Onde a Memória não Alcança
Onde está Maiara em mim?
No coração, eu diria,
se o coração fosse grande o bastante
para guardar tudo aquilo
que um encontro tão breve deixou.
Talvez esteja na memória,
mas memória parece pouco.
Memórias a gente procura —
e há dias em que eu não procuro nada
e, ainda assim, ela vem.
Talvez esteja no pré-consciente,
diria Freud,
esperando uma música,
um cabelo loiro,
uma fresta de sol no fim da tarde
abrir a porta sem avisar.
E então ela atravessa.
A voz.
O sorriso.
As histórias.
Aquele aperto de mão.
Tudo aquilo que já aconteceu
e que, por ter acontecido,
ninguém pode me dizer
que não existiu.
Talvez exista também
em algum lugar de mim
que eu próprio não alcanço,
onde ficam as coisas
que continuam nos movendo
mesmo quando não sabemos seus nomes.
Mas eu prefiro o coração.
Não aquele que bate no peito —
esse é pequeno demais.
Falo daquele outro,
sem anatomia e sem endereço,
onde algumas pessoas permanecem
depois que a realidade
já não sabe mais onde colocá-las.
Então, se alguém me perguntar
onde está Maiara em mim,
não preciso explicar Freud,
memória, afeto
ou os mistérios da consciência.
Posso simplesmente responder:
ela está onde sempre esteve
desde que a encontrei —
num lugar que eu não sabia que existia
até ela chegar.















