A gente bate as cabeças tentando se amar. É a condição humana.
Quanto tempo a água leva para evaporar? Quanto tempo? Assim, em milésimos de segundos. Quanto tempo leva para nunca mais haver nenhum rastro de água ou umidade por ali? Quanto tempo até sumir completamente que, para qualquer transeunte que encontra aquele antes-rio, não se questione jamais se havia ou não água ali? Um ano? Uma semana? Algumas horas, dependendo das condições climáticas? Eu te pergunto porque você sempre soube tudo sobre ciência e foi-é uma das pessoas mais inteligentes que já passaram pela minha vida, então: quanto tempo leva? Se o rio não está mais ali, se a gente só pode lembrar do rio, mas nunca o ver, nunca mais sentir como era gelado entrar na água, nunca assistir como os peixes nadavam felizes -- mesmo sem conseguir definir a felicidade dos peixes (a gente sabia que eles nadavam felizes), o rio não existe mais? Veja bem, eu sei que ele existe, ainda, no nosso imaginário, que existe nas lembranças boas e ruins. Até na lembrança dele secando com o sol que batia cada vez mais forte e as temperaturas que subiam e a chuva que nunca mais caiu, na lembrança da dor, da angustia, da falta do rio que já não existe mais fisicamente, da água que já não bate nos nossos pés. Mas, você que é tão inteligente e entende tanto da ciência dos rios e das pessoas, será que é possível que o rio volte a se encher de novo? Não outro rio, não um rio do outro lado da rua ou do outro lado do mundo. Eu quero dizer o mesmo rio. Será que ele suportaria? Será que ele espera que caia a chuva e que a água, que uma vez foi tão amiga, para ele retorne? Será que ele já não espera mais nada porque já morreu? Será que o fantasma do rio ainda vaga rezando pelo dia que ele vá ressuscitar? Você disse: “a gente gostaria de saber o que sabe agora pra viver uma época específica”. Hoje fez um calor infernal, mas só restou o buraco no chão, sem água, sem vida, que eu já não consigo mergulhar.