Existiam dramas rotineiros na vida de Frey, as vezes eram as roupas e como as pessoas reagiam a elas, outras eram a aparência e como elas pareciam se incomodar com isso, mas sempre, todos os dias, seu maior drama vinha do uso do banheiro. Era um ser que carregava a imensa incógnita sobre quem ele era, por mais que se sentisse a vontade com o gênero feminino, ele nunca se importou com a sua real natureza (além do que tinha entre as pernas), sua maior problemática vinha da aparência, a cada nova poção, Frey se tornava cada dia mais feminino, já tinha a pele lisa e com pelos quase invisíveis de tão finos, os lábios haviam ganhado um formato diferente e sua mandíbula estava se suavizando, a magia estava mudando até mesmo seus ossos e sempre que se via nu em frente ao espelho, ele via as curvas que queria ver, mesmo que ainda não tivesse seios e existia aquele incômodo que não podia simplesmente desaparecer. Naquele fim de tarde, depois da aula de balé, demorou horas para entrar no vestiário e se livrar do suor de um treinamento mais árduo, quando nenhum outro homem estava presente, Frey entrou e com toda a calma que o tempo poderia lhe proporcionar, se livrou das roupas e foi tomar um banho relaxante, mas o time de rugby havia ido ao vestiário logo que o Frey começou a se ensaboar, então aconteceu o que ele sempre tentou evitar até aquele momento.
Estava escuro ali, as mãos machucadas seguravam a fresta de um dos espaços que havia no armário, trêmulas, enquanto sentia o sangue escorrendo em seu rosto, não havia ninguém ali e se arrependeu por ser sempre o último a se lavar depois do treino. Já estava cansado de chorar, gritar e pedir ajuda, sentindo a garganta arder, sua cabra estava amarrada e o silêncio poderia ser torturante. Foi então que ouviu Demo falar algo, alguém estava entrando no vestiário e não conseguiu chamar pela pessoa, deixando apenas que a cabra fizesse o escândalo necessário, Frey aguardou até que a silhueta fosse possível de ver para bater contra a porta do armário fechado e dizer em um tom baixo e rouco. “Estou aqui, me prenderam aqui. Por favor, me ajude!”