisamos passar! Ajude-os", ela pedia em sua silenciosa prece e por fim viu aos poucos serem deixados em paz. Sem lutas ou complicações conseguiriam seguir tranquilamente até a ilha de Liberty ou pelo menos assim ela esperava.
Depois do momento com os espíritos no mar e depois de ajudarem Liza, acompanhou distante a movimentação de Gaspard. Conhecia o amigo a muito tempo para saber quando as coisas não estavam nos eixos. Mais de uma vez haviam se consolado e apoiado nos momentos difíceis para saber pelo olhar quando ele estava abalado. Colocando o ukulele nas costas a filha de Poseidon se levantou e foi até ele, sentado-se ao seu lado.
———— Oi... —— ela sorriu terna para o amigo ———— Você foi ótimo lá. —— assegurou para que ele soubesse que sem ele e sem o que ele era agora talvez não tivessem conseguido. ———— Você está bem?
A mão de Barbara buscou a de Gaspard e ela entrelaçou os dedos no do amigo, o polegar acariciando o dorso de sua mão enquanto ela usava a livre para afagar seu braço tentando passar para o filho de Atena algum conforto enquanto o ouvia responder sua pergunta.
———— Você as ajudou, é natural que elas fiquem curiosas. Isso não quer dizer que precise contar o que não se sentir confortável para dizer. O que é seu te pertence e você tem o direito de não querer compartilhar. O mais importante: você nos ajudou! Usou isso para uma coisa boa! Não tem a ver com o que Poseidon fez à você mas o que você faz com isso. Sem você não teríamos conseguido.
Suas palavras eram mansas, seu tom de voz baixo apenas para que ele a ouvisse. Queria que ele se sentisse bem, que entendesse que com defeitos e qualidades ele era necessário. Com a resposta de Gaspard, suspirou, odiava quando ele se sentia pequeno daquela forma.
———— Anael teria escolhido a luta como primeira opção e eu não sei sobre a irmã dela, mas não coloco minha mão no fogo.
Não que as achasse despreparadas, pelo contrário, as meninas haviam sido de grande valia, mas o plano viera do amigo, a solução era só porque ele podia fazer aquilo. Barbara deitou a cabeça em seu ombro e suspirou, olhando para o mar.
———— Eu queria poder te dizer algo melhor sobre isso. Ou que Poseidon levasse em consideração minha opinião... —— Gaspard não era culpado de nada, era o que queria dizer para o pai, e não merecia aquilo. ———— Sabe...? Eu sei que é algo ruim pra você, eu provavelmente também odiaria, mas imagina quantas almas deixaram de ter um pós morte doloroso porque você as ajudou? Quando não se tem o que fazer sobre algo, você tem que aprender a aproveitar isso pra você. É como... as minhas músicas. Mal comparando Adrian me traiu e eu sofri muito mas depois... bom, eu peguei o que ele fez comigo e agora sou uma cantora de sucesso. Eu sei que a sua dor vem de um lugar muito pior mas... não tem como mudar isso, pelo menos não agora. Então... o que você vai fazer sobre? É isso que importa. Porque sofrer apenas não vai te levar a lugar nenhum. E se um dia acharmos uma solução que te tire dessa, nem que eu tenha que brigar com meu pai pela primeira vez, vou fazer.
Faria qualquer coisa para acabar com a injustiça feita ao amigo mesmo que isso custasse seu primeiro desentendimento com o pai. Barbara gostava da sua relação com as divindades de sua vida mas não era cega para seus péssimos julgamentos.
———— A vida não é justa... nunca foi. Isso não é um consolo mas acho que cabe a nós definir o que a injustiça nos causa, sabe? A gente pode afundar na dor ou... sei lá... fazer algo com ela.
Barbara tinha experiência para falar daquilo. Seu acidente, o abandono familiar e ainda depois Adrian. Injustiças e dores eram algo frequente em sua vida e havia marcado sua alma e seu corpo — algo que era possível ver nas marcas de cortes em seus punhos, cobertos pela marca da Lira de Apolo agora, mas não invisíveis a ponto de não serem notados por aqueles que prestassem atenção. Ela virou o rosto e beijou sua bochecha então, lhe dando um sorriso.
———— Eu espero que escolha alguém muito boa para me representar! —— declarou, apertando com gentileza os dedos nos dele. ———— Você não está sozinho, ok...? Não posso fazer isso por você, mas estarei todos os dias te esperando e te apoiando como sempre estive. E o que o meu pai acha que faz de certo é um problema dele... nem mesmo meu irmão teria concordado com isso. —— suspirou com pesar, uma lembrança que era dolorida demais. ———— Você precisa descansar agora, gastou muita energia. Eu posso te ajudar a dormir se quiser. —— dentre os poderes de Apolo que havia ganho, fazer as pessoas adormecerem era um deles.
Quando Gaspard aceitou sua ajuda para descansar, o acompanhou até que ele estivesse num local melhor acomodado e dedilhou em seu ukulele uma canção de ninar, murmurando as notas baixas e transmitindo para o garoto um pouco da calmaria que ela havia aprendido a ter com o tempo e quando ele finalmente dormiu ainda ficou ali por um tempo, velando seu sono, desejando que em seus sonhos ele encontrasse um lugar melhor.
Não muito depois disso, quando ela mesmo estava cochilando, ouviu Nyxie gritar que via terra. Barbara se ergueu para checar e realmente podia enxergar ao longe a ilha que procuravam. O problema era o silêncio, o vazio… uma ilha de semideuses era para ser daquela forma? Atracaram receosos e Barbara desceu já depois de recuperar suas coisas na cabine. Ouviu as informações vindas de Gaspard e Anael e sem escolha, fez o que todo mundo também fez: seguiu a bola de luz. ❞
Poucos eram os seres que Gabriel se importava genuinamente ao ponto de, face à perspectiva de perigo, ter retornado de prontidão para o acampamento — ainda que tal confissão não saísse por seus lábios com facilidade. Havia Ellie, filha de Dionísio e parceira de todos os momentos. Havia Blue Jeans, o pégaso perspicaz de crina azulada. E havia Barbie, filha de Poseidon, dona de um dos sorrisos mais doces que já tinha visto e capaz de ser ainda mais meiga quando ganhavam sua confiança. Ertois era um observador. Muito antes de trocar as primeiras palavras, tinha visto a maneira como a cantora se doava aos animais do estábulo sem pedir nada em troca. Calma, cuidadosa, como uma mãe; como uma santa padroeira, das histórias que as freiras do mosteiro sempre contavam. Cínico do jeito que havia se tornado, é claro que, a princípio, ele desconfiou de uma índole tão casta. Ela não podia ser assim tão fofa, gente desse jeito não existia. Aproximou-se, sorrateiro e disposto a descobrir seus segredos. E… Os descobriu. Mas o que viu não era podre e nem nefasto, ao menos não tanto quanto os dele mesmo. Encontrou nela um reflexo, uma alma quebrada em pedacinhos pequenos de espelho; a oportunidade de se abrir para alguém que realmente entenderia. E, por isso, era grato demais.
Com a pergunta dela, levou o indicador aos lábios e olhou de canto para o cavalo alado como se pedisse por cobertura. Quando o animal relinchou em resposta, um sorrisinho atrevido marcou o canto dos lábios do filho de Iris. — Sabe como é, eu não consigo resistir à chance de ser uma má influência. Dizem por aí que é justo esse meu charme. — Deu de ombros. Passava a escova pelo dorso de Blue Jeans e chegou um pouquinho mais para lá na intenção de cedê-la espaço. O pégaso estava animado com a presença da dona. — Mas previsível? — fingiu-se de ofendido, estalando a língua nos dentes algumas vezes. — Isso aí nunca, minha cara Babi. Eu sou um mistério até pra mim mesmo! Você não vai acreditar no que rolou no evento da Ellie. Ou melhor, rolou não, no que subiu! — soltou um riso abafado, a cabeça balançando em uma negativa incrédula.
♫ ━━ ❝ Foi inevitável brotar um sorriso dos lábios da filha de Poseidon quando viu o filho de Íris colocar o indicador diante dos lábios, sinalizando para o animal a fim de manter o tempo em que o semideus ficou na tutela do animal durante a viagem de Barbara para suas produções em segredo. O animal, ao entendê-lo, não vacilou em dar qualquer resposta para a dona, acatando o gesto, devolvendo apenas um relincho animado. O sorriso se tornou uma risada baixa e de repente era como se não houvessem problemas no mundo. Gabe a fazia se sentir assim.
Durante muito tempo a garota havia se isolado, embora sequer parecesse que o fizesse. Era gentil com as pessoas, tendia a ser delicada em suas respostas mesmo quando chateada com alguma situação. Havia ouvido muitas palavras duras em sua infância e entendia como aquilo fazia mal para quem as recebia e tentava não produzir aquele comportamento, salvo quando se tratava de Adrian que a levava ao extremo. Isso não significava que tivesse se aberto para outras relações. Barbara tinha medo.
Relações haviam se tornado complicadas para a morena, aprofundá-las era quase impossível depois de ter sido abandonada tantas vezes. Acreditava que cedo ou tarde aconteceria de novo e constantemente precisava ser lembrada de que as pessoas por quem nutria alguma intimidade também gostavam dela. Nem todo mundo tinha paciência para lidar com algo assim. Ertois no entanto havia se mostrado capaz não apenas de entender seus anseios como deixá-la entender os dele. Via nele uma semelhança que era incapaz de ignorar. Conhecia as dores por detrás dos olhos animados como se olhasse num espelho.
O que começou com uma empatia por identificação se tornou muito mais forte e com o tempo não havia pessoa no mundo que pudesse substituir a significância de Gabriel em sua vida. O entendia apenas com o olhar e o contrário também acontecia. Nos seus dias mais escuros, eram os braços de Gabe que traziam alguma luz. Ele conhecia todos os motivos de suas lágrimas e costumava ser o motivo de todos os seus sorrisos verdadeiros. Gabriel a conhecia como ela achou que jamais aconteceria de novo e detinha no semideus uma confiança que havia se perdido a muito tempo: não sentia medo de ser deixada quando estava com o rapaz
———— Eu vou te proibir de cuidar do meu pégasus! Você o acostuma mal e depois sou eu quem tem que ser a chata, sabe…? Ele vai começar a gostar mais de você do que de mim. Que tipo de melhor amigo você é? —— uma ameaça sem fundamento, não confiaria a tutela de Blue Jeans a ninguém mais senão Gabriel. Sabia que na sua ausência o animal estaria bem cuidado. Suas sobrancelhas arquearam com a introdução do assunto. Durante o evento dos filhos de Afrodite, Dionísio e demais deuses, Barbara havia ficado no churrasco e aproveitado do momento de descontração, lembrando-se com nostalgia de suas origens. Sentia falta do Brasil.
———— Eu estou até com medo de perguntar… Mas o que subiu? —— tinha uma careta no rosto, tinha ideia do que ele ia dizer e não sabia se queria ouvir os detalhes sórdidos de seja lá em que emaranhado de pessoas Gabe havia se metido, mas se ele havia trago o assunto, imaginava que era importante o suficiente para se dignar a dar a chance dele lhe contar ———— Digo, eu posso imaginar o que subiu mas porque isso é importante? Não era o objetivo as coisas subirem? —— sexo era um assunto desconfortável para a semideusa, levando em consideração que o último par com quem tinha dividido a cama era também seu único ex-namorado. Aquelas coisas eram sempre muito complicadas para ela, diferente do que era para o melhor amigo. ❞
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“Meu dom? Certamente não é cantar, esse Apolo escondeu pra você.” Asami fez que não com a cabeça, rindo. Estava sendo modesta, sua voz nem era assim tão ruim, embora também não se comparasse à de Barbara. “Hm… Vejamos.” Sentindo inquietude ao tornar-se o centro da conversa, mexeu no canudo da bebida enquanto pensava nas coisas que gostava de fazer quando não estava na forja. E… bom, não havia muitas. Ela realmente amava a profissão. “Eu gosto de dirigir, meu pai tem uma coleção enorme de carros esportivos na garagem. Quer dizer, não meu pai Hefesto, meu outro pai…drasto?” Riu, um pouco pensativa; deixando que a ideia de chamar o homem daquele jeito assentasse na mente. “O nome dele é Iron e ele era piloto da Nascar. Minha mãe trabalhava lá também, como engenheira.” Completou, saudosa. Percebeu, contudo, que estava falando mais dos pais do que de si mesma. Ela tomou um gole da bebida e lambeu os lábios. Então arregalou os olhos ligeiramente, como se algo importante tivesse enfim cruzado a memória. “Também gosto de autômatos! Estou tentando construir um cachorro, na verdade. Um salsicha, porque o corpinho longo dá espaço pra guardar muita coisa dentro. Acho que meu dom é… bom, é esse. Ou é o que me deixa empolgada, ao menos.” franziu o nariz. Tinha a consciência de que deveria estar parecendo bem nerd, mas não conseguia evitar. “Posso te mostrar, qualquer dia desses. Ele ainda não está finalizado, mas já abana o rabinho.” moveu o indicador no ar para exemplificar o movimento.
♫ ━━ ❝ Enquanto Asami falava, Barbara mal podia parar de sorrir. A verdade era que adorava ouvir sobre as outras pessoas mais do que falar sobre si. O tempo todo estava falando sobre si. Entrevistas. Matérias... Quando não tinha que dar alguma declaração pública porque algum jornal de fofoca havia vazado algo que era mentira ou que ao menos não queriam que soubesse ainda. Era cansativo como tudo rondava sobre essas coisas e quando podia parar e prestar atenção em outro alguém Barbara se sentia plena.
Quando ela comentou sobre a família mortal, seus sorriso tornou-se mais nostálgico. Apesar de já não ter uma boa relação com eles, Barbara tinha boas lembranças de sua infância e era a família quem era responsável por seus valores, mesmo depois de tantos problemas. ———— Sua mãe conheceu seu paidrasto depois de Hefesto? —— perguntou curiosa. Depois do término do casamento de sua mãe com o pai mortal, a mulher nunca mais havia saído com alguém, tido algo sério. Por vezes Barbara tentava incentivá-la, mas nunca dava muito certo.
———— Eu tenho um cachorro! Ravi o nome dele. É um golden e ele é um bobalhão, diga-se de passagem. —— dividiu com a garota, rindo baixo ao lembrar-se do cão, que aliás vivia no acampamento. Ravi era como um filho e pensava Barbara que seria o mais próximo disso que teria de alguém que dependia de si de fato. Crianças era um evento traumático por si só na vida da filha de Poseidon, graças ao ex-namorado.
———— Eu vou adorar conhecer sua criação! Todas elas se me permitir. Eu acho incrível! É como fazer música, a diferença é que no final eu tenho uma letra, rimas e todas essas coisas e você tem uma salsicha que abana o rabo. —— brincou, rindo da comparação. ———— Eu posso passar no bunker qualquer dia desses, se não for te atrapalhar! ❞
Asami, sentada à companhia de @lttmrmd, tinha a bochecha apoiada numa das mãos e o cotovelo sobre a mesinha enquanto prestava atenção no que a outra falava. “Sabe, eu poderia te ouvir o dia todo.” comentou sinceramente ao fim. Mas assim que percebeu o quanto aquilo soava como flerte, endireitou-se e estalou a língua no céu da boca, subitamente sem jeito. “Er, sua voz. Nas músicas.” Tratou de adicionar, gesticulando para o microfone à distância. Por Zeus, não estava acostumada a se sentir tão insegura. Barbie, porém, era não só uma cantora famosa, mas a compositora de canções que tinham tocado o coração da Alcott durante um de seus rompimentos mais sofridos — e, por mais brega que aquilo parecesse aos ouvidos, podia se considerar uma fã. “Já ele, por outro lado…” Disse com uma careta, que logo se transformou num riso. Seus olhos encontraram o semideus empolgadíssimo na área do karaokê, esgoelando-se ao som de um pagode desconhecido.
♫ ━━ ❝ Como uma válvula de escape ali estavam os semideuses num churrasco à moda brasileira e não podia ser melhor para Barbara que sentia falta dessa parte de sua vida. Havia ido pouco ao Brasil, mas costumava visitar a mãe sempre que podia, o que tornava o lugar um de seus favoritos. Ter ali um pedacinho de sua vida tornava tudo melhor. Acabou por rir do comentário da garota, sentindo as bochechas corarem. Estava acostumada com fãs, mas era diferente quando estava no acampamento. Ali haviam pessoas incríveis de modo a parecer que ser uma cantora não era nada demais e realmente para Barbie não era. Podia ser famosa o quanto fosse, não se sentiria superior à eles nunca. ———— Eu entendi! —— ela disse com um risinho, deixando o olhar desviar para o semideus empolgado no karaokê. Bom, todos podiam e deviam fazer o que desejassem, certo? ———— Mas e você? Falei muito de mim! Qual seu dom? Ou sei lá... o que gosta de fazer? ❞
Dizem que apenas os mortos podem ganhar estátuas, mas Arden Nott tinha ganhado uma ainda em vida. Na verdade, ele estava se tornando uma. É verdade que as estátuas são erguidas como sinais de agradecimento pelas contribuições, grandes feitos e atos heroicos. Mas não Arden. Ele estava sendo petrificado por vingança e inveja, se transformando em algo rígido e sem vida a cada dia, de dentro para fora. Ele não estava ferido, mas o veneno da maldição de Medusa queimava em suas veias como fogo líquido. Arden nunca pensou em como seria sentir as membranas das células se enrijecendo até se tornarem mármore rubro de sangue. Não era uma coisa com a qual ele tinha se preocupado antes porque não deveria ser algo capaz de acontecer. Não era normal. Mas essa era mais uma falha em seu pensamento: ainda esperava normalidade, mesmo sendo quem era e vivendo onde vivia. E os últimos dias tinham sido muitas coisas, exceto normais. O ar saiu pelos lábios, esbranquiçados pela dor incômoda em suas veias, num suspiro.
Ele se lembrava de como tinha sido a aproximação com os romanos e de quanto tempo levaram para se acostumar com a existência e comportamentos uns dos outros. Não havia confiança naquela época e não haveria agora com os novos semideuses e hospedeiros. Arden não precisava ser nenhum gênio para saber que agora, além de se preocupar com seus próprios problemas e com a ameaça de um conflito, a aproximação dos acampamentos viraria suas vidas de cabeça para baixo. E, se não fossem espertos, seria a brecha ideal para o levante dos deuses insurgentes. Aproximações repentinas nunca eram despretensiosas.
Fechou o punho e apertou os dedos contra a palma da mão, fazendo o sangue escorrer do corte no pulso para dentro do cantil. Era repulsivo e ele sabia. Talvez tenha sido essa a ideia da Górgona: torná-lo tão asqueroso quanto ela. Fez uma careta ao levar o líquido ainda quente aos lábios, engolindo sem pestanejar e só então se virou para MUSE.
— Você acreditou mesmo? —Limpou o canto dos lábios com a ponta do indicador e cruzou os braços na frente do corpo, com o olhar vagando pelo acampamento agitado. — Quando foi a última vez que alguém se ofereceu para nos ajudar sem pedir alguma coisa em troca? Acho que é bom mantermos os olhos bem abertos, se quer saber.
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♫ ━━ ❝ Barbara era, acima de tudo, uma grande otimista. Quando os romanos chegaram, ela estava lá com um sorriso enquanto todos os outros pareciam desconfiados demais para dar o braço a torcer. E deu certo. Não era diferente agora. Era claro que não era estúpida, sabia que a novidade viria junto de algo pesado e levando em consideração atual do acampamento, provavelmente aquela chegada tinha a ver com os planos de Psiquê. Ela só esperava que viesse ajuda e não mais problemas, embora estivesse pronta para qualquer coisa. No pior dos casos, ela pensou, teria de empunhar suas correntes contra seus semelhantes, algo que ela não queria sequer pensar. Machucar alguém como ela, mesmo que em lado oposto, parecia ridículo, porém, infelizmente, necessário algumas vezes. Talvez a junção das crenças fosse uma resposta menos hostil, pensava ela enquanto via o irmão em seu próprio ritual.
Estava sentada em sua cama, vestida já com o pijama que tinha pequenos unicórnios espalhados como um padrão pela calça de tom azul escuro. Quem a via assim, sequer imaginava que era uma estrela pop do momento. Parecia apenas uma adolescente como qualquer outra e sinceramente gostava mais quando não tinha que dar autógrafos ou se esconder das câmeras.
Quando Arden terminou, ela se levantou, deixando a almofada sobre seu colchão e indo até ele, trazendo-o para sua própria cama e se ajoelhando as suas costas para massagear seus ombros. O irmão parecia sempre tão tenso... Não era para menos. Viver com sua maldição parecia horrível. Saber que estava morrendo e que cedo ou tarde seria nada mais que uma estátua por conta da revolta de uma criatura... Barbie suspirou. Embora tivesse uma boa relação com Poseidon, aquelas coisas tornava difícil gostar do pai. As consequências de seus atos haviam machucado alguém que sequer tinha algo a ver com isso e Barbara faria de tudo pelos irmãos. Quem sabe um dia não achassem uma solução melhor que aquela? Por enquanto tudo que podia fazer no entanto era massagear seus ombros para fazê-lo relaxar.
———— Eu só acho que podemos ser positivos, Arden. Não foi fácil com os romanos, mas hoje eles fazem parte da nossa família como se nunca tivesse sido diferente. É estranho, eu sei, suspeito também... Ainda mais na situação que estamos agora. Mas e se eles forem também a ajuda de que precisamos? Não vale a pena comprar uma briga com mais alguém, não agora... Eu prefiro acreditar que podemos conviver uns com os outros. Não quer dizer que eu não estou preocupada... Carrego Attuale comigo o tempo todo, porque se alguma briga começar, estarei armada, mas ainda assim... espero que não seja necessário. —— o cordão em seu pescoço parecia inofensivo, uma corrente com dois pingentes em forma de tridente que se entrelaçavam na parte da frente de seu busto, mas quando Barbara empunhava o cordão, ele crescia e se tornava uma corrente de três metros e os tridentes eram afiados e definitivamente perigosos na mão da filha de Poseidon. Esperava, no entanto, que não tivesse de usá-los com os novos companheiros. ❞
「♢ ――― 」 O único assunto no acampamento agora parecia ser a descoberta dos outros deuses e sua prole, por isso não era surpreendente as rodas de conversa em torno desse assunto que surgiram desde o acontecimento. Gaspard olhou para as pessoas a sua volta que agora debatiam a novidade. ❛ Na verdade, eu já tinha pensado na hipótese, mas faz um bom tempo isso. ━ Ele deu de ombros. A verdade é que as coisas para ele não estavam tão claras quanto ele fazia parecer, e não podia evitar de se perguntar o porque que os deuses decidiram trazer aquela informação agora, muito menos juntar tantas regiões diferentes. ❛ Eu era ateu até descobrir que sou semideus, então imaginei que se uma mitologia é real, nada impede que as outras sejam. Mas nada se manifestou então deixei esse pensamento pra lá, não pensei que os outros deuses realmente existiam, muito menos na existência de outros semideuses e acampamentos… Até um hotel têm. ━ Como todos, ele estava chocado com tanta informação.
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♫ ━━ ❝ Barbara torceu os lábios enquanto ouvia Gaspard falar que já havia considerado a ideia de outros panteões e semideuses. Não parecia tão absurdo mesmo, se fosse tratar tudo com lógica. O que realmente deixava a filha de Poseidon preocupada era o porque estavam trazendo aquilo agora... O que estava por vir? ———— Não é mesmo tão absurdo pensar por esse lado. Se nós existimos, porque não eles? Acho a ideia de um hotel legal. Só... eles estão todos mortos, não é meio? Sei lá. É meio esquisito pensar nisso. Não estão vivos, mas não são espectros como os nossos mortos. Ouvi dizer que eles tem um jogo de guerra onde realmente morrem todos os dias. Deve ser tedioso demais a vida... digo, a morte lá para concordar em passar por isso. —— a verdade era que Barbara ainda estava muito confusa sobre os demais acampamentos e concentrações de semideuses, mas esperava que fosse como fosse, tivesse vindo para o melhor. ❞
「❦ ――― 」 Pelo histórico com o acampamento romano, era normal que as pessoas estivessem preocupada com a chegada dos novos lugares e panteões, e mesmo que entendesse da onde aquela desconfiança vinha, Ellie não podia deixar de estar animada com a idéia. Insistiria em ser uma pessoa otimista e queria conhecer as novas culturas, pessoas e lugares que tinham sido abertos. Fazia tempo que ela não tinha uma nova aventura e era exatamente isso que procurava agora. Talvez fosse o efeito da erva que tinha fumado a alguns minutos atrás, mas aquela parecia a oportunidade perfeita. ❛ Você quer ir comigo agora pro Brasil? Sim ou não? ━ Parou a primeira pessoa que passou na sua frente, já despejando a pergunta antes mesmo de ver de quem se tratava.
♫ ━━ ❝ Barbara estava tentando ser o mais positiva possível quanto aos novos companheiros e sempre que havia alguém reclamando, ela listava as boas coisas que podiam tirar disso, ainda que ela mesmo tivesse as suas dúvidas. Bom... alguém tinha que dar um voto de confiança, certo? Ali estava ela para fazer isso e como conselheira do chalé de Poseidon, tentava dar as boas vindas a todos que acabasse trombando, falando um pouco sobre o acampamento e então se despedindo ao deixar-se a disposição dos demais. O pedido de Ellie, no entanto, a tirou completamente da função e a fez sorrir. ———— Agora? É claro que sim! Eu sinto tanta falta do Brasil que nem acredito que agora ele está logo ali. Precisa conhecer São Paulo, é incrível, mas as praias do nordeste e o Rio de Janeiro, uau... O pôr do sol do Arpoador é a coisa mais linda que eu já vi. —— poucos sabiam que Barbara era também brasileira por parte de mãe, que atualmente, morava no país novamente, depois de se separar oficialmente do marido que era antes de descobrir que a semideusa era bastarda, pai de Barbara ❞
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「♕ ――― 」 ❛ Honestamente, eu não sei o porque de todo esse drama. Tava na hora de alguma coisa interessante acontecer nesse acampamento, pelo menos alguma coisa que não envolva mortes e traições. ━ Ela iniciou a conversa com a pessoa ao seu lado depois de ouvir alguém reclamar sobre a chegada das novas pessoas. ❛ Eu não sei você, mas eu to super feliz com os novos portais, agora vai ser muito mais fácil de visitar minha vó no México. E novas pessoas significa novas fofocas e novas bocas pra beijar, to doida pra ver quem que vai aparecer por aqui. Mas a grande pergunta mesmo é só uma: Tem spa nesse hotel? Eu mataria por um portal que desse num spa.
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♫ ━━ ❝ Barbara concordava com a opinião da prima por parte divina. Não achava que era um grande drama os novatos de outros acampamentos, embora entendesse como estavam receosos. Nada parecia vir acompanhado de uma boa notícia e se questionava se a chegada dos demais não premeditava algo ruim. ———— Eu acho que só estão preocupados... Veja bem: estamos no meio de ataques e o que isso significa? Alguns como nós pode reconhecer uma boa oportunidade, outros estão mais desconfiados. Só precisamos dar tempo à eles. —— ela encorajou a outra, sabendo que ela não era bem paciente, Barbara fazia esse papel melhor. ———— Eu não sei, mas acho que podemos vasculhar? Digo... eles podem vir e nós irmos né? Eu ainda não tive coragem de explorar. ❞
♫ ━━ ❝ A praia sem dúvida era o local onde Barbara mais gostava de estar e não podia ser diferente, estar diante da natureza de Poseidon e Apolo, dois deuses à quem era ligada, não podia ser melhor. Podia passar dias ali, observando enquanto Ravi, seu labrador, corria pela areia perseguindo pássaros ou brincando nas ondas do mar. Seu sorriso era genuíno, naqueles momentos, algo que vira e mexe não acontecia. Barbara sorria demais, mas era apenas porque pensava que se não podia sentir-se melhor, podia ao menos fingir que estava bem. Não queria perturbar ninguém com seus problemas. Na realidade, não deveria ter problemas. Era uma pessoa pública. Um exemplo. E se as pessoas soubessem da sua dor, não era mais alguém para se espelhar. Isso era o que doía mais. Barbara tentava não se abalar, sabia que não era culpa de ninguém qualquer coisa do tipo. As pessoas infelizmente julgavam, a mídia estava lá para usar sua fraqueza contra si. A gravadora queria protegê-la, era o que pensava, então que fosse melhor ser uma pessoa feliz e inabalável do que alguém passível de ser machucada. ❞