o que acontece com uma vida quando ninguém está olhando?
essa pergunta não sai da minha cabeça porque tenho a sensação de que passamos o dia inteiro atravessando pessoas sem enxergá-las de verdade. uma pessoa em situação de rua não existe apenas no instante em que passamos por ela no semáforo. ela continua existindo depois que o sinal abre. continua sentindo frio às três da manhã. continua adoecendo. continua lembrando de coisas. continua carregando uma infância inteira dentro de si. uma mulher que vende o próprio corpo para sobreviver não existe apenas quando alguém fecha a porta de um quarto. ela existe quando volta para casa. quando tira a maquiagem. quando faz compras no mercado. quando não consegue dormir. quando olha para o próprio rosto no espelho. uma pessoa tentando sobreviver à dependência não existe apenas quando alguém aponta uma câmera ou atravessa a rua para evitá-la. ela continua existindo depois. continua tendo fome. continua sonhando. continua sentindo vergonha. continua lembrando do próprio nome.
talvez seja isso que me perturbe tanto. a facilidade com que o mundo transforma vidas inteiras em categorias. morador de rua. dependente. vÃtima. suspeito. duas ou três palavras parecem suficientes para substituir uma existência inteira. e, de repente, tudo o que aquela pessoa foi desaparece atrás do rótulo. desaparecem os aniversários. os amores. as músicas favoritas. os medos que nunca foram contados para ninguém. desaparece a criança que existiu antes do adulto. desaparecem os anos.
acho que a coisa mais assustadora é que a vida continua acontecendo mesmo quando ninguém está olhando. o homem que dorme na calçada continua envelhecendo. a mulher que vende o próprio corpo continua tentando atravessar o mês. a pessoa tentando sobreviver à dependência continua tentando atravessar mais um dia. alguém que está prestes a perder tudo ainda acredita que existe amanhã. existe algo profundamente doloroso nisso. porque nenhuma vida cabe no pior momento dela. nenhuma vida cabe naquilo que aconteceu por último.
talvez seja por isso que certas histórias doam tanto. porque por alguns minutos elas devolvem complexidade a quem tinha sido reduzido a uma definição. devolvem passado a quem parecia existir apenas no presente. devolvem humanidade a quem já tinha sido resumido. de repente percebemos que aquela pessoa teve uma primeira bicicleta. uma comida favorita. uma vergonha da adolescência. um sonho ridÃculo. alguém que amou. alguém que perdeu. uma coleção de pequenos detalhes que normalmente reservamos apenas para nós mesmos e para quem conhecemos.
e então percebemos uma coisa desconfortável. ninguém nasce em situação de rua. ninguém nasce dependente. ninguém nasce vendendo o próprio corpo para sobreviver. primeiro existe uma criança. depois existe uma vida inteira. só então vem o rótulo. mas quase ninguém fica tempo suficiente para ouvir o resto da história. talvez porque ouvir o resto da história obrigue a reconhecer uma verdade que preferimos evitar: a distância entre nós e eles é muito menor do que parece. às vezes ela cabe em algumas decisões erradas. às vezes em um azar enorme. às vezes em uma doença. às vezes em uma conta que não fecha. às vezes em uma tristeza que durou mais tempo do que o corpo conseguiu suportar.



















