Realmente, a princesa não poderia deixar de concordar que o responsável por aqueles terríveis boatos deveria ter sido preso, mas acreditava que ninguém naquela época imaginava que aquela mentira tomaria proporções tão astronômicas. ❛ —— Acredito que no passado eles nem tinham noção de que essas notícias tomariam proporções tão sérias. Acho que nenhum dos povos antigos tinham noção dos malefícios que aquelas fake news, no geral, trariam a longo prazo. ❜ O comentário aconteceu de maneira contemplativa enquanto sua cabeça era levemente movimentada em uma negativa. No contexto histórico, depois da Terceira Guerra Mundial, os governantes tinham decidido abolir quaisquer instrumentos que pudessem levar a um novo cenário onde a humanidade tentasse se autodestruir novamente e um dos primeiros objetos recolhidos tinham sido os famosos celulares. Eles defenderam a tese de que o desenvolvimento tecnológico tinha levado a uma disseminação desenfreada de informações falsas, levando regimes democráticos a se sabotarem sob a sombra de falsos inimigos que existiam somente no mundo virtual e, de certo ponto, estavam certos. ❛ —— Você acha que as coisas seriam diferentes se eles tivessem usado a tecnologia de uma maneira apropriada? Não para espalhar notícias como essas das vacinas. ❜ Briana perguntou com um evidente curiosidade ao mais velho, permitindo que os curiosos olhos castanhos analisassem a reação alheia. Queria conhecer o ponto de vista do professor sobre aquela questão. ❛ —— Ah! Certa vez Lorenzo me levou em uma viagem para conhecer as produções vinícolas do país. Foi uma das melhores experiências que já tive. ❜ Apesar de todos os deslizes que a herdeira tinha cometido durante a viagem de férias com o príncipe regente, tinha conhecido muito do povo que governaria e havia se tornado uma verdadeira especialista nos principais produtos de exportação de seu reino. Uma experiência única para a princesa. ❛ —— Não se preocupe! É ótimo conhecer coisas assim, Alric. Imagino que você também tenha muitas curiosidades para me contar sobre o seu reino. ❜ Ela comentou com uma certa gentileza, voltando momentaneamente a atenção para Cassie e pegando uma colher para levar um pouco do creme de espinafre até a boca que garotinha – por incrível que pareça essa era uma das suas receitas favoritas. Então, não fora uma novidade para sua mãe quando ela começou a tagarelar em seu próprio dialeto, tentando alcançar o prato com a mãozinha, mas sendo impedida por sua mãe. ❛ —— Experimente! Tenho certeza que vai gostar. ❜
— Você tem razão. Já ouviu falar na eleição presidencial do Brasil em 2018, na Antiga Era? Um dos candidatos era da direita conservadora e o governo anterior tinha algumas características esquerdistas. Bem, a população estava insatisfeita com esse tal governo e o novo candidato aproveitou para inventar várias fake news, tentando desqualificar a campanha do candidato do governo anterior. Ele acabou ganhando. É um período histórico horrível de se estudar — Alric terminou a explicação, com uma careta de desgosto. Não era novidade que ele mesmo se identificava na esquerda, o que só contribuía para odiar estudar a história brasileira daquele período - aquele conhecimento, no entanto, era fundamental para entender o motivo para as democracias escolherem seus governantes com cuidado. — Com certeza. Imagine se usassem a tecnologia para disseminação de informações - informações corretas, com embasamento científico. Com mais acessibilidade, além de servir como plataforma de estudos, os próprios cidadãos poderiam se atualizar a respeito de questões políticas, financeiras, de saúde e várias outras. Mas acredito que tal ferramenta não seria bem-vista por certos governantes, então daria brecha para censuras, manipulação de informações, esse tipo de coisa. O conhecimento é para todos... Mas alguns gostam de manter os outros burros. — Von Losch acabou desabafando. Aquele era o fundamento de qualquer governo autoritário e ditatorial: selecionar qual conteúdo a população consumiria e qual seria descartado. Na realidade em que viviam, era inevitável que acontecesse em países mais extremistas caso dessem uma segunda chance para a tecnologia. Era interessante, entretanto, ter discussões daquele teor com alguém: não tinha muitas pessoas para ouví-lo falando tão atentamente quanto Briana fazia. Pelo menos alguém naquela escola se concentrava em suas explicações, afinal. — Parece ser uma viagem e tanto! Não tive oportunidade de ter esse vislumbre do país de vocês, embora saiba que tenham uma grande produção agrícola. É realmente ótimo para as exportações — observou, com um sorriso. A Itália era uma aliada importante para manter em seu futuro reinado: raramente tinha os visto com posições demarcadas, como a Alemanha, mas isso não diminuía o impacto que as importações teriam caso se desentendesse com os italianos. — Depois de ter visto tantos lugares, aprendi a crer que cada país tem algo a oferecer. E o que posso dizer? Nasci na Alemanha. Por mais que o modelo de governo não me agrade, não posso dizer que não gosto de tudo lá — era mais uma relação de amor e ódio, mas Alric queria fazer o melhor para seu reino e todos que nele viviam. Sem exceções. — Se você quiser saber de uma curiosidade, lá vai: hambúrgueres foram inventados na Alemanha. Junto com a impressão de livros, geladeiras, carros, insulina, televisão, parafina, motores a gasolina e diesel, motores de jet skis, a Teoria da Relatividade, comunismo... E a lista é bem grande — ele riu sonoramente. Com o incentivo da princesa, pegou um pouco da bruschetta com o creme de espinafre e levou até a boca. Estava realmente muito bom! — Briana, você precisa parabenizar suas cozinheiras por mim. Isso está incrível!