E foi assimβ¦
Γ difΓcil descrevΓͺ-lo, ter que descrever uma pessoa que nΓ£o mostra muito, mas ao mesmo tempo grita tudo. Seus olhos eram num tom castanho, quase preto, eu poderia comparar a escuridΓ£o deles a uma capa que o protegia do mundo. AtrΓ‘s daquele olhar havia muita histΓ³ria pra ser contada, eu sentia e eu sabia. E seus cabelos, ah, seus cabelos pretos, pesados, sombrios, estavam sempre arrumados em um corte simples, aquele corte que todo adolescente da nossa idade usa, mas, nele, combinava perfeitamente com a cor de seus olhos e de sua barba cheia, bem feita, que delineava todo o contorno do seu rosto e de suas bochechas. Ele parecia ter sido desenhado. Seus traΓ§os, por mais pesados que fossem, eu poderia os comparar a plumas de ganso, brancas e macias que sΓ³ quem realmente um dia tocou poderia saber qual era a sensaΓ§Γ£o, porque, apesar de toda aquela imagem de homem bem resolvido, eu sabia e eu sentia que havia muito mais por trΓ‘s de toda aquela capa.
Ele era um adolescente calado, e sΓ³ ele sabia dos seus pesadelos, dos seus fantasmas e de seus monstros. SΓ³ ele sabia do terror que era dentro de sua cabeΓ§a, e com o tempo, aprendeu a esconder tudo direitinho atrΓ‘s da neblina de seus olhos, dos sorrisos sorrateiros e das gargalhadas que arrancava dos seus amigos, atravΓ©s de piadas sem graΓ§as e Γ³bvias. Ele era um rapaz excepcional, que a vida nΓ£o pensou duas vezes antes de o testar e o levar pra baixo de tempestades que nem ele sabia que era capaz de aguentar.
A bebida era seu melhor amigo.
A festa era seu companheiro.
E o cigarro era aquele conhecido que
volta e meia aparecia pra dar um olΓ‘.
E simples assim, tudo era um vicio, e tudo era uma distraΓ§Γ£o.
Todo final de semana ele saΓa com os amigos, todo sΓ‘bado a noite ele ia ao menos pra duas festas, bem resolvido, sabendo exatamente como a noite iria comeΓ§ar e como ela terminaria. Com o copo sempre cheio na mΓ£o, um sorriso em seus lΓ‘bios, e os pesadelos em sua cabeΓ§a. Afinal, todas as noites eram iguais, todas as festas eram parecidas e todas as pessoas eram sempre as mesmas. As bocas que beijava pra esquecer eram diferentes, mas os gostos eram sempre os mesmos.
As histΓ³rias que contava comeΓ§avam sempre iguais: Ele estava bebendo.
Mas, por mais complicado que parecesse, pra ele era simples.
Ele bebia para esquecer. E ele bebia para continuar lutando. A realidade era dura demais pra ele, e mais pesada do que ele conseguia carregar.
Ele sΓ³ queria esquecer, era compreensΓvel.
Muitos o chamavam de problemΓ‘tico,
Uns fingiam entender seus motivos,
e poucos eram os que realmente o entendia.
E foi assim que o conheci. Em meio ao caos, em meio a sua pior fase, e quando seus problemas pareciam interminΓ‘veis.
E foi assim tambΓ©m que ele me conheceu. Em meio ao caos, em meio a minha pior fase, e quando meus problemas pareciam interminΓ‘veis.
Por que estou falando tanto dele se eu era igual? Meus demΓ΄nios dominavam minha cabeΓ§a, meus pensamentos eram uma grande confusΓ£o e eu nΓ£o sabia mais o que estava fazendo da vida.
Mas tinha uma diferenΓ§a.
Ao contrΓ‘rio dele, nΓ£o procurei refΓΊgio em bebidas, festas ou cigarros. Meu refΓΊgio foi meu quarto, meu chuveiro, minhas lΓ‘grimas, e meus pensamentos.
Β E assim como ele,
apenas eu sabia o que se passava dentro da minha cabeΓ§a.
Ele me conheceu assim, quebrada, aos pedaΓ§os
e cheia de problemas. Β
Mas ao contrΓ‘rio dele, que nΓ£o demonstrava pra ninguΓ©m
suas partes quebradas, eu mostrava pra todo mundo.
Β Eu precisava das pessoas para poder me reerguer. Meus olhos demonstravam dor, e minhas bochechas lamentavam todas as lΓ‘grimas que as tocavam.
Antes eu era luz, e de repente eu virei trevas. NΓ£o haviam motivos pra sorrir, nΓ£o haviam motivos pra comemorar, e nΓ£o haviam motivos pra continuar.
E foi assim, foi assim que nos conhecemos. Danificados, quebrados, cheios de defeitos e esperando para sermos reparados.
E foi assim que nos entendemos, em meio ao caos, em meio aos problemas e em meio aos demΓ΄nios, nos conectamos.
E toda aquela bagunΓ§a, tΓ£o feia, como uns diriam, tΓ£o horrenda, foi o motivo das mais belas risadas, dos mais belos sorrisos, dos mais gostosos beijos, e dos mais confortΓ‘veis abraΓ§os.
Como foi pro caos e a destruiΓ§Γ£o se juntarem e se transformarem na mais linda das histΓ³rias?
Eu nΓ£o sei, apenas aconteceu, assim como todas as coisas boas na vida, apenas aconteceu. Eu nΓ£o pedi, eu nΓ£o esperava, eu apenas estava ali, e ele tambΓ©m, na hora certa, no momento certo. E o universo se encarregou de fazer o resto.
Se eu puder fazer por ti o que ninguΓ©m jamais fez por mim, eu faΓ§o.


















