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acho que vocĂȘ fez dos retornos a cada ano um ritual: isso de alguma forma te trouxe paz? provĂĄvel que na primeira vez ainda fosse sobre mim ou sobre nĂłs, mas na sexta ou sĂ©tima, eu jĂĄ havia esquecido sobre a histĂłria da sua cicatriz horrĂvel no cotovelo. eu parei de imaginar quantas pessoas hoje em dia moram naquele apartamento. se ele ficou bonito e confortĂĄvel e se continua dando pra ver o sol se pondo no fundo. a verdade Ă© que eu poderia ter amado vocĂȘ pra sempre ou pelo menos o palpite. eu poderia ter escutado todos os seus erros se vocĂȘ me fizesse acreditar na lição de cada um e nĂŁo em como conseguiu escapar. porque toda a ausĂȘncia foi fuga e eu nunca vou esquecer as chances, sabe? teria sido mais bonito a renĂșncia da oportunidade e nĂŁo o desperdĂcio. eu sentiria orgulho da sua coragem, mas agora Ă© como se eu nunca tivesse vocĂȘ descobrindo meu primeiro gosto. eu sei que alguma hora vai ler isso e eu espero que nĂŁo me pergunte o que significa porque parar de escrever sobre vocĂȘ ainda foi o melhor presente que eu te dei. a minha palavra Ă© boa, mas o meu silĂȘncio Ă© incrĂvel. a força das nossas pernas unidas e dos nossos coraçÔes imersos conseguiria brotar raĂzes em calçadas. quando foi que acreditou que seria melhor atravessĂĄ-las pra longe de mim? vocĂȘ Ă© uma nĂłdoa imensa no meu peito.
era pra ser teu aniversĂĄrio. queria que lembrar da gente nĂŁo fosse tĂŁo pesado assim porque se alguĂ©m no mundo pudesse ter cheiro de nuvem baiana no pico de janeiro seria tu. vocĂȘ sabe do que eu estou falando. Ă s vezes eu fico parada pensando na saudade acumulada como poça no meu peito e sei lĂĄ nĂŁo cessa. sinto que estou sempre atravessando uma represa e nunca chego do outro lado. vocĂȘ nĂŁo estĂĄ do outro lado e me pergunto se toda essa minha força pode salvar algo alĂ©m de mim. deveria bastar, mas hoje nĂŁo. voltei pra casa por um tempo. aqui eu sempre tenho a impressĂŁo que seu nome vai esbarrar alguma hora no meu ouvido e nĂŁo vai doer. e doi. como se eu tivesse tomado sereno e vento na orelha a noite inteira. o dia amanheceu diferente desde que vocĂȘ se foi. eu sei que pra geraldo da padaria da esquina os pĂŁes continuaram assando Ă s quatro da manhĂŁ, Ă© que dentro uma chave girou e abriu pra lugar nenhum. a concha do meu coração jĂĄ nĂŁo faz aquela onda que um dia vocĂȘ ouviu.
eu queria, de verdade, pensar em vocĂȘ com o carinho de quem lembra de uma viagem inesquecĂvel pro nordeste do paĂs. sabendo que mesmo voltando para lĂĄ, nunca vai ser igual. por isso, na maior parte do tempo, eu me asseguro de nĂŁo voltar para vocĂȘ de nenhuma forma. eu jamais vou conseguir repetir qualquer Estado. eu te coloquei num lugar tĂŁo inencontrĂĄvel a fim de evitar que essa maresia enorme do tempo e da memĂłria afiada consigam acabar com tudo, embora Ă s vezes eu sinta como se jĂĄ tivesse acontecido. hĂĄ uns dez anos, eu achava que o amor era uma dessas fontes renovĂĄveis e que nenhum erro humano poderia dizimar elos naturais. eu realmente queria que eu nĂŁo precisasse esquecer o que vocĂȘ fez. vocĂȘ Ă© como encontrar uma chave qualquer enquanto arrumo a casa. a gente nunca sabe que porta ela abre. o que fazer com o que ficou de algum lugar que parecia habitĂĄvel e conhecido. mas deixa ali. porque vai que.
a sua pele começou a desbotar como um por do sol. eu tentei durante muito tempo achar a força disso bonita demais. nĂŁo consegui, eu sei. eu desenhei o seu rosto com uma frase do joĂŁo cabral de melo neto* e colei na minha parede. era doĂdo perceber que mesmo assim vocĂȘ estava me ajudando a derrubar todos os meus muros. quando vocĂȘ se foi, ainda no inĂcio do ano, pensei em como nem todo começo Ă© bom. era difĂcil imaginar como eu chegaria no final da linha de 2016. durante alguns meses, eu ainda podia ouvir o barulho de vocĂȘ destrinchando cartelas. eu sabia que nĂŁo estava lĂĄ, mas o som das coisas era bem maior do que o gosto delas. isso parou quando saĂ de casa. agora vocĂȘ nĂŁo fazia estrondos. continuava faltando paz. lembro dos dedos com nĂłdoa de andu. o cĂ©u tĂŁo estrelado como se tivesse acabado de nascer. te via de longe na cabeça da ladeira. nĂŁo era nada grave no começo. mas aĂ eu precisei conhecer outras cidades com vocĂȘ. grandes. a nossa era pequena demais pra descobrir o que havia de errado contigo. depois atĂ© encontramos, sĂł que isso nĂŁo deixou nada certo. Ă s vezes penso que eu queria te mostrar que moro perto do mar. que meu gato nunca deitaria na rede contigo. que aqui nĂŁo tem farinha boa e que as pessoas nĂŁo dĂŁo bom dia. queria te perguntar como tira aquela mancha de vinho da manta do sofĂĄ. as receitas da internet nĂŁo me ajudaram. vocĂȘ saberia me dizer. que a minha saudade possa respeitar o seu fim e acima de tudo, celebre-o. vocĂȘ esteve aqui.
p.s.: *âo amor comeu meu medo da morteâ.
gfc

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querida b.,
desde que vocĂȘ me prometeu na virada de ano novo que nos verĂamos pelo menos uma vez ao mĂȘs tenho pensado muito na gente
quando nos conhecemos, eu passei um tempo tentando entender que tipo de lugar ocuparia na minha vida
no intervalo da faculdade, sempre que eu sentava propositalmente no meio dos bancos, eu sabia exatamente que ninguĂ©m teria coragem de pegar a ponta direita ou esquerda porque Ă© preciso de coragem pra chegar perto do outroÂ
mas vocĂȘ preencheu esses espaços e entĂŁo,
entĂŁo eu entendi
nĂłs nunca fomos nada alĂ©m do que deverĂamos ser e por isso nĂłs funcionamos hĂĄ tantos calendĂĄrios que eu precisaria de mais de uma parede para pendurĂĄ-los
eu guardei dentro da minha cama baĂș aquelas duas pĂĄginas que me escreveu
eu sei que elas podem não fazer sentido nenhum hoje em dia, mas eu gosto de ter a sensação nas minhas mãos de que consigo tocar o tempo em que algumas coisas ainda existiam
vocĂȘ estar aqui me lembra de quando uma parte de mim tambĂ©m existiaÂ
(obrigada por isso)
eu sei que tem uma porção de detalhes que se perdem enquanto a gente cresce porque nem sempre tem como acompanhar todos os passos de todos os caminhos, inclusive daqueles que não pegamos
como uma fruta que se desmancha no cesto da cozinha, bem debaixo da nossa guarda: nĂłs tentamos sentir o gosto do que deveria somente amadurecer
em qualquer um desses nossos encontros, eu vou te explicar que eu tive histĂłrias que nĂŁo viraram grandes amores
e na maioria das vezes foi porque eu achei que nĂŁo deveria
que eu dou muitas chances, mas que eu nĂŁo rebobino a fita do fim
que eu tento polinizar todos os lutos que deixaram as minhas emoçÔes praticamente infĂ©rteisÂ
que tem dias que Ă© difĂcil continuar, mas que esses dias quase nĂŁo amanhecem mais na minha rua
que eu ainda tenho medo e que seria bem mais simples se fosse do escuroÂ
que eu agora conseguirei reconhecer o que Ă© cuidado e que ele, afinal, tem um gosto bom
e que se eu tivesse que estar em um lugar ouvindo uma lĂngua que eu nĂŁo faço ideia do que signifique, com certeza seria com vocĂȘÂ
eu quero estar lå quando tu descobrir o que o mundo ainda tem pra nos oferecer além de sangue,
suor
e lĂĄgrimas.
e se eu me apaixonar por vocĂȘ? e se eu quiser conhecer seu novo apartamento e se eu quiser assistir o jogo do flamengo e se eu aceitar os presentes que vocĂȘ quer me dar? e se eu gostar de vocĂȘ? se eu chacoalhar meu corpo na cama cada vez que vocĂȘ diz a coisa mais idiota do dia? se eu me apaixonar a ponto de te escrever? de fazer todo mundo que eu conheço saber quem vocĂȘ Ă©?
tu tĂĄ pronto?
eu quero mesmo saber. eu quero mesmo que vocĂȘ me diga que suas promessas nĂŁo sĂŁo sĂł palavras
mas diga-as agora
o que vocĂȘ vai fazer? se eu me apaixonar por vocĂȘ?
"eu gostaria que essa fosse a Ășltima vez"
foi isso que eu disse. nĂŁo sĂł no texto, mas pra vocĂȘ, antes de ir. e porque o universo Ă© bonzinho e o karma uma boa vadia, pude ter a certeza de que de que aquela foi, de fato, a Ășltima, algumas semanas depois.
fizemos escolhas naquela noite. escolhas que pareciam Ănfimas, mas que poderiam ter ditado todo o resto das nossas vidas e perceber isso de forma tĂŁo violenta, acho, foi o que eu precisava pra entender que eu nĂŁo podia ignorar a realidade sĂł porque eu nĂŁo era capaz de ignorar o amor
porque bem, sempre foi isso, certo?
te amava entĂŁo todo o resto era simplesmente manipulĂĄvel. se eu tinha o amor, era me permitido ceder
sĂł que, baby, a vida real... ela...
nunca cede.
e nĂŁo Ă© como se eu estivesse numa guerra, acredito que jamais estivemos em uma. a questĂŁo Ă© que somos inviĂĄveis, entĂŁo do que adiantaria
vocĂȘ dizer que me amava enquanto me fodia ou as lĂĄgrimas que desciam pelo meu rosto quando eu te respondia "eu tambĂ©m"
do que adianta?
tu escolheu nĂŁo lidar com os traumas. tu escolheu.
entĂŁo foda-se o quanto o amor me fez ceder.
nada nunca vai ser maior que todas as concessÔes que não foram feitas ainda
porque vocĂȘ nĂŁo as farĂĄ, nĂŁo por mim
e o seu amor, coitado... o seu coração...
oh. deus.
Ă© absurdo o quanto vocĂȘ estĂĄ mais fodido que eu.
eu gostaria que nunca tivesse me amado. é sério. eu preferiria que nunca tivesse me amado.
porque nĂŁo importa o quanto me doa toda essa histĂłria,
ela sempre serĂĄ sobre o que vocĂȘ perdeu
bom dia âĄ
Que sempre seja bom <3
Talvez eu nĂŁo deveria ter aberto aquela gaveta
E te entregado tĂŁo facilmente todas as folhas velhas com meus pensamentos
Acho que foi a falta de sanidade, da minha parte
Que levou a acreditar que algo tĂŁo meu
Poderia ser compreendido pelos seus olhos cinzas de pĂłs crepĂșsculo

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gfc
vocĂȘ disse que tinha uma praça perto dali e eu esperei pra ver atĂ© onde poderia chegar
sabendo que nĂŁo existia nada parecido por aquelas ruas eu nĂŁo fiz questĂŁo de comentar como eu havia decorado todas elas
o final do caminho nĂŁo era tĂŁo importante se na estrada eu estava contigo
eu fiquei com medo da avenida escura e vazia
sĂł eu vocĂȘ
e meu cuidado pousando na sua nuca com a mĂŁo ainda gelada do guaranĂĄ que bebi
enquanto vocĂȘ chegava cada vez mais perto
encontrei alguém que eu conhecia, antes que eu ficasse contra o muro
Ă© engraçado como os acasos acontecem mesmo que a gente esteja em uma das capitais do paĂs
nĂłs do outro lado da cidade
banhei duas vezes e seu perfume continuou entre os meus dedos
foi muito fåcil rir contigo apesar de todos os olhares esperando que déssemos algum passo em falso ou só qualquer um
ainda somos duas garotas
ps: na prĂłxima espero que eu consiga ver a sua tatuagem nas costas
gfc
As vezes eu queria que alguém visse todos os textos que eu escrevi e rasguei a folha depois, as vezes eu queria contar pra alguém tudo aquilo se passa aqui dentro da minha mente perturbada, as vezes eu queria conseguir me abrir pra alguém de verdade e abandonar essa sensação de que não deixo ninguém me conhecer de verdade. As vezes, só as vezes minha vontade é ser mais transparente mas parte de mim lembra que tudo que é de vidro, hora ou outra quebra e eu ja estou em cacos o suficiente pra correr esse risco.
tauc.
Ă que tu disse que me amava com intensidade, na mesma medida em que distorcia a verdade Ă meu respeito em seu favor!
Isso Ă© qualquer coisa, Ă© tudo, menos amor!

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sinto que a cada dia que passa eu te desconheço um pouco mais, e eu realmente não sei como reagir a isso.
[âŠ]
a toxidade estĂĄ em todos nĂłs. julgar Ă©, no mĂnimo, muita hipocrisia.
â substanciado