power and control ◹◺ zoya et pablo
pablonopabloyes:
@beexfrost
Ao que tudo indicava, Avalon estava voltando aos trilhos, e Pablo deveria continuar na faculdade como se nada tivesse acontecido —— como se ele não tivesse estado tão perto de morrer, durante aquele mês em que esteve internado em coma. Duas semanas foram suficientes para que as sequelas diminuíssem e ele pudesse voltar à rotina diária de exercícios, combinada sempre dentro da oficina para que estivesse perto de Celaena enquanto Gretta ainda não voltava a falar consigo. O moreno simplesmente não conseguia gostar daquele vazio em sua cabeça, tão acostumado com as palavras femininas, sempre o enervando com a quantidade de imposições éticas que punha como verdades absolutas. Recluso por natureza, as poucas vezes em que participava de eventos escolares poderiam ser contadas nos dedos, ao menos até ser chamado para o time de futebol americano, dois anos após voltar para a instituição depois do período nas planícies desertas de Qarth. Ali ao menos a agressividade poderia sair do corpo do Borbón, como uma válvula de escape que nem mesmo a adrenalina proporcionada pelos furtos e por suas aventuras semanais com sua moto poderiam proporcionar. Ao jogar outros no chão com a força bruta, Pablo sentia o liame entre a loucura e a sanidade se afinar, muito parecido com o que sentia quando o irlandês estava presente no mesmo recinto, ainda que fosse mais discreto no primeiro caso. Fato era que não suportava, contudo, as aparições públicas, as fotos e os flashes o enervavam a ponto de quebrar as câmeras dos fotógrafos sem necessitar de outros gatilhos; a sensação de estar enjaulado dentro da Academia era sufocante, e Pablo tinha plena consciência de que seus inimigos já sabiam quem de fato era Bhaltair e como poderiam atingi-lo depois de anos o procurando. Até mesmo o surpreendia o fato de terem demorado tanto para enfim decifrarem o quebra-cabeças. Não importava extremamente, ao fim e ao cabo, a questão principal era que ele deveria se manter quieto e planejar seus próximos passos —— a bem da verdade, Pablo nunca fora extremamente paciente.
Olhou o relógio de platina, suor escorrendo-lhe pelo corpo ao terminar de socar o saco de pancadas, a preocupação incólume com o paradeiro de Gretta fazendo com que perdesse a noção do tempo por alguns segundos, mas tão logo escutou barulhos diante da porta, virou o rosto na direção, encontrando outros alunos de Avalon que dividiam sua atenção entre um Pablo completamente imundo e a tela do celular. Sem paciência para aquilo, o moreno tomou o celular de um dos príncipes, identificando uma foto sua tirada com o uniforme de Avalon. De incrédulo, a careta de Araganza se tornou furiosa, e ele levantou o rosto apenas a tempo de ranger os dentes, como se estivesse indagando quem havia feito tal coisa, os olhos naturalmente esverdeados tornando-se amarelo-alaranjados em questão de segundos. Não demorou muito até que finalmente abrissem a boca —— e ele não se desculparia pelos olhos roxos que deixara no caminho, de fato ——, rompendo a porta em direção à ala das líderes de torcida. Svitlana lhe devia uma explicação.
Ao encontra-la treinando junto às amigas, o moreno manteve a expressão severa ao indicar para que todas se afastassem dali. Pablo não pretendia ter uma plateia, e Zoya era, de fato, uma criança. “Vão.” A voz trovejada ecoou no ginásio, e as garotas quase pularam de tão assustadas, mas aquilo realmente não o interessava no momento —— arriscaria que nunca o interessaria, se fosse sincero ——, enquanto mantinha os olhos sobre a loira que estava predestinada ao trono ucraniano. Assim que se viram sozinhos, o moreno jogou o celular emprestado aos pés da princesa, clara pergunta ao cruzar os braços. “¿Qué diablos es eso?” A manutenção do contato visual parecia mandatória para o moreno, e ele mais rosnou do que fez uma pergunta de fato, perdendo a completa razão do fato. Há quanto tempo aquela foto havia sido tirada? Provavelmente ligariam Zoya à ele, e a ucraniana também não mais estaria segura. Ótimo, bufou, que sirva de lição para ela. “Não sou um desses modelos para que tire fotos de mim sem que eu deseje.” Terminou, sério. O objetivo de sua ida ao local baseava-se no comportamento de Zoya, e ele realmente esperava que ela apagasse aquela foto —— que fosse a única.
A rotina se tornava facilmente executável depois de milhares de repetições. A música pop não sairia tão cedo de sua cabeça após o treino, cada sílaba da melodia associada a um movimento em específico do repertório da equipe de torcida. Svitlana assumia outra personalidade ao encarnar ‘a líder de torcida’, visto que a tarefa exigia um nível de desinibição que não lhe pertencia naturalmente. O uniforme, nessas ocasiões, fazia as vezes de uma fantasia, e então era simples fingir que aquilo era uma apresentação ––– tal qual quando interpretava um papel nas oficinas de teatro. A verdade era que Zoya adorava ser outra pessoa, embora não fosse do tipo dissimulada, nem tentava mostrar-se diferente do que era. Era aliviante, contudo, mudar, apenas para fugir da monotonia que a cercava. Nem mesmo o fato de dividir a cabeça com Heimdall ajudava em alguns momentos; quando as coisas se tornavam tão repetitivas quanto o ensaio comandado por Veridiana, ela precisava encontrar formas de escapar. Fora numa dessas ocasiões, em que sentia-se especialmente corajosa, que ela tirou uma foto de Pablo. O garoto atravessava o campo em mais uma de seus ótimas partidas, prestes a pontuar para equipe de Avalon. Na oportunidade, havia tantos flashes sendo disparados ao mesmo tempo que ele jamais perceberia aquele que partira do celular da ucraniana. A intenção era ter uma foto para si, guardada na segurança de seu cartão de memória. Era óbvio que ela tinha salvo todas aquelas que estavam disponíveis nas redes sociais do espanhol, mas essas eram escassas se se considerasse o quão reservado era o garoto. Também havia decorado os detalhes do rosto do moreno à distância, e agradecia à memória eidética por conceder-lhe essa dádiva. Apesar disso tudo, ela queria ter a própria foto ––– um segredo. Ou ao menos seria um segredo, se uma das garotas da equipe não tivesse a publicado em seu Instagram sem que ela percebesse.
A Szoroshenko divertia-se naquele ponto do treino, a animação superando o cansaço ––– nem dava mais tanta atenção às ordens da capitã, vez que estavam prestes a ser dispensadas ––– quando a figura do espanhol se aproximou, pisando duro. Vestia uma camiseta leve, típica de treinos; devia estar na academia antes de se dirigir até ali, aperfeiçoando aqueles músculos de pedra que não precisavam de aperfeiçoamento. Zoya pensou que ele fosse meramente cruzar ao lado da pista, as ignorando como sempre fazia, mas seu coração começou a bater descompassado quando percebeu que Pablo caminhava até a ela. Até ela. Não seria exagero dizer que estava prestes a ter um colapso; a confusão invadindo-a rapidamente ao perceber que o príncipe não parecia contente. Para começar, ele quase nunca dirigia a palavra a ela, logo, Lana não tinha ideia do que poderia ser. Temia, entretanto, que se tratasse de algo péssimo. A loira estremeceu de leve ao ouvir a voz trovejante ecoar no ginásio, fazendo com que todos os membros da equipe de torcida dispersassem no mesmo instante. Ela também havia começado a caminhar, fingindo que, fosse o que fosse, não tinha nada a ver com ela, quando o aparelho de telefone celular foi lançado em sua frente, impedindo-a. Bem, se aquele era celular de Pablo, então ele realmente não se importava com telas quebradas.
Havia se tornado quase fluente em espanhol desde que descobrira a ascendência do príncipe. Todos haviam estranhado quando Zoya, de uma hora para outra, começara a frequentar as aulas com um afinco quase doentio. Ao menos isso não a tornava uma completa inútil na frente do moreno por não entender o que ele falava. ❝ É...é... ❞ ––– bem, talvez fosse uma completa inútil de qualquer jeito na frente dele. ❝ Eu não sei como isso foi parar aí ❞ ––– disse, como se isso fosse um pedido de desculpas. Comprimia as mãos insistentemente, e tinha certeza que as bochechas haviam adquirido aquele vergonhoso tom de vermelho. Ela queria que um buraco a consumisse naquele momento ––– como aquela foto havia ido parar na sua conta? E com filtro, ainda por cima? Preferia encarar a tela do que o rosto enfurecido do Borbón, mas apenas porque sabia que isso era pior, ela ergueu os olhos para fitá-lo. ❝ Sei disso! ❞, emendou, quase desesperada demais. ❝ Quer dizer, você é quase tão bonito quanto, até mais––– ❞, se interrompeu ao perceber que estava dizendo mais besteiras ainda. ❝ O que quero dizer é: me desculpe. Isso vai sumir agora mesmo ❞, falou apressadamente, enquanto catava o Iphone na bolsa, ficando de costas para ele por um momento. Parecia haver mais coisas inúteis em sua sacola naquela tarde do que em qualquer outra, porque a Szoroshenko levou pelo menos um minuto para encontrar, com as mãos trêmulas, o dispositivo branco. ❝ Aqui! ❞ , exclamou ao se virar de frente, se contendo ao perceber que ainda devia estar sendo observada. Após alguns cliques na tela, no entanto, a imagem havia desaparecido de sua rede social.
❝ E-eu não sei como isso aconteceu, Pablo. Juro que não sei. Deve ter sido alguma brincadeira das garotas... ❞, se desculpou mais uma vez, passando a mão na testa. ❝ Mas acabei de apagar ❞, completou, se aproximando do espanhol para mostrar a tela do celular, em que não se via foto alguma dele. Nesse momento, a ucraniana foi inundada pelo aroma característico do príncipe, atrelado ao odor da camada de suor que cobria sua pele. Ele poderia ser mais sexy? ––– aquilo não facilitava em nada na diminuição de sua obsessão.












