Tratado das Portas que Não Existem
por Afonso do Intervalo
Há universos que não estão longe,
estão apenas do outro lado
de uma pergunta que ainda não sabemos fazer.
Chamamos distância ao que medimos,
tempo ao que perdemos,
impossível ao que não soubemos atravessar.
Mas eu, que nunca atravessei coisa alguma
senão noites,
penso que talvez o universo
não tenha paredes —
tenha hábitos.
E aquilo a que chamamos leis
seja somente a maneira antiga
de o infinito não se desmanchar.
Procurei então uma porta.
Não uma porta de madeira,
porque a madeira pertence a este mundo;
nem uma porta de luz,
porque também a luz obedece.
Procurei uma fenda entre dois acontecimentos,
um lugar onde o antes ainda não decidiu
que será antes,
e o depois ainda não aprendeu
a chegar depois.
Disseram-me: espaço-tempo.
Escrevi a palavra numa folha
e ela continuou sendo uma palavra.
Disseram-me: gravidade.
Olhei para o céu
e continuei preso ao chão.
Disseram-me: há equações
em que o tempo se curva sobre si próprio,
há túneis imaginados entre distâncias,
há mundos que talvez se multipliquem
quando uma possibilidade escolhe existir.
Mas nenhuma equação me disse
como bater à porta de outro universo.
Talvez porque a pergunta esteja errada.
Talvez não seja preciso atravessar o infinito.
Talvez seja preciso descobrir
onde dois infinitos se tocam.
Se cada universo for uma página,
não viajarei pela tinta.
Procurarei a dobra.
Porque duas páginas distantes
num livro aberto
podem quase se beijar
quando alguém fecha o livro.
E quem fecha o livro?
A matéria?
A gravidade?
O observador?
Deus?
Não sei.
Passei a vida inteira descobrindo
que minhas respostas eram perguntas
vestidas com roupa de domingo.
Ainda assim continuo.
Porque há alguém
que eu procuraria em todos os universos
mesmo que nenhum deles
soubesse que existimos.
E se para encontrá-la
eu precisasse aprender o idioma do tempo,
estudaria os relógios.
Se precisasse compreender o espaço,
mediria estrelas.
Se precisasse discutir com a causalidade,
perguntaria ao efeito
se ele realmente se lembra da causa.
E se no fim de todas as contas
a matemática fechasse a última porta
e escrevesse sobre ela:
IMPOSSÍVEL,
eu me sentaria diante dela.
Não para negar a ciência.
Não para fingir que sei
aquilo que ninguém sabe.
Mas porque há impossíveis
diante dos quais o homem descobre
a verdadeira medida de sua esperança.
Será que acreditar no impossível é mais forte do que qualquer conhecimento possível?Por esse sorriso eu vou até o fim!

















