porque eu tô aqui e isso quer dizer que você conseguiu me alcançar.
noise dept.
I'd rather be in outer space 🛸
cherry valley forever
Cosimo Galluzzi

★

ellievsbear
taylor price
h
Noah Kahan

Discoholic 🪩
will byers stan first human second
almost home
Fai_Ryy
trying on a metaphor
let's talk about Bridgerton tea, my ask is open
d e v o n
art blog(derogatory)

bliss lane
Keni
seen from Germany
seen from United States
seen from Canada

seen from South Africa
seen from Germany

seen from Ecuador
seen from United Kingdom
seen from Italy

seen from Russia

seen from United States

seen from Singapore

seen from Malaysia

seen from United States
seen from United States
seen from Greece

seen from United States

seen from United Kingdom

seen from Germany
seen from Singapore
seen from United Kingdom
@danolento
porque eu tô aqui e isso quer dizer que você conseguiu me alcançar.

Anya is live and ready to show you everything. Watch her strip, dance, and perform exclusive shows just for you. Interact in real-time and make your fantasies come true.
Free to watch • No registration required • HD streaming
às vezes fico olhando as janelas dos prédios por tempo demais. não porque eu queira saber quem mora ali, nem porque eu queira entrar. é que existe alguma coisa nessa distância que não me deixa ir embora. cada janela acesa parece esconder uma vida inteira que eu só posso ver por um instante.
nunca vou saber o que aconteceu antes de eu olhar, nem o que acontece depois. os nomes, as músicas, o pior dia que já viveram. desaparecem antes que eu consiga imaginar o resto.
talvez a vida seja só isso. dois trens cruzando a madrugada. por um instante, as janelas se alinham. eu vejo um rosto aceso do outro lado. e então os trilhos se separam, como se nenhum de nós tivesse existido para o outro.
existe uma tristeza em perceber que quase todo o mundo vai continuar fechado. não os lugares, mas as pessoas. as conversas que estão acontecendo agora em apartamentos onde eu nunca vou entrar.
alguém está se apaixonando. alguém está indo embora. alguém acabou de mudar para sempre. e eu nunca vou saber.
às vezes penso que vou morrer sem conhecer quase tudo, sem conhecer quase ninguém. e mesmo assim as luzes continuam acesas. o jantar continua. a televisão continua ligada. a cidade continua respirando. e eu continuo aqui, do outro lado da rua, vendo um mundo inteiro acontecer sem mim.
encontrei um crocodilo numa tarde.
não me pergunte como cheguei tão longe. a água parecia vidro sujo. o pântano tinha aprendido a esconder suas cicatrizes.
ele mal se movia sob o verde, como se estivesse esperando a vida inteira. tempo suficiente para se tornar o próprio silêncio. tempo suficiente para desaparecer da vista.
achei que entraria em pânico quando o visse. não é isso que as pessoas fazem? mas procurei o medo dentro de mim e encontrei um quarto vazio no lugar da verdade.
talvez ele nunca tivesse sido perigoso. talvez o perigo fosse eu o tempo todo. ele ainda sabia exatamente o que era. eu já não lembrava em que tinha me tornado.
o pântano parecia honesto. a água sabia o próprio nome até ser engolida. parecia mais honesto do que essa dor.
fiquei ali por tempo demais. não porque não pudesse ir embora, mas porque invejava uma criatura que nunca precisou fingir ser outra coisa.
talvez tenha sido isso que me quebrou. não os dentes escondidos sob a água, mas ver algo que sabia exatamente quem era enquanto eu me desfazia por dentro.
o pântano parecia honesto. a água sabia o próprio nome até ser engolida. parecia mais honesto do que essa dor.
fui embora antes do pôr do sol. às vezes penso que o pântano só estava chegando um pouco atrasado.
talvez eu nunca estivesse fugindo. talvez apenas tenha perdido a minha vez. e, desde aquele dia, tenho caminhado para longe de algo que já sabia o meu nome.
o que acontece com uma vida quando ninguém está olhando?
essa pergunta não sai da minha cabeça porque tenho a sensação de que passamos o dia inteiro atravessando pessoas sem enxergá-las de verdade. uma pessoa em situação de rua não existe apenas no instante em que passamos por ela no semáforo. ela continua existindo depois que o sinal abre. continua sentindo frio às três da manhã. continua adoecendo. continua lembrando de coisas. continua carregando uma infância inteira dentro de si. uma mulher que vende o próprio corpo para sobreviver não existe apenas quando alguém fecha a porta de um quarto. ela existe quando volta para casa. quando tira a maquiagem. quando faz compras no mercado. quando não consegue dormir. quando olha para o próprio rosto no espelho. uma pessoa tentando sobreviver à dependência não existe apenas quando alguém aponta uma câmera ou atravessa a rua para evitá-la. ela continua existindo depois. continua tendo fome. continua sonhando. continua sentindo vergonha. continua lembrando do próprio nome.
talvez seja isso que me perturbe tanto. a facilidade com que o mundo transforma vidas inteiras em categorias. morador de rua. dependente. vÃtima. suspeito. duas ou três palavras parecem suficientes para substituir uma existência inteira. e, de repente, tudo o que aquela pessoa foi desaparece atrás do rótulo. desaparecem os aniversários. os amores. as músicas favoritas. os medos que nunca foram contados para ninguém. desaparece a criança que existiu antes do adulto. desaparecem os anos.
acho que a coisa mais assustadora é que a vida continua acontecendo mesmo quando ninguém está olhando. o homem que dorme na calçada continua envelhecendo. a mulher que vende o próprio corpo continua tentando atravessar o mês. a pessoa tentando sobreviver à dependência continua tentando atravessar mais um dia. alguém que está prestes a perder tudo ainda acredita que existe amanhã. existe algo profundamente doloroso nisso. porque nenhuma vida cabe no pior momento dela. nenhuma vida cabe naquilo que aconteceu por último.
talvez seja por isso que certas histórias doam tanto. porque por alguns minutos elas devolvem complexidade a quem tinha sido reduzido a uma definição. devolvem passado a quem parecia existir apenas no presente. devolvem humanidade a quem já tinha sido resumido. de repente percebemos que aquela pessoa teve uma primeira bicicleta. uma comida favorita. uma vergonha da adolescência. um sonho ridÃculo. alguém que amou. alguém que perdeu. uma coleção de pequenos detalhes que normalmente reservamos apenas para nós mesmos e para quem conhecemos.
e então percebemos uma coisa desconfortável. ninguém nasce em situação de rua. ninguém nasce dependente. ninguém nasce vendendo o próprio corpo para sobreviver. primeiro existe uma criança. depois existe uma vida inteira. só então vem o rótulo. mas quase ninguém fica tempo suficiente para ouvir o resto da história. talvez porque ouvir o resto da história obrigue a reconhecer uma verdade que preferimos evitar: a distância entre nós e eles é muito menor do que parece. às vezes ela cabe em algumas decisões erradas. às vezes em um azar enorme. às vezes em uma doença. às vezes em uma conta que não fecha. às vezes em uma tristeza que durou mais tempo do que o corpo conseguiu suportar.
o anúncio sai pelos alto-falantes com a mesma voz de sempre. a mesma voz que avisa sobre portas se fechando, objetos esquecidos e mudanças de plataforma. uma voz sem corpo, sem rosto, sem pressa. ela diz que a circulação está lenta devido à presença de pessoa na via.
presença de pessoa na via.
fico pensando em como a lÃngua é estranha. existe alguém morto em algum lugar dos trilhos e a frase escolhida para explicar isso parece a descrição de uma mochila esquecida. a plataforma está lotada. tão lotada que mal consigo mover os braços. alguém suspira alto. alguém reclama. um homem fala ao telefone dizendo que vai chegar atrasado. uma mulher revira os olhos. um grupo tenta adivinhar quanto tempo vai demorar para normalizar a operação. normalizar. outra palavra curiosa. como se o problema fosse a operação.
olho para os trilhos. não vejo nada. só aquela escuridão particular do metrô. uma escuridão que não parece noite. parece o interior de alguma máquina. concreto, ferro, poeira. em algum ponto daquela escuridão existe uma pessoa. ou talvez o que restou de uma. e o que mais me perturba é pensar que algumas horas atrás ela estava exatamente onde estamos agora. talvez segurando um celular. talvez respondendo uma mensagem. talvez pensando no jantar. talvez preocupada com uma conta. talvez apaixonada. talvez completamente sozinha.
existe uma tendência estranha de imaginar que quem faz uma coisa dessas já estava distante do resto do mundo. mas eu não consigo acreditar nisso. continuo pensando nos detalhes mais inúteis. se ela tomou café da manhã. se escolheu uma roupa especÃfica. se ouviu uma música no caminho. se alguém disse até mais sem saber que estava se despedindo para sempre. ao meu redor as pessoas continuam reclamando.
e eu entendo. essa é a parte mais difÃcil. eu entendo. porque eu também estou cansada. também quero chegar em casa. também olho para o relógio. também sinto a impaciência crescendo dentro de mim. e talvez seja justamente isso que me assuste. não a crueldade. a humanidade. porque ninguém aqui acordou querendo ser indiferente. ninguém saiu de casa desejando transformar uma morte em inconveniência. as pessoas só estão exaustas. exaustas de trabalhar. exaustas de pegar condução. exaustas de sobreviver. e existe um ponto da exaustão em que a dor dos outros começa a competir com a sua.
esse talvez seja o verdadeiro horror. não o corpo nos trilhos. mas o fato de uma cidade conseguir produzir um cansaço tão profundo que uma tragédia humana se transforma numa conta de minutos.
quarenta minutos. uma hora e meia.
escuto alguém perguntar quanto tempo parar retirar o corpo atrás de mim. retirar o corpo.
como se a pessoa já tivesse terminado de ser pessoa. como se a única coisa restante fosse um obstáculo entre nós e nossos compromissos. e então começo a pensar em tudo que será removido naquela noite. não apenas o corpo. os policiais irão embora. os funcionários irão embora. os passageiros irão embora. o sangue será lavado. os trilhos voltarão a brilhar sob a luz artificial. amanhã cedo alguém estará exatamente no mesmo lugar esperando o mesmo trem.
mas existe uma coisa que não consigo tirar da cabeça. em algum lugar desta cidade há um telefone que ainda não tocou. há alguém assistindo televisão. há alguém preparando o jantar. há alguém voltando do trabalho. há alguém que ainda vive num mundo onde essa pessoa continua viva. e enquanto todos nós reclamamos do atraso, esse mundo continua existindo por mais alguns minutos. talvez uma hora. talvez menos. até que uma ligação atravesse a noite e destrua tudo.
a plataforma continua cheia. o anúncio continua se repetindo. os trilhos continuam escuros. e eu percebo que talvez a maior violência de são paulo não seja a pobreza, nem a desigualdade, nem a velocidade. talvez seja a facilidade com que uma vida inteira consegue ser reduzida a um aviso no alto-falante.
presença de pessoa na via.
é assim que a cidade chama alguém que teve uma infância, uma mãe, um primeiro amor, um prato favorito, uma música preferida, um medo recorrente, uma história inteira. mas em algum lugar alguém ainda chama essa pessoa pelo nome.
e ninguém na plataforma sabe qual é.

Anya is live and ready to show you everything. Watch her strip, dance, and perform exclusive shows just for you. Interact in real-time and make your fantasies come true.
Free to watch • No registration required • HD streaming
são paulo me dá a impressão de que está sempre no meio de alguma coisa. nunca a encontrei descansando. às três da manhã alguém está descarregando caixas de um caminhão. alguém está terminando um turno de doze horas. alguém está limpando o chão de um hospital. alguém está beijando alguém pela primeira vez na augusta. alguém está sendo deixado. alguém está tentando voltar para casa depois de atravessar duas horas de trânsito. há uma quantidade absurda de vida acontecendo ao mesmo tempo e talvez seja isso que me faça sentir estranha.
porque cada pessoa parece ser o centro da própria história. cada uma carrega um problema que parece enorme, uma paixão que parece única, um luto que parece impossÃvel de sobreviver. mas basta parar alguns minutos numa avenida qualquer para perceber uma coisa humilhante. ninguém interrompe o fluxo. um homem perde o emprego. um ônibus passa. uma mulher descobre que está grávida. um motoboy atravessa o corredor. alguém recebe uma ligação do hospital. o sinal abre. tudo continua. não por crueldade. por excesso. existe vida demais acontecendo ao mesmo tempo para que uma única história consiga parar a engrenagem.
à s vezes penso que a maior crueldade daqui não é a violência. é a velocidade com que tudo é absorvido. um homem morre numa calçada. no dia seguinte alguém passa pelo mesmo lugar carregando um café. uma loja fecha. outra abre. um prédio é demolido. outro sobe. uma pessoa perde tudo. milhares continuam correndo para não perder o horário. não existe maldade nisso. existe uma incapacidade quase biológica de parar. como se o luto fosse um luxo incompatÃvel com a quantidade de gente que precisa acordar cedo no dia seguinte.
quando volto para casa à noite e vejo centenas de janelas acesas, sinto uma espécie de vertigem. em uma delas alguém está dobrando roupas. em outra alguém está fazendo amor. em outra alguém está sentado na beira da cama sem conseguir dormir. alguém acabou de receber a melhor notÃcia da vida. alguém acabou de receber a pior. e nenhuma dessas pessoas faz ideia da existência das outras. cada uma acredita estar vivendo a história principal. talvez esteja. mas apenas dentro daquela janela.
o que mais me fascina não são os prédios nem as avenidas. é a simultaneidade. o fato de que alguém pode estar vivendo o melhor dia da própria vida enquanto, duas quadras adiante, alguém está vivendo o pior. e os dois continuam dividindo o mesmo concreto rachado, o mesmo céu cinza, o mesmo ar pesado, sem nunca se encontrarem.
às vezes tenho a sensação de que a cidade não tem memória. ou pior. que ela esquece as pessoas mais rápido do que as pessoas esquecem dela. talvez seja por isso que tanta gente tente deixar uma marca. construir um prédio. abrir um bar. escrever um livro. ter um filho. amar alguém. qualquer coisa que sobreviva alguns anos a mais. qualquer coisa que resista à velocidade com que tudo desaparece. mas no fim da madrugada os ônibus voltam a circular, os trens voltam a encher, as portas voltam a abrir e milhões de pessoas retornam às ruas como se estivessem alimentando uma máquina que nunca revela exatamente para onde está indo. e talvez ninguém saiba. talvez a única coisa que ela queira seja continuar. continuar avançando. continuar crescendo. continuar esquecendo. enquanto nós passamos a vida inteira tentando ser lembrados.
à s vezes me acontece uma coisa estranha quando estou sozinha. não é uma lembrança especÃfica. não é uma cena. é uma sensação. estou procurando alguma coisa numa gaveta, dobrando uma camiseta ou parada diante da geladeira sem saber exatamente o que fui fazer ali e, de repente, lembro que você já esteve aqui. não no apartamento. em mim.
e existe alguma coisa de profundamente inquietante nisso.
porque eu continuo a mesma pessoa. as mesmas mãos. a mesma pele. os mesmos pensamentos que me acompanham há anos. mas desde que você me conhece tenho a impressão de que alguma coisa mudou de lugar. não consigo explicar melhor do que isso. como quando alguém entra num quarto durante a madrugada e move um objeto alguns centÃmetros. na manhã seguinte tudo parece igual, mas existe um pequeno desvio.
às vezes me pego pensando que passei a vida inteira vivendo dentro do meu corpo sem nunca me perguntar como ele parecia por fora. eu sei como é sentir minhas mãos. sei como é andar dentro dos meus pensamentos. sei como é existir atrás dos meus olhos. mas não sei como é me encontrar. não sei como é ser a pessoa que entra no quarto. não sei como é a minha voz quando ela chega aos outros. não sei como é o meu silêncio.
e você sabe. ou pelo menos sabe uma parte. e talvez seja isso que eu ache tão misterioso.
não o fato de você me tocar. não o fato de você me desejar. mas o fato de existir uma versão minha que eu nunca vou conhecer. uma versão que só existe quando você olha para mim. uma pessoa que usa o meu rosto, as minhas mãos, a minha voz, mas que habita um lugar onde eu nunca poderei entrar.
às vezes fico imaginando como ela é. se ela se parece comigo ou se é uma completa desconhecida. se ela é mais bonita, mais triste, mais engraçada, mais vulnerável do que a pessoa que eu encontro todos os dias no espelho. e existe alguma coisa de profundamente erótica nessa impossibilidade. porque não importa o quanto eu me aproxime de você, nunca vou conseguir atravessar completamente essa fronteira.
talvez o desejo more justamente aÃ. não naquilo que sabemos. naquilo que continua nos escapando. na estranha descoberta de que alguém pode chegar tão perto e ainda assim, guardar um mistério que jamais será nosso.
nunca pensei em ser mãe. não porque não quisesse. a verdade é que a ideia simplesmente não combinava comigo. eu sempre me senti mais parecida com uma coisa que ocupa espaço do que com uma coisa que cria espaço. mais parecida com alguém tentando sobreviver dentro da vida do que com alguém capaz de oferecê-la. durante muito tempo me senti um corpo estranho. como se eu estivesse sempre chegando em algum lugar sem terminar de chegar. como se existisse uma distância entre mim e o resto das coisas que todo mundo parecia atravessar com naturalidade.
por isso às vezes me assusto quando esse pensamento aparece. não a ideia de uma criança. não é isso. o que me assusta é a ideia de que exista alguma coisa dentro de mim capaz de abrigar. porque passei tantos anos tentando encontrar lugar para mim mesma que nunca imaginei que pudesse existir um lugar em mim para outra coisa. nunca imaginei que pudesse existir profundidade suficiente.
acho que é essa a parte que me desmonta. não a maternidade. a revelação. a descoberta de um cômodo que eu não sabia que existia. uma parte de mim que ficou escondida por tanto tempo que eu já tinha assumido que não estava lá. e agora sem aviso ela aparece.
eu continuo sendo a mesma pessoa. continuo carregando as mesmas dúvidas. continuo olhando para o mundo e vendo o quanto tudo é frágil. mas existe uma pergunta nova vivendo dentro de mim. uma pergunta que nunca tinha aparecido antes. e talvez o que mais me impressione seja justamente isso. que essa pergunta tenha surgido numa pessoa que passou a vida inteira tentando existir e que, pela primeira vez, está olhando para além da própria sobrevivência.
eu achava que a minha vida seria outra coisa. não melhor nem pior. apenas outra. imaginava que passaria os anos colecionando ausências. sempre fui boa em me despedir. boa em seguir em frente. boa em transformar ausência em rotina. existe uma certa liberdade em não pertencer a lugar nenhum. durante muito tempo achei que era isso que eu queria.
então você apareceu e o mais estranho é que não foi o amor que me assustou. foi a calma. porque a saudade eu conhecia. a espera eu conhecia. a solidão eu conhecia. mas existe algo profundamente desarmador em acordar e descobrir que alguém continua ali. que alguém escolheu ficar mais um dia. e depois mais um. e depois mais um.
às vezes você está fazendo alguma coisa completamente banal e eu fico olhando. não porque exista algo extraordinário para ver. talvez seja justamente o contrário. talvez seja porque passei tanto tempo acreditando que a vida acontecia em grandes eventos que demorei para perceber que ela mora nas coisas pequenas. numa conversa interrompida pelo sono. num copo esquecido na mesa. numa música tocando em outro cômodo. na sua mão procurando a minha sem nem pensar.
e talvez seja por isso que exista sempre um pouco de tristeza misturada com tudo. não uma tristeza ruim. uma tristeza antiga. daquelas que aparecem quando olhamos para alguma coisa bonita e sabemos que ela está acontecendo agora. exatamente agora. e que um dia será apenas memória. acho que amar alguém é isso. não ter medo de perder. mas perceber, pela primeira vez, o tamanho exato do que seria perdido.
eu não estava procurando por você. acho que essa é a parte mais perigosa da história. eu já tinha organizado a vida de um jeito que funcionava. sabia voltar para casa sozinha, sabia ocupar os silêncios, sabia atravessar os dias sem precisar dividir cada pensamento que aparecia. e então você chegou e estragou uma solidão que eu tinha levado anos para construir.
o amor sempre me pareceu uma coisa um pouco humilhante. existe algo de ridÃculo em perceber que uma pessoa começa a ocupar lugares que nunca foram dela. de repente você está escolhendo uma música e pensando nela. está andando pela rua e pensando nela. está olhando uma mesa vazia num restaurante e imaginando ela sentada ali. eu odiava a ideia de precisar de alguém. até descobrir que paixão não pede licença para entrar. quando percebi, você já estava em todos os lugares onde eu costumava estar sozinha.
antes as coisas aconteciam apenas comigo. agora tudo o que me toca parece tocar você também. cada despedida assusta mais. cada distância pesa mais. cada possibilidade de perda ganha um tamanho absurdo.
às vezes olho para você e sinto uma tristeza estranha misturada com felicidade. não por causa de alguma coisa que aconteceu. pelo contrário. porque aconteceu. porque você existe. porque eu existo. porque estamos vivos ao mesmo tempo, no mesmo século, respirando o mesmo ar por um breve intervalo de anos antes que a vida nos espalhe de novo pelo mundo. e talvez seja isso que mais me destrua no amor. não o medo de perder. mas a consciência brutal de que nada tão bonito consegue ficar para sempre.

Anya is live and ready to show you everything. Watch her strip, dance, and perform exclusive shows just for you. Interact in real-time and make your fantasies come true.
Free to watch • No registration required • HD streaming
o que mais me assusta é a facilidade com que um ser humano se adapta. a gente se adapta à tristeza, à ausência, ao cansaço. se adapta a continuar. no começo você percebe o peso de tudo. depois aprende a andar carregando. depois esquece que está carregando. e talvez seja essa a parte mais perigosa.
às vezes me pego feliz e isso deveria ser uma coisa simples. mas existe sempre um segundo pensamento chegando logo atrás. uma espécie de fiscal da memória. como se alguma parte de mim estivesse constantemente conferindo se eu não esqueci alguma dor pelo caminho.
não é que eu viva presa ao passado. é que algumas coisas nunca terminam de ir embora.
outro dia encontrei um crocodilo. não lembro exatamente como cheguei até ali. lembro do cheiro do pântano, da água escura e da sensação de que qualquer passo em falso seria engolido sem deixar rastro. então eu o vi. parado. quase invisÃvel. como se estivesse naquele mesmo lugar há tanto tempo que já tivesse se tornado parte da paisagem.
acho que deveria ter sentido medo. na verdade, acho que essa é a única reação aceitável diante de um crocodilo. mas o que me assustou foi outra coisa. eu não senti nada. fiquei olhando para ele e me perguntando qual dos dois parecia mais perigoso. ele, escondendo os dentes sob a superfÃcie da água, ou eu, incapaz de encontrar dentro de mim a reação que deveria existir. durante alguns segundos procurei o medo como quem procura um objeto perdido no escuro. procurei a adrenalina, o instinto, qualquer coisa que me lembrasse que eu ainda pertencia ao mundo dos vivos. não encontrei.
e então pensei que talvez o crocodilo tivesse alguma vantagem sobre mim. porque ele ainda sabia exatamente o que era. estava onde deveria estar, fazendo o que criaturas como ele fazem. imóvel. atento. sobrevivendo. eu era a única coisa fora de lugar naquela paisagem. o pântano parecia honesto. o crocodilo parecia honesto. até a possibilidade de ser devorada parecia honesta. o que não parecia honesto era continuar atravessando os dias como se nada estivesse faltando.
fiquei olhando para ele por mais tempo do que deveria. não porque estivesse fascinada, mas porque estava com inveja. há algo de invejável numa criatura que não precisa fingir estar bem, que não precisa transformar a própria dor em produtividade, em conversa, em normalidade. depois fui embora e o crocodilo ficou. mas desde então não consigo parar de pensar que, se o pântano tivesse me engolido naquela tarde, talvez ele estivesse apenas chegando atrasado.
durante anos achei que meu trabalho era juntar os cacos. não importava o que tivesse quebrado. eu me sentava no chão e começava. recolhia pedaço por pedaço, à s vezes com tanto cuidado que esquecia de olhar para as mãos sangrando. fiquei tão boa nisso que passei a acreditar que era essa a minha função. enquanto algumas pessoas viviam, eu reconstruÃa. enquanto algumas pessoas iam embora, eu tentava devolver forma ao que já tinha acabado. enquanto algumas pessoas seguiam em frente, eu permanecia ajoelhada diante dos restos, convencida de que amor era isso, força era isso, maturidade era isso.
o problema é que ninguém me contou que existem coisas que quebram porque chegaram ao fim. ninguém me contou que alguns cacos não são um pedido de socorro. são apenas a prova de que alguma coisa existiu. então eu passava dias, meses, anos tentando ressuscitar o que já não queria viver. tentando encaixar pedaços que já não pertenciam uns aos outros. tentando salvar histórias que tinham decidido morrer muito antes de mim.
e talvez a pior parte não fossem os cacos. talvez a pior parte fosse perceber quanto da minha vida ficou espalhada no chão junto com eles. porque enquanto eu tentava reconstruir tudo o que havia perdido, também me quebrava. e ninguém recolhia os meus pedaços. até que um dia olhei ao redor e entendi uma coisa terrÃvel: a vida inteira estava acontecendo em outro lugar. o mundo continuava girando, as pessoas continuavam se apaixonando, mudando de cidade, cometendo erros, começando de novo. e eu ainda estava ali, ajoelhada, tentando convencer ruÃnas a voltarem a ser casa. foi então que me levantei. não porque os cacos deixaram de doer. mas porque compreendi que há uma diferença entre amar alguma coisa e passar a vida inteira morrendo nos destroços dela.
existe outro tipo de desaparecimento. ele acontece numa terça-feira e depois em outra, e depois em outra.
07:18 o despertador toca.
08:42 continuo na cama.
11:03 continuo aqui.
o curioso é que ninguém ensina como assistir à própria vida indo embora. as pessoas falam sobre a morte como um evento, alguma coisa que acontece de uma vez só. uma ambulância, um hospital, um funeral. mas existe outro tipo de desaparecimento. ele acontece numa terça-feira e depois em outra, e depois em outra.
14:27. o café esfria. as mensagens ficam sem resposta. um prédio é construÃdo na esquina. um casal termina. uma criança aprende a ler. um cachorro envelhece. as árvores perdem as folhas e recuperam as folhas. a vida continua avançando em todas as direções ao mesmo tempo. e, de alguma forma, eu continuo exatamente no mesmo lugar.
18:51. acho que o que mais dói não é a tristeza. não é nem a solidão. é perceber como o mundo continua funcionando perfeitamente sem mim. os ônibus passam. os escritórios fecham. alguém recebe uma promoção. alguém compra uma passagem. alguém descobre que vai ser pai. ninguém percebe a diferença entre a minha presença e a minha ausência. existe uma ferida muito particular nisso. perceber que o mundo se adapta rapidamente à falta de qualquer pessoa.
23:40. de vez em quando me lembro de alguém que já fui. uma versão minha que fazia planos para os próximos cinco anos, que acreditava que o futuro era um lugar para onde eu estava indo.
00:16. agora às vezes tenho dificuldade de imaginar a próxima semana.
01:09. e é aà que surge a pergunta que mais me assusta.
02:31. não quanto tempo uma pessoa consegue sobreviver à dor, mas quanto da vida uma pessoa consegue perder enquanto continua respirando.
03:17. o relógio continua avançando.
03:18. eu também.
03:19. mas nem sempre tenho certeza de que estamos indo para o mesmo lugar.

Anya is live and ready to show you everything. Watch her strip, dance, and perform exclusive shows just for you. Interact in real-time and make your fantasies come true.
Free to watch • No registration required • HD streaming
à s vezes fico olhando as janelas dos prédios por tempo demais. não porque me interessem as pessoas, mas porque me interessa a distância. há uma mulher regando plantas, um homem andando de um cômodo para outro enquanto fala ao telefone, uma famÃlia jantando, alguém dobrando roupas, alguém assistindo televisão. cenas tão pequenas que quase não significam nada. mas, por algum motivo, me machucam.
talvez porque eu saiba que nunca vou saber o que aconteceu antes daquele instante nem o que acontece depois. nunca vou descobrir o nome dessas pessoas, nunca vou ouvir suas histórias favoritas, nunca vou saber qual foi a pior coisa que já viveram ou quem partiu seus corações. eu as vejo existir por alguns segundos e depois desaparecem atrás de uma parede. acho que a vida inteira é mais ou menos isso. passamos uns pelos outros como trens durante a madrugada. por um instante as janelas se alinham, conseguimos enxergar um rosto iluminado do outro lado e então os trilhos se separam para sempre.
há uma tristeza particular em perceber que a maior parte do mundo será para sempre inacessÃvel. não os paÃses que nunca visitei, mas as pessoas. as vidas. as conversas que estão acontecendo agora em apartamentos onde nunca entrarei. à s vezes penso que vou morrer sem saber quase tudo, sem conhecer quase ninguém de verdade. e o pior é que ninguém parece sentir essa perda. a mulher continua regando as plantas, o homem continua andando pela sala, a famÃlia continua jantando. e eu continuo aqui, do outro lado da rua, assistindo um mundo inteiro acontecer sem mim.
hoje de manhã vi um homem dormindo na calçada. na verdade não vi. vi um monte de cobertores, uma sacola rasgada e um pé saindo para fora. o homem eu imaginei depois. continuei andando. na esquina seguinte um ônibus despejou dezenas de pessoas na rua e por alguns segundos fiquei olhando elas atravessarem juntas. não sei explicar exatamente por que mas tive a impressão de que elas se pareciam mais com aquele monte de cobertores do que gostariam de admitir.
ninguém parecia estar indo para algum lugar. pareciam estar sendo levadas. há alguma coisa estranha em vender cinco dias da semana para comprar dois de volta. há alguma coisa estranha em chamar isso de vida. os relógios giram, os elevadores sobem, as catracas contam corpos, alguém dorme na rua, alguém dorme num apartamento de cinquenta andares, alguém morre de fome, alguém faz uma reunião sobre crescimento e todas essas pessoas acordam com despertadores.
quando eu era criança achava que os adultos sabiam de alguma coisa que eu ainda não sabia. agora sou adulta e descobri o segredo. não existe segredo. existe apenas um acordo silencioso para fingir que isso tudo faz sentido. o homem na calçada, o homem no escritório, a mulher no caixa, o entregador, eu. todos acordando cedo. todos cansados. todos tentando não olhar por muito tempo para a única pergunta realmente perigosa: se ninguém está feliz, se ninguém está livre e se ninguém consegue parar, então exatamente quem está vivendo esta vida?