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@pablonopabloyes
Em um estado longe do que poderia se considerar consciente, Gretta franziu o nariz, o cenho acompanhando o movimento ao sentir uma fragrância masculina cujo efeito era tanto familiar quanto desconhecido. A mão fechou-se sobre um tecido de algodão, provocando um leve formigamento contra a região. De fato, todo seu corpo era inundado por uma sensação desconcertante. Como se os sentidos estivessem aflorando, as células demandando atenção, tal qual cada um dos tecidos e órgãos. Naquele momento em especial, era o epitelial que sobrepunha-se, exigindo mais daquele toque quente que… A garota abriu os olhos lentamente, deparando-se com uma figura masculina ao seu lado. Cabelos negros bagunçados - não somente pelo sono, ela julgava -, tez clara, lábios carnudos adornados por uma barba por fazer - que, agora ela se recordava, roçara em seu rosto durante a noite. O mais desconfortante não foi distinguir esses detalhes ou o fato de ele prendê-la contra seu peito tão veemente, mas a forma como toda a sua essência parecia reagir àquele desconhecido.
Em um sobressalto, ela recuou e empurrou o rapaz, imprimindo toda a sua força no ato. — Aparte-se de mim imediatamente, cavalheiro. - vociferou, ao tentar firmar-se de pé no chão. Ao descer o olhar sobre o próprio corpo, percebeu não vestir mais do que um casaco masculino, o qual parecia ter sido parcialmente aberto durante a noite. Ela fechou-o com força, o rosto imediatamente adquirindo uma coloração vibrante de vermelho. — Exijo que enuncie os motivos para tão degradante situação.
O corpo doía, queimava e implorava por descanso desde o momento em que libertara Pandora, como se tivesse arrancado parte da própria carne para que a mulher aparecesse diante dos olhos esverdeados. O restante do grupo parecia sofrer do mesmo resultado, mas o moreno simplesmente negou quando algum estranho veio ao seu encontro enquanto ele carregava sua missão no colo, desacordada. Lembrava-se extremamente bem do quanto tremia sobre aquela pedra e especialmente da forma como ele desejou que os olhos de Frederik, Andras e mesmo Helena não recaíssem sobre o corpo desnudo. Antes que percebesse, um Pablo incrivelmente cansado e ofegante estava aninhando a estranha com sua jaqueta ------ não era muito, mas deveria servir por hora. Ao menos faria com que parassem de olhar para ela daquela forma. Negou levemente, daquela vez, já deitado no sofá, esfregando os olhos no intuito de se manter acordado, de observar cada uma das reações de Pandora. Hefesto a queria por algum motivo e, conhecendo o patrono, não parecia imperativo entrega-la direto ao açougueiro. Algo nela o intrigava, e, por esse motivo, o espanhol se levantou do sofá, sentando-se ao lado da morena na cama. Foi só quando passou a tremer que ele soube não poder se afastar dali, incapaz mesmo de tirar os olhos da mulher que, vez ou outra, agarrava o pulso do moreno exatamente onde o relógio familiar sempre estivera. Não precisava mensurar a quantidade de choques elétricos que o mínimo contato propagava em seu corpo, tampouco a forma como ele se viu sonolento depois de algum tempo na rotina. O deus não a reclamaria logo agora, então se permitiu recostar na cabeceira da cama, os olhos sempre sobre a misteriosa mulher, Gretta. Não, aquela não era Gretta, assegurou-se, desviando o olhar do rosto sereno. A mensageira de Hefesto há muito se fora, e ele tinha plena ciência disso.
Não sabia exatamente em que ponto da noite ele próprio trouxe a morena para mais perto, tampouco se tinha sido ela a causadora do episódio, mas a fragrância que emitia parecia calmante aos seus sentidos, e Pablo inconscientemente se aninhou mais ainda a ela, o queixo dele encostando no alto da cabeça enquanto o braço parecia puxá-la para mais perto. Como um baque, contudo, a calmaria havia de terminar, e o golpe ------ literalmente ------ veio justamente dela, acordando-o em um sobressalto. De olhos arregalados, o moreno buscou qualquer arma que pudesse usar contra o patrono, sangue convergindo de todas as direções na esperança de que ele pudesse proteger o seu território da influência da deidade. Só quando percebeu que não havia real perigo ali, voltou os olhos para a morena, piscando algumas vezes ao vê-la de pé e, evidentemente, lutando para não abaixar o olhar rumo às pernas. Engolir em seco pareceu a melhor ação à época, mas tão logo recuperou o fôlego, fechou a cara, o arquear de sobrancelhas incrédulo enquanto escutava cada uma das palavras proferidas pelos lábios que Pablo observada de forma tão beata que poderia descrevê-los sem perder um detalhe sequer.
“Não precisa mandar duas vezes.” Vociferou, revirando os olhos antes de tomar um dos edredons com o intuito de secar o líquido que se acumulara na região do peito. Baba, é claro. A princesa babava, que novidade. Revirou os olhos, irritado por ter acordado de maneira tão brusca. “Um obrigado por ter salvo a minha vida seria de muito bom tamanho antes de qualquer explicação, vossa excelência.” Resmungou, teimoso, ainda que soubesse que devia falar algo mais tangível para a outra. Fato era que ele próprio estava tão ou ainda mais perdido que a morena ------ o pudor dela parecia vindo do século XVIII, e aquilo simplesmente o irritava mais. Não tinha feito nada com ela. Maldita hora em que decidira aceitar a estúpida missão mas, de novo, Suniwa estava em perigo. Engoliu, rangendo os dentes antes de revirar os olhos, a camisa vestida antes mesmo que a mulher se desse conta de que ele estava sem vestes e em contato com ela ------ seus ouvidos não aguentariam o escândalo que estaria por vir. “Quem acha que eu sou, a propósito?” Negou, a careta de irritação transmutando seu rosto em rubro a medida em que a ideia de que poderia ter se deitado com a morena para se aproveitar dela tomava a sua mente ------ não poderia dizer que não cogitara a hipótese, era homem, mas detestava que alguém falasse aquilo em voz alta. “Você não é exatamente o meu tipo.” Soltou uma risada engasgada, sarcástica, antes de romper a porta para longe da morena.
Há quanto tempo a gente já se conhece, né, Catiora? Aposto que você sente falta de quando não tinha nós três loucas surtando no seu chat. Tu merece mais do que isso, mas achamos que uma retrospectiva dos nossos chars/ships/bromances/gaymances era mais do que justa! Desejamos a você tudo do melhor, que você continue sendo sempre essa pessoa maravilhosa (não tem outro adjetivo para qualificar, tbh), engraçada, zen, deboas, criativa, amiga, adorável e simpática. Tudo do melhor pra você, e mais 20, 30, 40 anos pela frente da nossa amizade! ❤
São os votos da Sage, da Cora e da Ren.
@hellodarknesss, @gxldenbird, @vee-babydoll
(FLASHBACK)
Não se pode explicar o que Hendrik sente quando alguém chama-o de General, e não é exatamente uma coisa boa. Ele fica com medo de ser algum espião, mesmo quando a língua que o mesmo fala não seja holandês. Virou para o outro, pedindo ao seu Patrono – se ele ainda o escutasse – para que não fosse o que ele estava pensando. O seu peito relaxou quando notou que era o príncipe espanhol, felizmente. ‘’Ah, Alteza, eu levei um susto.’’, disse, aliviado. ‘’Não precisa fazer isso, de verdade.’’, deu um sorriso totalmente sem graça. Mesmo com a ‘manutenção’ de sua patente em Avalon, nem se considerava mais um militar. O Rei da Holanda não tirou apenas seu status, mas como seu orgulho e quase sua vontade de viver, que só se mantinha em pé por causa de seus filhos. ‘’O que te traz aqui tão tarde? Não deveria, sei lá, estar dormindo?’’, perguntou.
O espanhol meramente arqueou uma das sobrancelhas, comprimindo os lábios em uma linha fina ao assentir ante as palavras de Hendrik, mas estava claro que ele não fazia a mínima ideia do motivo do general se tratar de forma tão cruel. Portanto, Pablo meramente deu de ombros, cruzando os braços com cuidado para que o objeto não fosse visto pelo General. “Ultimamente muitos têm levado sustos por aqui.” Comentou, certo de que não deveria manter uma conversa que fosse com o militar, especialmente enquanto carregava uma das inestimáveis propriedades de Avalon nas mãos. “Chegam a comentar que não é mais um ambiente propriamente seguro para os alunos. Ou ao menos é o que a maior parte deles estão falando.” Soltou uma risada curta, sarcástica e maledicente às pessoas que falavam do assunto. Não gostaria que a instituição fosse fechada, especialmente porque era ali onde ele escondia os tantos objetos que Hefesto mandara recolher, sabe-se lá para que. Enrico não permitiria que Pablo saísse e corresse o risco de sujar ainda mais a coroa espanhola. Assim que o general lhe repreendeu, Pablo meramente deu de ombros, passando a caminhar lentamente ------ parecia melhor do que continuar parado; a qualquer momento Hendrik perceberia o ar suspeito do Borbón. Manter uma conversa agradável não era realmente o seu forte, vez que Pablo se considerava uma pessoa muito mais bélica do que diplomática, portanto o silêncio se alastrou pelo ambiente, até que o Araganza finalmente limpou a garganta, os olhos perscrutando o recinto antes de fazer uma careta desinteressada. “Gretta precisava de uma caminhada.” A primeira mentira que lhe veio à mente pareceu correta, mas o Borbón não poderia ser classificado como um exímio mentiroso, apesar de ter aprendido a sê-lo quando no deserto de Qarth. Poucas eram as vezes que realmente utilizava dos contatos e conhecimento aprendidos naquele período, mais porque não se lembrava exatamente, ocupado demais em rememorar as vezes em que Köller e o tenente aplicaram trotes dos mais pesados no príncipe. “Nunca gostei de dormir muito, de toda forma.” Encerrou o tópico, por fim, mirando o corredor deserto. Era apenas uma questão de tempo até que de Vrij encontrasse o que estava escondendo, mas Pablo se viu impelido a estender o momento ------ o general era o mais próximo de alguém com quem se identificava dentro de Avalon, e sabendo que não poderia sair tão cedo da instituição, salvo por determinação de Hefesto, ele se viu francamente desejoso de uma conversa com alguém que poderia entende-lo, não habitava em sua cabeça ou mesmo falava em charadas, como Celaena.
[ f l a s h b a c k ]
O sangue quente do herdeiro espanhol associado à impulsividade de Andras fazia com que brigas entre os dois se tornassem corriqueiras. O Cronin não sabia exatamente como havia começado a rixa; uma palavra atravessada, um olhar de desprezo —— não importava. Se Andras ainda fosse Dougal, o futuro rei da Inglaterra, era possível que a coroa britânica não se esforçasse para manter alianças com a espanhola. O outrora Windsor jamais daria o braço a torcer depois de tantos desaforos da parte do Borbón. Talvez fosse uma bênção para os países que tivesse sido sequestrado, ou quem sabe Pablo lhe dispensasse um tratamento completamente diferente se ele adentrasse aquela escola como um scion de renome. Quando o moreno retrucou, ele percebeu que não deveria ter mencionado Gavin. Andras não mostrava suas fraquezas a ninguém —— não deveria tê-lo feito diante de uma pessoa que não era minimamente próxima de si, e que possivelmente veria sua desgraça como algo a que se comemorar. ❝ Você gosta de se ouvir falar, aparentemente ❞, provocou, revirando os olhos, e retomando a postura fria habitual, antes que deixasse entrever qualquer outra faceta sua. ❝ Não estou lhe pedindo um favor, príncipe. Seria a última pessoa a quem recorreria ❞, respondeu, com um sorriso falso que não mostrava os dentes. ❝ Esse tipo de frase de efeito vocês aprendem aqui ou em casa mesmo? ❞, perguntou, no mesmo tom desdenhoso, quando o outro mencionou fazer tudo com as próprias mãos. Se concentrava nos ferimentos, contudo, sem encarar o garoto, limpando o canto da boca com um gesto que dizia que os socos não haviam sido nada de mais —— sua mão não é assim tão pesada, príncipe. Sabia que não deveria provocar alguém tão instável quando Pablo de Araganza e Borbón, mas não seria ele se não provocasse, ou não seria a personalidade que tinha criado. ❝ Oh. Que surpresa ❞, falou, num sobressalto fingido. Era óbvio que o espanhol gostava de pensar que era melhor do que ele, apenas por ter um reino inteiro como suporte, e um futuro garantido —— coisas que haviam sido arrancadas do Cronin há muitos anos. ❝ Você não é capaz de me impedir de ir aonde quero ❞ —— e apenas para provar seu argumento, Andras usou de seus poderes outra vez, se materializando ao lado do rapaz num segundo —— sentiu o cheiro ferroso do sangue, e um certo calor que emanava do mais alto, protegido do senhor do fogo ——, logo em seguida, voltando para seu lugar de origem. ❝ Não pode controlar as sombras ❞. A bem da verdade, estava curioso sobre as atividades do espanhol. Pablo era tão fechado na maior parte do tempo que era impossível saber o que se passava em sua cabeça. Poderia estar tramando a Quarta Guerra Mundial, ou simplesmente refletindo sobre os mecanismos de um motor. E se o garoto estivesse metido em atividades ilícitas, o irlandês queria ser o primeiro a saber, ao menos para ter a vantagem.
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Não era um príncipe realmente, ao menos no aspecto comportamental, e até mesmo se orgulhava do fato quando em situações como aquela. Um bom e característico fidalgote teria corrido da briga que iniciara, ou mesmo se escondido atrás de seus seguranças particulares naquela noite, mas Borbón parecia adorar os reflexos de uma briga ------ lembrava-o, por incrível que aquilo pudesse parecer, dos bons momentos que vivera em Qarth. Provavelmente Dougal o repreenderia por conta de sua ânsia de sempre estar prestes a ser esmurrado até a quase morte, mas era somente se lembrar do amigo de infância que se lembrava que Windsor não mais respirava, que ele não poderia achar nada das práticas nada convencionais de Pablo. Bufou gravemente, respirando com certa dificuldade devido aos golpes desferidos no Cronin com força tal que demorava até mesmo para recuperar o fôlego da forma que deveria se encontrar. O sargento que o treinara ficaria realmente aturdido com o quanto Avalon tinha deixado Pablo frouxo, e isso trouxe um sorriso irônico aos lábios do moreno, fosse pelas palavras de Andras, fosse pela memória quase vívida que tinha dos dias naquele inferno. “Não tanto quanto gosto de te ver sangrar, Cronin.” Apontou com o queixo para o filete de sangue que escorria pela boca do outro, arrogância pairando sobre suas palavras como um corvo paira sobre o corpo moribundo de alguma presa. “É tão fácil, me pergunto como seu adorado pai ainda não conseguiu fazê-lo. Incompetente, suponho.” Deu de ombros levemente, incapaz de não provocar o irlandês quando ele mesmo havia sido não há muito tempo atrás. As palavras jamais foram a sua forma preferida de atingir os outros; Pablo sempre optara pela violência física, que era muito mais direta e fácil de se lidar do que a psicológica, que o lembrava tanto de sua infância e de como ele precisara de alguém para suportar os infortúnios trazidos por Hermes e Hefesto em sua cabeça já um tanto quanto deturpada. “Nem se dê ao trabalho de pedir a alguém, Cronin. Tenho plena consciência de que jamais aceitariam qualquer relação, mesmo que relacionada a favores que podem ser trocados, com você.” Semicerrou os olhos, as mãos dispostas nos bolsos da calça enquanto buscava olhar para outro canto que não onde o irlandês se encontrava. Tinha plena ciência, contudo, de que Andras poderia ser muito mais popular dentro de Avalon do que o próprio, mas não se daria ao trabalho de pensar no assunto; tinha coisas mais importantes no que se concentrar e, evidentemente, manter-se parado, continuando a retrucar e discutir com o bastardo irlandês não era, de fato, algo que o afastaria do moreno. Como se estivesse preso naquele looping interminável, entretanto, Pablo continuava no mesmo lugar, incapaz de simplesmente virar as costas ------ ele precisava da confusão, ao menos por alguns segundos; de trocar socos tal como no regimento de Qarth. Negando, contudo, pôs-se a se afastar de onde tinha aterrissado junto ao Cronin, mas foi impedido pelo próprio, que apareceu a sua frente tão logo deu o primeiro passo. Os punhos zumbiram até os ouvidos de Emilio, e ele sentiu a vertigem se instaurar no corpo novamente. Diablos, o moreno não fazia ideia do que havia desencadeado. Antes mesmo que fosse capaz de empurrar o bastardo de seu campo de visão, ele voltou à posição anterior, e o espanhol bufou uma única vez antes de virar o rosto, os punhos cerrados a ponto dos nós dos dedos adquirirem coloração esbranquiçada. O odor de carbono no ar tornou tão fácil para que o Borbón identificasse o que estava prestes a acontecer que precisou de alguns segundos para se recompor, Gretta em sua cabeça recitando palavras de calma a medida em que flexionava os dedos e com algumas caretas controlava o poder pungente que estava prestes a aniquilar o Cronin. “Tenho que te dar razão nesse caso.” As palavras saíram mais resmungadas do que faladas, e a expressão no rosto de Araganza não podia ser interpretada como pacífica, ao fim e ao cabo. “Mas não é como se os seus poderes fossem realmente impressionantes, cabrón ------ meça suas palavras antes de se gabar, não sabe o quão ansioso estou pelo dia em que vou quebrar o seu pescoço.” Assentiu, as labaredas alaranjadas eclodindo de seus dedos enquanto os observava cuidadosamente. Sabia estar sendo ridículo em suas afirmações; sabia ainda mais que ele próprio era o mais hipócrita dentre os scions. Falava de honra, mas as necessidades delitivas sempre pareciam falar mais alto quando próximo de algo de valor; falava de moralidade e sangue real quando ele mesmo gostaria de mandar toda a família real, assim como o título, para a merda, já que foi por conta dessa maldição que Hefesto se interessou nele. Não bastava para Pablo ameaçar Andras ------ sempre que se viam era a mesma ladainha de sempre ------, aparentemente ele queria ver o irlandês sob sete palmos, e esperava realmente que logo o seu desejo se realizasse. Gretta, entretanto, implorou para que aquele não fosse o caso. “Esto no es usted.”

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power and control ◹◺ zoya et pablo
@beexfrost
Ao que tudo indicava, Avalon estava voltando aos trilhos, e Pablo deveria continuar na faculdade como se nada tivesse acontecido ------ como se ele não tivesse estado tão perto de morrer, durante aquele mês em que esteve internado em coma. Duas semanas foram suficientes para que as sequelas diminuíssem e ele pudesse voltar à rotina diária de exercícios, combinada sempre dentro da oficina para que estivesse perto de Celaena enquanto Gretta ainda não voltava a falar consigo. O moreno simplesmente não conseguia gostar daquele vazio em sua cabeça, tão acostumado com as palavras femininas, sempre o enervando com a quantidade de imposições éticas que punha como verdades absolutas. Recluso por natureza, as poucas vezes em que participava de eventos escolares poderiam ser contadas nos dedos, ao menos até ser chamado para o time de futebol americano, dois anos após voltar para a instituição depois do período nas planícies desertas de Qarth. Ali ao menos a agressividade poderia sair do corpo do Borbón, como uma válvula de escape que nem mesmo a adrenalina proporcionada pelos furtos e por suas aventuras semanais com sua moto poderiam proporcionar. Ao jogar outros no chão com a força bruta, Pablo sentia o liame entre a loucura e a sanidade se afinar, muito parecido com o que sentia quando o irlandês estava presente no mesmo recinto, ainda que fosse mais discreto no primeiro caso. Fato era que não suportava, contudo, as aparições públicas, as fotos e os flashes o enervavam a ponto de quebrar as câmeras dos fotógrafos sem necessitar de outros gatilhos; a sensação de estar enjaulado dentro da Academia era sufocante, e Pablo tinha plena consciência de que seus inimigos já sabiam quem de fato era Bhaltair e como poderiam atingi-lo depois de anos o procurando. Até mesmo o surpreendia o fato de terem demorado tanto para enfim decifrarem o quebra-cabeças. Não importava extremamente, ao fim e ao cabo, a questão principal era que ele deveria se manter quieto e planejar seus próximos passos ------ a bem da verdade, Pablo nunca fora extremamente paciente.
Olhou o relógio de platina, suor escorrendo-lhe pelo corpo ao terminar de socar o saco de pancadas, a preocupação incólume com o paradeiro de Gretta fazendo com que perdesse a noção do tempo por alguns segundos, mas tão logo escutou barulhos diante da porta, virou o rosto na direção, encontrando outros alunos de Avalon que dividiam sua atenção entre um Pablo completamente imundo e a tela do celular. Sem paciência para aquilo, o moreno tomou o celular de um dos príncipes, identificando uma foto sua tirada com o uniforme de Avalon. De incrédulo, a careta de Araganza se tornou furiosa, e ele levantou o rosto apenas a tempo de ranger os dentes, como se estivesse indagando quem havia feito tal coisa, os olhos naturalmente esverdeados tornando-se amarelo-alaranjados em questão de segundos. Não demorou muito até que finalmente abrissem a boca ------ e ele não se desculparia pelos olhos roxos que deixara no caminho, de fato ------, rompendo a porta em direção à ala das líderes de torcida. Svitlana lhe devia uma explicação.
Ao encontra-la treinando junto às amigas, o moreno manteve a expressão severa ao indicar para que todas se afastassem dali. Pablo não pretendia ter uma plateia, e Zoya era, de fato, uma criança. “Vão.” A voz trovejada ecoou no ginásio, e as garotas quase pularam de tão assustadas, mas aquilo realmente não o interessava no momento ------ arriscaria que nunca o interessaria, se fosse sincero ------, enquanto mantinha os olhos sobre a loira que estava predestinada ao trono ucraniano. Assim que se viram sozinhos, o moreno jogou o celular emprestado aos pés da princesa, clara pergunta ao cruzar os braços. “¿Qué diablos es eso?” A manutenção do contato visual parecia mandatória para o moreno, e ele mais rosnou do que fez uma pergunta de fato, perdendo a completa razão do fato. Há quanto tempo aquela foto havia sido tirada? Provavelmente ligariam Zoya à ele, e a ucraniana também não mais estaria segura. Ótimo, bufou, que sirva de lição para ela. “Não sou um desses modelos para que tire fotos de mim sem que eu deseje.” Terminou, sério. O objetivo de sua ida ao local baseava-se no comportamento de Zoya, e ele realmente esperava que ela apagasse aquela foto ------ que fosse a única.
qual o problema de falar das fantasias sexuais? é frigidez????
“Nem todos precisam afirmar a todo tempo que gostam de mulheres e bater o peito, gritando o que são capazes de fazer em uma cama, Cabrón.” O moreno abriu um sorriso torto, que mais parecia algum tipo de demonstração macabra de presas das quais lhe faltavam. Verdade fosse dita, estava farto de mesmo responder o Cronin, não porque o moreno o irritava de forma intensa, mas porque sempre que se via no mesmo recinto que o outro, a fraqueza parecia se moldar ao próprio corpo, como se ele sugasse toda a energia vital que Pablo possuía. Um sanguessuga, algum tipo de vampiro, se é que aquele tipo de besteira existia no mundo governado por scions. Revirar os olhos foi imprescindível, e, no momento seguinte, o Borbón fez todo um esforço para não socar o bastardo irlandês como sua mente bem exigia, terminando de respondê-lo: “A mim parece que está tentando provar com toda essa masculinidade exacerbada algo que não é. Não me surpreenderia se te encontrasse de quatro em um beco qualquer.” Semicerrou os olhos, mais próximo do irlandês do que esperara inicialmente, superioridade escapando entre as palavras. Escondeu as mãos nos bolsos da calça, buscando omitir o fato de tremerem mais do que parecia habitual para seus níveis de mau humor.
100:if you were presented with two buttons, one that allows you to go 5 years into the past, the other 5 years into the future, which one would you press? why?
“Veridiana, algum bicho te mordeu?” Franziu o cenho, incapaz de levar a pergunta da francesa a sério quando tinha problemas muito maiores com os quais lidar. Todavia, não lhe pareceu que a Boucher desistiria de questioná-lo tão cedo, então meramente revirou os olhos, dando de ombros logo em seguida ao bufar audivelmente. “Talvez no futuro.” Chutou, buscando não encarar a francesa nos olhos. Na realidade, quanto mais abreviasse sua vida, melhor, e se poupar de cinco anos de uma existência miserável parecia realmente uma dádiva ante seus olhos. Assim que o olhar da outra se tornou mais intenso sobre si, entretanto, o moreno simplesmente virou o rosto na direção dela, sobrancelha arqueada displicentemente a medida em que se lembrava de que deveria dar algum tipo de justificativa. “Não importa o motivo. Isso nunca aconteceria, de qualquer forma.”
Já teve fantasias eróticas?
Ao escutar a pergunta, a careta impassível se tornou rubra em menos de alguns segundos, e o arregalar de olhos foi suficiente para que Pablo negasse com a cabeça veemente, incapaz de falar sobre o assunto em voz alta —— Deus, ele tinha ojeriza a falar sobre suas intimidades, e mesmo Gretta não era autorizada a tocar no assunto quando Pablo se descontrolava um pouco mais. Assim que teve coragem de falar sem que a voz saísse demasiadamente irritada, o moreno meramente semicerrou os olhos, cruzando os braços como se não devesse se prestar àquela prova. “Cuide de tua vida, maldito, antes que perceba que não tem mais uma.” Virou o rosto, os dentes rangendo a medida em que se lembrava exatamente de quando era um simples moleque fascinado por revistas pornográficas. Das revistas, as mais variáveis situações eram imagináveis pela mente pouco criativa do Borbón, e ele tinha certeza de que algumas nem mesmo legais eram —— não que esse fosse realmente o problema ——, mas a questão que sempre lhe pareceu verdadeiramente absurda era o fato de revelar o que se passava em sua mente para outros, mesmo que de confiança. Não eram práticas realmente saudáveis, e Pablo, ainda que não gostasse de admitir, tinha algum tipo de reputação a zelar.

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Qual seu desenho animado favorito?
“Dragon Ball.” Lembrava-se de assistir ao anime sempre que tinha a oportunidade quando criança. Algo o chamava a atenção no comportamento dos personagens e, ainda que desejasse ser mais parecido com Goku, atualmente Pablo parecia muito mais com Vegetta do que qualquer outro personagem ------ o temperamento, ao menos, poderia ser comparado.
Você tem alguma fobia estranha?
“Medo de se meterem na minha vida privada.” Arqueou uma das sobrancelhas, incapaz de dar algum tipo de margem para que outros soubessem o quão amedrontado ficava próximo a palhaços e o quanto detestava jacarés e cachorros no geral. “Costumo ficar realmente violento quando começam a xeretar demais, cabrón.”
⌜ * ☆ — “ this is the part when I break free ;; sofia+pablo! ’〉 ⌝
Estar no castelo do sul africano para um casamento arranjado trouxe à tona para Sofia a lembrança do seu próprio relacionamento forçado. Um relacionamento que fazia questão de ignorar a meses. Na verdade, era até bom que seu noivo tivesse desaparecido porque tudo se tornava ainda mais fácil. Sequer fazia ideia do que havia acontecido com Pablo depois do ataque. E sinceramente? Não se importava. O homem era tão desagradável que estava longe de ser alguém que fizesse a diferença em sua vida. A única coisa que tivera o cuidado em fazer fora ter certeza que ele não estava entre os mortos no ataque. Naquela tarde estava sentada ao ar livre, desenhando despreocupadamente uma das paisagens estupendas do castelo quando avistou uma figura conhecida aproximar-se. Seus olhos mal podiam acreditar que viam o espanhol depois de tanto tempo, ele vinha reto em sua direção e aquilo era um sinal claro de que o homem parecia estar decidido a falar consigo. Somente aquela percepção fora capaz de provocar uma leve bufada da princesa. No minimo, o evento também o lembrara do casamento arranjado de ambos e ele estava ali para perturbá-la com o assunto. Fechou o caderno que usava quando ele já estava a uma distância razoável e arqueou uma sobrancelha antes de se pronunciar.– O que aconteceu contigo? Você está péssimo. – comentou antes de negar com a cabeça. – Enfim, o quê você quer comigo? – perguntou sem a mínima delicadeza enquanto o encarava.
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Exatamente o oposto do que imaginava para si, o casamento aparentemente continuaria a acontecer, e ele realmente esperava que não o fizessem, visto que o precedente aberto tornaria toda a sua situação muito mais caótica. Longe de ser o tópico no qual pensara assim que acordou do coma, toda a cerimônia que se desenrolava na África do Sul parecia ter chamado a atenção do espanhol para aquele fato. Tinha problemas maiores aos quais resolver, e tinha ciência disso, mas enquanto não podia sair dos olhares da mídia e da segurança pesada do casamento real, seria minimamente adequado exterminar aquela questão de uma vez por todas. Discutir com Joana estava fora de cogitação, e ele tinha ciência de que seu pai tampouco estaria inclinado a reparar aquele erro, especialmente por não aceitar nem mesmo uma reunião com o espanhol quando na Espanha. Restava apenas a sua última escolha e, francamente, a única que esperava evitar pelo maior período de tempo possível. Não lhe interessava o fato da noiva ser uma libertina, no sentido mais amplo da palavra, tampouco não ter sentimento algum que não estivesse ligado à indiferença pela princesa, mas, ao que tudo indicava, era a única aliada no que tangia ao noivado forçado. Encontrá-la não foi difícil ------ evidente, Sofia não saía de casa sem que todos os papparazzi estivessem cientes -------, e ele não se demorou muito na caminhada. Quanto mais cedo aquilo acabasse, melhor. Se precisasse tomar algum tempo para reaver a respiração compassada, que seja, ao fim e ao cabo ao menos daquele problema ele estaria se livrando.
Ao avistá-la naquela tarde, entretanto, por pouco não revirou os olhos, escolhendo dar a meia-volta. Não tinha a mínima vontade de passar míseros minutos na companhia da mexicana, mas algo o impeliu para a frente, até que ele próprio não pudesse mais ignorar a proximidade e dar as costas à mulher, como se nada houvesse acontecido. à primeira palavra da mexicana, Pablo teve que reunir toda a vontade que ainda habitava em seu corpo para tentar sorrir, como um bom cavalheiro ----- mais parecia uma careta do que um sorriso, ao final. “Coma. Deveria tentar alguma vez, é uma experiência extraordinária.” Semicerrou os olhos, o cinismo presente na fala inconscientemente. “Os médicos dizem que estou lidando muito bem com a situação.” Assentiu uma única vez, as palavras saindo dos lábios sem que pensasse muito, controlando ao máximo a respiração para que ela não se descompassasse pela falta de fôlego. De olhos um pouco fechados, era muito mais fácil se concentrar em quais eram as suas prioridades, e conversa fiada não era uma delas. Assim que escutou a pergunta da outra, Pablo soltou um pouco do ar que estava contendo pelas narinas, acenando para o banco ao lado da outra, como se estivesse pedindo algum tipo de permissão para se sentar ali. Resolveu ignorar as próprias ações, soltando uma única bufada ao consumar o pedido sem ter esperado pela sua aprovação, talvez porque não lhe importava a opinião ou mesmo a permissão da mexicana para algo que fazia ou deixava de fazer. “Assegurar que qualquer possibilidade de um casamento e união entre o México e a Espanha seja um sonho distante. Soa bem para você?” Arqueou uma das sobrancelhas, os cotovelos sobre os joelhos a medida em que se inclinava mais para a frente, sem nunca manter os olhos sobre o rosto da noiva. “Vai continuar galinhando de qualquer forma e eu vou ser minimamente poupado de uma esposa para a qual deveria dar explicações.” Continuou a explicação, o tom indiferente demonstrando que não precisava realmente da ajuda da Romero ------ nunca disse que não era um bom mentiroso, afinal.
we’re looking for a sunset ◹◺ veelo
Se Veridiana tivesse pensado mais sobre o assunto, ela saberia que trazer as lembranças do passado naquele momento, talvez não fosse a melhor ideia que passou pela cabeça da francesa. Depois de um coma, debilitado a ponto de precisar do auxilio de uma terceira pessoa o príncipe, — que em seu estado normal, já era bastante taciturno — devia querer distancia de toda e qualquer pessoa, principalmente a princesa que nos últimos anos não havia sido a melhor companhia No entanto a protegida de Eros não era dada a planos, não considerava variáveis ou esquemas, ela apenas tinha visto o moreno e a sensação de que devia se desculpar ocupou toda a sua mente, e teimosa como só ela, Veridiana não iria embora sem dizer o que fora até ali dizer. “Eu também não, mas me parece bastante apetitosa.” Ela analisou positivamente, sem se abalar nem um pouco com a resposta ácida do moreno. A capacidade de olhar as coisas sob uma luz favorável era o que contribuía para sua fama de sonhadora, infantil e imatura. Não que ela não fosse nenhuma dessas coisas, mas a verdade é que Veridiana preferia ver a beleza nas coisas do que todas as coisas ruins que o mundo tinha a oferecer. Era uma escolha que ela fazia todos os dias, e quando — naqueles dias de luto na França — ela fora incapaz de fazer isso, ela havia sido consumida por tantos sentimentos ruins que por um momento, ela acreditou que não teria volta. A pequena chama que brilhava dentro dela, quase se apagou e por mais que ela não pudesse responder pelos mortos, ela sabia que isso era a última coisa que o amigo gostaria.
Então ela se levantou, e decidiu que seria a melhor versão dela mesma que ela poderia ser. Ela seria animada, divertida e carinhosa e era isso que ela fora fazer ali, mostrar a Pablo que não importa o que aconteceu no passado, ela podia ser uma pessoa diferente. Ela notou que o espanhol olhava para os lados, provavelmente procurando a assistente —que tinha um porte tão elegante que nem Veridiana tendo sangue real poderia se equiparar a mulher — e então percebeu que ao invés de ficar parada como um poste na frente dele, ela deveria lhe dar os remédios. Então ela se apressou e sentou-se ao lado de Pablo na espreguiçadeira, colocando o canudinho na altura dos lábios do outro. “En ce moment, je vous aider à prendre vos pilules.” Ela respondeu em sua língua materna, sem nem um pingo de ironia, apenas era a resposta natural e um sorriso gentil comprovava a boa fé da garota. Ela ouviu com calma enquanto o espanhol deixava claro que não queria conversar sobre eles, e ela apenas assentiu positivamente quando ele terminou. “Eu sei… E eu sinto muito por isso. Eu não devia ter sido tão ríspida com você. Fui infantil e maldosa e eu gostara de dizer que estou realmente envergonhada pelas coisas que disse no passado.” Ela não esperava com isso uma segunda chance, ou um final feliz… Afinal o que havia acontecido entre eles mostrava que algumas pessoas simplesmente não foram feitas uns para os outros, ela só não queria cometer o mesmo erro duas vezes. Contente que ela tinha dito aquelas palavras com tanta certeza e com tanta sinceridade, Veridiana até se permitiu rir baixinho da resposta mau humorada do príncipe. “Vai viver porque ainda tem muito o que ver e viver nesse mundo.” Ela argumentou, posicionando o copo ainda mais a frente do moreno, numa ordem muda para que ele o tomasse. “Eu devo estar uma bagunça.” Riu, negando o comentário do outro veementemente. Ela sentia-se uma bagunça. Suada, com certeza descabelada e empoeirada a francesa estava realmente diferente da visão plastificada que suas roupas de boneca lhe proporcionavam, mas ela sentia-se bem, e contente de poder estar ali com seus amigos e ter a oportunidade de fazer diferente. “Fui a uma caminhada pelos arredores do castelo e você não imagina como aqui é grande! Amanhã iremos a um safári… Posso ver com Alfreda se tem alguma forma de levarmos você! Tenho certeza de que vai adorar…”
Não era dado a demonstrar fraquezas. Aprendera isso desde cedo, quando treinado para ser algo além do que um príncipe deveria desempenhar. Inabilidades, tanto as mentais quanto as físicas, deveriam ser extirpadas do corpo de crianças como ele assim que chegavam no treinamento, e Pablo praticamente poderia reviver os momentos de dor ao passar pela inanição e pelos testes os quais impunham aos recrutas algo parecido com o inferno na Terra. Se ainda estivesse lá, e Enrico talvez escolhera com alguma inteligência seu momento de sair do treinamento, provavelmente seria jogado no deserto com uma arma de apenas uma bala e uma pequena garrafa d’água. Parecia realmente muito mais digno do que viver se arrastando por conta de problemas de saúde. Aquele simplesmente não poderia ser ele ------ recusava-se a aceitar ser apenas mais um scion, a não ter a mínima força para retrucar quando desejava ------, mas, aparentemente, era o que encontrava todas as manhãs quando se encarava no espelho do quarto de hóspedes. Por algumas vezes, talvez mais do que o comum, ele pensara em quebrar o objeto, mas estaria enganando a si mesmo, então desistia antes de fazê-lo, os olhos esverdeados o encarando onde quer que fosse no recinto. Negou, os olhos enevoados voltando a encontrar com os da Boucher, e Pablo reprimiu a vontade intensa de revirar os olhos ante suas palavras. “Prefiro suco de uva.” Respondeu tacitamente, o tom mimado deixando claro que, ainda que não desejasse ser um herdeiro, estava acostumado demais às regalias dadas ------ especialmente depois de anos de racionamento de comida e exercícios desgastantes ------, certo de que o bom humor da outra não demoraria a mudar, mas também incapaz de acreditar que a morena havia esquecido tudo o que discutiram anos antes. Um toque de arrogância passou pela sua mente, mas bufou tão logo ele veio, desmentindo os pensamentos com prontidão. Não era como se Veridiana pensasse nele, ou fosse importante para a francesa, exatamente porque a recíproca era o que se aplicava, mas ele ainda se recordava do tapa no rosto ------ por duas semanas, ele ainda levava a marca dos dedos pequenos da princesa, e, talvez por conta disso, por duas semanas Pablo permaneceu na oficina, ignorando toda e qualquer aula que lhe interessasse no que tangia à mecânica.
Assim que a francesa se sentou ao seu lado, entretanto, o espanhol sentiu todo o seu corpo enrijecer, formulando um olhar afiado na direção de Veridiana. Que diabos ela estava planejando? Não era como se ele fosse cair em mais uma das peripécias desempenhadas pela Boucher apenas para que ela tripudiasse de sua condição. “Sabe que eu não vou tomar isso, certo?” Arqueou uma das sobrancelhas, os braços cruzados firmemente sobre o peito a medida em que o tom de intimidação se tornava evidente. “Não é porque você convenceu Alfreda que era uma boa menina e que não me faria mal algum que eu vou ignorar o fato de que, se pudesse ------ e digo isso com propriedade, Boucher ------, você já teria jogado veneno nesse suco. E não é como se mesmo ela conseguisse ministrar esses remédios.” Negou levemente, os olhos em momento nenhum deixando os da princesa. Lembrava-se bem até demais da parte da manhã, quando a espanhola o obrigou a engolir a quantidade absurda de remédios. De sobrancelhas franzidas, ele não sabia que imagem estava passando, e tampouco desejava saber ------ algo o dizia que não tinha o timbre correto para expressar toda a desconfiança que sentia no momento. Então, como se soubesse que Pablo não estava disposto sequer a ouvir desculpas, tornou a falar, e talvez algo no espanhol tenha se inclinado mais para a frente ao escutar o pedido da francesa, como se soubesse que ele estava certo o tempo todo e ela apenas o teria admitido. Mostrou, entretanto, indiferença ao dar de ombros minimamente, o ombro reclamando a qualquer movimento. “Você foi bem mais do que ríspida. Tenho a cicatriz para provar.” Arqueou uma das sobrancelhas, mas assentiu logo em seguida, como se aquilo não lhe importasse mais. A verdade era que poucas coisas eram guardadas na mente de Pablo. Sabia não ser a criatura mais amável, tampouco a mais sociável, e não tinha tempo para se lembrar de cada briga da qual participara até então ------ seriam muitas, e ele não estava disposto a ocupar espaço de sua mente com aquilo. Noções de física e problemas pareciam surtir muito mais efeito sobre o Borbón. “Não há nada a ser desculpado. Você só atestou por si própria o que todos dizem sobre mim.” As palavras não poderiam ter saído com mais falta de emoção, e era exatamente por conta disso que talvez não precisasse de expressão para tal. Ele não se importava em ser xingado por ela, tampouco pela noiva ou qualquer uma das pessoas com quem se envolvera com o passar dos anos, contanto que sua constante continuasse ali. Sem ela, o vazio se instalava na sua cabeça, e ele sabia que acabaria enlouquecendo se não conversasse com alguém sobre aquilo. Era realmente enervante, depois de longos anos, não ter mais sua consciência consigo durante todo o tempo. Talvez por isso ele tenha revirado os olhos, sorvendo o líquido com preguiça.
“Posso te assegurar que já vi muito mais do que gostaria.” Respondeu simplesmente, tomando as pílulas da mão delicada de Veridiana, certo de que poderia estar assinando sua sentença de morte. Verdadeiramente fenomenal. Entretanto, a risada da outra foi capaz de trazer um mínimo sorriso aos lábios do Borbón, e ele se permitiu olhar novamente para ela, analisar como estava. Arqueou o canto dos lábios para baixo, como se adaptada fosse a palavra mais bem encaixada da história para descrever a Boucher. “É o que o ambiente pede.” Não se permitiu falar nada mais do que aquilo, certo de que estava abusando da própria sorte ------ seria difícil, mas se ela quisesse, Pablo não poderia fazer nada quando Veridiana o jogasse na piscina por estar sendo um babaca ------, mas incapaz de não retrucar à altura. Assim que a francesa mencionou a assistência de Alfreda para uma caminhada, entretanto, os olhos de Pablo se semicerraram, e ele negou uma única vez, os dentes trincados sem que ele sequer pensasse no motivo de fazê-lo. “No necesito de la autorización de Alfreda por nada, ni necesito una manera de ser tomado, Veridiana.” O contato visual se desfez, e Pablo parecia muito mais interessado em analisar os coqueiros próximos à área da piscina a manter uma conversa minimamente civilizada com a Boucher após suas palavras.
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Os dias na Africa estavam sendo maravilhosos, para dizer o minimo. Os safáris, as cachoeiras, os animais e a cultura local funcionavam como uma espécie de cura após os eventos traumáticos do baile. Veridiana não queria esquecer o que havia acontecido, ou simplesmente não podia, mas o lugar a distraia o suficiente para que ela não sofresse demasiadamente. Havia aprendido uma lição com a morte do melhor amigo, e ao voltar de uma longa e exaustiva caminhada pelas dependências do lugar, Veridiana enxergou o corpo longilíneo do príncipe espanhol na espreguiçadeira da piscina. Na maioria das vezes, a francesa o evitava e quando não havia chances de desviar do caminho do moreno, ela fazia questão de ser particularmente desagradável com ele. Ela havia sentido na pele o que era se arrepender das palavras ditas sem pensar, e por muito pouco não passara o mesmo com o Borbón, afinal ele também havia chegado perto demais da linha tênue que separa a vida da morte. Veridiana não pode dizer à Aleifr o quanto ela sentia muito por todas as coisas malvadas que tinha dito — pelo menos não de verdade — mas ali estava a chance da garota fazer diferente com o príncipe espanhol, antes que fosse tarde demais. Observou uma moça com uma roupa elegante, porém modesta, se aproximar e pela maneira protetora que o olhar para Pablo, Veridiana concluiu por ser uma assistente. — Isso e o fato dela carregar uma bandeja com um copo de suco com coquetel de remédios.— Veridiana então tomou coragem e assim que a morena deixou o seu posto e começou a ir até a área da piscina, ela a seguiu. “Com licença, será que eu posso te pedir um pequeno favor?” Veridiana mordia os lábios, como toda menina insegura faria, mas os olhos eram doces e afáveis, tudo uma dissimulação da mais nova. Não muito tempo depois, a bandeja — que antes estava na posse da simpática assistente, que Veridiana descobriu se chamar Alfreda — era carregada pelas mãos pequenas da francesa enquanto ela se posicionava a frente do príncipe. Não foi difícil fazê-la ceder, a francesa sabia ser muito persuasiva quanto queria. Mas todo seu esforço foi recompensado com uma boa dose de mau humor. Ela merecia aquilo, ela supunha, mesmo que a mau criação fosse causada pelo chapéu que ocultava a visão do moreno. “Pois é uma pena… Dizem que essa tal de acerola é realmente deliciosa.” Comentou casualmente a princesa, pronunciando a fruta exótica de forma articulada, com tanta amabilidade quantas poucas vezes o espanhol havia visto. “Olá Pablo… Como está?” Ela perguntou, os olhos demonstrando uma preocupação sincera para com o outro.
O retruque foi imediato, mas não parecia ter vindo de Alfreda ------ aparentemente ela tinha encontrado algo melhor a ser feito, não que fosse reclamar, já não bastava ser obrigado a tomar remédios e ter suas roupas escolhidas pessoalmente pela assistente. Humilhante, era exatamente a palavra que buscava no momento em que escutou a voz há muito conhecida, mas que trouxe um leve franzir de cenho ao rosto coberto do Borbón. Incapaz de manter-se inerte às palavras, a careta de incredulidade foi revelada assim que o moreno retirou o chapéu de cima do rosto, os olhos semicerrados ao se adaptarem à nova luz. Por um momento, a figura de Veridiana apareceu à sua frente iluminada, e o espanhol teve que se obrigar a fechar a boca, um tanto quanto impressionado com a mudança de humor da francesa no que tangia a ele. Arqueando uma das sobrancelhas, o moreno cruzou os braços, certo de que não havia como algo de bom sair daquela interação e, francamente, sem um mínimo de paciência para lidar com uma Veridiana falsamente agradável. “Nunca provei, não saberia dizer.” Deu de ombros por fim, sentindo o músculo reclamar, ainda dolorido pelo tiro desferido no local semanas atrás. Deveria ter aprendido algo com a experiência de quase-morte, e sabia disso; deveria ter aprendido algo com o afastamento e provável esquecimento de Gretta, mas não conseguia se ver pensando no assunto sem que a raiva lhe tomasse e pusesse tudo a perder de novo. Semanas atrás teria como se defender; agora, parecia difícil até mesmo andar de um lado para o outro, e aquilo o enervava. Parecia estar lidando com uma panela de pressão, prestes a explodir a qualquer instante, e não sabia quando ou o quê ativaria a explosão em si. O olhar passou de Veridiana para o entorno, então, lembrando-se da assistente ------ se ela carregava a bandeja, a qual reconhecera minimamente pelas cores gritantes, algo o dizia que a espanhola demoraria algum tempo até voltar efetivamente. Pablo estava sozinho. Com Veridiana. O cérebro processava as informações pausadamente, quase como se ele fosse algum tipo de retardado para entendê-las de forma normal, mas não havia do que reclamar. “Que vous faites ici, Veridiana?” Estreitou os olhos na direção da francesa, as sobrancelhas franzidas, dessa vez sem um pingo de rispidez ou mal-educação. Ele simplesmente não queria lidar com litígios do passado, não da forma que estava. “Pensei que nossos problemas tivessem sido resolvidos há um longo tempo, e você estava mais do que grata em me lembrar sempre que eu sou um cretino, então dispenso a educação. Fale sem rodeios.” Negou levemente, as palavras certeiras a medida em que revirava os olhos, certo de que deveria sair de posição tão ridícula, mas nem sequer um pouco inclinado a fazê-lo ------ as costelas novamente reclamavam. “Vou viver. Hefesto ainda não se cansou do brinquedinho.” Murmurou entre dentes, certo de que toda a ojeriza pelo seu estado atual estava evidente. Esta, direcionada não só a ele, mas ao próprio patrono, Gretta e até mesmo sua mãe, que insistia em tratá-lo como um infante quando era evidentemente capaz de pôr a própria cabeça à prêmio. “Você parece... Adaptada.” Gesticulou levemente, não prestando muita atenção no corpo da Boucher ------ preferiria ficar longe de problemas, ao menos por aquela viagem.

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@professionaldanger
Hendrik já não aguentava a mesmice de Avalon: os mesmos pirralhos filhos de monarcas indo de um lado para o outro, guardinhas para ele liderar, além de um ataque sinistro que aconteceu algum tempo depois de ele chegar. Como se o estresse que ele tinha tido na Holanda não fosse já necessário. Decidiu andar pelos terrenos da Academia, e tinha de se acostumar logo com ela.
flashback.
Avalon já havia se tornado o seu primeiro lar, no que tangia a laços afetivos que mantinha com territórios, mais por conta da oficina ------ que não poderia possuir em Madrid ------ do que pelo corpo discente em sentido amplo. Conhecer as passagens do local era fundamental para que ao menos de um pouco de liberdade pudesse desfrutar, passando do toque de recolher enquanto entretido na oficina. De fato, era evidente que muito em breve se mudaria definitivamente para o local, mas não era como se pudesse fazer uma mudança brusca. Levando mais uma das mudas de roupa, assim como uma pequena escultura que simplesmente estava pedindo para ser furtada entre os panos, o moreno caminhou pausadamente, atento a qualquer barulho. Não poderia contar, contudo, com o general, e assim que se aproximou o suficiente, soltou um palavrão alto demais para que fosse levado pelo vento como uma peripécia qualquer, fazendo uma careta ao sair de perto da pilastra ao se apresentar. “General.” Assentiu uma vez, batendo uma continência um tanto quanto rústica a medida em que tentava manter a expressão fria.
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@truthveridiana
Nunca teria imaginado que estaria tão... Cansado. Talvez entediado pelo motivo de estar na África, irritado por conta do calor e terrivelmente desidratado, de acordo com os registros médicos, mas, aparentemente, quatro semanas inconsciente cobravam o seu preço no momento. O cansaço aliado à dor natural e às faltas de ar faziam com que Pablo se sentisse um verdadeiro inútil ------ talvez como um regente pela primeira vez em toda a sua vida ------, mas não cabia mais a ele voltar atrás. Deveria aguentar o casamento, junto a todos os scions, até o se findar, e depois voltar para Avalon que, ele esperava, estaria aberta novamente. Seria verdadeiramente devastador não poder voltar para o lar de vários garotos e garotas mimadas, realmente, pensou, revirando os olhos ao ajeitar o chapéu que escondia parte do rosto, uma delicadeza da secretária escolhida a dedo pela mãe para que ele ao menos comesse algo nas horas corretas. Ótimo, não tinha mais Gretta, mas Alfreda fazia o possível para ser tão ou mais irritante que sua esfera. De olhos fechados, era incapaz de observar quem se aproximava no instante, mas, ao que tudo indicava, nem o cansado, tampouco a falta de visão momentânea retiraram o instinto aprendido há muito. “Seja lá o que for, y estoy seguro, no me interessa.” Murmurou, ríspido, os braços se cruzando sobre a cadeira enquanto os raios solares embebiam a ambos. Provavelmente seria melhor sair do sol, Fred diria ------ não, de fato, a mulher gritaria no seu ouvido com mais pulmão do que a própria Esfera.