Ela tentou fugir, isso era certo. Cortar tudo aquilo e fingir que não existia, parecia mais frutífero. Não, não era. Mesmo assim, uma risadinha lhe escapava, quase em desistência. “— Não estava tentando escapar, até porque não estava me perseguindo.” A frase podia ser interpretada de muitos jeitos, sabia. Porém entendia que não tinha o tom ameaçador, até porque ele não faria nada. Não pelo menos que a machucasse, porque isso seria fazer o esperado. A aproximação não foi estranha, mas o toque… O toque sim. Seu corpo tremeu pelo súbito carinho, uma ternura que a apetecía. Era Eden, ela amava carinho. O rosto se inclinava de encontro com o que recebia, fechando os olhos. Tentou não amolecer, e não adiantou de nada. As palavras foram confusas e se obrigou a encara-lo novamente, analisando os traços de Bruno como se estudasse, procurando entender. “— Meu direito? Não diga essas coisas, Kozmotis. Não…não finja. Por favor.” Era a primeira vez que pedia, de fato, daquela maneira. O dedo descendo para acariciar seus lábios era mais um desafio, tendo de controlar para não reagir, não mostrar que parte de si…gostava. “— Porque eu tenho um homem que me ama, um homem que nunca me enganou e nem me usou.” Uma raridade, e não podia trair a confiança e o amor de Javert. Sentia gratidão demais por ele, não podia fazer isso. “— Se eu me entregar a você, não vai adiantar de nada, vai? Você vai simplesmente sumir, eu estarei arruinada e…..vai ser isso. Tudo que você quer é só me conquistar…de novo. Você já tem outra.” Suspirou, mesmo que não se afastasse, pois provavelmente só iria piorar para ela. Gostaria de aproveitar os segundos em que ele seria carinhoso.
❝Não estava?❞ Deixou a pergunta pairar no ar, um sorriso um tanto macabro lhe vindo a face, era curioso escutar aquilo de alguém quando ele era dito como o bicho papão, alguém que era temido e perseguia crianças inocentes. Ele era um monstro. Na concepção de todos, até mesmo de sua própria filha, ele não tinha perdão. “Emily esta morta... Ela morreu... Morta.” As vozes ainda soavam em sua cabeça em um lembrete doloroso, lhe confundiam e por um segundo a expressão neutra de Bruno se contorceu, um milésimo de dor podendo ser visto. Não dor física, mas emocional. Parte de ansiar por tocar na fada negra era pelo silêncio que se seguia em sua mente, como se ela conseguisse silenciar tudo que havia de ruim nele, por apenas um segundo ele voltasse a ser Kozmotis outra vez. ❝Gosto que me chame assim, faça outra vez, por favor.❞ Pediu fechando os olhos por alguns segundos, como se buscasse aproveitar aquele momento de silêncio quando tudo que podia ouvir era a voz dela e a própria. Quando os olhos tornaram a abrir para a encarar, estava recomposto e mais sério ao continuar. ❝Não estou fingindo, Nebula, sabe que não tenho motivações para mentir para você, sabe que anseio para lhe ter ao meu lado desde que lhe vi pela primeira vez.❞ E aquilo era a mais pura verdade, por que ele sentia o que ela era, até mesmo os piratas dos sonhos ansiavam por terem ela, por possuir a fada negra. A expressão se tornou desgostosa com as palavras alheias, rindo em escarnio. ❝Um homem que lhe ama? Que nunca lhe enganou e usou? Ele sequer lhe dá o valor que merece, se quer está do seu lado agora, não é?❞ Indagou agora a destra no rosto dela se tornando mais firme, conforme o outro braço a puxava pela cintura para que os corpos colidissem. ❝Ele sequer conhece sua mente? Sabe o que você pensa? O que sente? O que você realmente quer? Me diga, Nebula, ele sabe?❞ Indagou em tom firme, dando alguns passos a frente e a levando consigo para que pressionasse o corpo dela contra a parede fria. Os olhos escuros fixos no rosto feminino, em busca de uma resposta verdadeira, que ela dissesse que ele estava errado, deixou que a testa se unisse a dela fechando os olhos outra vez, alguns sussurros voltando a sua mente. ❝Eu sumir? Quando foi que eu lhe deixei? Você foi a única que não soube esperar, Nebula, que se entregou aos braços de um homem mesquinho e sem valor... Fiz o que fiz para que você não tivesse de lidar com os meus problemas, para que eles não machucassem você.❞ O eles em questão era um mistério, estaria se referindo aos guardiões ou aos piratas dos sonhos. “A possua... Devore tudo que ela é... Devore-a, Kozmotis.” As vozes falavam em sua mente e a expressão do rosto de Breu se retorceu outra vez, não queria ouvir aquilo, não queria ouvir mais nada. Ao abrir os olhos novamente, era visível a batalha no interior de sua mente, seus demônios tentando o corromper de todas as formas, devorando todo e qualquer sentimento que ele pudesse ter, o correndo de dentro para fora. ❝Eu tenho outra? Ela é importante para mim, sim, como você também é... Porém, cabe a você reclamar de algo quando ainda está com o projeto mal feito de humano? Não tem o direito de me julgar, Nebula... E sabe muito bem que não é isso, já lhe disse antes e lhe digo outra vez, sou incapaz de amar por minha condição, mas sei que se pudesse amar alguém, seria você.❞