Bortoleto you might be last on the grid but youre first in my heart
Borboleto tá no casulo ainda calma
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Bortoleto you might be last on the grid but youre first in my heart
Borboleto tá no casulo ainda calma

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Quem?
Quem é essa
Coisa
Cujo semblante me encara em toda foto
Toda vista, todo olhar
Cuja vida compartilha a mim
Tão incessantemente?
Quem é essa
Impostora
Cuja essência tomou meu lugar
Sem querer
Cuja existência manteu-se paradoxal
A mim e justamente a mim?
Quem é essa
Pessoa
Cujos ombros não espressam o que sente
Cujo futuro não me parece tão longe
Não quanto deveria?
Quem é essa
Mulher
Cujos olhos não se conectam aos meus
Cujo queixo trai a visão
Que um dia eu tive?
Quem é essa
No espelho
Cuja reflexão não ri
Mas se preocupa com qualquer coisa
Cuja impressão é que é a mesma
Que eu ou que ela?
Quem é esse
Eu
Cuja humanidade não reconheço mais?
Cuja identidade não dirijo mais?
Cujo estresse não entendo mais?
Cuja emoção não controlo mais?
Cuja face não sei mais bem qual é?
Quem é essa
No espelho?
Quem é essa?
Annalogia
Nasce, rosa!
Entre a Vida e a Morte,
Preserva-se o nascimento…
Acima da sorte,
Ou do procedimento.
— Do que é um cravo
Senão nascido cravo?
— Do que é uma rosa
Senão florescida rosa?
Do que me adianta,
Ser das boas, das generosas,
Se disso tudo só se tira, suplanta,
De onde vim, terras odiosas…
Ou porventura faltosas?
Do que me servem
O tentar e o aproximar,
Se disso tudo, só e somente, mexem
Os olhos alheios ao meu berço?
Entre o que faço e o que farei,
Não há feito tal
Que me salve da severa lei…
Acima da sorte, do procedimento,
O nascimento.
Annalogia
Angústia
Dentre um mar de possibilidades,
Afogam-se meus pensamentos
E, puxada pela corrente forte,
Eu também vou
Descendo, descendo, morrendo…
Morrendo, traço meus passos
E morta, meus passos se traçam
Vejo, de longe, as ondas...
Que batem tão intensas contra mim,
Expulsam o ar de meus pulmões.
Me angustiam!
Eu vou descendo…
Descendo…
Morrendo…
Annalogia
Desejo é bicho que morde e arranha.
Tem língua de fera em busca de morte,
Boca de caçador e olhos de presa,
Pernas grossas e braços fortes.
O desejo é cheio de suas artimanhas.
Desejo é fome.
É instinto animalesco,
É hábito vampiresco.
Consome carne e ossos,
Sangue e vida,
Ressucita e mortifica.
Desejo tem cheiro de víscera,
De bicho que cava e enterra os órgãos da caça
Salivando o verbo latente
De maneira insistente.
— Diego Bittencourt

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Céus
A grande mulher nos céus se comporta
E com mãos douradas ilumina
Meu dia, nossos dias…
Com um sutil sorriso,
Deseja boa sorte
Para meu dia, nossos dias…
Mesmo que a mulher, ela saiba!
Que não adianta a luz
Contra um teto de lona;
Que não adiantam seus dentes a mostra
Contra olhos cegos
A grande mulher dos céus nos aconselha,
Mas nunca saberemos o timbre de sua voz
Que encanta as nuvens todos os dias
Quando nasce junto ao horizonte
E acena para mim, para nós…
E a mulher sofre, oh, como sofre!
Por mim, por nós,
Pela nossa triste incompetência,
Chora lágrimas e se põe…
Os meus, os nossos últimos dias…
Passam...
Annalogia
As pessoas do discurso
Em terceira pessoa — em terceira pessoa!
Ela, corcunda e mal-ajustada;
Ela, os olhos arregalados; ela
Aquieta-se.
Em terceira pessoa,
Ela observa e sente
O coração sair pela boca;
O pulmão entalar na garganta.
Observa-se,
observa-os,
observa-as.
Ela.
Ele fala com ela,
e ela, em terceira pessoa,
responde em tom soprado.
As cordas vibram
— as cordas dela —
com o tosco, o negligenciado.
A fala não é comigo,
é com ela. Ela!
Que ela não me abandone, jamais.
E que ninguém note ela.
Ela, jamais.
Mas eu — na primeira pessoa do singular — nunca.
Annalogia
Sustância
De pensamentos mortos me alimento:
De repetições, sintagmas vazios,
E bastantes pontuações.
De pensamentos mortos me contento:
Ponto, desponto, reponto.
Desaponto.
De pensamentos mortos me cimento:
A mente vazia,
Senão já oca.
— Louca.
De pensamentos mortos me alimento:
Será que penso?
Annalogia
Criatura da noite
Misteriosa criatura da noite
De mãos e pés atordoados
Chama que se destaca nas trevas
Hálito de sangue amaldiçoado
Teus dentes cortantes na pele trêmula e pálida
Devoram a esperança e a sorte
Condenam-me à imortalidade mais vívida
Por uma paixão que desafia a morte
Com um simples e profano sussurro
Tu és o mito que desafia o tempo
O silêncio que cala o tormento
Minha salvação e meu alento.
— Diego Bittencourt
O Castigo dos Céus
Talvez seja o castigo dos céus
o viver, senão o nascer:
A existência solo,
a essência que só me traz mágoas.
O castigo dos céus!
Dai-me esperança, mas não sei se a quero…
Prefiro a ignorância, a descrença que me leva adiante;
não sigo por medo da danação.
Não há de haver sentido,
porque nasci por nascer.
Só por isso.
Para substituir um outro corpo qualquer.
Castigo, não pode ser.
E se for, escolho ignorá-lo:
a vida é minha, e eu vou viver.
O tempo passa,
Mas eu não.
Nunca vou passar.
Annalogia

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E só
Só as baratas:
Só as nojentas e sujas;
E as podres e as sujas;
E as feias e as sujas;
Sobram num mundo enfim satisfeito.
Só quem julgamos,
Ignoramos, exterminamos!
Vão rir de nós,
E não conosco.
E quando só as baratas
Rumarem a querida terra,
Serão elas quem comerão nossos belos corpos
E andarão sem cabeças.
Só as nojentas e sujas;
E as podres e as sujas;
E as feias e as sujas;
Num mundo enfim satisfeito.
Só as baratas,
Ninguém mais.
- Annalogia
Espectro visível
Eu não observo, eu vejo.
Vejo com os olhos desprendidos da alma,
Pois para observar, preciso de algo;
Algo tão maior quanto o universo visível
E tão menor quanto uma partícula.
Contido em um espaço infinito
E finitas as possibilidades do ver
— que nunca verei.
Falta em mim essa ótica
Elementar, e até mesmo fundamental,
Para ver o que observam
E observar o que vêem.
Desisti há tanto tempo
De ter o que ninguém tem,
Que já tenho as vistas cansadas;
Que já não percebo.
Falta em mim a ótica.
A dela, a minha, a sua.
Todas me escapam de mil maneiras.
Não vou ver o que observam,
Muito menos observar o que vêem.
- Annalogia
Águia
Arranquei minhas costelas para uma plateia,
Pendurei meus pulmões em duas grandes asas
E como um anjo me ergui.
Sangue escuro jorrou,
O seco tornou-se úmido e o úmido, seco.
A dor me acertou, certeira como nunca.
E não tenho mais dúvidas:
Nunca foi meu destino, o olho divino.
Porque o vento me espera sem rodeios
E com a plateia, não me divido.
Como um anjo, caí em uma bomba
E em mil pedaços fiquei.
Não há mais mim,
Muito menos plateia.
Annalogia
Me pegou pensando em você
No que poderíamos ser
Se o que negamos viver
For um pouco parecido com os meus sonhos
Então...
Estamos deixando a felicidade
A espera de nós dois.
Porque o desespero sempre está em nós. Só depende de onde ele está. Atrás da porta? Aos seus pés? Escondido, Deus sabe onde, em algum lugar (aqui você se ilude, pensando que ele está longe) fundo? Depende do que você faz com ele. Toma um chá, conversa com ele? Bate, arranha, empurra? Ignora sua existência e olha para frente? Ou olha para trás? Ou para dentro?

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Recentemente, tornei a pensar sobre algo que achei ter deixado para trás há muito tempo. Quem sou eu? Tive uma época da minha vida na qual eu não fazia ideia de quem seria eu. Em todos os aspectos. No aspecto da personalidade, mesmo; no aspecto do biológico; no aspecto do que a palavra Eu significaria, quando existem tantas nuances que afetam quem nós somos e o próprio conceito de Nós.
Pensei. Pensei muito. Mas na época não cheguei a conclusão alguma: essa dúvida foi, aos poucos, sumindo do meu roteiro diário, enquanto eu construía minha identidade própria. Inconscientemente. Porque muita coisa é só inconsciente. E o inconsciente? Seria Eu? Ou outra coisa maior? Os questionamentos voltaram. E por que? Não sei, nunca saberei. Sou inconsistente por natureza, vai ver foi só uma coincidência, ou algo me relembrou a dúvida. Não sei, nunca saberei.
Não é como se eu soubesse quem sou Eu agora. Nem antes. Mas, de alguma forma, meu inconsciente tem plena consciência disso, e isso me deixa muito menos nervosa, aflita com a questão.
E agora, eu escrevo. É só isso.
Defronte
O Desespero bate à minha porta,
O fogo já abrasa meus pés.
Há eras, aterroriza minha pele chamuscada:
Pelo perdão e pelo silêncio
Pelo barulho.
O Desespero vira a maçaneta,
Não tem a paciência que deveria ter.
Existem razões pelas quais seu nome é Desespero:
Pela pressa, pela preocupação,
Pela agonia.
O Desespero me agarra,
Me rasga, me despedaça.
Deixa sua marca:
Atiça mais óleo, mais gasolina, no fogo aberto
Não mais meus pés:
Mas meu corpo e minha cabeça
Minha alma.
Atrás de mim,
Não há.
Defronte,
Parece não ter.
- Annalogia