“Sim, algumas vezes, para ser sincero.”, falou sério e confiante. Se manter firme e sério perto de Eunji era fácil, pois ele estava sempre abusado com algo que ela tinha feito, brigando e discutindo com a mesma, então conseguia manter bem a pose de insensível e distante. Menos quando ela fazia coisas como aquela, como demonstrar algum vulnerabilidade que fosse, um olhar triste, um lábio estremecido querendo fazer bico, ou até mesmo a atitude de se distanciar dele, como foi o caso. Os olhos claros seguiram o movimento do corpo feminino ao se afastar, e o que deveria causar um pequeno alivio e talvez um sorriso no espanhol, teve a reação contrária. Ele conseguiu sentir o amargo na boca ao ouvir aquelas palavras que se completaram. Quando ele quis um bichinho, Eunji não foi contrária, passou dias falando com ele sobre o assunto, tentando entender o que melhor funcionaria para a dinâmica dos dois, até que concluíram que seria um pet de ambos, não só de Xavier e ele gostou disso, gostou da proposta de cuidar de algo com outra pessoa que não fosse Alfonso. E agora ele se via confrontado com isso, pois foi a primeira coisa em que ela pensou. “E-eu… Eu não sei, continuaríamos dividindo os dias, ele passaria uns comigo e outros com você, sei lá”, ele se sentiu amolecer um pouco. E não era a mesma coisa e ele sabia disso. O furão não ficava uns dias com Xavi e outros com ela. O animal ficava livre pelo alojamento, e sempre dormia no quarto de quem ele parasse por último, as vezes no de Xavier, as vezes no de Eunji e as vezes tomava conta do sofá e não deixava ninguém se aproximar. Percebeu a tristeza na feição da coreana, e deu um passo a frente, tentando se aproximar, mas travou ao ouvir as palavras duras outra vez. “Aaah claro, bancos novos uhn? Isso é prova de que a praça é mais organizada que nosso alojamento, e vai ser mil vezes melhor dormir lá”, retrucou voltando a se fechar, lutando para ignorar o tom que tão bem conhecia, e que só surgia nos momentos em que ela estava com medo, ou triste, ou desapontada. O que poderia ser tudo isso ali. O tom que geralmente fazia Xavi abaixar as barreiras, e puxa-la para dentro, acolhe-la em um abraço e tratar com o mesmo carinho que tratava suas amigas de infância. “nossa, Eunji, ótima ideia, juro que vou considerar numa próxima vez”, completou, sorrindo descaradamente forçado.
Fora triste perceber que Xavier estava falando sério. Pior ainda saber como tinha ficado triste. “Guarda compartilhada, é?” Eunji quase riu. Quando aceitou o bichinho, jamais imaginou que Xavier partiria algum dia. Bem, havia uma possibilidade, mas a coreana considerava tão ínfima que não pensava demais. Uma parti de si gritar gritar e espernear, dificultar as coisas com ele para que não partisse. O que havia com os meninos da Espanha para que Eunji se sentisse tão dependente deles? Ali estava ela, com um rapaz do qual nem gostava tanto, triste pela ideia dele ir. No entanto, possuía orgulho o suficiente e experiência o bastante de disfarçar suas reais emoções para que sustentasse uma expressão de desdém... ou pelo menos era isso o que achava. Qualquer pessoa que prestasse um pouco mais de atenção poderia notar seus amendoados olhos tristes. “Então vai, Xavier. Fique com seu irmão, noiva, sei lá.” Deu de ombros, como quem pouco se importava. “Se quiser eu te ajudo a fazer as malas. Podemos ir para o dormitório agora mesmo.” Ofereceu, embora a vontade fosse de apenas dar as costas e deixá-lo para lá. “Mas não me procure quando ninguém quiser fazer sessão de skincare com você ou quando sentir falta da minha panqueca de tomate e...” Certo, a panqueca de tomate não era tão boa e comer qualquer coisa preparada por Eunji era um risco a saúde, mas ao falar a princesa percebeu como era triste perceber que precisava muito mais da companhia dele do que ele precisava dela. Todas as pessoas próximas possuíam um lugar de destaque e importância na vida de Eunji se uma delas saísse, ameaçaria o delicado equilíbrio que sustentava sua sanidade. Sem família, apoiava-se em todos os amigos que deixavam sua vida mais fácil e feliz. Nunca tinha pensando em Xavier como um amigo até aquele momento. “E não me procure quando tiver pesadelos e não tiver ninguém para abraçar ou não tiver companhia nas noites de insônia e para assistir os filmes ruins.” Fala mais de si mesma do que de Xavier, porque era ela a procurá-lo durante as noites de tempestade, era ela a convidar para assitir filmes ruins e quando queria um abraço após um pesadelo. Como uma criança assustada, constantemente se esgueirava para o quarto do colega em busca de companhia, de sentir menos sozinha, apenas para retornar a implicar com ele na manhã seguinte, deixando de lado a cumplicidade de horas antes. “Pode ir, não vai fazer falta mesmo.” A mentira estava clara em seu tom e palavras.