Olá, me chamo Ana, sou Carioca e estudante de administração. Amo escrever, é quase como uma terapia.
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Felipe salvando o Natal
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Depois do Expediente
Amor de Verão
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Sapatos, Mirantes e Nova York
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-Série Cartas a Enzo (Enzo Vogrincic x Esteban Kukuriczka)
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Enzo ciumento (+18)
Leitora e Enzo terminando o Relacionamento
Escrevo sobre: Por enquanto só sobre o Cast de Lsdln e Dominic Sessa.
Não escrevo sobre: Qualquer coisa que envolva Violência explícita, ofensas a pessoas reais, preconceitos, ou algo que possa me deixar desconfortável.
📍Todas as histórias postadas nesse Blog são pura imaginação! É claro que algumas podem conter pequenos detalhes reais, ou tirados de livros, músicas ou filmes, mas no geral é tudo ficção.
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did you see dominic sessa is following trump/potus :( do you think it’s just cause he’s president?
yes i did!
there is actually a reason for this. he was following the potus account when it was biden’s account. they do create a new potus account for each new president, but the new account has been buying followers (specifically ones that followed the previous potus account)
obviously i do not know anything about dominic sessa. he could’ve followed the account on his own accord but i do know for a fact that trump has been buying followers.
he doesn’t follow any of trump’s other accounts and he does follow both of biden’s accounts so.
Essa fic seria com Enzo, mas as últimas 300 que escrevi foi com ele então dei uma pausa, além de que tbm achei isso aqui a cara do Felipe.
Avisos: Término de relacionamento e solidão
Era seu primeiro Natal longe da família. Além disso, você havia passado por um término recente e, para falar a verdade, comemorar o Natal era a última coisa na sua cabeça.
Jogada no sofá, com um pote de sorvete de flocos nas mãos, assistindo à sua sitcom favorita, você ouviu algumas batidas na porta.
Correndo até lá, você olhou pelo olho mágico e se surpreendeu com a súbita visita.
Ao abrir, ficou sem acreditar no que via.
— Feliz Natal! — disse Felipe, empolgado, enquanto segurava algumas bolsas nas mãos.
— O quê? — você soltou um sorriso incrédulo. — O que está fazendo aqui?
— Você acha mesmo que eu iria te deixar sozinha na véspera de Natal? — respondeu o argentino, com um tom caloroso.
Você deu passagem para ele entrar e, em seguida, fechou a porta.
Você olhou para o relógio, que marcava 20h, e não pôde evitar que algumas perguntas surgissem em sua mente.
— Você deveria estar em casa, com a sua família — disse a ele, com um toque de preocupação.
Felipe deu de ombros e soltou um pequeno sorriso.
— Minha família entende. Eles sabem o quanto você é importante para mim — respondeu, colocando as bolsas sobre a mesa. — Além disso, prometi a mim mesmo que faria desse Natal um pouco menos solitário para você.
Você riu, ainda surpresa com a presença dele.
— E então, o que é isso? — perguntou, apontando para as bolsas.
— Separei algumas comidas para você. Ah, e trouxe alguns jogos também — respondeu Felipe, com um sorriso caloroso.
Por dentro, você se sentiu como uma criança vendo o Papai Noel, e Felipe percebeu o brilho em seus olhos.
— Felipe, você não precisava estragar seu Natal assim. Eu nem montei uma ár...
— Shhhhh — ele a interrompeu, em tom brincalhão. — Já estou aqui, não estou?
Você levantou as mãos, como quem se rende, acompanhando o ar descontraído dele.
Felipe começou a tirar as comidas das sacolas, distribuindo tudo cuidadosamente sobre a mesa de centro da sala do seu pequeno apartamento. Sem conseguir evitar, você entrou na brincadeira e se sentou próximo a ele, estendendo a mão para roubar um pedaço de algo no prato.
— Ei, só depois da meia-noite! — disse Felipe, dando um tapinha leve na sua mão.
Você fez um bico de desapontamento, arrancando dele uma risada.
A noite seguiu leve, com o som da TV ao fundo criando um ambiente confortável, enquanto o reflexo das luzes natalinas na rua atravessava as janelas.
— E então, como tem se sentido ultimamente? — Felipe perguntou, a voz suave.
— Eu só... me sinto sozinha, sabe? Nunca imaginei passar um fim de ano assim, longe da minha família, sem a companhia de quem eu costumava ter.
Felipe entendeu o que você quis dizer.
— Você deveria ter me dito que se sentia assim antes. Sabe que eu estaria aqui com você a qualquer momento — ele segurou sua mão sob a mesa, de forma amigável. — Sei que está sendo difícil, a dor de um término pesa, mas eu posso te ajudar a passar por isso.
Você o olhou, se sentindo vulnerável por ter sido tão aberta, mas também sentindo um calor reconfortante com a presença dele.
— Não sei o que é... depois de tudo, o tempo passa e eu fico cada vez mais vazia.
— Vamos tentar mudar isso? Que tal criarmos uma tradição? Jogamos os jogos que eu trouxe e quem perder conta uma história vergonhosa — Felipe disse, empolgado com a própria invenção.
— História vergonhosa? Pode ser divertido — você respondeu, agora com um sorriso, começando a se animar com a ideia.
Felipe levantou-se rapidamente e foi até a prateleira onde havia deixado as sacolas. Ele voltou com uma pilha de jogos em mãos.
— Então, temos esses aqui — ele disse, colocando-os sobre a mesa. — Escolha seu veneno.
Você olhou para os jogos, a ideia de rir e se divertir, mesmo em meio à tristeza, parecia exatamente o que você precisava.
Vocês começaram com Uno, e Felipe, surpreendentemente, ganhou de você rápido. Ele olhou para você, esperando a história vergonhosa que você teria que contar.
Você respirou fundo e, sorrindo, começou a narrar sobre a vez que que você levou um tombo na frente da escola toda.
Felipe não conseguiu conter o riso e ficou tão vermelho de tanto rir que até se inclinou para frente.
— Isso é demais! — ele disse entre risos, enxugando as lágrimas dos olhos.
Vocês continuaram jogando e, com o ritmo do jogo, Felipe ganhou as duas próximas rodadas. Finalmente, chegou a vez dele perder.
— Ok, ok, perdi, mas agora é minha vez de contar uma história. — Ele fez uma pausa, pensativo. — Eu tenho uma história vergonhosa também... e acho que você vai se surpreender.
Você olhou para ele curiosa, imaginando o que ele poderia revelar. Felipe respirou fundo, como se estivesse se preparando para algo importante.
— Eu... sempre fui apaixonado por você, sabia? — Ele falou de repente, de forma tão séria que quase não parecia a mesma pessoa brincalhona que tinha acabado de ganhar o jogo.
Você ficou em silêncio por um momento, surpresa pela confissão. Felipe, no entanto, continuou, como se não pudesse mais esconder.
— Eu sei, pode parecer estranho, mas sempre que estávamos juntos, eu não conseguia disfarçar. Talvez tenha sido por toda essa nossa amizade, mas eu só não sabia como dizer. Sempre tive medo de estragar tudo — ele disse, desviando o olhar por um instante.
— Não vale, isso não é uma história vergonhosa — você brincou, mas ele não riu.
— Não é? — Ele olhou para você com uma expressão quase nervosa. — Eu não conseguia nem olhar pra você sem ficar nervoso. Tem aquela vez, lembra? Quando fomos ao cinema juntos? Eu passei a noite inteira com medo de que você notasse como eu estava agindo estranho.
Você assentiu, lembrando-se do que acontecera.
— Eu me lembro. Você estava tão quieto, nem parecia você. Eu até achei que tinha feito algo errado.
Felipe ficou sem palavras por um momento, mas logo recuperou o fôlego e olhou para você com um sorriso tímido.
— Você é realmente incrível, sabia? Sempre foi tão bonita, tão... única. Eu só nunca soube como te dizer. — Ele fez uma pausa, como se ponderasse suas palavras. — Eu queria te namorar desde o começo, desde que nos conhecemos, mas... você já estava com alguém, e eu não queria ser aquele cara que se mete onde não é chamado.
Você o olhou, surpresa com a sinceridade dele.
— Você queria... namorar comigo? — Você perguntou, a voz suave, tentando processar tudo o que ele estava revelando.
— Sim, eu queria. Mas não podia fazer isso enquanto você já tinha outra pessoa. Então, eu me escondi atrás da nossa amizade, com medo de arriscar tudo e te perder. — Ele disse, com uma sinceridade que fez seu coração bater mais forte.
— Eu não sabia, Felipe — você disse, olhando para o fundo dos olhos dele. — Nunca passou pela minha cabeça que você sentia algo por mim. Quer dizer, eu gostava de você, sabe? Mas eu estava com outra pessoa e tinha certeza de que você só me via como uma amiga.
Felipe arregalou os olhos, surpreso.
— Eu não sabia... Talvez, se eu tivesse sido menos covarde, as coisas teriam sido diferentes.
Você deu de ombros ao ouvir o "teriam sido diferentes", um pequeno sorriso melancólico surgindo no seu rosto.
— Talvez... Mas talvez não seja tarde demais para isso.
Felipe inclinou a cabeça levemente, como se estivesse tentando entender o que você queria dizer, e perguntou, sem disfarçar a curiosidade na voz:
— O que você sente agora?
— Eu... não sei. Tudo ainda parece tão recente, sabe? — você começou, buscando as palavras certas. — Mas, ao mesmo tempo, eu sei que estar com você hoje foi a melhor parte desse Natal.
Felipe sorriu, um sorriso tímido, mas cheio de esperança.
— Talvez seja um bom começo — ele disse, com a voz calma.
— Talvez seja — você concordou, olhando para ele de um jeito que parecia abrir uma porta que sempre esteve ali, mas nunca tinha sido usada.
Felipe estendeu a mão para segurar a sua novamente, mas dessa vez o gesto parecia mais significativo, como se fosse um pedido silencioso para dar aquele passo juntos.
— Podemos ir devagar, se você quiser. Sem pressa — ele sugeriu.
Você apertou levemente a mão dele, sentindo uma sensação de conforto e segurança.
— Eu gosto disso...
Vocês sorriram um para o outro, cúmplices, quando repararam na hora. O relógio disparava: meia-noite.
— Feliz Natal! — ele disse, com um sorriso largo, enquanto te envolvia em um abraço caloroso.
— Feliz Natal, Pipe — você respondeu, abraçando-o de volta, enquanto fazia carinho nas costas dele.
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Notas da autora: No início era para ser uma fanfic com Ale Sater (Terno Rei), mas eu mudei de ideia e virou um conto experimental, contradizendo Ovídio em “A arte de Amar”
Número de palavras : 2096
A luz da manhã rebelava-se contra as cortinas brancas e translúcidas, deixando entrar um brilho suave. Os acordes graves eram quase um murmúrio, e a voz dele guiava seus dedos pelo instrumento, tão baixinho que parecia quase imperceptível. Ele estava sentado no chão, em busca de novas composições, no entanto, antigas em sua alma. Enquanto os raios de sol que atravessavam as cortinas, aqueciam gentilmente os tornozelos de sua amada, deitada na cama a ler as notícias mais recentes no celular.
Era vinte e quatro de dezembro, cortante e cru. O som em seus ouvidos já anunciava o fim do ano, junto à movimentação habitual que marcava uma transitoriedade em suas vidas. Seria o último Natal com o estado civil de solteiro. Ah, sim… Não posso esquecer que, seis meses atrás, ele havia pedido a mão de sua amada, e o casamento logo aconteceria em sete de janeiro. Por isso, escolheram comemorar as festas de fim de ano longe de amigos, familiares e trabalho, num apartamento na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema. Embora vivessem em São Paulo, presos aos laços invisíveis do trabalho, era no Rio que algo neles se alinhava, como uma maré que os entendia sem perguntas. A maresia, as músicas flutuando das praias próximas, até o som do trânsito, tudo se tornava uma típica harmonia, suave como um murmúrio interno. Era ali que seus pensamentos se encontravam, sem esforço, como se o próprio ar os reunisse, silenciando a inquietação.
Num gesto quase distraído, ela bloqueia a tela do celular, estende os braços e desliza os dedos pelo lençol, sentindo a textura lisa, firme, como se ali, naquele toque, houvesse algo que pudesse alcançar. Mas era além, sempre além, um lugar onde a própria pele respirava. Com um movimento bruto e preguiçoso, ela inverte o corpo, deixa os tornozelos onde antes estava a cabeça, e assim o observa, aquele homem, tão próximo e tão seu. Um afeto morno a invade, e ela ouve, mais de perto, as melodias desordenadas que ele dedilhava. Para ele, novas; para ela, velhas conhecidas. Eram cantorias suaves, doces, doces, lembravam o gosto de bolo de laranja com calda escorrendo. Algo que, se pudesse, ela provaria todos os dias, manhã, tarde, noite. Mas sabia, sabia que eram sons que a vida em São Paulo roubava dele.
Na expressão dele havia uma espécie de quietude intensa, como se ele estivesse sentindo o dizer mais antigo de seus ossos, mas preferisse o silêncio que ele havia construído. Era um rosto que trazia nuances de conforto. O olhar era direto, mas com uma névoa de contemplação daquele pequeno instante, algo que ela lia como cansaço. A luz rebelde parecia dançar junto aos sons graves e a sombra repousava nos cabelos dele,castanhos e curtos, como um carinho oculto.
–Querida, você precisa de alguma coisa? – ele pergunta, mas continua buscando o que é novo para si próprio, e ela fecha os olhos fazendo sinal negativo com a cabeça.
— Não… eu só estou assistindo você fazer o que mais gosta.
Eles sorriem. Então, os sons graves mudam para sons baixos, e bem mais experimentais. Ele começa um ritmo um pouco diferente, enquanto olha nos olhos da mulher que ele escolheu amar. Ela sente certeza nos olhos dele, algo que ele não ousa dizer em palavras, mas que se traduz no toque das cordas, na maneira como seus dedos passeiam, buscando. Ele parece compor como quem tenta revelar um segredo, e cada nota é uma grande investida. E, naquele instante. Ela sorri, e seu rosto parece iluminar-se suavemente com a música. Há uma intimidade ali, tão profunda que não pede explicações. Entre uma melodia e outra, ele murmura, quase em um sopro:
— Você sabia que eu nunca toquei assim antes?
Ela o observa, as palavras dele se aninhando dentro dela. E responde, baixinho:
— Eu sabia.
Naquele silêncio compartilhado, sentiam-se confortavelmente eternos, como se o amor fosse uma música inacabada, sempre prestes a recomeçar.
Dó, ré, mi… fá. Ela não sabia nada sobre teoria musical, mas deixava as cordas vocais dançarem em seu próprio ritmo, desajeitadas e livres. Os acordes vinham pesados, de combate, e ela estava a um passo atrás de cantá-los. Havia algo de cômico, algo sem rumo naquela tentativa de imitar o que ele tocava. Mas, de algum jeito, o som assentava, como se ela pertencesse também ao metrô dessa cantoria, caótica e doce. E o sol lá fora, impassível, poderia rir a qualquer instante. Ele a observa, brincando:
— Quem foi que te concede, ó mulher cruel, o dom do canto? — o tom era de piada, mas havia um traço de admiração nos olhos dele.
Ela ri, um riso claro e seguro, e, sem dizer nada, agarra o instrumento, como uma provocação, uma pequena rebeldia entre os dois. E por um segundo, ele imagina que talvez fosse mesmo ela quem lhe ensinava a música. Porque o som, o toque, o riso, tudo se misturava em algo que ele mal podia nomear. Era amor, sim, mas um amor que vibrava, indomável, quase absurdo.
Ele deixa que ela ganhe. Os braços dela puxam o instrumento suavemente, posicionando-o na cama, enquanto ele permanece sentado no chão, soltando um suspiro exagerado, como quem carrega o peso de uma “derrota” dolorosa.
— Ah, o que será de mim agora? — murmurou, fingindo tristeza, com um toque teatral nos olhos semicerrados.
Ela ri, aquele riso fácil que ele adorava arrancar, e estica uma mão para tocar seu rosto, como se dissesse, sem precisar de palavras, que sabia da farsa. Ele se deixa vencer, sim, e na verdade gosta disso. Entre eles, essas pequenas vitórias e derrotas viravam uma dança silenciosa, um jeito de tocar o amor com as pontas dos dedos.
— O meu futuro marido há de estar presente no mesmo banquete que nós; seja essa a última ceia para você, meu noivo, e amante.
As palavras dela pairam entre os dois como uma calda de laranja sobre o bolo, carregadas de um tipo de açúcar que ele ainda não tinha conhecido. Havia um tom de brincadeira, mas também algo solene, como se ela estivesse selando uma espécie de pacto, uma despedida antecipada. Ele sorri, um sorriso alegre, sem esconder a inquietação que aquilo lhe causava.
— Então será nossa última dança? — ele pergunta com um tom leve, e ela apenas o encara, como se já soubesse a resposta. — Estou com inveja dele.
Ele se levanta devagar, como se cada gesto precisasse de um último instante de despedida. Guarda seu instrumento com cuidado dentro da mala grande, o som do fecho quebrando o silêncio como um ponto final. Ela já está de pé, esperando por ele na porta do quarto, as mãos escondidas atrás do corpo. Seus cabelos caem livres sobre os ombros, capturando e desfazendo a luz que escapa entre as cortinas. Ele a observa discretamente com um carinho tímido, como se estivesse vendo-a pela primeira vez.
Quando termina, fecha a mala com um gesto firme e vai até ela, sentindo o peso de tudo o que ficou não dito. Ela o acolhe com um olhar terno, e os dedos dele, quase sem querer, encontram os dela. De mãos entrelaçadas, ela o guia em silêncio até a cozinha.
Ali, naquele breve trajeto, há uma cumplicidade tácita, uma compreensão tão profunda que não precisa de palavras. Os dedos dela o seguram com leveza, mas ele sente a firmeza, a promessa sutil que cada toque carrega. Na cozinha, o mundo se desfaz por um instante, e eles se entregam a esse pequeno ritual, como se fosse o último de uma série que nunca precisou de explicações.
Ela abre a geladeira, observando o interior como quem busca uma função escondida entre os ingredientes. Ao lado da janela, ele acende um cigarro, encarando o horizonte onde a praia encontra o céu. A pergunta silenciosa dela paira no ar: o que seria a ceia de Natal? Ele não tem uma resposta precisa; a ideia de um banquete elaborado parece distante, quase irrelevante. Em sua mente, só uma certeza persiste, límpida: no próximo Natal e em todos os outros que viriam, aquela mulher ao seu lado seria sua esposa.
Com isso, entende que o que desejava não era uma ceia farta, mas uma ceia suficiente. Algo pequeno, íntimo, capaz de refletir o que compartilhavam e o que estava por vir em janeiro, quando dariam o próximo passo. Ele desejava apenas o essencial — que aquela noite fosse uma celebração da promessa invisível que agora sustentava cada olhar entre eles. Ela fecha a geladeira lentamente, compreendendo o gesto não dito. Juntos, escolhem itens simples: pão, queijo, vinho. A noite pede pouco, apenas o suficiente para que, naquele momento, eles celebrem um ao outro.
Ela senta numa cadeira e anota no celular tudo o que pretende comprar no mercado. Ele se aproxima e, com os dedos sujos de cinzas, nicotina e tabaco queimado, passa entre seus cabelos. Ele sabia que aquilo a irritava, mas ela responde sarcasticamente: "Hahaha! Eu vou lavar o meu cabelo depois de ir ao mercado", enquanto faz a dancinha da vitória, a mesma pela qual ele se apaixonou antes mesmo de serem namorados. Vingativo, ele apaga o cigarro na pia úmida da cozinha, sob o olhar de reprovação dela. Sem hesitar, ele a beija, prometendo que limpará depois. Tudo naquele instante parecia acontecer em uma lentidão quase intencional, como se o tempo decidisse expandir só para eles, dando espaço para um raro conforto.
E talvez seja exatamente isso, conforto, que busco ao escrever este texto, mas posso ser sincera? Eu não quero estender muito, pois se estender posso acabar invadindo a intimidade desse casal tão real e tão sinceroso. Me sinto mal por ter contado a você, meu leitor, essas breves brincadeiras deles. Só que decidi contar para que nós não desistíssemos de encontrar essa sorte, a sorte de encontrar um amor morno, um amor confortável, tão confortável que em seus dias mais agitados e cheios de deveres você, eu,iremos correndo para o ninho desse amor. Bem…vou retornar à narrativa.
Aquele beijo demorado era suficiente para que dissolva qualquer possibilidade de raiva. E… ela poderia se perguntar… qual é o ponto de vista que a faz tomar aquele homem como seu futuro, e eterno,marido? Qualquer que fosse esse olhar soberano, era um olhar adulto, feminino, e anti-platônico. Ah… é um olhar que escolhe o que enxerga e o que não enxerga. Que desfaz, que molda. Que pega o que não entende. — a ele, por exemplo, o homem que toca suas notas e diz uma língua sem regras — ele se esforça para ser, um terço, digno de receber o amor dela. Eles se escolheram, pois os demais adultos reduziram até o que é estranho. Os outros no mundo reduziram até o que pulsa nas cores. E esse casal,antes de se encontrarem, pensavam: “que esquisito, que frágil, esse domínio humano”.
Ela, ele, decidiram olhar para as coisas normais, ou estranhas, como crianças que olham para um reflexo imperfeito. E é curioso, não é? Assim… eles decidiram fugir para o Rio de Janeiro, como se vivessem num universo secreto só deles, sem regras, onde são conduzidos por forças naturais de seus espíritos. E aí, param de fugir da rigidez, abraçam a liberdade anárquica que cada um estimula no outro. Sabe, meu leitor… é um equilíbrio tão difícil, quase impossível. Eu os invejo tanto que precisei prender-los nessa narrativa. Só que, em meu esforço falho por controlar, ou libertar,esqueço simplesmente de ver o que pertence só a eles.
É a partir dessa perspectiva dela que o envolve em seus braços, ali, naquela cozinha de um apartamento alugado. O cheiro de cigarro e sabonete dele, o perfume de cereja e avelã dela. Precisavam ir ao mercado o mais cedo possível; afinal, era vinte e quatro de dezembro, e todos os despreocupados agora estavam apressados, correndo para preparar a ceia de Natal. Mas, por alguma razão, esse casal não.
Esse “envolver” dos braços dela transformou-se num “amassar” dos corpos. Melhor dizendo, ele deu nela uns amassos — amassos amorosos. Ele a amava há mais de quatro anos, ela o amava há mais de quatro anos. Ela deu nele uns amassos, amassos amorosos ... E juntos, eles se amassaram, assim, um no outro. E, talvez, só talvez, seja exatamente isso que escrevo: que essa mulher, que há pouco cativou o homem ao seu lado, ou o ame ou o faça, misteriosamente, amar-se nela. Aceita, meu leitor, aquele que há de servir-te em silêncio, sem grandes gestos — aceita aquele que saberá amar-te com a leveza de quem compreende e a lealdade de quem não se assusta com o íntimo.
Ela não fazia ideia do que começar a escrever assim que chegou a Positano. O mar turquesa e as casas empilhadas nas encostas, como se tivessem sido colocadas à mão, eram belíssimos, mas ainda não provocavam o despertar criativo que ela buscava.
A paisagem parecia perfeita demais, imutável, quase estéril para a inquietação que precisava traduzir em palavras. Até que ela o conheceu.
Foi no mercado local, entre barracas de frutas frescas e o aroma de limões sicilianos, que eles se esbarraram. Ele se apresentou com um sorriso despretensioso: Esteban Kukuriczka, arquiteto argentino, ali para trabalhar no projeto de restauração de um hotel boutique da região.
A conversa fluiu como o vento leve daquela manhã. Eles caminharam juntos pelas ruelas estreitas, comentando sobre a vida na cidade. Ela não sabia dizer se o que a encantava era o jeito livre com que ele falava ou o cabelo loiro, sempre bagunçado, que parecia combinar com a sua personalidade despreocupada.
Nos dias seguintes, os encontros casuais se repetiram. Esteban, com seu bom humor constante, parecia estar sempre iluminado pelo sol de verão. Ele a fazia rir com pequenas histórias e observações sobre as peculiaridades do lugar. Até que, um dia, ele a surpreendeu com um convite:
— O que acha de um jantar diferente hoje à noite?
O lugar escolhido foi um velho cinema que exibia filmes antigos todas as noites. O ambiente era acolhedor, quase íntimo, com cadeiras de madeira e paredes decoradas com cartazes desbotados. Durante o filme, eles conversaram em sussurros, trocando impressões e risos contidos. Depois, o jantar aconteceu em um pequeno restaurantes a poucos passos do cinema, iluminado por lâmpadas amareladas que pendiam de árvores. A comida era simples, mas saborosa.
Entre uma taça e outra, ela falou sobre os romances que escreveu e os que ainda sonhava escrever, enquanto ele descrevia sua obsessão pelos detalhes arquitetônicos, as histórias que cada estrutura carregava, e como o hotel em que trabalhava era um desafio que o fazia se sentir vivo.
Quando a noite terminou, ela sentiu um misto de excitação e hesitação. Estava claro que algo crescia entre eles, mas havia um prazo inevitável para aquilo tudo. Ele não ficaria ali para sempre, e ela também tinha seu próprio destino. Era um romance com data de validade.
Ainda assim, ela resolveu continuar. Por que não?
Esteban a surpreendeu cada vez mais conforme os dias passavam. Em uma tarde ensolarada, ele a convidou para conhecer a obra onde trabalhava. O hotel boutique, ainda em reforma, tinha ares de algo que carregava o passado nas paredes, mas aguardava por uma nova vida.
Ele a guiou por entre os corredores empoeirados, explicando cada detalhe com paixão: a escolha dos azulejos, o cuidado em preservar as molduras originais das janelas, e a forma como a luz natural atravessava o salão principal.
— É como contar uma história, mas com pedras e madeira — disse ele, os olhos brilhando. — E você? Como é contar histórias com palavras?
Ela sorriu, encantada tanto pelo lugar quanto pela maneira como ele falava. Talvez fosse a forma como ele via o mundo — atento, detalhista e ainda assim tão livre — que fazia tudo ao seu redor parecer mais vibrante.
Em outro dia, ele a surpreendeu novamente, desta vez com um presente. Era um pequeno bloco de desenhos, onde ele havia esboçado partes de Positano, cenas que ele dizia lembrar dela: a curva de uma rua que terminava no mar, uma sacada cheia de flores, uma cadeira de madeira na sombra de uma oliveira.
— Não é nem um pouco profissional — ele disse, quase envergonhado. — Mas achei que você gostaria.
Ela, emocionada, retribuiu com algo especial também: um pequeno livro de poesias italianas, com algumas anotações que fizera enquanto lia.
— Para você entender a poesia que há nesse lugar — disse, entregando-o com um sorriso tímido.
A conexão entre os dois parecia crescer a cada encontro, até culminar em uma noite onde tudo finalmente transbordou. Era o último dia de um festival local, e eles haviam caminhado até um mirante isolado, de onde podiam ver as luzes da cidade refletidas no mar. Enquanto conversavam sobre sonhos, medos e o que os fazia seguir em frente, Esteban se aproximou, segurando o rosto dela com delicadeza.
O beijo foi intenso, carregado de tudo o que palavras ou desenhos não poderiam expressar.
Eles acordaram juntos naquela manhã, com a luz do sol filtrada pelas cortinas, cobrindo o quarto com um tom dourado. Ela observou Esteban, ainda adormecido ao seu lado, e sentiu um aperto no peito. O tempo parecia escorrer entre os dedos, e os últimos dias juntos já tinham o peso de uma despedida que ambos evitavam mencionar.
Quando ele finalmente abriu os olhos, deu um sorriso preguiçoso, e por um momento, tudo parecia simples.
— Temos mais alguns dias, certo? — ele perguntou, segurando a mão dela.
— Certo — ela respondeu, tentando esconder a melancolia na voz.
Prometeram aproveitar cada instante como se o fim não estivesse à espreita. Passearam pelas ruas de Positano, compraram frutas frescas no mercado, e passaram uma tarde inteira na praia, onde ele a convenceu a mergulhar no mar turquesa, apesar de suas hesitações.
À noite, subiram até o terraço de um restaurante com vista para a cidade iluminada. Brindaram ao verão, à vida e ao que quer que o futuro lhes reservasse. Ele a olhou nos olhos, como se quisesse decorar cada detalhe de seu rosto, enquanto ela fazia o mesmo.
No último dia de Esteban, eles se despediram sem promessas. Ele precisava voltar à Argentina; o projeto em Positano estava concluído, e novos compromissos o esperavam.
— Cuida bem das palavras, como cuidaria de uma casa — ele disse, antes de partir.
Ela sorriu, mas não conseguiu responder. O beijo de despedida foi longo e silencioso, como um adeus e um agradecimento.
Dias depois, chegou a vez dela de partir. Enquanto arrumava as malas, olhou uma última vez para o pequeno bloco de desenhos que ele lhe dera, sentindo o peso do vazio que ficava no lugar dele. Ela sabia que seria difícil revê-lo, talvez até impossível. A vida era implacável, cheia de caminhos que se cruzavam apenas para se afastarem de novo.
Ela publicou o livro no ano seguinte, sem citar nomes ou lugares. Não era necessário. Ninguém precisava entender os detalhes além dos dois.
Esteban, como esperado, comprou um exemplar assim que soube do lançamento. Não disse nada a ninguém, apenas levou o livro para casa, sentou-se no sofá de sua sala iluminada pela luz amarelada do abajur e começou a folhear.
A cada página, ele era transportado de volta àquele verão. O mercado local, o cinema antigo, o terraço iluminado pelas luzes da cidade e, principalmente, o som da risada dela, o jeito como ela o olhava quando falava sobre seus sonhos.
Ele leu devagar, como se quisesse prolongar a sensação de reviver cada instante. Quando chegou ao fim, fechou o livro com um sorriso grato.
Na última página, uma dedicatória simples dizia tudo:
"Para quem já viveu um verão eterno."
E ele sabia, sem sombra de dúvida, que era para ele.
Essa é a História de L., uma jovem que, após a partida de seu amado Enzo para a Europa nos anos 1920, começa a escrever em seu diário e a mandar cartas para ele, compartilhando suas ansiedades, uma gravidez inesperada e a solidão da distância. Com o apoio de Esteban, amigo de Enzo, ela enfrenta as dificuldades, mantendo viva a esperança de reencontrar seu amor.
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A carta de Enzo chegou, trazendo sentimentos contraditórios. A empolgação de reencontrá-lo, de vê-lo conhecendo o pequeno, desmoronou assim que pensei no que poderia acontecer entre Enzo, Esteban e eu. Esta noite, contarei tudo a Esteban. Apesar de ele sempre ficar na defensiva quando menciono Enzo, ele precisará compreender.
28 de abril de 1921
Esteban permaneceu em silêncio e preferiu se retirar quando mencionei a chegada de Enzo. Não consigo entender o que ele colocou na cabeça; evita qualquer conversa sobre o homem.
Nosso filho conseguiu ficar de pé apoiado pela primeira vez hoje. Já acena com a mão e balança a cabeça para dizer "não". Ele tem se desenvolvido tão rápido, meu pequeno.
Quanto a Enzo, não consigo tirá-lo da mente, mas escolho guardar esses pensamentos apenas para mim.
3 de maio de 1921
Cada dia que passa, a chegada de Enzo se aproxima, e sinto que o ar ao meu redor fica mais pesado. Ele sabe. Sempre soube que o pequeno é seu filho, mas nunca tive coragem de encarar o que isso realmente significa para nós três.
Esteban aceitou a situação com uma dignidade que nunca vou conseguir entender completamente. Ele ama o menino como se fosse seu, com uma devoção que às vezes me faz questionar se eu sou digna desse tipo de amor. Mesmo assim, percebo como a vinda de Enzo o inquieta. Ele não diz nada, mas seus silêncios são tão claros quanto palavras.
Hoje, enquanto embalava nosso filho, senti a mistura de sentimentos que carrego há tanto tempo. Amor, culpa, ansiedade... Como será quando Enzo o segurar nos braços? Será que o reconhecerá de verdade, além dos traços que compartilham? Será que ele vai querer ser mais do que o pai distante que tem sido até agora?
Eu me sinto presa entre dois mundos: o do passado, onde Enzo foi o grande amor da minha vida, e o presente, onde Esteban me deu estabilidade e aceitação. Não sei qual deles é mais real, ou se algum dia terei coragem de escolher.
A cada dia, a chegada de Enzo parece mais inevitável, como uma onda que cresce ao longe, prestes a alcançar a costa e mudar tudo o que conhecemos.
15 de maio de 1921
Hoje, descobri que estou grávida novamente. Meu coração parece pequeno para caber tantos sentimentos ao mesmo tempo. É de Esteban, o homem que tem sido meu porto seguro, mesmo em meio a tantas tempestades.
Olhei para ele esta manhã enquanto brincava com nosso pequeno no jardim. Seu sorriso era tão genuíno, tão cheio de amor, que quase chorei. Esteban ama como poucos homens sabem amar: com calma, paciência e uma generosidade que me deixa sem palavras. Ele nunca pediu nada em troca, nunca exigiu mais do que eu pudesse dar, e, mesmo assim, me deu um lar, uma família.
Penso em como vou contar a ele. Sei que seus olhos vão se iluminar, como na primeira vez que segurou nosso filho nos braços. Esteban é um pai incrível, e sei que este novo bebê será recebido com o mesmo amor incondicional que ele sempre demonstrou.
E, ainda assim, não posso evitar pensar em Enzo. Ele está prestes a chegar, e com ele virá um peso que não sei se Esteban ou eu estamos prontos para carregar. Não quero que essa nova vida seja marcada pela sombra do que ainda sinto por Enzo. Quero que esse bebê nasça em um lar cheio de amor e paz, como aquele que Esteban tem tentado construir para nós.
Hoje, ao colocar nosso pequeno para dormir, agradeci baixinho por tudo o que tenho, mesmo com as dificuldades. Se há algo que aprendi com Esteban, é que o amor verdadeiro não exige perfeição, apenas presença.
20 de maio de 1921
Hoje, Esteban finalmente falou o que eu já sabia. Ele disse que sabe que ainda amo Enzo, e que isso não é algo que se apaga com o tempo. Não esperava que ele pedisse para que eu esquecesse, mas fiquei surpresa com a calma dele.
Ele falou sobre o bebê e a chegada de Enzo. Não foi fácil ouvir, mas ele disse que está aqui, que sempre estará. Ele me pediu para não me preocupar com o que Enzo representa. A conversa foi difícil, mas ao mesmo tempo, me deu um pouco de paz.
O médico me pediu repouso absoluto por um tempo. Não posso deixar de pensar no que está por vir. Enzo vem em julho, e, de algum modo, a ideia de que Esteban e eu estamos esperando um filho juntos me traz algum conforto. Mesmo com todos os meus sentimentos confusos, ele tem sido a minha rocha.
Hoje, nosso filho deu os primeiros passos sem ajuda. Vi Esteban sorrir, cheio de orgulho. Ele é um ótimo pai. Isso, pelo menos, me acalma.
15 de junho de 1921
Minha mãe me falou sobre Enzo hoje. Ela soube de algumas cartas que ele tem enviado à mãe dele. Cartas cheias de dor, sem esperança, como se ele estivesse preso no passado. Ela disse que ele se isola cada vez mais, sem planos, só com arrependimentos.
Eu já sabia que ele estava assim, mas ouvir isso me dói de uma maneira que não consigo explicar. Ele parece perdido, como se não conseguisse se afastar do que ficou para trás. E, ao mesmo tempo, me pergunto se é isso que ele espera de mim, alguma coisa que eu não sei mais dar.
Esteban, por outro lado, está aqui. Ele me ama, e é isso que eu deveria valorizar. Mas, enquanto penso nessas cartas de Enzo, me sinto mais distante do que nunca de tudo o que construí.
18 de junho de 1921
A gravidez tem sido uma montanha-russa. Os dias passam devagar, e o medo de não estar preparada para o que está por vir me consume. Esteban tem sido maravilhoso, sempre ao meu lado, mas a ansiedade só cresce. O bebê se mexe cada vez mais, e isso me dá um pouco de alívio, mas o peso da espera e da mudança está sempre lá.
Nosso filho está crescendo rápido. Hoje, ele me fez rir com uma tentativa de falar mais palavras. Isso me faz sorrir, mesmo nos dias mais pesados.
30 de junho de 1921
Faz dias que não escrevo. A gravidez tem sido difícil, fiquei doente e isso me deixou sem forças. Não sei se é o corpo, o cansaço ou a ansiedade, mas algo dentro de mim parece em constante agitação. Sinto que tudo isso está ligado ao que eu guardo em mim. Talvez seja o peso do que está por vir.
Julho está quase aí, e Enzo vai chegar. Não sei o que esperar, não sei como vou reagir. Há uma parte de mim que teme o reencontro, que teme que tudo o que eu construí com Esteban desmorone. A dúvida me corrói. O que ele quer de mim agora? E eu, o que sou capaz de dar a ele?
Esteban tem sido paciente, mas meu coração ainda está em um turbilhão. Não sei quanto tempo mais conseguirei esconder o que realmente sinto.
5 de julho de 1921
A contagem regressiva começou. Enzo está chegando, e o navio que o trará já está a caminho. O porto está se preparando para recebê-lo, e eu também, embora minha mente esteja em mil direções. Esteban tem me ajudado a organizar tudo, mas eu mal consigo me concentrar. Cada detalhe, cada movimento, parece um reflexo do que ainda estou tentando entender dentro de mim.
O navio está previsto para chegar na próxima semana, e já sinto a tensão no ar. Esteban está tranquilo, como sempre, mas ele não sabe o peso que isso representa para mim. Eu devia estar ansiosa para ver Enzo, mas a ansiedade é como um peso constante, um nó na garganta que não consigo desfazer. O que fazer quando ele pisar aqui, depois de tanto tempo? Como vou me comportar?
você escreve angst? se sim, faria um com o enzo? 🥹🥹
Oiee, tudo bem? Ficou bem curtinha mas gostei do resultado, espero que você também <3 eu já escrevi angst antes, você pode ler aqui📍
(A história pode conter alguns gatilhos de relacionamento tóxico)
LEITORA E ENZO TERMINANDO O RELACIONAMENTO
Você mal conseguia acreditar que estava fazendo isso. Cada passo até o carro parecia uma eternidade, como se as ruas se estendessem infinitamente, tentando te prender, impedindo que você finalmente fosse embora.
O inverno cortante não comparava com o vazio gelado que se expandia dentro de você. Havia sido uma luta constante para tentar fazer com que ele visse você, para que ele visse o que estava se desintegrando entre vocês.
Mas ele nunca conseguia.
O que você tinha, para ele, não era amor, era uma espécie de dever. Você era mais uma babá do que uma parceira. E por mais que tentasse mostrar que se importava, ele parecia estar sempre distante, sem saber ou sem querer se abrir.
Quando o celular vibrou no banco ao seu lado, você hesitou. A mensagem era de Enzo. Será que deveria ler? Pensou. Mas, ao ver o nome dele na tela, uma parte de você cedeu. Você tocou a tela com a ponta dos dedos, e a mensagem apareceu:
"Por favor, não vá. Eu sei que fiz tudo errado, mas sem você... eu não sei quem sou mais. Não consigo mais viver sem você aqui. Eu só peço mais uma chance. Me dê uma chance, eu vou lutar, eu prometo"
Você olhou para a mensagem, o peito apertado, mas as palavras não tinham mais o mesmo peso. Ele sempre dizia que ia mudar, sempre prometia. Mas você estava cansada de ser a única a tentar, de ser a única que se importava. As promessas dele não eram mais suficientes. Você havia se afundado demais tentando salvar algo que ele não queria salvar.
Sem forças para continuar olhando para aquela tela, você desligou o celular e apoiou a cabeça no volante. O silêncio tomou conta do carro, mas não havia paz. A dor da partida ainda estava fresca, e os momentos bons, as lembranças felizes, agora estavam manchados por todas as vezes que ele te afastou, pelas palavras ríspidas que ele nunca pediu desculpas.
E foi quando o som de um leve toque na janela fez seu coração disparar. Você olhou rapidamente, e lá estava Enzo, parado na calçada.
Ele parecia menor, um homem quebrado, algo que você não reconhecia mais. Seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado, mas seu rosto estava frio, como sempre. Ele não sabia demonstrar afeto, não sabia como te abraçar quando você mais precisava.
Ele se aproximou mais, até ficar ao lado do carro, com a expressão vazia, como se tudo estivesse prestes a desmoronar.
— Você não vai me deixar— ele murmurou, quase como uma afirmação. — Não é possível, você não pode fazer isso...
O som da sua voz te atravessou. Você engoliu em seco, sem saber o que dizer. Os anos de frustração, de tentar fazer com que ele se importasse, de tentar de todas as formas que ele te amasse como você o amava, tudo parecia estar condensado naquele instante.
— Eu já não posso mais, Enzo — você respondeu, a voz tremendo. — Eu tentei, mas... não é o suficiente. Eu fui mais que uma namorada para você, fui uma espécie de babá. Sempre tentando te agradar, te salvar, mas nunca recebendo nada em troca. Você nunca me viu.
Enzo olhou para você como se tivesse sido atingido por uma pedra. Ele tentou abrir a boca, mas nada saiu. Ele queria falar, queria dizer algo que a fizesse mudar de ideia, mas as palavras pareciam lhe faltar.
— Você não sabe como demonstrar, Enzo. Você não sabe como amar... E, por mais que eu queira, não posso mais estar aqui esperando que você mude —Você engoliu as palavras com dificuldade, o aperto no peito quase te sufocando. — Eu já perdi demais de mim mesma tentando salvar algo que você nunca quis salvar.
Enzo deu um passo atrás, os olhos marejados, mas ele não as deixou cair. Ele estava ali, imóvel, como se estivesse preso, como se a dor de te ver indo embora o tivesse paralisado.
— Mas eu vou mudar... Eu prometo— ele disse, as palavras saindo em um suspiro, sem a convicção que costumava ter.
Você sentiu um frio mais intenso, uma sensação de vazio ainda maior. Ele sempre dizia que ia mudar, que ia tentar, mas nunca conseguia. E você estava exausta de tentar, de esperar por um homem que não sabia nem ao menos como te amar.
Sem olhar para trás, você colocou a chave na ignição e virou a chave com a mão trêmula. O som do motor foi como um grito quebrando o silêncio da noite.
Você respirou fundo, mas a dor ainda estava lá, se espalhando por todo o seu corpo. Quando olhou pela janela, Enzo estava parado, olhando para você, com os olhos vazios e o rosto sombrio. Ele não se movia.
Você deu partida, e ao sair dali, sabia que não havia mais retorno. As promessas, as palavras de arrependimento, nada disso poderia trazer de volta o que vocês tinham sido. Ele se perdera em algum lugar, e você finalmente se encontrou, mesmo que fosse sozinha.