Cadê as mulheres no 10º Encontro da ABCP?
Na semana passada, entre 30 de agosto e 2 de setembro, aconteceu o 10º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), em Belo Horizonte. Eu poderia falar sobre várias coisas que aconteceram no encontro, que se deu exatamente durante o golpe de Estado, mas vou me ater a uma questão que incomodou uma boa parte das pessoas que ali estavam: a hegemonia masculina nas mesas e sessões especiais.
Todos/as que participam de congressos sabem que as mesas e as sessões especiais são espaços muito importantes, porque trazem uma seleção das/os maiores especialistas no tema escolhido para se debater. Ali há a apresentação de análises diversas, embates teóricos, desafios conjuntos a serem enfrentados por todas/os. As mesas e sessões representam o que tem de melhor na produção da área.
Na assembleia da Associação, realizada no dia 1º de setembro, um dado importante foi divulgado: as mulheres são 45% do total de sócios/as efetivos/as. No entanto, nas mesas e sessões especiais do encontro de 2016, fomos 26,1% e 29,3%, respectivamente. Esses 15 p.p. que distanciam o total de sócias do total de convidadas nas mesas e sessões representaria o quê?
É preciso pontuar, de forma enfática, que a crítica à ausência de convidadas mulheres nas mesas não é uma crítica direta a seus/suas organizadores/as. Dependendo da área temática, é possível que especialistas mais destacados/as sejam todos homens ou todas mulheres. Uma mesa desequilibrada pode significar que, naquele caso, não foi possível coordenar agendas ou mesmo que há um reflexo da desigualdade de gênero na área, e não da mesa. No entanto, uma lacuna de quinze pontos percentuais indica que há questões sérias que atravessam nosso problema.
O 10º Encontro da ABCP organizou 18 mesas redondas e 20 sessões especiais. Contando coordenadores/as, debatedores/as e expositores/as, cinco das 18 mesas (27,8%) e cinco das 20 sessões (25%) não tiveram nenhuma participação feminina. Assim, um quarto das mesas e sessões não teve nenhuma mulher convidada, sem contar a Conferência de abertura, composta por dois convidados internacionais homens.
Um panorama das demais mesas redondas e sessões especiais mostra a dimensão do desequilíbrio: nas mesas, houve somente duas com mais mulheres do que homens (11%): a mesa de Política Externa (coordenada por um homem, debatida por uma mulher e com três expositoras e um expositor) e a mesa de Gênero, Democracia e Políticas Públicas (com cinco pesquisadoras). Não houve nenhuma mesa equilibrada. Isso significa que 88,9% das mesas tiveram mais homens do que mulheres – e, nesse conjunto, 27,8 p.p. representam a total ausência delas.
Nas sessões especiais, duas tiveram três mulheres e dois homens (10%): a sessão de Partidos Políticos e uma de Política Externa. Cinco sessões foram equilibradas (25%): uma outra sessão de Política Externa, a dos 50 anos do programa de pós-graduação da UFMG, a de História da Ciência Política, a de Pesquisa em Ciência Política e a de Eleições. As treze demais sessões (65%) tiveram mais pesquisadores do que pesquisadoras – ali, cinco (25%) são sessões com ausência de mulheres.
Pode soar a algumas pessoas que a discussão desses dados é denuncismo – com uma resposta do tipo “veja só, teve até uma sessão [guetificada] que tinha 100% de mulheres!”. A questão, como já indiquei, não é algum desequilíbrio derivado da diversidade de pesquisas realizadas ou das agendas incompatíveis, mas um desequilíbrio de gênero sistemático no principal encontro de Ciência Política do país. Não há uma presença “maior aqui e menor ali”, um acaso que nos apresentou essa configuração de gênero no encontro. A semana passada nos indicou que, de maneira global, a Ciência Política brasileira se organiza a partir de um viés de gênero incisivo, que exclui mulheres de variados espaços centrais de debate. Somos 45% das associadas, mas não parece que temos 45% dos espaços de fala hegemônicos do campo.
Qualquer pesquisador/a da área de partidos e elites políticas sabe que a desigualdade de gênero na esfera representativa, que tanto estudamos, é diversas vezes justificada pelos gatekeepers como desinteresse ou falta de ambição política pelas mulheres, sem discussão das desigualdades anteriores que definem o baixo recrutamento. Creio que cientistas políticos/as, cientes da crítica da literatura, não usarão da mesma desculpa para nos autoexplicarmos. Já passou da hora de discutirmos a sério a divisão sexual do trabalho na Ciência Política.