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não somos gays bonzinhos
O trecho abaixo é parte de uma entrevista concedida por Paul B. Preciado (à época, antes de iniciar sua transição e atendendo por Beatriz Preciado) para a Buffalo Zine. O exerceto destacado por nós corresponde à resposta do filósofo e estudioso espanhol para a pergunta: "O que é ser queer?" Confira a entrevista na íntegra clicando aqui. "Queer means fag, dyke or deviant, nutter. Although as of the 80s it has turned into the symbol of a resistance movement to the assimilation of homosexuals into the heterosexual culture. A collection of microgroups takes this insult and decide to use it as the starting point for sexual minorities’ fight against normality. The motto was: 'We are not good homosexuals, but fags, dykes, transsexuals, HIV-positives, we are rabid and uncontrollable'. It is not possible to be queer, definitively queer, queer once and for all, as queer is neither an identity nor a look, but a critical attitude with regards to the way in which identities are produced and settled. Queer is a practice, a group of strategies made up to resist the norm, a way of life: I guess it has something to do with being conscious about the political character of genre and sexual identities; to actively laugh about them and so deactivate them through deconstruction and mockery. (...)"
Tradução Livre:
"Queer significa viado, sapatão ou fora do padrão, louco ou louca. No entanto, nos anos 80, o termo se transformou em símbolo de um movimento de resistência à assimilação de homossexuais na cultura heterossexual. Vários microgrupos se apropriaram do que antes era um insulto para usá-lo como ponto de partida em lutas das minorias sexuais contra normalidade. O lema era: 'Nós não somos bons homossexuais, mas viados, sapatonas, transexuais, soropositivos, somos irracionais e incontroláveis'. Não é possível ser queer, definitivamente queer, queer uma vez por todas, pois queer não é nem uma identidade nem uma aparência, mas uma atitude crítica em relação à maneira por meio da qual as identidades são produzidas e resolvidas. Queer é uma prática, um conjunto de estratégias constituídos para resistir a norma, uma modo de vida: Eu acho que tem algo a ver com estar consciente sobre o caráter político de gênero e identidades sexuais; rir ativamente deles e assim desativá-los através da desconstrução e da zombaria."
28/06/1969
O ano é 1969. Durante a madrugada de 28 de junho, a polícia nova-iorquina se preparava para mais uma das violentas e rotineiras batidas em um bar no Greenwich Village: o Stonewall Inn. Como outros bares que atendiam à comunidade LGBT, o Stonewall tinha seu alvará para venda de bebidas alcoólicas negado e dependia do suborno que a máfia italiana, dona de vários estabelecimentos na região, pagava aos policiais para manter suas portas abertas.
A polícia, no entanto, não estava ali apenas pelo suborno, mas também porque o bar reunia alvos fáceis para suas metas de detenção. Naquela época, a lei em Nova York exigia que qualquer pessoa vestisse pelo menos três peças de roupa adequadas ao seu gênero – ou pelo menos ao gênero que lhe havia sido designado em seu nascimento. Quem fugisse à regra podia ser sumariamente preso.
Como sempre, separaram gays de um lado, lésbicas do outro e "anormais" em um terceiro canto. Neste último grupo, se enquadravam drag queens, butches (lésbicas com características tidas como masculinas, algo como sapatões caminhoneiras em português) e qualquer outra pessoa que fugisse do padrão que os policiais identificassem como aceitável. A batida poderia ter seguido como qualquer outra, mas naquela noite as coisas não correram conforme o esperado. A humilhação e o excesso de violência da polícia, em especial com uma sapatão e três drag queens que resistiram à prisão, chegou a níveis insustentáveis e encarou as consequências: a clientela do bar encontrou forças para reagir!
Os relatos são incertos e é possível encontrar diversas versões dos fatos que sucederam a primeira pedra lançada na direção dos policiais, mas o que se sabe com certeza é que eles não contavam com a resistência e tiveram que se esconder dentro do bar. Na mesma noite e ao longo dos dias que se seguiram, vários protestos movidos não apenas pela sexualidade, mas também pela miséria, racismo e questões de gênero tomaram conta das ruas do Greenwich Village, bairro que servia como abrigo de diversas minorias marginalizadas na cidade.
O Stonewall Inn era um ponto de encontro popular para clientes de todas as etnias, orientações sexuais e identidades de gênero. Muitos dos protestos que eclodiram daquela noite refletiam essa diversidade e possibilitaram a redução da violência policial durante as batidas em bares gays (que continuaram acontecendo mesmo depois dos protestos); o fortalecimento da comunidade LGBT; e, mais tarde, a criação de importantes organizações políticas que levantaram bandeiras de causas gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.
A revolta que tomou forma a partir do dia 28/06/1969, data que atualmente marca a realização de Paradas do Orgulho LGBT mundo afora, é um exemplo extremamente simbólico do poder de resistência queer!
Hollywood prepara o lançamento de uma super produção sobre a revolta ainda neste ano. Mas, grande parte da comunidade LBGT já se colocou contra o filme, que deixa de fora os personagens principais, latinos, negros, trans e lésbicas, para entregar de bandeja o protagonismo heroico dos atos a um personagem fictício, gay e branco. Pra gente entender que essa luta ainda tem muito a conquistar...
· Personagens importantes que valem a pesquisa: Stormé DeLarverie, Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Miss Major Griffin-Gracy e Brenda Howard.
· fontes: www.shewired.com, www.ladobi.com, wikipedia, www.outhistory.com, www.ourqueerhistory.com.
sobre o título
guer·ri·lha (espanhol guerrilla) sub.
1. Tipo de guerra não convencional no qual o principal estratagema é a ocultação e extrema mobilidade dos combatentes, incluindo, mas não limitado a civis armados (ou "irregulares").
2. Movimentação híbrida, colaboracionista ou de enfrentamento com as forças regulares de determinadas organizações ou regiões.
3. Grupo de combatentes que efetua esse tipo de luta.
4. [Figurado] Oposição verbal ou psicológica prolongada.
queer (kwîr) (inglês queer) adj. queer·er, queer·est
1. Desviar daquilo que é esperado ou normal; estranho.
2. [Gíria | Ofensivo]: Gays, lésbicas, bissexuais, transgênero. Nota de Uso: Uma palavra recuperada é uma palavra que inicialmente era usada apenas como um insulto, mas que é semanticamente apropriada e reconstruída por membros do grupo caluniado, que a utilizam como termo de orgulho e resistência.
Queer é um exemplo de uma palavra submetida a esse processo. Durante décadas, queer foi usado como um adjetivo depreciativo para gays e lésbicas, mas na década de 1980 o termo começou a ser usado por ativistas LGBT como um termo de auto-identificação.
Eventualmente, queer se tornou um termo "guarda-chuva" para designar pessoas que não seguem o padrão da heterossexualidade ou do binarismo de gênero.