A noite era apenas mais uma noite, com suas luzes gastas e pressas banais.
Mas havia um palco de solavancos, feixes de néon e acordes distantes, esperando pelo sopro que muda os destinos.
Caminhei ao palco sem saber o que carregava, com a coragem moldada em silêncios antigos.
Segurei o metal frio do microfone improvisado como quem segura a chave de um portal secreto.
E, quando a música começou a correr pelas veias, eu não apenas cantei: eu transbordei.
Deixei a alma na ponta de cada verso, fui melodia inteira, do avesso ao topo.
As notas emprestadas ganharam corpo, o peito expandiu, o medo se desfez em fumaça.
Naquela noite, a canção venceu a sombra.
O eco do aplauso veio como um trovão, mas o verdadeiro troféu não coube nas mãos.
Aconteceu por dentro, no silêncio que se seguiu: as luzes não se apagaram quando a música parou.
Daquele palco de passagem, eu nunca mais desci.
O que era jogo virou rito, virou altar.
Ali, sob o manto de uma noite comum, a música me coroou por inteiro, e eu, finalmente, me descobri artista.
















