Era o seu primeiro dia de aula em um colégio completamente novo e, para piorar, estava atrasada. Como já esperava, os livros sobre Hogwarts não ajudaram nos percursos feitos da entrada do castelo até a sala de aula, não quando existiam escadas que se moviam pela escola. Transfiguração, a primeira aula que iria assistir ali, não era a sua matéria favorita, e estava, na verdade, bem longe disso. Uma vez que os anos letivos na escola francesa eram diferentes, a menina tinha absoluta certeza que já teria estudado a matéria que seria passada, mas, ainda assim, lá estava ela. Sendo apresentada para uma sala cheia de desconhecidos, e Bernardo.
Tinha consciência de que o encontro seria inevitável, fossem por estarem na mesma casa ou pela saudades que a menina sentia do amigo; mas encontrá-lo ali, naquela aula, era obra do destino e não da loira. Ela não poderia dizer, porém, que não gostava de observar as expressões de surpresa do amigo com um sorriso quase debochado, mesmo que não parecesse para aa outras pessoas; porque ele provavelmente saberia que estava adorando ter chegado de surpresa e, agora, agir como se nada estivesse acontecendo enquanto ele deixava nítido o seu nervosismo.
“ ——– Com licença, professor, e o obrigada” proferiu educadamente assim que seu amigo deixou de ser alvo da atenção alheia. Enquanto caminhava pela sala, seus olhos focados nas cadeiras vazias existentes, ela pensava em onde deveria se sentar. Ir para o lado do amigo, como já tinha feito em tantas outras aulas no passado, ou continuaria com a aquela sua provocação e a cara de quem não sabia o que estava acontecendo, fingida? Encontrou a sua solução ao notar uma cadeira vazia atrás no amigo; era próxima, mas não o suficiente, e por isso era tão perfeita.
Bernardo conseguia se lembrar da primeira vez que encontrou Solomon. Se ela perguntasse, ele provavelmente diria que não sabia, mas ele se lembrava muito bem. Eles eram da mesma casa, do mesmo ano, e era uma questão de tempo até que se encontrassem. Conheceu Beau no jantar de boas-vindas, se deram bem imediatamente e são melhores amigos desde então. Beau o apresentou para Aimeé, porque naquela época ela ainda não era Solomon, e a primeira coisa que pensou quando olhou para ela foi quanto ela bonita. Sinceramente, a pequena Aimeé era um anjo, cabelos longos e loiros, como agora, sua conduta era perfeita. Demorou um tempo até que percebesse que ela não era exatamente um anjo, suas respostas eram mais afiadas do que até de muitos alunos mais velhos. Ela deixava Bernardo no chinelo, todas as tentativas de provocá-la foram em vão. Acabaram se dando bem, apesar de todos os outros garotos e garotas naquela idade estarem em uma fase de implicar um com o outro. Naquele ano, assim como em todos os anos em Beauxbatons, tinham dois grandes bailes: o do Solstício de Verão e do Equinócio de Inverno. Bernardo nunca soube exatamente o porquê, mas sempre foram juntos a todos os bailes até o último baile que ele teve em Beauxbatons, antes de ser expulso. Começou como um “vamos pro baile juntos? Todo mundo está indo, então...”, e “certo, vamos sim”. Claro, o pedido não foi assim, porque envolveu balões e um Bernardo com cara de otário. O que não era mesmo uma novidade. No baile seguinte, ela pediu, e acabou superando bastante o pedido de Bernardo. Afinal, aquela era Aimeé Solomon. E no baile seguinte, ele pediu, com medo dela não aceitar novamente... Afinal, tinham ido juntos nos dois bailes do ano anterior. Mas ela aceitou, e eles criaram uma tradição: foram juntos em todos os bailes de Beauxbatons. Um baile ele pedia, e outro baile ela pedia, alternando. E cada vez um tentava superar o pedido do outro.
Se lembrava da época em que ele ainda tentava ser um bom filho, e estudava tanto quanto Solomon. Até seus treze anos, mais precisamente. Passavam tardes na biblioteca, ou nos jardins enquanto os amigos faziam porra nenhuma. Depois Bernardo ia fazer porra nenhuma também, sem falar em causar problemas que deixavam Solomon puta da vida com ele. Mesmo naquela época, ele sempre teve tendências a causar tumulto. Tudo mudou no seu aniversário de doze anos, dia treze de Abril, uma sexta-feira. Os amigos apelidavam aquele dia de “O ano em que tudo deu errado”, e ele não gostava de pensar sobre aquilo. No ano seguinte, 13 anos no dia treze - pelo menos caiu em um sábado -, foi a primeira vez que ficou bêbado e a primeira vez que percebeu que nada do que ele fizesse seria suficiente para os pais. E naquela noite, quando ninguém mais estava olhando, Bernardo chorou no colo de Solomon, como uma criança - o que ele ainda era, e talvez nunca deixaria de ser -. Ela acariciou os cabelos dele, limpou as lágrimas, e o abraçou. E ele sabia que ela estaria lá pra ele sempre, não importa o que acontecesse. Naquela noite eles também se beijaram, e foi como o primeiro convite pro baile: “bom, eu nunca beijei, então se for pra ser com alguém, podia ser com você, né?”. Ela foi o primeiro beijo dele, ainda que ele tivesse perdido a virgindade com a Leblanc. Isso foi a perda da inocência dele, e ele sabia que também havia sido da dela.
Ele esteve lá para Solomon nas vezes em que ela estava mal pelos pais escrotos, porque desse assunto Bernardo entendia bem. E ele a abraçou enquanto ela chorava, e limpou as lágrimas dela. Bernardo percebeu aos quinze anos que a Solomon era a porra do sol que brilhava no céu quando ela entrava em qualquer lugar, porque o nome dela era Solomon. Ele não estava apaixonado por ela, porque ela era Solomon e ela sempre esteve lá. Não importava quantas garotas e garotos sentissem ciúmes quando se envolviam com Bernardo, porque naquela época ele já tinha percebido que estava bem longe de ser heterossexual, Solomon sempre seria insubstituível. Naquela época, ela começou a achar as melhores maneiras de motivar Bernardo a estudar, e geralmente envolvia saídas, cigarros e tinta nova. Ela fazia resumos, sabatina, tabelas, e tudo pra Bernardo não se foder tanto quanto ele já se fodia. Porque fazer aniversário dia 13 trouxe uma maré de azar pra Bernardo, e ele precisava de um pouco de sorte na vida, por isso achava que ela era a sorte grande dele. Ele se questionava o que caralhos ele tinha feito pra conseguir uma amiga como ela. Tudo bem, segue a vida.
Dezesseis anos, nenhum dos dois era inocente, e ela acobertava todas as merdas que o squad fazia, porque ela era uma ótima aluna assim como Grantaire, e eles precisavam de uma credibilidade. “Fuck the system, everything is shit and wrong as hell”, era o lema deles. Adèle, Bonnacord e Montague já tinham chegado na maioridade, o que abria muitas portas para eles. Naquele ano eles foram para um protesto no meio de Paris bruxa, saindo pela passagem secreta. Voltaram ao amanhecer e pegaram detenção, mas valeu à pena. Foi aí que surgiu o primeiro pensamento de que precisavam fazer algo real sobre as merdas que aconteciam em Beauxbatons, porque eles sabiam que estava errado, e algo precisava ser feito. Então veio o ano em que tudo deu merda, eles fizeram a porra do protesto em Beauxbatons. Acabou com violência - afinal, de que outro jeito poderia acabar -, Bernardo fraturou a coluna e Beau as costelas. Ainda conseguia se lembrar dos gritos de protesto dos amigos enquanto estava dentro da sala da diretora, e ele se segurou muito para não chorar. Porque Lucca Flamel disse pra Bernardo que “macho não chorava”, e por mais que o mais novo soubesse que o pai era um imbecil, não daria o gosto dele saber que tudo estava uma merda.
E então chegaram as férias sem contato com o mundo, e depois veio Hogwarts. Ele e Beau estavam sozinhos na Inglaterra, e agora ela aparecia lá? Do nada? Sem avisar? Mas que porra era aquela? Ela passava pela carteira dele com aquele sorriso no rosto, como se nada estivesse acontecendo? Tinha encontrado com Bonnacord e com Adèle, então era de se esperar que encontraria com ela também. Agora, ali, na sala de Transfiguração, ouvia a voz do professor se misturar com o barulho de fundo, porque isso não importava tanto. Não só porque Bernardo já sabia tudo o que ele estava dizendo, mas porque Aimeé estava ali, com toda sua glória ensolarada, e ele queria explicações.
Pegou o celular bruxo do bolso discretamente, e seus dedos se moveram rapidamente para digitar o SMS para ela.
[text to My sun] WHAT THE FUCK DO YOU THINK YOU’RE DOING????
[text to My sun] SOLOMON, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? não que eu esteja reclamando, é claro
[text to My sun] E O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO ATRÁS DE MIM? WTF TEM UM LUGAR VAGO DO MEU LADO
[text to My sun] EU QUERO EXPLICAÇÕES AGORA, antes que a Dubois me mate por transformar ela em Carmem Miranda