O verde me abraçava como um urso gigante. Entre as frestas na copa das árvores, a luz branca cortava a floresta. O sol estava a pino, e os feixes de luz batiam bem no topo da minha cabeça. Eu podia ouvir o zumbido de um milhão de insetos ainda não descobertos pela ciência, o conversar de pássaros com mais cores que o próprio arco-íris e, apesar de não avistar nenhuma queda d’água, podia reconhecer seu som esmagando as rochas aos seus pés. Era alta.
Na mochila ainda tinha algumas provisões que poderiam ser úteis: um casaco, alguns lápis de cor e um caderno pela metade, com desenhos de aves e plantas. A água estava quase no fim, e eu já tinha comido todas as barrinhas proteicas que coloquei na bolsa ontem pela manhã. Por precaução tinha colocado as botas de trilha, e certamente elas me pouparam uma grande dor de cabeça.
Foi ao cair da tarde de ontem que me dei conta de que não tinha mais certeza de onde estava. Segui uma arara por alguns metros e me desviei da trilha, com a certeza de que saberia voltar. Quando dei por mim, a terra batida tinha dado lugar aos galhos e folhas umedecidos pelo orvalho e o arco de árvores que se formava sobre a trilha era agora um conjunto de troncos imensos e copas densas, roubando de mim todo o céu. A princípio pensei em gritar por ajuda, me sentar e esperar alguém mais experiente me encontrar. Quase que no mesmo instante me lembrei de todos os predadores que habitam uma floresta e disse a mim mesma que gritar não era assim tão inteligente.
Quando o sol se recolheu e deu lugar à lua, ele levou consigo o calor e toda a tranquilidade que eu sentia conseguindo enxergar a paisagem. Sem ver um palmo à minha frente, não conseguia saber se os barulhos que eu ouvia eram o farfalhar de folhas dançando no vento, uma cobra prestes a me abocanhar ou uma onça faminta. Percebi que minha melhor opção era me manter o mais imóvel possível, e me deitei sobre o casaco, tremendo de frio e de medo. Não dormi.
Amanheci acordada pelos mesmos raios insistentes que atravessam agora as copas das árvores, coberta de picadas inchadas e vermelhas, com um ninho mal feito no lugar dos cabelos e um bafo de quem não come há décadas. Coitado de quem me tirar daqui. Ficar parada no mesmo lugar não ia resolver meus problemas, portanto resolvi dar algum uso útil às aulas de geografia do ensino fundamental e me lembrei que o sol nasce a leste, e que se do outro lado é oeste, pra frente só pode ser o norte. Dei uma chance. Caminhei mais alguns metros para o norte, até que percebi que a mesma clareira voltava sempre a aparecer em meu caminho, as folhas em que eu havia dormido ainda meio amassadas no chão. Eu estava andando em círculos.
Frustrada, cansada e a beira de um ataque de nervos, mudei ade direção. Andei para o sul, entre galhos, espinhos e bichos que só tinha visto em fotografias do National Geographic, e eles me olhavam quase que com tanto espanto quanto eu olhava para eles.
Andando para o sul e para o oeste, fui me acomodando a um novo tipo de paisagem. As árvores já não eram mais tão altas, nem o verde das folhas tão bandeira. O cheiro de tronco partido e chuva dava lugar à um cheiro de maçã com mel e canela, quase como num chá da tarde, ainda que claramente não houvesse pessoas por perto. Andei um pouco mais e comecei a perceber arbustos com uma cor de folha nova, um verde de quem tinha acabado de nascer. A luz do sol não mais fazia feixes de luz, mas permeava todo o ambiente, deixando tudo num tom de amarelo muito bonito. O barulho da água foi se aproximando e para minha surpresa, a cachoeira era ainda maior do que eu havia imaginado e apesar disso, o lago que se formava em volta dela era extremamente calmo. Poucas vezes eu havia visto um azul tão belo. A luz do sol fazia cócegas na superfície estática do lago, fazendo com que de azul água do mar ele se tornasse de um azul prateado que me lembrava muito o vestido da Cinderela na noite do baile ou então os olhos de minha avó.
Pensei estar alucinando quando ouvi atrás de mim risos agudos e pequenos, quase tímidos. “Devo estar com fome”, foi o que pensei. Me abaixei para tomar um pouco de água do lago e qual não foi o meu desespero quando de dentro dele saiu essa criatura de forma humana, pequena o suficiente para ser confundida com uma boneca, com uns cabelos castanhos que caíam perfeitamente sobre o dorso, rindo e mergulhando diante de mim.
- “Bem vinda à casa do Fauno”, ela disse. E continuou: - “Tu tens o espírito puro, e por isso o vento te trouxe até aqui. Tens sede?”
Eu estava perplexa e assustada demais para responder, e me mantive paralisada enquanto piscava os olhos com força para fazer com que aquele absurdo desaparecesse. Quanto mais eu piscava, mais criaturinhas humanoides apareciam e se acercavam de mim, com seus olhinhos brilhando de tanta curiosidade. “Nunca devem ter visto alguém tão grande”, foi o que pensei. A ironia do pensamento me fez soltar um riso frouxo, e ao som de minha gargalhada, todas as criaturinhas rastejaram e correram para longe, se escondendo de minha vista.
Pisquei mais uma vez, esfregando os olhos. O lago estava no mesmo lugar, bem como as árvores e os arbustos; a cachoeira seguia cantando sua canção com as rochas e luz amarela continuava a embalsamar toda a paisagem. Me levantei com calma e cuidado, temendo esmagar alguém, embora não houvesse mais sinal de risinhos ou olhos curiosos. Bebi a água do lago e prossegui com a caminhada, até que finalmente avistei um pedaço de terra batida que dava sequência a outro e mais outro. Eu estava na trilha!
Corri para a cidade como se minha própria vida dependesse disso – e para alguém que havia comido apenas umas barrinhas proteicas, corri até demais. Mais tarde me dei conta de que a água do lago do Fauno deveria ter lá suas propriedades.
Algumas vezes ainda tentei voltar à casa do Fauno, andando sempre a sul e a oeste, porém nunca mais a encontrei. Tudo que sei é que sempre que saio da trilha em direção à floresta ouço o cantarolar da queda d’água e, embora eu nunca possa vê-las, escuto as criaturinhas humanoides rindo atrás de mim: um risinho agudo e pequeno.