the one at the hospital. | liv&aaron
O quarto era uma mistura quase indiscernível entre sombras e luzes brancas. Em meio à dor e ao delírio, Aaron sentia o peso de algo invisível sobre seu peito. O bip intermitente da máquina ao lado soava distante, como se estivesse submerso em água. Entre um piscar e outro, a figura da mãe parecia surgir para visitá-lo, ainda que ele soubesse — no fundo — que era impossível. Ela estava morta. E ainda assim, lá estava ela: com lábios que se moviam, formando um sussurro que ele mal conseguia entender. Ele tentou mexer a mão, mas o corpo parecia ter o peso do mundo e o braço seguiu colado à cama. A imagem dela logo se dissolveu em sua frente. Blackwell sentia dor, desconforto, mesmo com a medicação que o deixava letárgico. Tentava se situar no tempo e no espaço, mas os momentos de lucidez eram tão raros, que mais pareciam lapsos de instantes. Nes às vezes estava lá. Ele sabia que sim. Ela sempre estava. O olhar dela carregava uma preocupação que ele não queria ver, que não queria causar. Sua culpa se misturava ao calor febril, à sensação de estar preso entre tempos diferentes. Seu pai apareceu entre um médico e outro, como se sempre tivesse estado ali, como se fosse apenas mais um rosto na multidão. Mas o pai, assim como a mãe, não poderia estar, ele havia morrido. A avó tomava o lugar da mãe às vezes, fazia carinho em seu rosto, lhe chamava de pequeno e rezava alguma coisa que ele não conseguia entender, a voz doce chamando seu nome.
Os fragmentos de realidade dançavam e fugiam dele. Alguém falava sobre a saturação dele — que sempre parecia baixa demais, outra voz pedia repouso. Mas então, havia também Olivia. Ela voltava sempre, como um espectro teimoso em seu delírio. Em um instante, estavam de novo na adolescência, antes da viagem que a afastou dele e de Nes, mas ela escapava. Ele não gostava de pedir nada a ninguém, mas dessa vez, a palavra se formou antes que pudesse impedir: "fique.” E apenas porque era um sonho, porque era um delírio, ele se permitiu fechar os dedos ao redor da mão que segurava a sua, ainda que estivesse fraco demais para segurá-la de verdade. Talvez ela nem tivesse percebido. Talvez nada fosse real. Mas ele queria que ela ficasse. Era seu sonho, ela deveria ficar, e ele podia pedir para ela ficar, ainda que na realidade, ele soubesse que jamais faria tal pedido. As sombras voltaram, a confusão também. Mais tarde, em outro dia ou outra madrugada, ele abriu os olhos e ela estava lá de novo. Mas algo estava errado. Ela não era mais adolescente. O rosto de Liv estava machucado, cortado de um jeito que não fazia sentido. Ele queria perguntar, mas não confiava na própria voz. O queixo dela se inclinou levemente quando afastou uma mecha de cabelo do rosto dele. O toque foi leve, quente, e ele não conseguiu evitar. Seu rosto tombou para encontrar aquele gesto, um reflexo involuntário, quase um suspiro. “Isso é bom...”, admitiu em um sussurro, ainda sem entender porque seu delírio mostraria Olivia machucada. Ele jamais iria querer isso. "Isso é muito bom, Liv..." @oliviafb @khdpontos














