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A Grief Observed, C.S. Lewis
WHY ARE YOU HAUNTED?
A survey
Onde: Jardim de Thornhill.
Quando: perto das 12h
Milo manteve sua melhor expressão de ator enquanto levava a xícara de chá aos lábios, saboreando o líquido quente na esperança de que isso lhe trouxesse alguma lucidez naquele lugar deplorável. Ir até sua antiga casa havia sido, sem dúvida, um dos piores erros desde que decidira voltar a Thornhill. Passou a noite inteira atormentado por pesadelos - preso naquele lugar, incapaz de sair, fadado a ser um mero jardineiro e empregado pelo resto da vida. Um verdadeiro pesadelo.
Foi arrancado de seus devaneios pelo som de passos se aproximando. Balançou a cabeça em um cumprimento discreto, abaixando a xícara antes de soltar, com ironia:
— Eu diria "bom dia", mas acho que nem a Srta. Banks está tendo um bom dia.
“E alguma vez ela pareceu ter um?”
Richard Thornhill puxou uma das cadeiras, posicionou-a meio virada para que ele não se sentasse totalmente virado para a mesa, mas tendo vista do resto do jardim. Quando tomou assento, uma perna cruzada sobre a outra, tirou o bolso e colocou sobre a mesa sua cigarreira metálica, buscando seu isqueiro em sequência. “Mas parece coletivo essa manhã, não? A noite não foi descanso suficiente para matar o desgaste da viagem? Todo mundo está meio… tenso.” Mas não ele. Richard parecia estranhamente despreocupado. Olheiras, sim, mas um rosto que vira o brilho de uma navalha naquela manhã, cabelos bem penteados e posicionados no lugar com gel. Parecia casual naquele seu confortável suéter de casimira azul, mangas puxadas a altura dos cotovelos. Prendeu o cigarro entre os lábios, testou a chama e a cobriu com a mão contra o vento até que pegasse fumo. Inclinou-se para trás, costas contra o encosto, no primeiro trago, parecendo lembrar da presença de Milo. Olhou-o. Parecia muito bem.
Tudo o que sabia do sujeito se limitava a duas coisas: que era filho do jardineiro, que costumava seguir Lydia como uma sombra persistente. O garoto que Richard fora não o odiava, mas certamente o considerava uma ameaça. Lydia fora uma criança frágil como a folha de outono prestes a se desprender, e de repente havia alguém incentivando-a ao perigo que era o mundo externo. Na época, Richard não conseguia associar aquela sensação de formigamento na pele a um constante estresse causado por excessiva preocupação, ele associava a raiva, às vezes ao medo, mas principalmente raiva. Raiva era melhor do que qualquer outra coisa. Suas memórias eram uma bagunça disforme, mas ele tinha quase certeza que pelo menos uma vez mandou Milo deixar a irmã dele em paz, assim como mandara Cassandra ficar quieta, pois ele não queria ouvir o que ela tinha a dizer a respeito da casa. Deus, ele fora terrível... Como Edmund e Daphne haviam o tolerado, era ainda um mistério. Será que Milo ainda tinha suas ressalvas para com Richard, ou será que ele havia colocado aqueles desentendimentos como águas passadas? Eram adultos, não eram?
“Como está seu pai?” quis saber, mantendo a conversa naquele tom impessoal. “Charles me disse que ele vive agora na vila. Você deixou Thornhill, não deixou? Londres?”
starter aberto, no jardim de thornhill às onze horas da manhã.
aviso de conteúdo: uso de substância ilícita.
ele se vê no espelho e a cena é deplorável; não foi a luz do abajur que o manteve acordado, foram aquelas formas contorcidas e as vozes que, pelo sibilar umbroso, não soavam convidativas. os benzodiazepínicos não serviram de nada, quase como se tivesse tomado um placebo. nunca conseguia prever quando os pesadelos iriam atacar o subconsciente, já havia tentado encontrar um padrão, dias e dias sem dormir, mas eles pareciam ter vida própria. não ligou para as manchas abaixo dos olhos que começavam a enfeitar a feição nada amistosa. encheu o copo com a água da pia, imediatamente o levando até a boca após engolir os três comprimidos analgésicos — queria exterminar a dor de cabeça cuja a latência parecia piorar com o passar dos minutos. victor seca o corpo e larga a toalha sobre a cabeceira da cama e não demora para colocar a roupa. contrariando a moda vigente, preferia usar cores sóbrias e optou pela calça marrom escuro e blusa de gola alta preta. perfeitamente vestido, já deveria ter descido para o café da manhã. entre quatro paredes, victor separa uma única fileira do pó branco e inspira com vontade, jogando a cabeça para trás e ardência corre por sua pele, enquanto o cômodo parece ser consumido pelo cheiro desagradável. o mau humor proveniente da noite mal dormida desaparece, a falsa sensação de bem-estar apoderando-se de seu corpo.
a lembrança vem como um leve sopro. ele nunca gostou dos domingos em thornhill, mesmo que adorasse tomar o chá preto com leite após o culto insuportável. lembrou-se das vezes em que recebeu sermão da senhora banks após profanar a igreja com seus comentários ácidos e cheios de rancor. porém, na memória, a velha não parecia tão insana como agora. quase podia se ver cochichar no ouvido de daphne enquanto dividiam um pedaço de bolo de chocolate, a língua quase sentiu o gosto doce; que havia se tornado amargo, quase podre. victor cruza as pernas e deixa a fumaça de cigarro ir com o vento antes de afundar o que restou dentro de uma xícara de chá perfeitamente cheia. da sua xícara com café preto e leite, a mesma escolha de quando era criança, mas sem guimba de cigarro, ele dá um pequeno gole. ‘ se eu fosse você não beberia isso. ’ aconselha quando muse se senta na cadeira ao lado e tenta beber do líquido agora estragado.
Oh, claro. Que tolice a dele.
Richard não foi nada menos do que cirúrgico ao pescar com um garfo a bituca do cigarro cruelmente afogada na xícara de bom chá preto. Fez-o com uma calma digna de santo, dispôs a peça úmida sobre o pires e deitou o garfo sobre a mesa. Então, num movimento, trouxe a xícara para trás e despejou seu conteúdo estragado sobre a grama, sacudindo até a última gota. Depois, pegou a bituca nos dedos e— “Da próxima vez que fizer isso, derramo o chá em você.” —atirou-a em Victor com um peteleco. E sorriu, inclinando-se para trás contra o encosto da cadeira, olhos azuis brilhando com aquela luz do outono.
Descera para o café da manhã em bons espíritos, creia, tal qual um homem com uma missão, mesmo que aquele dia de domingo prometesse apenas ociosidade e o consequente tédio. Seus sonhos vermelhos haviam retornado naquela madrugada, mas não era desculpa o suficiente para um dia ruim. Não estava mais ansioso para o primeiro cigarro do dia. Havia queimado-o na reclusão do jardim das rosas, observando as flores naquela atmosfera carregada com um aroma melífero que flertava com o ar de um funeral, pensando que deveria colher algumas delas para deitá-la mais tarde sobre o túmulo dos pais, lá no cemitério. Sua mãe amava rosas brancas, se ele lembrasse bem (era um fato, ou ele havia imaginado? Difícil dizer), já seu pai… Mm, não. Memórias ruins. Enfim, não passava de um ritual dos vivos, de qualquer maneira, mas ele era sentimental. Richard sabia que deveria ir até lá, ou se arrependeria profundamente mais tarde de ter passado por Thornhill e não visitado seus mortos. Maldito lugar.
Mas não precisava ir naquele instante! Naquele instante queria aporrinhar alguém, tomar chá e comer mais biscoitos amanteigados que a Sra. Banks outrora o permitia naquela juventude em Thornhill (Ela nunca largara do seu pé, sempre o lembrando de que «Não pode se comportar como um qualquer!» Como se um doce a mais fosse causar um escândalo e sua consequente expulsão do pariato.). Naquele instante, buscou uma xícara limpa ao alcance da mão e o bule para preparar para si uma bebida quente, sem ingredientes desagradáveis desta vez. “Victor Frankenstein…” ele brincou, sílabas prolongando-se sobre a língua, teatral. Na verdade, era porque não se lembrava do sobrenome deste Victor, mas a boa referência cobriria o seu deslize, mm? “Espero que essa casa velha lhe tenha sido gentil em sua hospedagem. Não foi comigo. Tive que respirar mofo a noite inteira.” Afinal, essa era a sua única complicação provinda da noite. Afinal, ele não tinha acordado num rompante de pânico, mãos trêmulas, respiração presa na garganta, coração explodindo no peito. Afinal, seus sonhos não eram uma costura de organismos distorcidos, rostos deformados e olhos afogados uma tristeza que não cabia no mundo, e vermelho, vermelho como o sangue, como a violência, como o seu luto. Olhou Victor, deixou que seus pensamentos escorressem para um canto seguro da sua mente, concentrou-se no momento. Ele era excelente em fingir. “É bom tê-lo aqui.”

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The Crooked Kind, música por Radical Face.
eu encontrei você. um pensamento na sua mente, como uma tocha entre as névoas.
ele sorriu de canto quando richard mencionou londres, a capital da velha grã-bretanha. era típico dele transformar tudo em uma constatação quase irônica, como se estivesse acima da nostalgia, acima da saudade. mas a maneira como seus dedos passaram pela mesa, como se tentassem captar algo perdido, entregava mais do que suas palavras.
“— então é lá que o rei ergueu seu novo castelo.” sua voz não tinha o tom provocativo que poderia ter, apenas um cansaço genuíno. “— acho que faz sentido. sempre gostou de estar onde as coisas acontecem.”
edmund soltou um suspiro leve, recostando-se melhor contra a parede. quando richard lhe desejou que a vida tivesse sido gentil, ele sustentou o olhar por um instante, como se tentasse decifrar se havia verdade ali ou apenas despedida. então, com um meio sorriso carregado de algo indefinível, respondeu. “— ela foi… e não foi. como acontece com todo mundo, imagino.” desviou o olhar, os dedos tamborilando levemente contra a moldura da janela. edmund permaneceu em silêncio por um instante, absorvendo os movimentos de richard como quem analisa os restos de uma ruína que um dia foi lar. a biblioteca, a mansão, a amizade – tudo parecia ter se tornado apenas um eco distante do que já foram. e richard… richard não era mais dickie. ou talvez fosse, mas escondido sob camadas de algo que edmund não conseguia alcançar no momento.
ele inclinou ligeiramente a cabeça, estudando o outro com um olhar difícil de decifrar. não havia raiva ali, nem amargura, mas algo mais sutil – então, a voz da senhora banks soou no corredor, avisando que a janta ficaria pronta em alguns minutos.
edmund se afastou da janela enquanto os sons dos passos dela ecoavam fora da porta antes de desaparecer pelo corredor. “— e espero que a vida não tenha sido tão dura com você.” então, sem mais nada a dizer, hawthorne cedeu o espaço e caminhou até a porta. “— depois de tanto tempo, é bom te ver novamente, thornhill...” seus olhos se prenderam aos de richard por um breve momento, como se tentasse enxergar algo familiar sob a superfície polida do homem que richard havia se tornado, e logo em seguida, deixou seu olhar vagar pelo espaço ao redor. aquele universo que um dia havia pertencido a ambos. “— eu acho.” a voz saiu como um murmuro, sem necessidade de ser mais do que isso.
não era uma despedida, nem um adeus definitivo, mas um reconhecimento do abismo entre eles. deus, ele faria de tudo para retomar ao passado.
Rá! Apesar do tom de Edmund, Richard soltou um riso anasalado. Aquela velha brincadeira outra vez… Um pouco mais e ele podia ver a cena novamente. 1939, guerra. Seu pai do lado de fora o segurando pelos ombros, dizendo-lhe para cuidar das irmãs, pois era o homem da casa agora. Sua última memória do homem, a passagem da coroa. Richard não sabia e não saberia por alguns anos vindouros, mas desde aquele momento havia um novo Barão em Thornhill, um novo demais para fazer uso da coroa, para suportar o peso. Richard agora entendia que o pai nunca pretendera sobrecarregá-lo com aquelas palavras, mas Harry deveria saber melhor. Crianças acatam quaisquer palavras provindas daqueles que elas consideram o seu mundo, se quebram e se reconstroem ao redor delas. Desde aquele dia, Richard se vira como a cabeça de Thornhill. Um rei. Em sua vaidade infantil, idealizava-se como o Coração de Leão — grande líder, bravo soldado, o homem sem medo. Mas o medo lhe era um companheiro constante, seguindo-o pelos corredores de Thornhill, escondendo-se sob sua cama, olhando-o das sombras. Então Richard fingia não o ver, fingia ser aquilo que precisava ser. E era essa a grande diferença entre ele e Edmund, pois aquilo que Richard precisava fingir vinha de forma natural para Edmund. Garoto soldado, com um coração de leão e uma mão firme para sustentar os outros. Um garoto sem sangue azul nenhum, sem toda a criação e tutelagem de Richard. Richard não tinha a memória de olhá-lo e invejá-lo, mas ele tinha a lembrança do sentimento, de querê-lo por perto. Reis são assim: aquilo que eles cobiçam, eles tomam. Richard manteve Edmund como seu melhor amigo, como seu cavaleiro, apoiando-se em sua força. Deu de ombros. “Cada qual faz aquilo que lhe cabe.” E às vezes não é o bastante. “É a vida de cada homem.”
E a dele era particularmente irônica, se podia dizer. Tanto poder e influência e, ainda assim, Richard era alguém acorrentado por grilhões que ele próprio forjara. Ele sequer questionava a sua própria condição, apenas vivia e a vida acontecia enquanto ele corria para fazer coisas acontecerem sem uma finalidade real. Um ciclo vazio. Mas Richard Thornhill ainda era Richard Thornhill. Vestia ternos costurados sob medida, usava perfumes caros, bebia Macallan com os figurões de Londres, tinha um assento no próprio governo do país e ações que impactavam o produto bruto interno. Não havia o que reclamar.
Quis perguntar sobre a vida de Edmund mediante a menção. Todos aqueles anos… Mas não tinha o direito, nem a intimidade. Ainda assim, não parecia certo não saber, pois não tinha meios de sequer ajudar. Richard, em todos os seus defeitos, sempre desejou a todos que amava a melhor das vidas. A sua própria fora sacrificada para dar às irmãs tudo o que elas queriam, para preservar o nome da família. Era a sua natureza, achava. Talvez o trabalho de um cavaleiro seja sempre preservar, mas o de um rei é o de sempre fazer sacrifícios. E parecia terrivelmente injusto para Richard, mesmo que acontecesse com todos, ter o conhecimento de que o outro não teve uma vida completamente gentil. Edmund, de todas as pessoas, merecia. O eterno protetor em Thornhill. De qualquer maneira, a voz da Sra. Banks cortou o ar e quebrou o momento. Maldita mulher, mas ela o poupou da agonia de uma boca vazia de palavras.
Quando olhou para a entrada num instinto era quase um menino outra vez, pego numa travessura, mas ao olhar Edmund novamente, era um adulto. Edmund passou por ele até a porta. Dickie teria o caçado pela manga da camisa, feito-o ficar. Richard permaneceu onde estava, mesmo borbulhando por dentro com aquela ânsia de sentar com Edmund e lhe contar todos os seus segredos, todos os seus desesperos… Não, minha vida foi cheia de possibilidades e eu estraguei cada uma delas. Ou talvez, sim, mas sou um Thornhill e, portanto, amaldiçoado. Perdi duas mulheres incríveis porque sou um idiota. Lydia não fala mais comigo; a culpa é minha e isso me mata por dentro. E, sim, eu ainda procuro o seu rosto numa roda de amigos para ver se você riu com a piada, somente para encontrar o vazio que você deixou. Porque tive quatro grandes amigos nos meus anos em Oxford e nenhum deles chegou aos seus pés. Eu mentia para eles constantemente, mas você sempre possuiu todos os meus segredos.
‘Eu acho’. Aquele tom de dúvida… Feridas abertas já doeram menos. Richard sacudiu a cabeça para os lados. “Não. Sempre,” retrucou numa sutil correção que pareceu pesar toneladas. Sempre. Apesar de qualquer desavença, sempre. Porque vê-lo outra vez era uma dor que valia a pena ser tomada, mesmo que num momento derradeiro. Richard ajustou a postura, rosto alto, voz firme. “E, por favor,” inteirou antes que Edmund o escapasse, gesticulando sobre a biblioteca, “sinta-se à vontade para pegar o que quiser, quando quiser. Eles sempre foram um pouco seus também.” Muitas coisas que pertenciam a Richard eram de Edmund. Ele podia se chamar senhor da casa, Barão de Thornhill, mas havia cantos daquela mansão que não eram mais seus. Outrora, Richard considerara o solário o seu coração, mas isso durou até o dia em que Daphne dançou naquele piso e tomou-o de Richard. Solário ou coração, novamente, semântica. A biblioteca e aqueles livros possuíam uma importância semelhante, eles constituíam outra parte do coração de Richard. No entanto, havia pessoas que podiam somente entrar e pegar o que quisessem, levar embora como despojos de guerra sem maiores consequências. Richard olhou uma delas nos olhos. “Bem-vindo de volta à Thornhill, Ed.” Então, Richard deixou-o ir. Como sempre fazia.
ENCERRADO .
(( onde )) perto da fonte
(( quando )) perto das 23h
com @dethrcned
Em algum momento, principalmente após a morte do pai, Catalina parou de se preocupar com as pessoas. Mesmo que as risadas ainda fossem sinceras e os olhos tivessem a travessura de sempre, havia a tristeza que parecia persegui-la de uma forma que jamais tinha feito. Quando estava em Thornhill, tudo o que tinha perdido se tornava ainda mais real, mais próximo. Jamais tinha sido aquela criança novamente, mesmo que fosse rebelde o suficiente para aceitar o destino que almejava. Em um mundo que as preocupações eram como um peso para as outras pessoas, considerava-se sortuda por ser quem gostaria que fosse. Era estanho como o passar dos anos fosse o suficiente para que encontrasse Richard em uma festa e que desenvolvesse um estranho afeto por ele. Sempre foram opostos, mas, ainda assim, muitas vezes sofriam do mesmo problema e, se havia algo que Catalina sabia falar, era a respeito de expectativas frustradas e o anseio em almejar algo que não poderia ter.
"Você está bem?" Mesmo que soubesse que não deveria se preocupar com um homem adulto, lá estava ela, procurando no rosto alheio qualquer sinalização de que estava se sentindo mal. Tinha sido um dia intenso para todos que estavam lá, ainda mais que alguns fazia anos que não os via. Richard tinha sido uma criança insuportável, isso não tinha como negar. Lembrava-se de como desgostava dele quando eram menores, revirando os olhos para o quão certinho ele era. Maduro demais para a idade, enquanto Catalina sempre foi uma força da natureza. Mesmo que tivesse tentado controlá-la com regras e normas, ninguém jamais havia conseguido com êxito. Sempre fez o que desejava. Era uma ironia do destino que tivesse, quando adultos, formar alguma espécie de conexão que nem mesmo a mulher conseguia compreender. "Não esperava que fôssemos nos encontrar nessa situação. Vendo você aqui faz quase que eu me lembre do Richard criança, completamente irritante." A provocação saiu com um sorriso, mesmo que se tratasse de uma brincadeira. O cigarro ficava em seus dedos, um conforto depois de um dia cheio e de reencontros que não estava preparada. "Talvez eu devesse ter levado você para jogar lama nas janelas para provocar a Senhora Banks. Sabe, nunca é tarde demais para você começar." Piscou em direção a ele, mesmo que o bom humor continuasse permanecendo em suas palavras.
“Quer mesmo começar essa conversa?”
Richard recebeu-a com um leve sorriso no canto dos e um toque de sarcasmo na voz, olhar afiado a olhá-la naquele humor sardônico dele. Estava bem acomodado em um dos bancos de ferro perto da fonte, colocados ali para observação. Braço direito estendido despretensiosamente sobre a linha do encosto, tornozelo descansando sobre o joelho, cigarro queimando entre dois dedos da canhota. Observava a fonte antes dela chegar, embora não pensasse profundamente sobre qualquer aspecto dela. Parecia abandonada, mas a estátua em tamanho humano da deusa greco-romana da caça e da lua permanecia imponente no topo.
Não esperava companhia, mas a de Cat López não era de todo desagradável, menos ainda dado todo o acontecimento do dia. Se, quinze anos atrás, alguém lhe dissesse que um dia ele ficaria satisfeito em vê-la e dividir com ela parte do seu dia, teria rido e zombado da ingenuidade da pessoa. O mundo, aparentemente, dava voltas. Nunca se deve subestimar o poder que uma ou duas garrafas de vodca têm de unir adultos assombrados pelos dissabores da vida. No início havia sido terrivelmente estranho ter Catalina perto demais, vendo sob a superfície, mas ele supunha que estava em um momento que precisava de alguém para sacudi-lo pelos ombros e mandá-lo parar de ser um babaca falso. Todo o resto hesitava ao redor dele, mas Cat, em sua experiência, nunca perderia a oportunidade de dizer umas verdades na cara dele.
“Estou funcionando hoje a base de aspirina e nicotina como um velho de cinquenta anos, mas fora isso, sim, está tudo bem. Excelente.”
Richard puxou outro trago, batendo as cinzas para o lado de fora do descanso de braço do banco. Soprou a fumaça devagar, sentindo a tensão se esvair com o ato. Riu-se quando Cat mencionou a criança irritante que fora. Isso, ele não tinha como negar. Hoje, adulto, reconhecia que as circunstâncias haviam sido outras. O pequeno Richie que fora não sabia melhor. Richard se perguntava se agora ele de fato sabia, ou se aquilo era mais uma de suas falsidades. Fingir ser mais sábio do que era. “Você nunca vai me deixar esquecer disso, hm? Vai me fazer pedir desculpas? Desculpe. Pronto. Feliz?”
“Algo me diz que os Banks já tiveram estresse o suficiente para uma estação somente hoje com todos nós batendo à porta. Nunca vi a Sra. Banks tão desalinhada. Foi quase tão perturbador quanto a carta.” Richard não mencionou nada além disso. A carta. Havia encontrado-a entre as correspondências do dia. A princípio, pensou ser uma mensagem solicitando a presença do Barão em Thornhill. Tempo suficiente havia se passado, uma década e meia de ausência, mais do que Richard julgaria sábio. A prova disso eram as heras se espalhando por todo o lugar, a sensação de completo abandono, assim como os espinhos tomando conta do jardim. Era quase poético: Thornhill e seus espinhos. Ele meneou a cabeça. O ar cheirava a fumo e sereno. “Eu nunca deveria ter deixado esse lugar largado por tanto tempo,” ele murmurou, num daqueles raros momentos em que a máscara deslizava e era possível ver vislumbres de seu eu. “Sempre soube que eu teria que voltar, mas sabe aquela sensação de que uma hora vai acontecer, mas, mm, você torce para que ainda não?” Um suspiro. Devia chamar Ginna, conversar sobre o que deveria ser feito com aquele lugar. Eles tinham uma vida mais do que confortável em Londres, ele e as irmãs. Não havia mais necessidade de Thornhill. Aquela mansão era como uma sombra no passado. Richard pensou várias vezes em chamar Ginna e conversar sobre a possibilidade de leiloar a propriedade, mas alguma parte dele sabia que nunca o faria. Alguma parte dele tinha o conhecimento de que Thornhill seria sua até a morte. O pensamento lhe trouxe arrepios. Dispensou-o, colocando-o rapidamente de lado, voltando a atenção para Cat.
“O que está fazendo aqui fora, aliás? Não me diga que deixou a casa só para me ver?” Então um pouco mais baixo, como se manhoso: “Cuidado, López, ou posso começar a achar que se importa comigo. Seria um vexame.”
para sua surpresa, era dickie naquela porta. ou melhor, richard, como ele parecia ser agora, envolto por uma estranheza que o tempo criara entre os dois. não eram mais crianças, e isso era evidente. edmund não pôde deixar de notar a ironia do momento. na infância, richard costumava segui-lo pela mansão, como uma sombra persistente. será que ainda tinha essa mania? a ideia quase o fez sorrir, até que o richard deu suas primeiras palavras em anos; que ele esperava encontrar aquele lugar vazio.
edmund desviou o olhar, sentindo-se momentaneamente deslocado. a estranheza se intensificava cada vez mais. ele não o estava procurando; richard o encontrara por acaso. o que deveria fazer? se retirar? dar passagem ao 'rei' para que ele aproveitasse o espaço? o silêncio pairou entre eles como uma barreira invisível, cada segundo arrastava-se como se fosse uma hora. edmund não sabia o que dizer, não depois de tanto tempo sem contato. o homem à sua frente era ao mesmo tempo familiar e distante, como um reflexo distorcido de memórias passadas.
algo estava diferente em richard – não apenas o semblante mais maduro, mas uma certa rigidez, como se o tempo tivesse esculpido suas emoções em pedra. ainda assim, ele acreditava que ainda conhecia as camadas escondidas sob a nova pele do irmão mais velho dos thornhill.
mas, antes que pudesse encontrar as palavras certas, richard, enfim, quebrou a tensão com uma pergunta, suas palavras soando como um elástico que se arrebenta após ser tensionado demais. edmund riu por dentro, mas de maneira frustrada. a pergunta que richard lhe fazia também caberia a ele, que, afinal, parecia estar tão à deriva quanto o outro.
“— ao contrário, na verdade,” respondeu edmund, afastando-se da mesa. ele caminhou até a janela e se encostou na parede ao lado, deixando a luz iluminar parte de seu rosto. “— tentando correr atrás do que parece estar me escapando.” as palavras eram ambíguas, e edmund sabia disso. poderiam tanto se referir às memórias afetivas daquela mansão quanto às relações especiais que ele havia deixado para trás.
ele abaixou o olhar, o peso de tudo aquilo parecendo insuportável, antes de finalmente erguer os olhos para o próprio. “— por onde você tem andado, richard thornhill?” perguntou edmund, as palavras soando mais pesadas do que pretendia. ele não esperava uma resposta direta – talvez apenas uma pista, algo que preenchesse o vazio de anos sem contato. afinal, não era apenas o 'rei perdido' que estava diante dele – era também um pedaço perdido de si mesmo, de um passado que jamais voltaria. e o que restava a um cavaleiro, naquele tempo, afastado do castelo logo após a paz ter sido conquistada? sem rei para proteger, sem propósito para guiar sua lâmina, ele vagou – perdido entre as sombras de uma glória desbotada e os ecos de um juramento que já não tem para quem cumprir.
“E achou que encontraria o que procura aqui, hm?” A pergunta pendeu no ar, pesada como uma nuvem escura.
Edmund afastou-se da mesa até a janela, assumindo uma posição ali. Richard pensou em permanecer onde estava, rente à porta, bloqueando a saída, obrigando Edmund a ter que passar por ele se quisesse sair, mas considerou o que estava fazendo e encontrou crueldade ali. Richard podia pressionar, fazer o outro desconfortável até que Edmund cedesse e lhe desse algum tipo de reação além daquela formalidade barata estabelecida entre eles, mas percebeu que era em vão, que estava procurando ali algo não mais vivo, uma chama extinta. Doeu-lhe quando desistiu, aceitando que a noite terminaria daquela forma, com dois estranhos conectados por memórias. Nada mais, nada menos. Cavaleiro cai, rei se encontra sozinho no tabuleiro, exposto ao ataque da linha adversária. Ou talvez rei deixa o castelo, deixa coroa e cavaleiro para trás.
Richard riu-se por dentro com o uso do nome. Richard Thornhill. Quis sacudir a cabeça para os lados. Não o fez. Mas luto o lavou por dentro com a força de uma enxurrada. Era triste, aquele lugar inteiro, aquela situação inteira, aquela distância. Richard subitamente percebeu o erro cometido. Richard Thornhill. Era o que era agora. Não mais Dickie e Ed, dois garotos conversando sobre histórias de cavalaria naquela mesma biblioteca, mas Richard Thornhill e Edmund Hawthorne, dois adultos levitando ao redor um do outro sem de fato se tocarem. Parecia um funeral. Se Richard tivesse um drinque em mãos, ele brindaria a todas as amizades mortas.
Richard encolheu os ombros brevemente, inclinando a cabeça para o lado, desconsiderando a pergunta. “Londres, maioritariamente,” ofereceu apenas por oferecer. Descruzou os braços, entrou no cômodo como se ele fosse o dono do lugar, e o era, seus passos ecoando pelo piso. “É onde minhas irmãs estão, é onde estou. É onde tudo acontece, não é? A capital da velha Grã-Bretanha.” Parou justamente a mesa antes ocupada por Edmund, correu os dedos sobre a superfície, batendo a poeira das mãos em seguida. Olhou novamente pelo espaço como se o julgasse. Numa era passada ele havia considerado aquela biblioteca o seu mundo, um universo que se desdobrava em inúmeras possibilidades. Atualmente Richard se considerava um homem moderno, de alta classe e todos os mais adjetivos, então era fácil esquecer quem ele no fundo era: um garoto criado numa mansão isolada no interior de Yorkshire, com livros como seus únicos companheiros antes da guerra, usando atlas, enciclopédias e biografias para formar uma imagem do que existia para além daqueles portões. Agora aquele seu mundo parecia antiquado, meio decaído, assassinado pelo tempo tal qual aquela amizade. Ainda era impressionante, mas talvez quem havia mudado fosse ele. Crescido para além dela. A biblioteca ou a amizade? Como se ambas não fossem entidades interligadas. Semântica.
Olhou uma última vez para Edmund. “Você me parece bem, Hawthorne. Espero que a vida lhe tenha sido gentil.”
𝐬𝐭𝐚𝐫𝐭𝐞𝐫: aberto
𝐥𝐨𝐜𝐚𝐥: biblioteca
𝐡𝐨𝐫𝐚𝐫𝐢𝐨: 18:20 (antes da janta)
a biblioteca de thornhill parecia maior do que edmund se lembrava, como se o tempo tivesse dilatado o espaço entre aquelas prateleiras. ele passou os dedos por lombadas empoeiradas, os títulos meio apagados, enquanto tentava buscar algo — qualquer coisa — que reavivasse uma memória nítida. mas, por mais que tentasse, as imagens vinham fragmentadas, como peças de um quebra-cabeça incompleto. o cheiro de papel envelhecido era o mesmo, isso ele sabia, mas não bastava para trazer as respostas que procurava.
ele suspirou, encostando-se numa das mesas de leitura, os olhos fixos em um ponto qualquer da sala. o silêncio era quase confortável, até que o sentiu ser interrompido. uma presença na porta. não precisou olhar para saber que alguém estava ali, hesitante, talvez observando-o antes de entrar.
“— pode entrar.” disse, a voz calma, mas firme o suficiente para cortar a quietude do ambiente. seu olhar, então, ergueu-se na direção da porta, esperando para ver quem havia decidido acompanhá-lo naquele espaço onde passado e presente pareciam coexistir.
edmund olhou para a porta e, da porta, richard olhou-o de volta. houve um instante, então um segundo momento. richard cedeu primeiro. cruzou os braços, reclinou o ombro contra o batente e não entrou. antes, deixou que seu olhar corresse pela extensão daquela velha biblioteca. poeira se acumulava sobre as mesas de mogno e nas prateleiras das estantes a cobrir as paredes até o teto; até mesmo as poltronas posicionadas ali não pareciam tão convidativas quanto ele se recordava, seus estofados precisava ser renovado.
bom, richard não estava ali por nenhum daqueles detalhes de qualquer maneira. na verdade, sequer sabia o porquê de estar ali. poderia voltar aos jardins para queimar mais um cigarro e fingir estar em paz com seu retorno, mas pareceu-lhe instintivo como uma memória muscular ir àquele lugar de todos os outros — tal qual a língua de uma criança que procura aquela ferida aberta na gengiva outrora ocupada por um dente de leite, ou como um adulto buscando nas memórias do passado algum conforto.
“esperava encontrar esse lugar vazio,” confessou, então. “não lembro da biblioteca ser assim tão decrépita.” richard deixou que o silêncio crescesse mais uma vez, pairando entre eles como um véu de névoa, como a sombra da morte sobre as cabeças dos inocentes, como a tensão de uma espera antes que algo aconteça, como dois amigos agora estranhos buscando as palavras certas para serem ditas em seguida. finalmente, como que numa última, olhou edmund. “escapando dos outros?”

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Starter: Aberto Local: Jardim Horário: 18:00
Cassandra não sabia ao certo como se sentir, pela primeira vez depois de tanto tempo em Thornhill. Em parte, suas emoções eram nubladas pelo coquetel de remédios que tomava todas as noites, talvez sendo seu amigo mais fiel, mas nem mesmo toda a medicação do mundo seria capaz de apagar a dor aguda no fundo de seu peito por estar de volta. Talvez, depois do sanatório, aquela mansão fosse o lugar que mais temia; não por uma repulsa sentida, como era o caso do primeiro, mas justamente pelo contrário. Não era Thornhill, afinal de contas, o lugar onde as vozes falavam mais alto? Não era ali que sua reputação de louca havia sido consolidada? Não queria voltar àquilo; havia lutado demais para abafar aquela parte de si. Sem coragem de enfrentar a casa por hora, se refugiou no jardim após guardar suas coisas no seu quarto antigo e, com um cigarro aceso entre os lábios, assistia o pôr do sol, como fizera tantas vezes antes. Abriu um sorriso curto ao ouvir os passos atrás de si, se aproximando. "É lindo, não é? O pôr do sol aqui. Não existem cenas assim em Londres."
cassandra marwood era, de todos, uma das últimas pessoas que richard thornhill gostaria de encontrar ao sair da casa para o jardim a fim de queimar outro cigarro e escapar do casal banks que pareciam ansiosos com a perspectiva de terem o barão de volta a casa. por um breve instante pensou em dar meia volta, mas soaria como covardia e richard era, acima de muitas coisas, orgulhoso. não importava se num passado a menina que cassandra fora tivesse lhe perturbado a sanidade o bastante para richard evitá-la a qualquer custo. crianças, quando com medo, podiam ser cruéis, sim, mas richard gostava de pensar que muito daquele desentendimento ficara no passado. que adultos entenderiam e dispensariam tais infantilidades.
então richard se aproximou a uma distância confortável pela direita dela; passos sem pressa alguma, filtro do cigarro preso entre os lábios, isqueiro em mãos. testou a chama algumas vezes, erguendo a palma curvada para protegê-la contra o vento enquanto acendia a extremidade. quando pegou fumo, deslizou o isqueiro de volta no bolso e puxou um trago, cigarro enfiado entre indicador e dedo médio, a nicotina lhe lavando a garganta e os pulmões numa onda de alívio. segurou a fumaça por um instante ou dois, expelindo-a em seguida, seu olhar perdido no horizonte.
era, de fato, lindo — o pôr do sol. thornhill era um lugar de dicotomias. thornhill tinha uma graça e um encanto macabro que o fazia parecer único no mundo inteiro, isolado, intocável a não ser pelo tempo a lhe desgastar. então claro que o ocaso do dia ali, quando as condições não eram tão nebulentas, era sem par, distintamente belo ao passo que estranhamente soturno como o silêncio dos mortos, principalmente naquele novembro dos outonos, época do ano em que tudo se acaba antes do inverno.
“alguns culparão os prédios,” disse, apenas para preencher a lacuna deixada pela pergunta dela antes que o momento lhe escapasse, fumaça expelida lhe escapando os lábios e juntando-se ao ar. “ou somente a neblina, não sei. faz tudo parecer mais cinza.” uma pausa. richard buscou-a com um olhar de soslaio. dizer que cassandra havia mudado era eufemismo, pelo menos aos olhos de richard. a discrepância era ainda mais marcante, pois, depois da guerra, richard não havia a visto em um único momento, portanto toda a memória que ele tinha era da menina. se era a mesma pessoa que ele um dia conheceu naqueles corredores e salões escuros, não podia dizer. particularmente, de uma maneira egoista e cruel, esperava que não fosse. os motivos não precisavam ser ditos. assoprou um segundo trago. “mas eu sinto falta da agitação da capital. só fora daqui que eu percebi que esse silêncio nunca foi para mim.”
Samara Weaving and David Corenswet as Claire Wood and Jack Castello in HOLLYWOOD (2020).
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Fyodor Dostoevsky, Notes from Underground
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The Crooked Kind, música por Radical Face.