Double trouble | Carrie&Saphira
A ruiva manteve uma expressão estoica no rosto alvo enquanto prestava atenção às reclamações da outra mulher. No entanto, seus olhos arregalaram-se com surpresa ao ser confundida com um homem à primeira vista. Muito embora Carrie não fosse a pessoa mais feminina de todas, seus longos cabelos ruivos e feições consideravelmente delicadas não deixavam enganar; em raras ocasiões aquele erro havia sido cometido. Ainda assim, suas vestes e costumes poderiam dar aquela falsa ilusão, portanto ela não se sentiu nem um pouco ofendida. E, além de tudo, o modo brusco com que a situação se desenrolara também poderia ter ajudado a causar aquele equívoco.
A súbita mudança na postura e no tom de voz da outra moça ao finalmente notar que Carrie era de fato uma mulher lhe divertia bastante. Mas apenas por dentro. Por fora ela fez questão de manter o rosto sério e inexpressivo, numa tentativa de intimidar ainda mais. Cruzou os braços abaixo dos seios, ainda com a garrafa de rum em uma das mãos, e observou a morena em sua frente. Seu olhar passou pelo belo vestido que agora estava manchado por sua causa, em seguida pelos cabelos bem cuidados e levemente ondulados, e então se fixou no rosto de feições suaves e ─ aparentemente ─ inocentes. Ela era, sem dúvidas, dona de uma beleza incrível.
Depois de alguns breves instantes de silêncio, a voz de Carrie fez-se ouvida: ─ Não, eles não se importam. Devo admitir que eu mesma também não muito. ─ Sorriu de canto, quase deixando transparecer o quanto não estava incomodada pela gafe. ─ E para a sua informação, não estou bêbada. Contudo, pretendo ficar. ─ Ao final do comentário, pensou ‘Ah, que se dane' e acrescentou, com sinceridade: ─ Sinto muito pelo vestido. ─ Seu tom não era doce, mas também não era rude; era simplesmente tranquilo. Não queria impor mais medo à uma pessoa que já parecia estar assustada, constrangida e nervosa o bastante.
Julgando pela expressão não muito amigável presente no rosto da outra, Saphira possuía a certeza de que suas desculpas não seriam bem vindas. Ela se sentia a garota mais tola do mundo. Como conseguiu confundir uma mulher como aquela à sua frente com um homem? Sim, ela não estava de vestido como as outras, e claramente, não era toda sorrisos e simpatia como as demais presentes, porém o cabelo, os longos fios ruivos, denunciavam o que a desconhecida possuía entre as pernas. A lady voltou as orbes para os olhos azuis da outra, esperando que ela dissesse alguma coisa. A morena tinha certeza que a ruiva havia notado a colocação masculina aplicada na palavra “bêbado”. Aliás, ali estava outro erro do qual Saphira começava a arrepender-se. A bela e rústica mulher não estava bêbada, aparentemente. A garota sentia vontade de levar a mão à testa e bater-se, tamanho seu constrangimento.
— É perceptível. — disse a primeira frase que passara por sua mente assim que ouviu o soar da voz da outra. Imediatamente, pôs a mão na boca, olhando alarmada para a estranha, novamente temendo tê-la ofendido. Burra, burra, burra! Saphira entoava para si mesma, condenando-se pelo mau hábito que falar antes de sequer pensar. — Desculpe-me. Não há nada de errado em não gostar de vestidos. Você é diferente e é legal ser diferente. — tentou explicar-se, desajeitada, mas logo desistiu enquanto sentia o rosto em chamas. Não era do tipo tímido, porém havia raras situações que a deixavam extremamente sem graça. — Acho que também vou precisar de algo forte. — respondeu à outra frase da ruiva, querendo logo livrar-se da pequena confusão de palavras e sentidos na qual estava metida. E também era claro que queria algo forte para beber, que tipo de festa seria aquela senão acordasse com uma terrível ressaca na manhã seguinte?
Olhou novamente para seu vestindo quando ela o mencionou. Era bonito, de fato, e havia mandando fazê-lo justamente para aquele dia em especial. Porém se tratava apenas de um pedaço de tecido elegante. — Não tem problema. — proferiu com certo desdém presente na voz suave. — Eu tenho muitos parecidos com este. Posso mandar fazer outro igual, ou então adotar um estilo semelhante ao seu. — riu — aposto que meus pais “adorariam”. — falou, o tom aplicado à ultima palavra sugerindo que, definitivamente, seus pais não adorariam caso aparecessem vestindo-se como a ruiva.













