Casa é um lugar estrangeiro
O ano é dois mil e vinte, eu estou em casa, e você também. As circunstâncias são inusitadas, mas não parecem estar fora do roteiro - digo isso porque ultimamente, a humanidade têm seguido caminhos estranhos, e o anormal é o novo normal. Ficção científica é o novo realismo. Mas admito, sou irremediavelmente otimista, e diante dessa pandemia, me lembrei porque tenho tanto carisma pelo ser humano. Agora a gente não pode se encostar, mas eu nunca antes tinha presenciado tanto afeto. A empatia é global, têm sido exercida em forma de diplomacia¹ ou através de melodias tocadas da varanda.
Afinal, em devidas proporções, somos todos vizinhos. Somos todos vizinhos e estamos em nossas casas. E assim começa a primeira correspondência desta newsletter, falando sobre casa. Pra me debruçar nesse conceito, trago Home Is a Foreign Place (1999), de Zarina. Gosto dessa obra porque me vejo um tanto nela. “Eu entendi, desde muito nova, que casa não é um lugar permanente. É uma ideia que carregamos conosco. Nós somos nossas casas”, Zarina explica.
A obra é composta por 36 gravuras impressas em madeira. Em cada um desses quadrados, um desenho minimalista faz referência ao que seria o universo do lar para a artista. São figuras geométricas, que remetem à distância, linguagem, muros, etc. Como se pode perceber, Zarina é imigrante. Nasceu na Índia, onde cresceu em meio à lutas políticas e religiosas. Mais tarde, viveu em Bangkok, Delhi, Paris, Tóquio, Los Angeles, e algumas outras cidades, até se estabelecer em Nova York.
Pela primeira vez, estou morando no estrangeiro, e estou em casa. Eu, assim como Zarina, entendo que casa é um lugar mais psíquico do que físico. Essa casa em que habito lembra muito a da canção de Vinicius de Morais. Não tem teto, nem chão, nem parede, mas é feita com muito esmero. Casa é um lugar dentro de mim.
Casa é coerência, me sinto em casa na minha cabeça, me sinto em casa quando escuto Tom Jobim, quando escrevo, ou quando estou sozinha em uma cidade diferente. Casa é um lugar estrangeiro, mas nunca desconhecido dentro da gente. A coerência é essa: é algo pessoal, imutável, talvez seja isso o que chamamos de essência - ela é a nossa casa.
O desafio dessa quarentena é esse, estar em casa dentro e fora. E para se manter confortável no lar que a psicanálise carinhosamente apelidou de subconsciente, aqui vai algumas dicas do que fazer e consumir nesse tempo de isolamento:
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As indicações e respectivos links fazem parte de uma curadoria pessoal (e bem humanizada) que tenho feito em minha newsletter “carrespondêcia”, pra acompanhar o projeto, assine em: tinyletter.com/carrespondencia
ca-rrespondência by Catarina Ayres













