aparentemente a morte está de olho na presença de adalind crain. quando o vôo 317 caiu, ada tinha apenas 20 anos e a floresta reconhece como o lince. atualmente ela está com 35 anos e é conhecida como desempregada, algo esperado considerando a reputação marcada por ser rebelde, embora também seja carismática. ela decidiu sair de hanover depois do resgate. a floresta lhe deseja boa sorte e tome cuidado com a morte, ou não!
antes ,
cresceu achando que merecia uma medalha por sobreviver a uma casa onde só haviam homens — seu pai e mais dois irmãos mais velhos que pareciam competir para ver quem seria o mais babaca a cada dia. adalind teve que carregar uma cruz simbólica ao ser considerada por seu pai o motivo da morte de sua mãe. não no parto, mas em uma tentativa de assalto em um mercado quando ela tinha apenas três anos; seu pai achava besteira sua mãe ter agido como uma ursa protegendo seu filhote, mas, bem… adalind se sentia grata às vezes. por sua mãe, sim, mas também vinha a culpa que todos os outros colocavam em seus ombros.
num ambiente tão masculino ela mal teve chance de criar gostos femininos, como bonecas, animações voltadas para meninas, revistas de fofocas sobre ídolos teen etc. ela tinha duas escolhas: acompanhar seus irmãos e assistir o que eles viam, brincar com o que eles brincavam e ouvir o que eles ouviam… ou se dedicar às tarefas domésticas. bom, não eram escolhas — eram suas obrigações. por vezes ficava tão cansada de arrumar a bagunça de três homens que ela não tinha forças para estudar e isso lhe trouxe resultados negativos em suas notas, manchando completamente seu histórico e causando algo que iria lhe assombrar no futuro.
adalind cresceu no inferno. seu pai era verbal e fisicamente abusivo por vezes e isso culminou numa personalidade reativa da parte dela. ela era rebelde, retrucava, batia portas, fugia de casa a noite e passou a dar para seu pai um verdadeiro motivo para achar que tinha uma filha ruim; mas isso apenas porque ele a condicionou dessa forma. ela fazia suas tarefas, pois em determinado momento as ameaças de ser expulsa de casa passaram a ser mais frequentes, até que ela mesma começou a planejar sua saída.
a vida escolar era igualmente… tenebrosa. se metia em constantes brigas e vez ou outra pegava detenção por socar aqueles que falavam de sua condição financeira ou sua família disfuncional — que só ela podia xingar. quando terminou o ensino médio não tinha nota suficiente para concorrer a uma bolsa de estudos e dinheiro era algo que definitivamente sua família não tinha, vivendo numa casa caindo os pedaços. porém pode concorrer a uma bolsa por vir de uma família de baixa renda e, felizmente, a conseguiu, entrando para o curso de enfermagem. mas ainda não era o suficiente. estava certa de que precisava sair dali de um jeito ou de outro e com o pouco dinheiro que possuía trabalhando como garçonete ela implorou para morar com uma amiga, abandonando o inferno que um dia chamou de lar.
em meio a sua nova vida os velhos costumes não foram embora e adalind nunca abandonou a rebeldia. se sentia dona de si, intocável agora que estava livre de seu pai e irmãos e foi nessa prepotência de que era a rainha do universo que acabou se metendo numa aposta estúpida que a fez embarcar numa viagem custeada por um dos amigos. foi quando adalind conheceu uma outra definição para inferno.
depois ,
quando o resgate ocorreu não ficou surpresa ao ver seus irmãos e pai aparentando estarem tão preocupados. as câmeras, as entrevistas e principalmente os cheques chegando apenas para contar sua experiência eram a carne podre e eles eram os abutres. ela conseguiu afastá-los, ouvindo mais uma vez que era culpada por algo que nunca fez e que ela jamais teria uma vida boa, porque ela simplesmente não era uma boa pessoa. e com isso ela abandonou a faculdade e saiu da cidade, procurando um lugar para si.
convencida deste fato acabou se relacionando com um homem que obviamente não valia nada — as brigas eram constantes e o marido mais parecia um reflexo daquilo que seu pai dizia que ela receberia. o casamento não durou nem um ano quando o marido de adalind desapareceu misteriosamente e ela, tomada pela dor, mudou de cidade novamente, ainda em busca da felicidade, de se sentir desejada e amada. começou a fazer terapia, viajou pelo país, sempre com a sensação de que não havia um lugar para si amargando em sua boca a cada confusão que se metia. estranhamente gostava de guardar coisas que a faziam lembrar de sua trajetória (a pá que utilizou para enterrar o primeiro marido, por exemplo… mas esse é um segredo).
em meio a seu processo de terapia fez algo que certamente não deveria — se relacionou com seu terapeuta. era uma relação de poder e manipulação clara para os outros, mas não para ela. o homem era perfeito no início, a incentivando a ser algo melhor para ele e em menos de um ano havia se casado. aos poucos foi notando que o conto de fadas que achou que viveria estava muito longe de ser a realidade e o príncipe encantado era mais uma forma de lhe causar dor.
ele não queria uma esposa; ele queria uma empregada. uma boneca para exibir como esposa perfeita e, de quebra, posar ao lado de alguém que tinha uma certa fama (ao menos uma vez por ano). depois de três anos de casamento, adalind perdeu o marido. o pobre homem havia morrido de forma misteriosa e a devota viúva que todos viam naquele teatro criado por ele ficou para sofrer por sua perda. apenas ela e o dinheiro considerável que ele havia deixado.
adalind seguiu forçando-se a ter uma aparência perfeita, uma fachada intocável de quem era grata pela vida que possuía, pelas pessoas que conhecia e pelas vezes em que foi salva, mas apenas ela sabia sobre sua verdade. só ela sabia que não conseguia dormir em sua própria casa, sobre as substâncias que usava para tentar esquecer algo, das vezes que sujou suas mãos fosse por defesa ou não. apenas ela sabia de todo o inferno que ela viveu, não apenas na ilha. era como se ela sempre estivesse sendo treinada para algo pior.
ela sempre esperava o pior. e dessa vez era hora de parar de fugir.





















