Quero deixar bem claro que este texto contém spoilers do filme “Matrix”. Trata-se também da minha primeira resenha de um filme. Espero que goste.
Ah, Matrix… Um filme que estava em minha lista para ser assistido há anos, mas que acabou sendo esquecido. Finalmente, acabei assistindo essa obra prima do cinema, de grande referência no mundo pop e geek. Matrix pode não ser o primeiro filme a trazer a revolução das máquinas (Exterminador do Futuro já o fez antes, em 1984, por exemplo), mas com certeza ele continua tendo um grande valor filosófico.
O personagem principal do filme, Thomas A. Anderson (vulgo Neo), é um homem aparentemente comum, possui uma vida normal (com alguns problemas de pirataria de softwares, mas nada muito relevante), porém, esse cotidiano monótono não permanecerá para sempre, obviamente.
Neo acaba recebendo uma mensagem de um grupo “terrorista”, oferecendo algum tipo de resposta a qual ele sempre procurou, e é claro, sem pensar duas vezes, ele aceita a proposta e tenta se encontrar com essas pessoas.
Por mais tentador que seja viver uma vida normal e ignorante, Neo prefere descobrir a verdade sobre tudo, sobre o mundo em que vive, sobre a Matrix. Dito isso, ele aceita todos os termos necessários para conseguir a resposta através de Morpheus, o membro mais conhecido do grupo terrorista.
Acho interessante como Morpheus decide contar a verdade para Neo. Claro, ele não pode simplesmente dizer em palavras que tudo aquilo é falso, ninguém acreditaria em tamanha “baboseira”. É como as histórias mais absurdas que ouvimos e a associamos como teorias da conspiração. Então, Morpheus teria que deixar Neo ver a verdade por si próprio.
Após conseguirem tirar Neo de dentro do gigante mundo falso, ironicamente o colocam em outra realidade virtual, mas em tamanho menor, desenvolvida pelo grupo terrorista a fim de treinamento. Morpheus bate um papo com Neo dentro deste outro mundo falso, e diz como aquilo que ele vê é falso. Neo, confuso, questiona como aquilo pode não ser real, e Morpheus o rebate com outra pergunta: “O que é real?”.
Isso me faz lembrar de dois estudos científicos: um deles diz que é fisicamente impossível tocar em algo, porém, ainda assim temos a sensação de que estamos “tocando” algo, o que acontece devido à repulsão elétrica. O outro, diz que a cor não existe, tudo não passa de luz, e nossos cérebros que acabam fabricando as cores. Pensando nisso, percebemos que várias das coisas que vemos ou sentimos são pura ilusão da nossa própria mente, mas ainda assim, são sentimentos reais para nós. Então, se nós vivermos em uma simulação onde tudo pode ser sentido, tudo pode ser vivido, isso deixaria de ser real para nós?...
Quando Neo descobre toda a verdade sobre a raça humana, sobre como estão sendo cultivados por máquinas criadas pelos mesmos, ele começa a ter uma pequena crise de loucura, crise essa semelhante à que os protagonistas das obras de H.P. Lovecraft (autor de “O chamado de Cthulhu”, “Nas montanhas da loucura”, “Sussurros na Escuridão”, entre outros) sofrem após absorverem conhecimentos além da compreensão humana.
Morpheus diz que Neo é o único capaz de salvar a raça humana, Neo seria o “escolhido”.
Uma coisa que acabei achando muito legal, foi como Neo e os outros conseguem “instalar” conhecimento dentro de seus cérebros, como aulas de Jiu-jitsu, Kung-fu etc. Não sei se eu fui o único que pensava nisso, mas sempre sonhei em tal façanha quando pequeno. Imagine se algum dia poderemos trocar escolas por chips tecnológicos de conhecimento implantados em nossa mente, ao maior estilo Black Mirror... Do jeito que a tecnologia está andando a passos largos, não duvido dessa possibilidade.
Morpheus e Neo treinam juntos, e Neo se impressiona com tamanha velocidade e força de Morpheus, porém, o mesmo diz que dentro de uma simulação ninguém é melhor que ninguém. Me pergunto se o mesmo poderia ser aplicado ao mundo real.
Enquanto Morpheus dá “aulas” para Neo sobre a Matrix, ele diz como todo indivíduo ainda não desplugado da simulação representa um grande perigo, já que estes podem ser controlados pelos agentes (inteligências artificiais que tem como propósito combater o grupo terrorista dentro da Matrix). Estes indivíduos podem ser interpretadas como sendo pessoas alienadas e isentas da verdade em nossa vida real.
Mais tarde, descobrimos que um dos membros do grupo, Cypher, lamenta não ter ficado na Matrix, vivendo uma vida comum. O mesmo é responsável por trair o grupo em troca de… ignorância. Ele acha melhor viver dentro da Matrix, em pura harmonia, do que enfrentar a fria e crua verdade.
“A ignorância é uma benção…”
Quando o filme chega perto do final, ele acaba abandonando um pouco dessa pegada filosófica e dá espaço a ótimas cenas de ação, com direito à câmera lenta.
Porém, ainda conseguimos algumas informações reflexivas.
Descobrimos através de um dos agentes (Smith) que a primeira Matrix teve um mundo em perfeita utopia, onde todos eram felizes. Mas os humanos não conseguiram viver nela. O projeto deu completamente errado devido ao instinto miserável do ser humano de não conseguir viver em paz com o próximo.
Smith ainda revela todo o seu nojo e repúdio à raça humana, os comparando com pragas e vírus, que destroem tudo em seu caminho para conseguirem se proliferar. Na verdade, ele apenas quer sair de dentro daquela simulação a todo custo, ele não aguenta mais viver perto dos seres humanos.
Conseguimos ver que realmente, Neo tem certos poderes dentro da Matrix que o faz digno da denominação “escolhido”. Mas será que Neo realmente seria um "escolhido"? Penso na possibilidade de que qualquer um pode ter tal poder sobre a Matrix, e Neo conseguiu isso pois a informação de que ele era único foi implantada com tamanha força em sua mente que ele apenas passou a... Acreditar.
Isso faz ainda mais sentido quando relacionado com uma das frases mais ditas no filme: “Não existe destino, nós controlamos a nossa própria vida”.
Pelo o que parece, você pode ter a Matrix na palma da sua mão se você souber acreditar que nada daquilo é real.
Finalmente, no final do filme, Neo diz que irá mostrar um mundo sem regras, controles, limites ou fronteiras. Uma completa anarquia.
Mas será que o ser humano conseguiria viver em um mundo assim?...
Os créditos são tomados pela música “Wake Up”, do Rage Against the Machine, música essa que descreve as operações do programa de contrainteligência do FBI - que foi para suprimir quaisquer movimentos dissidentes nos anos 60. Uma escolha perfeita para o enredo deste filme.