A construção do Diabo na sociedade e associação equivocada com Esú
Motumbá!
A sociedade nos fez acreditar por anos que o Diabo e Esú eram as mesmas divindades devido às características apresentadas na imagem desse orisá. Lembro que, durante a minha infância, eu sempre tive muito medo de andar no segundo andar do Mercadão de Madureira, RJ. Por isso, eu segurava nas mãos da minha mãe, pois eu tinha medo, pavor e agonia em ver as grandes imagens dos Esús usando capa, tridente, alguidar etc. Além da angústia, eu tinha muito preconceito com a Religião de Matriz Africana e pensamentos negativos, formados dentro da igreja enquanto eu fazia parte daquela congregação. Entretanto, o Diabo é uma figura cristã e judaica, mas ele também pode ser o seu monstro debaixo da cama ou simplesmente o seu bode expiatório para você livrar-se da culpa dos seus erros. Por outro lado, Esú é um orixá cultuado na Religião de Matriz Africana, o candomblé. Também é honrado em outras vertentes, como a umbanda, a quimbanda e o batuque no Sul, onde se faz presente sendo Esú Catiço.
De acordo com o autor Alexandre Cumino em seu livro Exu não é Diabo, o maligno, o perverso, o vermelhinho, você sabe quem foi uma construção diária feita há muitos anos pela Igreja Católica e pela sociedade. O escritor também cita um suposto boato sobre o cantor Robert Johnson (Pai do Blues) que teria feito um pacto com o Diabo na encruzilhada para obter fama através da música. A ligação errônea com Esú e o Diabo já existia, mas ela se intensificou mediante duas músicas: em Cross Road Blues, onde ele diz ter caído de joelhos e aprendido o blues; já em Me and the Devil Blues, ele canta que anda lado a lado com o Diabo. A verdade é que não houve comprovação científica sobre o suposto tratado em troca de minutos de encanto, mas, independentemente do sim ou não, toda a religião de matriz africana e suas vertentes pagaram o preço desde aquele tempo com o preconceito e a falta de informação do ser humano por não buscar o conhecimento até hoje. Como dizem os antigos: “A cada conto, aumenta um ponto.” Eu li a letra da música Cross Road Blues e acredito na teoria de que as pessoas naquele tempo, por serem repletas de preconceitos por tudo o que era diferente da crença delas, espalharam uma falsa informação sobre o cantor Johnson ter vendido a sua alma em troca de fama e, como uma de suas músicas retrata um encontro na encruzilhada, o preconceito aumentou ainda mais.
Diariamente usam o orixá Esú para ser o novo bode expiatório aquele que leva a culpa no lugar de outro, assim como o querubim Lúcifer, o anjo caído. A verdade é que sempre haverá um indivíduo que não terá coragem para assumir a culpa dos seus erros; logo, precisará criar um Diabo para fugir das consequências dos seus atos. Como se não bastasse o querubim caído ter cometido um pecado imperdoável, que é a blasfêmia contra o Espírito Santo, ele estará fadado a carregar a culpa por todos os nossos erros, seja ele qual for. Vale ressaltar que eu não estou minimizando a figura maligna do Diabo. Eu acredito na existência de Lúcifer, mas é importante ter coragem para nós assumirmos a responsabilidade pelos nossos erros, independente do mal. Até porque isso é saber ser humilde, ter caráter e não permitir ser algo pior do que esse tal Diabo da Bíblia.
Na minha opinião, o ser humano tem tanto medo do próprio medo que, ao invés de enfrentar, ele prefere rotular o desconhecido — ou não — como o Diabo. Alguns acreditam na existência de um anjo caído que fez todas as escolhas erradas, como diria Alvo Dumbledore. Outros olham para esse nome e veem como a personificação do próprio medo, por exemplo: o monstro debaixo da cama, a escuridão, a claustrofobia, o descontrole pelo álcool, o fanatismo, o uso exacerbado de remédios pesadíssimos (doping), a homofobia, a xenofobia, a transfobia, o preconceito em geral, crimes hediondos, o estupro, o feminicídio, a pedofilia, o suicídio, depredar uma casa de axé etc. O mal vai além da sua perspectiva, mas ele também pode ser uma construção falsa de saberes e até mesmo o preconceito passado por gerações.
Agora que nós sabemos um pouco sobre a figura do Diabo na Bíblia e o Diabo construído pela sociedade, quem é Esú?
Esú é o dono das encruzilhadas, o mediador entre todos os orixás; ele é a nossa bússola e a divindade que irá nos mostrar o melhor caminho. Ele também é o Deus que nos corrigirá quando for preciso e fará cortes em nossas vidas, se assim ele encontrar e considerar algo nocivo, como os nossos orixás. Eu vejo que o Esú é a divindade que carrega um pouco de nós e sabe muito sobre as nossas fraquezas. O orixá Esú é o primeiro a ter o seu banquete à mesa quando um filho decide tornar-se neófito — iniciar na sua casa de candomblé. Por outro lado, existe o Esú Catiço que, além de ser o dono das encruzilhadas, aquele que veste preto e vermelho, é o dono do dendê e recebe padês. Ele também pode ser um ancestral próximo ou distante que vem ao nosso auxílio para fazer as suas devidas intervenções em nossas vidas, muito mais do que abrir os nossos caminhos e dar axé infinito. Além do mais, o catiço pode ser visto usando roupas escuras, capa, cartola, tridente, velas, fogo (elementos que possuem fundamentos na religião do axé). Ambos os Esús estão presentes em nossas vidas para que todos possamos ter uma caminhada longa, próspera e saudável; e, quando nos faltar coragem para cortar os laços tóxicos, tanto ele quanto os nossos orixás irão trabalhar em função disso. Costumo acreditar que essas divindades são muito mais do que uma rocha ou uma urna de luz para a gente, mas às vezes eles são como uma freada brusca em nossos oris ou caminhos.
Motumbá, Asé, Motumbá! Laroyê Esú, Mojubá!













