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E mais uma vez o balde de ĂĄgua fria era jogado nele de uma sĂł vez. NĂŁo tinha preparo algum para ser pai, era verdade, mas havia se acostumado tanto com a ideia de que seria, que estava começando a gostar. Talvez tivesse sido emocionado a ponto de ficar horas pesquisando sobre e vendo revistas de roupinhas de bebĂȘ? Sim, Ă© possĂvel que tenha feito. EntĂŁo apĂłs descobrir a farsa de Maeve, ouvir Shantal falar de uma sĂł vez que nĂŁo tinha bebĂȘ algum, foi como um balde de ĂĄgua fria atrĂĄs do outro. NĂŁo poderia ter previsto isso nem se tivesse lido sua sorte na borra de cafĂ©.  â NĂŁo tem bebĂȘ? Como assim? VocĂȘ⊠vocĂȘ nĂŁo âtĂĄ grĂĄvida? â  A voz misturava a tristeza com o alĂvio, cabia a Shantal perceber isso ou interpretar errado, jĂĄ que jĂĄ estava chateada com ele. Manteve o tom de voz baixo, imitando-a, tentando manter o assunto apenas entre eles. A frase seguinte dela o fez esmorecer, pensando em como queria ter estado ao lado dela nos Ășltimos dias.  â Eu nĂŁo menti quando disse que ficaria do seu lado. SĂł que aconteceu uma puta merda, um grande⊠imprevisto, por assim dizer. â  Tentou começar a explicação, sem saber exatamente como começar ou se era melhor resumir. Era um assunto delicado, e nem ele mesmo queria estragar o clima de festa falando daquilo, mas precisava esclarecer as coisas. Shantal merecia uma explicação. Quando ela se virou, pronto para falar, fora pego de surpresa com a frase seguinte. De cenho franzido, tentou compreender, mas nĂŁo conseguia, entĂŁo precisou perguntar, mas com receio claro em seu tom de voz.  â Todas aquelas garotas? SĂł quem cuidou de mim foi a Coralzinha. â  Assim que acabou de falar, sentiu uma ardĂȘncia nas pernas e nĂŁo entendeu o que foi. Reclamou, e logo seus olhos alcançaram as mĂŁos da leoa cravando as unhas nas prĂłprias pernas e, conhecendo os poderes dela, compreendeu o que estava sendo feito.  â âTĂĄ com ciĂșmes da Coral? Amor, ela Ă© sĂł minha amiga. Somos amigos hĂĄ anos. â  Falou com sinceridade, explicando-se e tentando entender a raiva dela que surgiu do nada. NĂŁo se lembrava se jĂĄ ter comentado sobre a amizade com a filha de Ariel, mas imaginou que Shantal soubesse e que nĂŁo seria problema tĂȘ-la cuidando dele durante o clube da luta. Geralmente, a chamava de amor apenas quando transavam, mas o apelido saiu tĂŁo naturalmente naquele momento, em um tom carinhoso, que ele sequer havia reparado.   â NĂŁo, por favor, nĂŁo! â  Pediu, quase implorando, e soltou uma risada abafada. Levou suas mĂŁos atĂ© as dela, segurando-as para tirar as unhas que estavam prĂłximas demais Ă s pernas dela. NĂŁo queria sentir aquela dor e ardĂȘncia novamente, nĂŁo mesmo. Ainda com as mĂŁos segurando as dela, suspirou fundo e entĂŁo começou a falar.  â Olha, vou te explicar resumidamente o que rolou e depois vocĂȘ me faz perguntas se ficar com alguma dĂșvida, âtĂĄ bom? Ă uma coisa que jĂĄ tava acontecendo hĂĄ muito tempo, mas piorou na Ășltima semana. HĂĄ alguns meses, eu tive umas crises e fui passar uns dias na MaldĂŽnia com meus pais. No Ășltimo fim de semana com eles, antes de voltar para Aether, fomos a um festival de mĂșsica lĂĄ em Nova Orleans, e aĂ eu caĂ em uma emboscada do Dr. Facilier e ele me amaldiçoou. Basicamente, era a Maldição da Morte, mas ao invĂ©s de me matar de uma vez, eu tinha um encosto atrĂĄs de mim o tempo inteiro. Ficava falando coisas no meu ouvido, e chegou a me possuir algumas vezes. Ele mexia com minha cabeça, meu humor e âtava sugando a minha alma pouco a pouco. Entrei em umas brigas, apanhei, inclusive briguei com aquele seu amigo Tye por causa disso. â  Puxou o ar e soltou-o pesadamente.  â Enfim, Shantie, eu conversei com uma amiga e tentamos quebrar a maldição e as Sombras ficaram muito irritadas e me possuĂram por muito mais tempo. Deu a maior merda e eu sĂł consegui me livrar quando respondi a voz que me chamava para a floresta. Agora as sombras estĂŁo presas aqui. â  Apontou para a cicatriz em formato de serpente no dorso da mĂŁo direita.  â E esse Ă© o Ășnico motivo pelo qual eu sumi na Ășltima semana. Eu âtava fora de mim, e era perigoso. A Sibylle tentou me ajudar e eu a agredi porque fui possuĂdo. NĂŁo queria arriscar te machucar, vocĂȘ ainda âtava se recuperando do ataque dos ogros. â  Acariciava as mĂŁos dela, tentando transmitir algum conforto enquanto seus olhos expressavam toda a honestidade que podia conter em sua fala, torcendo para que ela confiasse nele.Â
Diante da decepção-barra-alĂvio de Neevan, foi inevitĂĄvel que Shantal revirasse os olhos. Duvidava que ele estivesse sendo sincero numa comoção sobre o assunto, mas decidiu nĂŁo entrar mais neste tĂłpico. âFelizmente. Seria vergonhoso que um prĂncipe como vocĂȘ tivesse um filho com uma foda qualquer do Instituto.â Riu sem humor, balançando a cabeça em negação diante das prĂłprias palavras. Aquele cĂĄlculo nĂŁo batia na cabeça da Asabi: ela deveria ser uma princesa tambĂ©m, tinha seu direito Ă corte como todos da famĂlia, mas era algo que ela nĂŁo reivindicava hĂĄ muito tempo. Simplesmente porque se cansara. Como estava se cansando daquelas desculpas meio desorganizadas de Neevan e da situação esdrĂșxula que vivia com ele, mas tudo bem. Ela estava ali exercendo toda a diplomacia que aprendera em sua Grade Curricular, disposta a ouvi-lo.
Chegou muito perto de afastar suas mĂŁos quando estas foram seguradas por ele, aliĂĄs. Contudo, permaneceu ali, sob o toque masculino e respirou o mais fundo que podia. Sua chateação era enorme e havia algo dentro dela dizendo-lhe para nĂŁo confiar naquelas palavras, mas assim que viu a marca na mĂŁo dele, seu coração afundou um pouco. A ideia de que Neevan estivera em perigo em algum momento e ela nĂŁo estivera lĂĄ para ajudĂĄ-lo, fazia a boneca vodu se quebrar em vĂĄrios pedaços, apesar de nĂŁo dizer nada e continuar mantendo os olhos baixos para os dedos alheios, pensando em muita coisa e em nada ao mesmo tempo. Sentia-se pĂ©ssima por ter esperado o pior do prĂncipe atĂ© aquele instante, mas lutava contra o fato de se culpar tambĂ©m: afinal, ela nutria tantas inseguranças em relação a Neevan que era difĂcil nĂŁo pensar que a relação deles estava em maus lençóis diante de um sumiço daqueles.
âVocĂȘ nĂŁo me faria mal mesmo se quisesse.â Ela disse, baixinho, usando os dedos para tocar gentilmente a marca da serpente. Sentiu um arrepio correndo por sua espinha, sutil, entretanto. âEu acabaria com a sua raça em dois segundos, com ou sem sombras.â Uma brincadeira, mas com fundo de verdade, enquanto mordiscava o interno da bochecha. âNada em relação ao vodu pode me fazer mal. Minha tutora se certificou disso antes de morrer.â Comentou. Referia-se a uma marca que ela possuĂa num dos calcanhares, que jĂĄ fora questionada por Neevan algumas vezes no passado deles, mas com a qual ela nunca se sentira muito confortĂĄvel a ponto de explicar a origem ao mais velho. De qualquer maneira, houve um novo suspiro, novamente pesado. Ela engoliu em seco e crispou os lĂĄbios, voltando a olhĂĄ-lo. A menção a Tye estava engasgada em sua garganta, mas ela preferia nĂŁo se manifestar. âFico feliz que esteja bem, no final das contas.â Foram suas palavras, a prĂncipio, enquanto seu olhar estava distante. Acabou apertando a mĂŁo de Neevan contra as suas e sentiu o arrepio percorrer mais intensamente seu corpo. Fazer sua marca arder e lembrĂĄ-la do que havia por debaixo daquelas botas encrustadas de cristais. Devido a esse incĂŽmodo sĂșbito, ela se sobressaltou e largou um xingamento em alto e bom tom, buscando a origem da dor enquanto se movia no assento. âE eu nĂŁo sei se lamento tanto pelas sombras que estĂŁo aqui agora, apesar de terem me cutucado.â Resmungou, voltando-se para ele apĂłs ter lidado melhor com a ardĂȘncia, tendo aguardado alguns segundos. Averiguaria sua marca depois. âIsso te faz mais poderoso, Neev. VocĂȘ sabe disso, nĂŁo sabe?â Perguntou, apesar de jĂĄ imaginar a resposta. NinguĂ©m se sentia confortĂĄvel com feitiçaria como vodu ou outras magias consideradas ânegrasâ, entĂŁo nĂŁo duvidava que apenas ela estivesse animada com aquela possibilidade, contendo-se somente porque conseguia ver que aquilo tudo preocupava o maior.Â
âĂ claro que nĂŁo te dĂĄ direito nenhum de atacar principalmente minhas amigas, mas, bom... AĂ seremos eu e suas sombras discutindo em breve.â Riu, com uma nova pitada de humor. O tema era assombroso, mas nĂŁo para ela. âPorque desde a noite esquisita que eu tive na Floresta tambĂ©m, minha magia melhorou e muito. EntĂŁo eu sugiro que tenha mais cuidado com seus passos agora, meu amor.â Um sorrisinho malicioso, enquanto uma de suas mĂŁos ia atĂ© o rosto masculino, segurando-o e apertando levemente as unhas afiadas contra a carne dele. Aproximou-se e abandonou um selar demorado sobre os lĂĄbios de Neevan, roçando as pontas de seus narizes em seguida. âPorque eu te desculpei agora, mas vocĂȘ sabe que eu nunca fui lĂĄ muito misericordiosa.â Anunciou, apertando sĂł mais um pouquinho as bochechas de Neev sob suas unhas. Falava sĂ©rio. E esperava que Neev reconhecesse isso. âEntĂŁo, por favor, nĂŁo faça com que meu amor e minha confiança por vocĂȘ acabem.â Pediu, mantendo os rostos prĂłximos. âOu teremos problemas.â Foram suas Ășltimas palavras naquela proximidade toda antes de se colocar em pĂ© e ajeitar as roupas. Estava sem calcinha por baixo daquele vestido e era um desperdĂcio que nĂŁo pudesse se valer desse recurso simplesmente porque nĂŁo se deixaria levar por Neevan tĂŁo facilmente. Havia o beijado e nĂŁo o feito engolir sua lĂngua, o que jĂĄ era algo e tanto, levando em conta como as coisas estavam funcionando dentro da mente de Shantal agora.Â
âEu vou voltar para a Saxa e para o Desmond. VocĂȘ poderia pelo menos ter me chamado para esse baile, mas... Eu nĂŁo estava esperando realmente muita coisa de vocĂȘ.â Uma nova risada, mas sarcĂĄstica, antes de ajeitar tambĂ©m o colar e os brincos que usava. Agora o cheiro de Neevan estava em si e aquilo abalava muito suas estruturas, mas ela preferia ir ficar junto de seus amigos. âObrigada pela sinceridade.â Agradeceu, ajeitando tambĂ©m o casaco vermelho e volumoso. âSei que vai achar uma Ăłtima companhia para aproveitar o Dia do Amor verdadeiro, entĂŁo... Nos trombamos por aĂ.â Declarou, lançando-lhe uma Ășltima piscadela antes de sair andando na direção oposta.