Kelly Cunha Tem Parte de Sua História nos nos Concursos de Beleza Trans Resgatada
A memória trans brasileira acaba de ganhar mais um importante capítulo de preservação histórica. Utilizando recursos de tecnologia e restauração digital, conseguimos recuperar e dar nova vida a imagens raras de Kelly Cunha, uma das maiores pioneiras dos concursos de beleza trans do Brasil.
O trabalho começou a partir de apenas quatro fotografias encontradas em um antigo recorte de jornal. As imagens estavam bastante deterioradas pela ação do tempo, com baixa qualidade e poucos detalhes visíveis. A partir desse material, iniciamos um processo de restauração, ampliação para 4K, colorização e animação das fotografias.
Para garantir a maior fidelidade possível ao momento histórico, entramos em contato com a própria Kelly Cunha. Uma das principais dúvidas era sobre a cor do vestido usado naquela noite. Kelly nos informou que o traje era branco, com plumas vermelhas, detalhe fundamental para que a reconstrução respeitasse a realidade da época.
O resultado surpreendeu. O que antes era apenas uma fotografia desgastada de jornal revelou um vestido elegante, sofisticado e atemporal, capaz de impressionar até os dias atuais. A restauração permitiu enxergar detalhes que haviam sido perdidos por décadas.
Mais do que recuperar imagens, o projeto busca preservar a memória de uma mulher que ajudou a construir a história da visibilidade trans no Brasil.
Nascida em São Paulo, em 1946, Kelly Cunha iniciou sua trajetória artística nos anos 1960. Em 1968, conquistou o título de Miss Boneca Paulista, o primeiro de cerca de trinta concursos de beleza que venceria ao longo da carreira. Também integrou espetáculos históricos como Les Girls e atuou em produções do cinema brasileiro.
Sua trajetória, porém, também carrega as marcas da perseguição sofrida por travestis e transformistas durante o período da ditadura militar. Kelly chegou a ser presa e teve passagens pelo Deops de São Paulo, realidade enfrentada por diversas artistas trans da época.
O vídeo produzido a partir dessas imagens restauradas está sendo compartilhado pelas redes sociais do Travestis e Transexuais Brasileiras, Mundo T Girl, Transplay, YouTube T e outras páginas parceiras.
A repercussão tem sido extremamente positiva. Afinal, falar de Kelly Cunha é falar de uma mulher que abriu caminhos para gerações inteiras de pessoas trans no Brasil.
Preservar a memória de pioneiras como Kelly não é apenas um exercício de nostalgia. É um compromisso com a nossa história. Porque quando conhecemos quem veio antes de nós, garantimos que seus legados jamais sejam apagados.