Segue de um post sobre a vontade que muitas garotas trans sentem de desistir, principalmente no início
Achei as reflexões levantadas em um fórum no Redidt muito ricas no sentido da qualidade e me identifico com muita coisa, resolvi escrever
Hoje estou com os meus 44 anos( 2 meses de th) e a disforia secreta sempre me acompanhou, também tive sempre pensamentos de que em tal idade anterior teria sido melhor ter feito a transição, foram siclos de fugas e crises constantes, dois casamentos tentando vestir uma pele masculina pelo fato de gostar de mulher. Hoje estou no início da transição a 2 meses com TH usando adesivo ( monoterapia) sendo acompanhado por um endócrino especialista na monoterapia cheio de ótimos resultados, e uma psicóloga incrível especializada. Estou casado com uma mulher cis 20 anos mais nova que eu, em um emprego estável a mais de 18 anos e tenho em minha estratégia fazer meu plano de saúde pagar por uma cirurgia de feminização facial e tudo mais que precisar, a jurisprudência na atualidade está a nosso favor, a poucos anos atrás não tínhamos essa possibilidade legal e isso mudou tudo para as transições mais tardias. Embora meu corpo esteja dentro de um padrão bem masculino meu bumbum já está totalmente diferente em vista do que era, a pele mudou um pouco, peitos doloridos e mudando, tenho várias dúvidas em minha cabeça pelo fruto da insegurança, talvez eu não possa mais sair sem camisa na praia daqui p frente, talvez eu não alcance um ideal de passabilidade, agora seria a hora de parar e voltar tudo atrás novamente mas a verdade é que é tudo tão cedo, penso em desistir assim como vc pensou mas daí lembro o preço que paguei por ficar na zona de conforto, por tentar me ajustar pela questão de agradar os outros ou ser atraente para as mulheres, por exemplo a minha mulher me ama pela forma masculina que apresento, conversamos muito sobre isso, ela sempre soube que eu era diferente, nunca escondi e só vivendo tudo isso para saber onde vamos terminar, a vida é assim... um fenômeno com muitas perguntas e experiências a viver , a cada dia que passa sei melhor quem sou.
também pela crítica da sociedade, vejo os mecanismos de defesa que criei por tantos anos para negar a mim mesmo. O que move de verdade a vontade de desistir? Fazer a transição antes teria sido melhor, mas hoje tenho mais estrutura e maturidade, na verdade o tempo certo é agora, meu tempo não vai voltar e existe muita vida para viver, hormônios também tem muito a ver com a nossa auto aprovação, nossos sentimentos, por ser assim hoje, não binário de verdade não sei até onde vou e se vou transicionar socialmente, entendi no meu caso que preciso viver essa realidade, cruzar a linha e não desistir tão cedo. A coisa que mais trabalho com a minha psicóloga são os meus mecanismos de auto preservação, de sobrevivência baseados na insegurança, em agradar o outros, culpas, sabotagens, necessidade de pertencimento a uma sociedade, necessidade de aprovação, limpando tudo isso o que sobra? As vezes faço um exercício imaginário onde só exista eu e mais nada, lá naturalmente sou mais ela, lá limpei ao ponto de não ter os ruídos de tudo isso.
Nos dias que acordo mais inseguro, desmotivado por estar desconstruindo uma identidade e ainda por não ter a nova , textos como esse são o meu porto seguro, são aquele momento de por o pé no chão e dar um desconto para mim mesmo, aceitar minhas vulnerabilidades, e acolher e tá tudo certo, segue o barco