✞ ━━ ❝ Como sempre fazia na sua rotina, Anael tinha Sirius ao seu lado, caminhando em direção à praia. Dessa vez, no entanto, estava acompanhada não apenas do cão, mas também de sua irmã, Nyxie. Era absurdo como um pequeno grupo de desajustados podia acabar se apoiando tão bem. Ela, a irmã e Ash acabaram achando uma maneira de serem o apoio um do outro e ela não podia se sentir melhor. Tinha uma família, era o que podia dizer. E não era em nada como a sua família mortal, que havia torturado sua mente e o seu corpo em busca de um bem maior, não… Pela primeira vez na vida sentia como se tivesse pessoas que se importavam consigo de verdade, para além do que ela era e o que podia oferecer. Confiava neles com a sua própria vida e isso era mais do que um dia havia sentido por alguém.
Estavam sentadas sobre a areia enquanto o cão, que pela névoa parecia apenas um pitbull preto, corria atrás de algum animal que voava ou pulava sobre as ondas e Anael observava em silêncio, com um fraco sorriso nos lábios rosados. Sirius era para ser uma criatura do inferno, mas definitivamente estava longe de parecer com qualquer coisa do tipo. Estava mais para um grande bebezão e ainda que ele fosse feito para matá-la, amava o animal. Morte, no final das contas, nunca havia sido uma inimiga. Não… era uma aliada para a Reed como costumava ser para seus irmãos também. Ossos do ofício de serem filhos do deus do submundo.
———— Você já gostou de alguém…? —— a loira perguntou quebrando o silêncio entre elas.
A resposta da irmã fez com que a expressão de Annie se transformasse em uma careta. Como ia realmente saber se gostava de alguém? O que determinava isso? Damian era irritantemente gentil e cuidadoso consigo mas e se ele só fosse assim com todo mundo e ela que nunca tivera algo parecido na vida estivesse misturando as coisas? A ideia de que o interesse poderia ser só seu a fez sentir medo. Nunca tinha lidado com aquelas coisa antes, Anael sequer um dia havia sentido interesse por outra pessoa e agora que achava que sim podia ser engano seu? Quando a irmã perguntou, Annie encolheu os ombros.
———— Ninguém. É só… Nunca me aconteceu antes. Fiquei curiosa. —— respondeu, desviando da conversa, pensando ser melhor deixar aquilo para lá.
No final, não tiveram muito tempo de conversar de qualquer forma e tão pouco de Anael se aprofundar nas intenções por detrás de suas perguntas e com o pensamento ainda rondando Damian, ela se levantou da areia quando um dos instrutores se aproximou delas, vindo, segundo ele, a mando de Quíron que as aguardava na casa grande. No segundo em que foram convocadas, Sirius saiu da água para correr até elas e já assumia uma postura diferente da usual cão de estimação. Isso só podia ser um mau presságio. Da última vez que havia acontecido, havia sido enviada em uma missão contra o seu gosto.
O que a pegou de surpresa, no entanto, foi o tanto de pessoas que estavam ali, também convocadas para a mesma reunião. No início até pensou que talvez fosse alguma coisa para os conselheiros, mas Nyxie não era conselheira e haviam outras pessoas ali que também não ocupavam esse cargo e antes que a cabeça de Anael pudesse chegar a qualquer conclusão plausível para aquilo, Quíron se juntou à eles junto de Lupa, denunciando logo de cara: seja lá o que fosse, era algo grande e que ela sem dúvidas não poderia recusar.
———— Vocês devem estar se perguntando porque chamei-os aqui hoje. Bom… sem rodeios, recebemos uma profecia e deste modo escolhemos a dedo as pessoas designadas para essa missão, eu e Lupa. Vocês. —— o centauro fez uma pausa para que todos absorvessem a informação. Eram agora um grupo e passariam sabe-se lá quanto tempo juntos em prol de um bem maior. Como se tivessem escolhas, pensou Anael. ———— River nos emprestou seu navio e deste modo vocês devem navegar até a ilha de Liberty, um refúgio para os semideuses. Acontece que de acordo com a profecia, o local está em perigo, ameaçado por uma força que não sabemos de onde vem e acreditamos que possa estar ligado aos ataques aos acampamentos. Precisamos de respostas e são vocês, meus heróis, quem devem achá-las.
Bajulação. Aquilo fez com que Anael revirasse os olhos, mas em todo o caso, acatou as ordens. Quíron lhes deu uma hora e meia até a partida, que por ser de barco, sairia da praia do meio-sangue. Na próxima meia hora depois do centauro deixá-los, ainda ficaram na sala discutindo os detalhes da missão. Num consenso geral, Gaspard ficaria como líder naquela missão, levando em consideração que ele era filho de Atena, a estratégia dele contaria muito na hora da tomada de decisão e desse modo o mapa para a chegada até a ilha ficou nas mãos do rapaz, que dividiria a navegação com as meias irmãs, Akali, de Netuno e Barbara de Poseidon. Com o pensamento, notou o curioso fato de que Asami e Liza também eram irmãs, assim como ela e Nyxie e sinceramente não sabia dizer se aquilo significava algo, mas se sim, esperava que fossem boas coisas.
Com tudo mais ou menos alinhado, a filha de Hades abandonou a casa grande, caminhando com Sirius de volta para o chalé, encontrando o irmão mais velho ali. Grata por não ter que ir atrás dele, ela se jogou na cama e suspirou pesadamente, antes de falar para ele:
———— Quíron nos convocou. Eu, Nyxie e mais alguns semideuses. Vamos sair em missão.
"Que tipo de missão? Quer que eu vá junto?", ouviu a voz do irmão, mas duvidava que isso pudesse acontecer. Quíron tinha sido específico quando disse que haviam sido selecionados. Ela negou com a cabeça no momento em que respondeu.
———— Eu acho que não é do tipo que você possa ir junto. Segundo o velhote fomos escolhidos a dedo. O Áugure do Júpiter recebeu uma profecia... Vamos até uma ilha chamada Liberty. Ele acha que o que está acontecendo lá pode ter a ver com os ataques.
Era como se pudesse ver as engrenagens na cabeça de Shinya trabalhando no silêncio que se estendeu depois de sua breve explicação. Se ele lhe perguntasse o motivo daquilo, não saberia responder. Entendia que Nyxie era uma boa opção em uma missão complexa, mas ela…? Sem perder tempo ela se levantou da cama, indo em direção ao seu baú e pegando sua mochila, onde começou a guardar suas coisas. Kit de primeiros socorros, mudas de roupas, néctar, ambrósia, suas adagas e um pouco de petisco para Sirius. O cão iria consigo, gostassem ou não. Quando acabou viu Ash se levantar e vir em sua direção. Anael respirou fundo, desejando em seu íntimo regressar logo para casa.
“Toma cuidado, não se afaste muito da Nyxie e se as coisas saírem de controle, prioriza a sua segurança do que a dos outros. A Nyxie tem maldição que impede ela de morrer por muito tempo, mas você não e eu não quero perder você, ok?”. Ela sorriu, assentindo para o irmão.
———— O pior que pode acontecer é eu sair do controle, certo? Vou ficar bem. E voltar o mais rápido possível, eu prometo. No pior dos casos… uso as sombras. —— era uma alternativa. Sem muito mais o que dizer, ela colocou a mochila nos ombros e caminhou em direção a porta, lembrando-se no último instante. ———— Ah…! Pode me fazer um favor? Avisa Damian que eu saí em missão? Se eu sumir sem dar notícias ele vai ficar preocupado.
Depois de seu pedido, Anael não ficou para dar explicações para o irmão, em vez disso, apenas saiu do chalé antes que se atrasasse, caminhando de volta até a praia, dessa vez com um novo objetivo: sair e sabe-se lá quando iria voltar, se voltaria… Logo estavam todos reunidos. Aqueles que tinham mais afinidade com a embarcação já a preparavam para a partida enquanto a filha de Hades apenas aguardava. Ela se perguntava o que diabos estava fazendo ali? Se sentia sem serventia. Todos tinham as suas funções e ela… bom, mal tinha concluído a sua primeira missão pouco tempo atrás, havia recebido a sua benção de Hécate mas sequer sabia o que fazer com ela direito ainda. Estava aprendendo. Porque selecionariam uma novata para algo tão importante?
Com o pensamento ela subiu a rampa apoiada na madeira em direção ao convés, se jogando num dos cantos do largo espaço com Sirius ao seu lado. Por um tempo tudo foi meio silêncio, não fosse a música frequente cantarolada pela filha de Poseidon com seu irritante ukulele. Odiamos esse som, as vozes em sua cabeça falaram e só por isso Anael se obrigou a apreciar a música até ouvir o tom dela mudar e a música parar para que Barbara anunciasse que estavam se aproximando do que conheciam como O Mar de Monstros.
Anael se levantou para apoiar-se na borda do barco e olhar para o oceano abaixo deles. Tudo parecia normal, ou ao menos no começo. Se misturando a água, pouco a pouco a filha de Hades conseguiu identificar os espectros que ficavam melhor visíveis quando eles tentavam se agarrar ao casco do barco, um ou outro começando a conseguir subir. “Nos ajude”, ela ouviu eles disserem. Malditos. “Nos ajude, você pode.”, continuaram, unindo-se as vozes em sua cabeça. “Você não pode ajudá-los. Mas pode dar companhia a eles. Somos sete. Somos milhões… Mate todos!”
———— Tem fantasmas tentando subir o navio. Talvez não saibam que morreram ainda e querem ajuda… —— ela alertou, indo em direção a maioria, precisavam decidir o que fazer, Annie puxou as adagas do suporte preso à perna ———— Podemos lutar, mas acho que são demais para lidarmos. Se alguém tiver armas de Ferro Estígio vai ser útil.
Estava pronta para lutar se precisasse e fantasmas davam menos problemas que as pessoas, com toda a certeza. Logo Asami, Barbara e Liza se juntaram à eles, podia ver no rosto delas a apreensão. Claro, pessoas como a maioria ali nunca tiveram de lidar com fantasmas como ela e a irmã. Ficou grata por Akali tomar a frente da explicação, porque sinceramente não sabia se tinha tanta paciência. “Fracas.” “São todos fracos, devem morrer” “Mate-os”. Calem a boca, ela murmurou para si mesmo a fim de calar as vozes em sua cabeça. Liza não ajudou com seus próximos questionamentos. Era quase como se sentisse o cheiro de seu desespero. Revirou o olhar enquanto ouvia Gaspard fazer sua sugestão.
———— Podemos tentar, mas se não der certo… se preparem pra lutar. —— ela alertou a todos antes de ver Liza desfalecer. Ótimo, pensou.
Depois da breve discussão sobre o que fazer, Anael, Nyxie e Gaspard tentaram cobrir o maior espaço possível, indo cada um para o seu lado da embarcação tentar se comunicar com os fantasmas. Mais uma vez ela se segurou contra a madeira, fechando os olhos por um momento e respirando fundo, buscando se conectar às almas. Costumava ser fácil, mas sentia a pressão sobre seus ombros e aquilo tornava tudo mais caótico para a semideusa. “Seria mais fácil se juntar a eles. Todos nós podemos nos juntar à eles”. Calem a porra da boca, ela pensou de volta antes de realmente falar na direção dos espectros.
———— Filhos do submundo, este não é mais o lugar de vocês. Meu nome é Anael e posso ajudar vocês, posso mostrar o caminho que devem seguir mas precisam confiar em mim. Eu vou ajudá-los…!As almas sofrem, ela sabia. Podia sentir, só queriam paz, encontrar seus caminhos. Haviam se perdido no fundo do mar sem ninguém para vir socorrê-las. Ela estava ali! Queria que fosse isso que eles sentissem. Que não estavam mais sozinhos e que podiam contar com ela agora.
Aos poucos a semideusa sentia que estava ganhando eles. Gradativamente eles iam parando de tentar subir no barco, apenas boiando na água, olhando para ela à espera de que a filha de Hades lhes desse algo diferente daquele sofrimento. Não foi fácil, no entanto, sentia quase como se estivessem à beira de colapsar enquanto, em conjunto com Gaspard e a irmã mais velha, tentavam atravessar as almas atormentadas pelo véu que os levaria ao submundo e gostava de pensar que todos teriam um destino bonito, mesmo sabendo que muitos dele, na realidade, não merecesse e fossem acabar nos campos de punições. Que fossem justos, ela desejou e por fim viu o último fantasma ir.
Depois de passarem pela horda, Anael se sentia cansada do gasto de energia para mantê-los agarrados à promessa e assim colaborassem, de forma que, quando acabaram, buscou um cantil de água para beber. Ela fez um pequeno aceno de cabeça para Gaspard quando ele agradeceu a colaboração e agora sem a presença deles para atrapalhar o fluxo das águas, o navio parecia até mesmo ir mais rápido e a semideusa pôde aproveitar do momento, sentando-se na proa para sentir o vento bater em seus cabelos, levando consigo o mal estar de seu corpo. Sirius fazia o mesmo, animado com a viagem, tinha as patas apoiadas na borda de madeira e a língua para fora, latindo vez ou outra, o que a fazia rir sempre que acontecia.
Ali ficou em silêncio, um bocado distante, vendo a interação geral das pessoas que tentavam se reajustar depois do momento de tensão. Gaspard conferiu o estado de Liza, como um líder certamente faria — algo que anotou mentalmente, afinal, era conselheira do chalé de Hades e precisava começar a fazer melhor seu trabalho. O que levantou o questionamento: porque Gaspard tinha ligação com os mortos e porque, novamente, ela não fazia ideia disso?
———— É uma benção…? —— ela perguntou de forma direta, encarando o filho de Atenas quando ele estava próximo o suficiente para ouvi-la. ———— Ou é uma maldição? O que você tem a ver com os mortos? —— talvez fosse seus recentes estudos sobre necromancia, mas tudo que envolvia aquele lado sombrio tinha a atenção da filha de Hades agora e queria saber sobre aquilo também.
A explicação logo veio. Poseidon o havia amaldiçoado então a uma vida de serventia ao seu pai. Quase como um caronte na terra, pensou, enquanto o via tentar fugir da explicação de forma rápida ao dar-lhe só metade da coisa toda. Tudo bem, pensou, podia saber melhor daquilo mais tarde, se todos saíssem vivos. Não queria de todo modo deixar o garoto desconfortável.
Depois de tudo isso, restou para Anael apenas descansar. Precisava recuperar as energias se quisesse estar bem para o que quer que os aguardasse na ilha e durante o restante da manhã tudo foi calmo até que aos poucos os velejadores começassem a demonstrar estarem cada vez mais perto do destino.
Alguém alertou os demais com um “vejam” e os olhos azuis da loira alcançaram o que de longe parecia só um pequeno pedaço de terra mas ao se aproximarem cada vez mais, ficava parecido com a descrição da ilha dada por Quíron. Só aquilo foi o suficiente para deixar a garota ansiosa sobre o que os aguardavam ali e a constatação foi o pior: nada. Nada os aguardava ali. Para uma ilha de semideuses, tudo parecia quieto demais, parado demais… Atracaram no cais, levados para fora do barco. Tudo o que viam era nada mais nada menos do que um ponto branco luminoso. Com cautela o grupo se aproximou apenas para ver a luz se afastar. Com um suspiro, Anael constatou:
———— Acho que devemos segui-la…
Parecia uma péssima ideia, mas levando em consideração que aquela parecia ser a única opção do grupo e todos estavam de acordo, seguiram a esfera que seguia se afastando, levando-o para algum lugar. ❞