[ PÓS-FEIRA | ANTES DO RITUAL 04 ]
Olivia escutou cada palavra como se fossem estilhaços entrando pela pele — não um ataque, mas doía porque era algo fora de seu controle. Não podia mudar o passado, nem decidir o que ele faria, muito menos adivinhar o que ele sentia. Era se atirar no escuro sem certeza alguma, e Olivia não fazia isso há muito tempo. O tom contido dele, as pausas, os olhos claros escurecendo de tanta mágoa… tudo em Aaron parecia gritar, mesmo quando sua voz se mantinha baixa. E ela quis responder. Quis interromper. Mas não conseguia. Porque no fundo… sabia que merecia ouvir tudo aquilo. Quando ele mencionou o beijo, sentiu o estômago revirar. Não porque se arrependia — Deus, não —, mas porque agora via o quanto aquilo o marcou. E ela se sentiu estúpida por não perceber. Por se sentir insegura, acreditando que havia sido apenas um beijo para ele. Sentiu-se uma criança que ganhou um diamante e, sem saber seu valor, deixou cair no chão. Ficou de pé, imóvel, como se qualquer passo pudesse quebrar ainda mais o que já estava em ruínas entre eles. Quando ele riu, de nervoso, de incredulidade, do absurdo, ela quis correr até ele e dizer o quão errado ele estava. Que ela havia se expressado mal, não havia dito toda a verdade. Mas ficou ali, ouvindo, deixando ele dizer tudo o que tinha engasgado — e se odiando por cada coisa que não disse antes.
Sentiu o peito apertar quando ouviu o nome de Helena, porque também despertou nela a sensação de ser segunda opção. Ele estava ali porque queria, foi o que disse, mas era inevitável pensar na sua insegurança de sempre. Estava se esforçando para ser minimamente racional, e perceber que os dois estavam repetindo o erro de sempre: deixavam os traumas falarem mais alto e não conversavam abertamente. Mas... estavam prontos para falar e ouvir o que sentiam um pelo outro? Quando ele falou de livre arbítrio, ela engoliu em seco. Era difícil manter-se sã e interpretar o que ele dizia de maneira racional quando tudo dentro dela gritava insegurança, medo. Mas, céus, como ela queria se acertar com ele. Como ela queria que desse certo. Como ela queria tirar esse peso do peito das coisas ditas pela metade. E quando ele disse que não precisava justificar nada, ela se encolheu, sem saber onde colocar os braços, as mãos, os olhos. Porque ela sabia que não tinha esse direito.
Percebeu, só então, o quanto estava sendo hipócrita. Ela estava buscando o seu final feliz, por que ele não poderia buscar o dele? Talvez porque, no fundo, ela queria ser o final feliz dele. Por que, então, ela chegava à essas conclusões mentalmente e não conseguia verbalizar nada? Tinha medo do que iria ouvir. Tinha medo de estar enganada, e descobrir que eles não eram almas gêmeas. A única certeza que tinha era que os sentimentos por ele só cresciam a cada minuto, não importava o que ele dissesse, ou o quanto a sua insegurança lhe impedia de dizer algo, ela sabia que o que sentia por ele não iria mudar ou desaparecer. Diz isso para ele, Olivia, uma voz sussurrava dentro dela. Diga antes que seja tarde. E então, ele colocou a mão na maçaneta. Ela quase parou de respirar, a fala entalada na garganta. Diga algo, sua idiota, você vai perdê-lo de novo, o seu coração gritava dentro de si.
— Aaron, espera! — Foi o que conseguiu dizer. Alguns segundos em silêncio, tentando organizar os próprios pensamentos, pensando em como e o que dizer. Tentava se recordar de tudo o que ele disse. "Não te devo nada. Não quando..." ele não completou, mas ela achava que sabia o que iria ouvir. E doeu. Porque Olivia não queria ser alguém que causava dor. Mas era. Para ele, principalmente. E isso a destruía. "Olivia Fuentes pode tudo", ela sentiu a garganta fechar a cada lembrança dos segundos passados. As acusações vindo com a força de quem segurou tudo por tempo demais. E por mais que soubesse que era desabafo, que era dor falando por ele, as palavras doeram. Porque ela percebia agora o que lhe custou construir essa imagem de uma mulher que tudo pode, que tudo tem, que usa as pessoas e destrói corações. Doía pensar que ele a enxergava assim. Percebeu que estava em silêncio há alguns segundos desde que o chamou, mas apesar do desejo de correr até ele e abraçá-lo, não conseguiu se mover. — A gente tá só cometendo o mesmo erro de sempre. Deixando nossos traumas falarem mais alto, ficando cegos com nossas mágoas e inseguranças, e não vendo o lado do outro. — Ela enxergava o dele agora, e queria que ele visse o dela. — Eu sempre fui só a substituta. A segunda opção. Para todo mundo. Me dói pensar que você queria a Helena, e eu sou seu prêmio de consolação. Eu não tô dizendo que você fez algo pra que eu pensasse isso. Mas é assim que eu me sinto. É assim que a minha autoestima funciona. Eu me sinto insuficiente o tempo todo. Eu só finjo muito bem. — Forçou um sorriso, o olhar marejado de quem segurava as lágrimas. Ela cresceu sendo ignorada, e depois, quando a mãe finalmente notava sua presença, era para criticar tudo o que ela dizia, fazia ou pensava. Olivia era ferida demais para enxergar qualquer coisa além. Sequer cogitava que poderia ser a prioridade de alguém.
— Você disse que isso talvez tenha sido um erro vir aqui. E não faz ideia do que essa palavra significa pra mim. Eu cresci ouvindo que eu era um. Um erro. Um estorvo. Inadequada, sempre demais, sempre errada. — A respiração de Olivia vacilou. Aproveitou que ele ainda estava de costas para terminar sua confissão. Era mais fácil se não tinha os olhos azuis intimidantes a encarando. — Eu fiquei, sim, com outras pessoas. Acreditar nessa história de almas gêmeas é a minha esperança de encontrar o amor. E eu estava em busca do meu final feliz. Você não pode me culpar por isso. A gente voltou a se falar há quatro meses. Só. E aí a gente se beijou, você me pediu para esquecer, e eu tentei, Aaron. Eu tentei muito. Acho que fiz um bom trabalho em disfarçar, mas depois de ontem... Aquele beijo naquela cabine da feira... — Ela fechou os olhos, lembrando-se da sensação e sorrindo por um segundo. Levantou as pálpebras para encará-lo novamente. — Eu quero tanto sentir o que dizem nos livros, nas músicas. Eu estou há meses buscando sentir... isso... sentir... o que eu senti com você ontem. — A última frase saiu sussurrada, quase como se não tivesse certeza se deveria ter dito. Estava de peito aberto, vulnerável, e aquilo a assustava. Ela não sabia exatamente o que havia sentido, não sabia nomear o que era. Zafira ainda não havia anunciado que fez o pacto que os permitia se apaixonar. Mas Olivia sabia que foi diferente, foi intenso.
— Você não me deve mesmo nenhuma explicação. Eu não deveria te fazer sentir culpado por isso. Eu entendo você estar com a Helena porque é leve e divertido no meio do caos. — Repetiu as palavras dele, com certo desdém. Ciúmes. — Então me diz, Aaron… você me enxerga como caos? Ela é o seu "leve e divertido"… e eu sou o quê? O seu caos? A sua bagunça? — Ela engoliu seco, a voz falhando no final. Sentia como se tivesse virado a tormenta na vida de alguém que só queria ser o seu ponto de paz. Queria que fosse para ela que ele recorresse quando quisesse esquecer dos problemas. Queria que ele procurasse por ela quando quisesse encontrar a paz no meio do caos. — E eu sei que não posso te cobrar nada. Não é cobrança. É só que... fiquei com ciúmes. É irracional, e hipócrita. Eu sei. Mas não gosto de te imaginar sentindo isso com outra pessoa. Detesto pensar em você se arrepiando com outro toque, perdendo o ar com outro beijo. Que não seja o meu. — Admitiu, por mais ridícula que pudesse parecer. Era hipocrisia, ela sabia, mas era difícil administrar todos os sentimentos confusos dentro dela.
Olivia começou a caminhar na direção dele, com cuidado, como se tivesse medo de que ele girasse a maçaneta e saísse correndo sem escutá-la. — Eu tinha mesmo certeza de que Matteo era minha alma gêmea. Até você me beijar ontem. Em dois segundos você me fez duvidar do que eu tive certeza por meses. Com ele, é tudo leve e divertido, também. Mas com você... — Ela sacudiu a cabeça, como se tentasse buscar palavras para descrever. — Com você, tudo é complicado. É intenso, é visceral. Com você, eu fico boba, insegura, tensa. Eu deveria ficar onde é seguro, mas é impossível ignorar o que eu senti ontem. O que eu sinto quando você me toca... quando me beija... Eu estou assustada por sentir isso, mas aqui estou eu, te querendo mesmo assim. — Ela estava mais perto, agora. Tocou a sua mão, como um pedido para ele tirar a mão da maçaneta e virar-se para ela. Depois, afastou a mão, entrelaçando os próprios dedos, em sinal de nervosismo. — Eu sinto que a gente fica andando em círculos porque eu sou insegura demais para achar que você tem algum sentimento por mim além de atração física. E você tem tanta mágoa de mim pelas coisas que fiz. Eu não tiro sua razão. Mas eu não quero que você me enxergue como essa mulher egoísta que destrói a vida dos outros. Eu não sou assim. Eu não quero ser. Naquele dia, no hospital, quando eu te pedi perdão, eu falei sério. Eu me odeio por saber que te fiz mal. E você, também tem noção do quanto me custou tudo isso? — Sua autoestima, seu amor própria, sua confiança e esperança. Parou por uns segundos, não esperando uma resposta, mas tentando se concentrar no que dizia.
— Você não é o único magoado nessa história, Aaron. E acho que não tem noção do quanto tudo o que você faz me afeta. Esquece ou não acredita no quanto eu também me magoei quando te perdi. Mas se você não me enxergar por quem eu sou, você nunca vai conseguir me perdoar de verdade. — Era doloroso pensar nessa possibilidade, e talvez acabasse ouvindo o outro afirmar que nunca conseguiria perdoá-la verdadeiramente. Mas, se ia correr riscos, precisava de todas as cartas na mesa. — E nem quero que você pare a sua vida por mim, para me esperar. Eu só preciso saber o que você quer, o que você sente por mim. O que você sentiu ontem, na feira, quando me beijou. Porque você diz que não acredita em almas gêmeas, então... o que isso significa? Eu sou só mais uma tentativa sua de viver algo leve e divertido? A sua mágoa te faz agir de maneira confusa, e isso me deixa insegura. Uma hora você me beija no baile e me pede pra esquecer. Ontem, me beijou na feira e fica bravo por um motivo que eu nem entendi. E aí no final, você me deixou em casa, e foi embora, e agora aparece aqui no dia seguinte e... Fala todas essas coisas. Eu não sei o que interpretar disso. Tenta entender o meu lado também. Eu tô me arriscando aqui, sendo vulnerável. Porque eu acho que se a gente não for sincero sobre o que sente, nunca vamos conseguir nos acertar. Eu preciso saber, mesmo que me magoe escutar. — E ela suspirou, como se fosse capaz de se acalmar. Os olhos marejavam, o coração batia forte e ansioso no peito, quase machucando. Não sabia se queria mesmo ouvir, ou correr para o banheiro e chorar lá até que ele fosse embora.