sabe quando a gente olha para um rio e ele parece parado? a superfície lisa, espelhando o céu, nenhum sinal de correnteza... mas por baixo a água segue, lenta e constante, levando folhas, galhos, pedaços de terra das margens...
a impressão de imobilidade é só da superfície. no fundo, ele continua seu curso... outro dia eu reparei numa folha seca boiando neste mesmo rio: ela sumiu devagar, foi escorregando pra longe sem fazer barulho. e eu entendi. o rio estava andando o tempo todo, só não dava pra ver de longe...
acho que a vida também é assim de vez em quando... a gente olha pra ela e pensa que nada mudou. os mesmos dias, as mesmas paredes, o mesmo caminho da casa pro trabalho, do trabalho pra casa... dá um desespero quieto, uma vontade de sair correndo sem saber pra onde. mas será que parado é mesmo parado? ou será que alguma coisa se mexe dentro da gente, bem lá no fundo, enquanto a gente acha que não tá saindo do lugar?
o mundo moderno, por exemplo, criado pra acreditar que viver é produzir. é ter o que mostrar. é contar pros outros as conquistas do mês... se não tem conquista, parece que o mês foi jogado fora... mas isso é uma armadilha danada! porque tem fase da vida que não é pra fora, é pra dentro. fase de arrumar a casa por dentro. de tirar o pó das ideias, de trocar o que tá quebrado, de jogar fora o que não serve mais... e isso não aparece em foto nenhuma, ninguém posta em rede social, mas acontece.
quando a gente não sabe pra onde ir, fica um medo no ar. medo de errar, medo de escolher errado, medo de se arrepender depois. é um medo que faz sentido... mas me pergunto se o verdadeiro erro não é ficar parado por medo de andar na direção errada... talvez direção certa seja uma ideia muito dura, muito rígida. talvez existam só direções diferentes, cada uma com sua curva, sua subida, seu trecho esburacado....
a verdade é que risco e consequência, neste contexto, são companheiros inevitáveis de qualquer movimento... a vida vai sempre cobrar alguma coisa. então a escolha real não é entre segurança e perigo. é entre um preço que a gente escolhe pagar e um preço que a vida escolhe por nós. e essa segunda opção costuma vir sem aviso...
então o tempo parado também conta... ele pode ser justamente o trecho mais importante, onde a gente junta os cacos, respira fundo, e decide o que realmente importa... a pausa ensina... o silêncio mostra coisas que a correria esconde. e talvez... só talvez, ficar quieto um pouco seja o jeito mais honesto de se preparar para o que vem depois.
não precisa ter pressa. o rio não tem...
talvez a gente passe tempo demais olhando para as margens: de um lado o que ficou, do outro o que ainda não chegou... e se esquece de que o rio não escolhe entre elas, corre justamente por não pertencer a nenhuma...
e a água também não tem pressa de definir o que é partida e o que é chegada. só flui, entre o que foi e o que será, carregando as duas paisagens no mesmo silêncio.
quem sabe a sabedoria esteja aí: em aceitar que a gente também é feito desse espaço entre margens. e que correr, às vezes, é só permitir que o fundo nos leve...
















