Turno derrotado por Enéias
Turno foi derrotado e morto por Eneias no duelo final que conclui a epopeia de Virgílio, a "Eneida". Este confronto marcou o fim da guerra entre os troianos e os povos itálicos e selou o destino de Eneias de fundar a nação que daria origem a Roma.
Turno era o rei dos Rútulos, um povo itálico, e o principal antagonista de Eneias na segunda metade do poema. Ele era o noivo prometido de Lavínia, filha do rei Latino do Lácio. Quando Eneias chegou à Itália e recebeu a promessa de que se casaria com Lavínia (conforme ditado pelos oráculos e pelo destino), Turno sentiu-se traído e humilhado, declarando guerra aos troianos.
A batalha final é descrita no Livro XII da Eneida. Após uma guerra sangrenta com muitas perdas de ambos os lados (incluindo a morte de figuras importantes como o jovem Palas, protegido de Eneias, e a guerreira Camila), os dois líderes concordam num duelo para decidir o conflito.
Eneias e Turno enfrentam-se num combate singular. Eneias, com a ajuda divina de Vénus, demonstra ser um guerreiro superior, embora a irmã de Turno, a ninfa Juturna (instigada por Juno), tente intervir e prolongar a luta.
Eneias fere gravemente Turno, que cai vencido no chão. Desarmado e prostrado, Turno implora pela misericórdia de Eneias, pedindo-lhe que poupe a sua vida e o devolva ao seu pai, para que este possa sepultá-lo.
Eneias hesita por um momento, sentindo um impulso de compaixão (o valor romano da clemência). No entanto, nesse instante, ele vê o cinturão de Palas, que Turno tinha tomado como espólio, após matar o jovem príncipe anteriormente na guerra. A visão do cinturão do seu amigo assassinado inflama Eneias de uma raiva justificada. Negando a misericórdia, Eneias declara que é a sombra de Palas que o está a matar e trespassa Turno com a sua espada.
A morte de Turno é o momento final da Eneida e simboliza o triunfo do destino (o fatum romano) sobre o orgulho e a resistência locais, permitindo que Eneias se case com Lavínia e inicie a linhagem que levaria à fundação de Roma.
A cena é frequentemente retratada em diferentes meios, desde manuscritos medievais até à pintura neoclássica:
Pintura Barroca e Neoclássica: Artistas italianos e franceses do século XVII e XVIII focaram-se frequentemente na dramaturgia do momento, realçando o conflito físico e moral. A cena é pintada com grande intensidade emocional, captando o momento em que Eneias levanta a espada sobre o derrotado Turno.
Ilustrações de Livros: A "Eneida" foi ilustrada inúmeras vezes. As xilogravuras e gravuras em metal, como as de Georg Christoph Eimmart ou as ilustrações para edições francesas (Didot, 1798), eram comuns para acompanhar o texto de Virgílio, mostrando a batalha final com detalhes gráficos.
Mosaicos e Esculturas Romanas: A história, sendo um mito fundador de Roma, apareceu em artefatos romanos antigos, embora a representação exata do momento da morte seja menos comum do que outras cenas de batalha genéricas.
"O Combate de Eneias e Turno" (em italiano, Il Combattimento di Enea e Turno), assinado e datado de 1708, é uma pintura a óleo sobre tela do artista barroco bolonhês Aureliano Milani (1675–1749).
Esta obra marca um ponto crucial na carreira inicial de Milani, onde ele desenvolve um estilo neo-maneirista original, influenciado pelos estudos dos frescos dos Carracci em Bolonha. A pintura capta o momento final e fatídico do duelo entre os dois heróis, que decide o destino da guerra e a fundação de Roma, conforme narrado no Livro XII da "Eneida" de Virgílio.
A pintura é caracterizada pelo movimento intenso e pela composição dramática, com as figuras musculares dos heróis a dominar a cena da batalha. O uso do claro-escuro típico do Barroco realça a tensão do confronto.
A obra representa o momento antes de Eneias desferir o golpe fatal em Turno. Frequentemente, estas representações focam-se na súplica de Turno (caído e desarmado) e na hesitação inicial de Eneias, antes que este veja o cinturão de Palas, o que sela o destino de Turno.
A pintura não é apenas uma cena de batalha, mas uma representação do fatum (destino) romano a cumprir-se, simbolizando a vitória da ordem destinada por Júpiter sobre a resistência local itálica, instigada por Juno.
A pintura de Luca Giordano sobre "Eneias Matando Turno" tem pelo menos duas versões conhecidas e importantes, que ilustram a maestria do artista barroco napolitano (1634–1705) em captar o dramatismo do momento final da "Eneida" de Virgílio.
"Eneias Derrota Turno" (1688), exposta no Museu do Prado, é uma obra que faz parte de uma série de pinturas mitológicas que Giordano realizou para o Palácio del Buen Retiro, em Madrid. A composição é tipicamente barroca, com grande movimento, figuras heroicas e um uso dinâmico de luz e sombra.
No primeiro plano, Eneias, em armadura, domina Turno caído no chão. No céu, figuras divinas observam a cena: Vénus (mãe de Eneias) reclinada num canto, e a ninfa Juturna (irmã de Turno) a afastar-se, em sinal de derrota. A pintura capta a inevitabilidade do destino e a tragédia da guerra.
Existe também outra versão, ou talvez um estudo da obra, no Palazzo Corsini al Parione, em Florença. Esta versão possui dimensões ligeiramente diferentes e serve um propósito semelhante na representação da epopeia troiana.
As pinturas de Giordano são importantes representações artísticas porque conseguem transmitir a intensidade emocional e o significado mítico do duelo, que não era apenas um combate físico, mas a realização da vontade divina para a fundação de Roma.
A representação da morte de Turno nas artes plásticas enfatiza consistentemente o pathos da guerra, o inevitável destino de Eneias e a ira que o leva a negar a misericórdia no momento final.
Outros Artistas Notáveis que Representaram a Morte de Turno:
"A Morte de Turno" por Edward Burne-Jones: Um desenho ou estudo a lápis do artista pré-rafaelita britânico, que se concentra na emoção e no pathos da cena, mostrando o corpo de Turno estendido após ser morto.
Pietro da Cortona (e Círculo) (c. 1640): O círculo deste mestre do Alto Barroco romano produziu a obra "A Morte de Turno Dada por Eneias". Esta pintura capta a grandiosidade e a intensidade emocional da cena, com Eneias a dominar o seu adversário caído.
Nicolò dell'Abate (c. 1509–1571): Este artista maneirista italiano incluiu a morte de Turno em frescos que ilustram a "Eneida" (atualmente fragmentários ou em coleções como a da Galeria Borghese, em Roma). As suas representações são conhecidas pelo estilo elegante e pela narrativa fluida.
Antoine Coypel (c. 1703): O pintor francês Antoine Coypel criou uma obra sobre o tema ("Te hoc vulnere Pallas immolat"), que foi posteriormente transformada em gravura por Jean de Poilly para ser amplamente divulgada. Esta obra é notável por incluir a figura da deusa Minerva (Atena) a pairar sobre o confronto, na forma de uma coruja, enfatizando o envolvimento divino no resultado.
Giacomo del Po (1652–1726): Este artista napolitano criou "O Combate entre Eneias e o Rei Turno, da Eneida de Virgílio" (atualmente no Museu de Arte do Condado de Los Angeles (LACMA)), uma obra barroca que ilustra a batalha final com grande dinamismo.
Crispijn van de Passe, o Jovem (c. 1612): O gravador holandês criou uma gravura em metal que ilustra Eneias a matar Turno, popularizando a imagem através de ilustrações de livros da "Eneida" no século XVII.
Wenceslaus Hollar (c. 1640s): Outro gravador prolífico, Hollar produziu ilustrações para edições da "Eneida", a partir de desenhos de outros artistas, como Francis Cleyn, mostrando o duelo fatal.
A importância da morte de Turno na arte transcende a mera representação de um duelo ou de uma cena de batalha. A sua relevância deriva diretamente do seu papel como o ponto culminante da "Eneida" de Virgílio, funcionando como um poderoso símbolo do destino, do heroísmo e da fundação de uma nação.
Na arte, a morte de Turno simboliza a inevitabilidade do fatum (destino) romano. Eneias é um instrumento da vontade divina. A representação do golpe final não é apenas um ato de violência, mas a concretização de uma ordem cósmica estabelecida por Júpiter para fundar Roma. Artistas como Luca Giordano ilustram frequentemente esta dimensão ao incluir figuras divinas a observar a cena dos céus, sublinhando que a morte de Turno era necessária e predestinada.
A cena da morte de Turno é moralmente complexa e isso atraiu artistas interessados no conflito psicológico. Turno suplica por misericórdia (clementia), uma virtude romana chave. Eneias, inicialmente tentado a ser clemente, é dominado pela ira (raiva justificada) ao ver o cinturão de Palas.
As representações artísticas captam este momento de decisão fatal, explorando a tensão entre a compaixão e a vingança. A negação da misericórdia no momento final fez com que a cena fosse usada para refletir sobre a justiça na guerra e os limites do heroísmo.
A morte de Turno oferece aos artistas a oportunidade de representar o ideal de heroísmo clássico através da forma humana. Pinturas como as de Aureliano Milani focam-se nos corpos musculares e na intensidade física do combate, utilizando a estética barroca para criar figuras monumentais e dinâmicas que encarnam o ideal de beleza e força da Antiguidade Clássica.
Como a cena final do maior épico da literatura latina, a morte de Turno é o fecho de uma era e o início de outra. Nas artes, ela marca o triunfo dos Troianos (fundadores) sobre os Italianos nativos (opressores). A sua representação garante o fim da guerra e o início da paz que permitirá a Eneias casar com Lavínia e estabelecer a linhagem que levaria a Rómulo e Remo.
A importância da morte de Turno na arte reside na sua capacidade de concentrar o simbolismo da fundação de Roma, o conflito entre o destino e a moralidade humana, e o drama do heroísmo clássico num único e poderoso momento visual que conclui uma das maiores narrativas da civilização ocidental.