( Apaixonada por Luedji Luna. Pra embalar a leitura)
Esse semestre eu tive uma disciplina chamada Crescimento, Desenvolvimento e Promoção da Saúde. Foi nela que eu descobri a palavra epigenética e o que ela significava. Sabe a história do Lamarck sobre a adaptação de diferentes espécies, ou a transmissão de caracteres adquirirdos, para viver no mundo? Pois bem, a epigenética seria a adaptação do DNA para processos “anímicos” (Priberam <3). Na realidade a primeira vez que ouvi sobre o termo foi assistindo Dear White People (a série). A Sam explica o termo como a “herança da dor”, e exemplifica através da escravidão: um trauma tão grande que deixou a dor no DNA das gerações futuras. Papo de cientista, verdade, mas que faz muito sentido (ainda mais agora, ainda mais pra mim, rs). Junte a isso anos o racismo estrutural e institucional do nosso dia a dia e, voilá, você consegue “”””imaginar”””” (muitas aspas aqui) a rotina de uma pessoa negra.
Eu só fui ter uma boneca negra quando eu tinha 29 anos - na década de 80 e 90 as crianças negras não eram vistas. Eu tive uma professora negra no ensino fundamental, 8ª série acredito eu, ela vinha substituir a professora de matemática e deve ter ficado um semestre conosco. Só tive outra oportunidade como essa mais de 10 anos depois, na especialização. Tive dois professores negros: uma mulher que falava tão bem em público, de forma tão articulada, sem medo, sem vergonha, e dona de um nome que tem uma combinação incrível: Marina Maria; outro, detentor de um conhecimento magnífico, uma “biblioteca ambulante” - como o chamei uma vez, que deu uma das aulas mais incríveis que já tive: falou sobre Foucault de um jeito que eu entendi, quis saber mais e anseei conhecer algo com tanta paixão para poder passar a outros. Ambos jornalistas, ambos pós-graduados, ambos pesquisadores. Me deu uma esperança de um dia ser assim, de conhecer e saber passar esse conhecimento com sabedoria, sem ficar nervosa, de trocar com outros, de querer sempre saber mais.
Hoje eu consigo entender facilmente o que colaborou para que eu nunca me visse nesse espaço. Vou contar pra vocês um grande segredo: a gente não se sente parte. É como se não fosse nosso direito, não fosse nossa atribuição estar ali. Quando se fala sobre representatividade, é a respeito disso que falamos: queremos nos ver, queremos estar, queremos - e precisamos - falar sobre nós. Hoje eu consigo perceber claramente que eu não desejava cursar uma pós-graduação quando saí da faculdade porque eu achava que aquilo não era para mim. Assim como eu tenho dificuldade para falar em público, para apresentar trabalhos porque, até hoje, parece que esse não é um lugar que me cabe, não é um lugar onde eu tenha me visto durante toda a minha vida.
Demoraram 32 anos para eu cursar uma disciplina que entendesse a minha cor, as minhas perspectivas, as minhas dores e o meu pesar. Durante duas semanas participei de um curso na ENSP/Fiocruz chamado “Expressões do Racismo”. Logo no primeiro dia, nos foi pedido que pensássemos, ao longo das aulas, em três questões para avaliarmos a disciplina no fim destes encontros:
- Quais afetações o curso me trouxe?
- Essas afetações me mobilizam em quais sentidos?
- O que penso em fazer a partir delas?
A minha intenção era escrever um texto por dia, mas absorver o que foi discutido não foi tão simples como eu imaginava. Pela primeira vez eu vi na academia uma sala majoritariamente negra, de tantos tons, cabelos, vozes, e isso me afetou instantaneamente. Para além disso, ouvir cada fala, cada contribuição ali dada me fez sentir acolhida, fez eu me ver no outro, na outra. Fez eu me sentir parte. Me mobilizou para ir além do possível, fez minha mente pensar em espaços de articulação, de discussão, me fez pensar que somos múltiplos e que precisamos nos encontrar para nos conhecer.
Me fez pensar em temas, ter ideias (insanas, talvez) de artigos e pesquisas. Me fez lembrar dos números que dizem que menos de 3% dos docentes das pós-graduação são doutoras negras. Me fez pensar para além do que eu via a cada dia no mestrado ao cruzar com os negros daquele espaço, que eram em sua maioria terceirizados e responsáveis pela segurança ou pela limpeza: somos mais, somos cientistas, somos pesquisadores, somos professores, somos sabedores de nossa história, somos os construtores do saber. É isso que eu quero a partir daqui: saber mais, trocar com outros, dar uma aula que inspire, falar sem medo de errar. Ser a perspectiva de alguém.