Como minha tatuagem foi ressignificada no mestrado
Domingo nunca foi um dia fácil para mim. Na verdade não o dia todo, mas a noite. Domingo à noite sempre foi o período que eu lembro que a vida começa logo ali, na segunda, e é preciso deixar para trás “a vida boa” ou a preguiça que me abraça fortemente no fim de semana e correr atrás do prejuízo. Sou total e completamente consciente das minhas procrastinações, mas também reconheço que, às vezes, é necessário que a vida de preocupações e compromissos aconteça de segunda a sexta, e deixar sábado e domingo para aproveitar o que além de compromissos ela me oferece. Durante muito tempo, a cada início do ano, novo projeto, novos planos eu pensei em mudar, mas hoje eu assumo isso como um descanso programado. O que não impede de que as noites de domingo continuem sendo de disputas de pensamentos sobre o que seguirá a partir do dia seguinte. Por isso não me estranha que seja uma noite - e madrugada - de domingo para segunda que eu tenha ficado sem dormir pensando no projeto e no mestrado. Considerando que eu só consegui dormir das 6h30 às 7h30, eu tive muito tempo de ocupar minha mente com os mais diversos questionamentos: será que eu fiz a escolha certa? Será que com esse projeto eu realmente colaboro com o campo? Será que eu estou no caminho certo? Esse projeto impacta e serve a quem? Estamos em junho e ainda não tenho nada definido, ou seja, vai dar tempo? As perguntas eram muitas e nenhuma resposta me aquietava a ponto de deixar o sono chegar.
Estou num momento de leituras, busca por referências, escritoras que podem colaborar com meu processo de criação. Entretanto, o que aconteceu comigo foi o exato contrário. Primeiro parece que nunca consigo ler tudo o que gostaria e deveria; e, segundo, eu passei a visualizar meu trabalho como "mais um", que seria mais do mesmo, um rabisco mal feito entre tantas coisas interessantes. Um destes textos em especial me marcou, trata-se de uma etnografia realizado em dois serviços de saúde de Brasília. O artigo "O Peso do Corpo Negro Feminino no mercado da saúde: mulheres, profissionais e feministas em suas perspectivas", de Rosamaria Carneiro (2017), faz parte de uma análise maior, que inclui ainda entrevistas com gestores do governo para a compreensão da criação e prática das políticas públicas e a observação de espaços virtuais de feministas negras brasileiras. Li o texto aos poucos, e a cada dia ele me incomodou mais, primeiro porque a admiração fez com que eu quisesse ter presenciado essa escrita e a pesquisa, depois por me fazer relembrar situações que vivi e vivo no meu dia a dia como mulher negra e como (aprendiz de) pesquisadora negra, e por fim, quanto aos aspectos relacionados à questão racial que me parecem serem tão difíceis de serem tratados. Depois desse texto percebi o quanto esse assunto que eu escolhi para debater estava me afetando, ao ler e descobrir histórias que me são tão próximas. E aí minha vontade em querer fazer algo decente e que faça, de uma forma mínima, alguma diferença na vida dessas mulheres, me parecia cada vez mais distante, e isso passou a me angustiar.
Na mesma época, uma colega da Pesquisa Aplicada me parou para conversar sobre meu projeto que, ela acreditava, estava indo por um caminho não tão interessante já que sua experiência na obstetrícia não parecia ser o que eu pensava ou o que a pesquisa Nascer no Brasil trazia. E quando se está nesse estado de ansiedade, tudo parece ser mais uma gota pra encher o copo e transbordar. O fato de me dar conta que as mulheres negras já ocupam espaços on-line e discutem as violências que sofrem, a maternidade negra e suas implicações foi outro ponto. Eu não queria algo tão genial como inventar a roda, mas de repente, eu descobrira que nada do que eu estava planejando fazia mais sentido, e com isso a questão que se dava era: e o que fazer a partir daqui? Será que não escolhi erroneamente o objeto de pesquisa? Como eu escrevi na primeira nota, acredito que eu tenho a sorte de ter encontrado em meu caminho pessoas que acolhem as minhas dúvidas - e agora, angústias - e me fazem parar para refletir e tomar decisões com calma e sabedoria, compreendendo que esse passo a passo é rotina e não deve me desesperar, mas me mostrar possibilidades e novas perspectivas. Descobri que mente ativa e noites bem dormidas podem fazer uma diferença enorme nas perspectivas de uma dissertação. Voltei ao Tumblr - escrever também me ajuda a expulsar os demônios que existem nas intersecções entre a vida do mestrado e a vida fora dele, e busquei uma terapeuta. Espero estar um pouco mais preparada para as próximas noites que a insônia pense em se fazer presente.
Voltei a ler com outro olhar o que me chega, e parece que as coisas fazem mais sentido agora. Nesse processo do mestrado percebi que os textos da disciplina sempre me trouxeram alguma clareza sobre algo que eu pensava ou chegava como confirmação de algumas ideias que eu vinha tendo pelo caminho. Achei curioso e prospectivo. O refletir e debater esses textos em conjunto me fazem, às vezes, ter a sensação de uma “terapia individual coletiva”, se é que isso é possível. Me acalenta quando eu encontro um novo caminho para meu projeto, quando eu vejo que as autoras passaram pelos mesmas dúvidas, que já se questionaram sobre o que faziam - ter textos como da Carmem Susana Tornquist (2007) dão um afago no coração -; começo a pensar em perguntas a serem feitas, que pessoas eu pretendo alcançar (talvez um questionário on-line para iniciar? Quem sabe recortar o corpus e encontrar possíveis entrevistadas?), e no texto seguinte acho indicações para pensar um roteiro de questões. Ou ao me imaginar como uma “militante” que busca, mas também ver que sou uma aprendiz de pesquisadora preocupada em buscar o melhor para meu texto. Acredito que a angústia que por vezes me aflige, também pode ser traduzida nessa preocupação de procurar o além mostrado, o que está nas entrelinhas, é admitir a existência das desigualdades e pensar sobre elas, ou ainda sobre preocupar-se com o método, com a ciência presente na análise e observação. De repente descubro que retomei os trilhos, parece que as coisas passam a fazer sentido na minha cabeça. (E mais ainda quando se consegue ajudar a amiga a delinear a sua primeira proposta de tema para o mestrado. Avançamos!).
Gosto tanto de observar essas diferenças que se mostram nos diferentes espaços, que passei alguns dias pensando se eu realmente havia escolhido o curso certo ao fazer jornalismo. Não teria sido melhor pensar em Ciências Sociais? Mas ao ler os textos de Gilberto Velho, Roberto da Matta e William Foothe-Whyte, lembrei de um termo que conheci na faculdade, “flâneur”, e que, nos bancos de jornalismo, remetiam às primeiras incursões dos repórteres às ruas da cidade, vagando e estudando o cotidiano que seria retratado nos dias seguintes nas páginas dos jornais. O termo cunhado por Walter Benjamin no século XIX vem daquele que é errante, vaga observando solitário a vida das ruas. Para alguém que tem na própria pele a palavra wanderlust, “vagabundear” parece fazer bastante sentido. Foi assim que consegui me sentir mais à vontade no meu papel de observadora. Me acalenta me ver não como uma intrusa curiosa, mas uma observadora participante. Sigamos observando as próximas páginas do cotidiano - e dessa dissertação.
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