Talvez o maior erro
tenha sido deixar você partir
como quem fecha uma porta
acreditando que o vento
não voltará com o cheiro da fumaça.
Neguei o amor
como se negar fosse apagar.
Mas o amor não desaparece.
Ele apenas muda de forma:
primeiro incêndio,
depois ruína,
e então silêncio.
Você foi
a única pessoa
que atravessei sem armadura.
E eu?
Talvez só mais um nome
entre os inúmeros que repousaram
na superfície dos seus olhos.
Antes da meia-noite,
quando os relógios ainda respiravam lentamente,
vi você nos braços de alguém.
Aquele alguém
não era eu.
E naquele instante
aprendi a elegância amarga
de perder em silêncio.
Engoli lágrimas
como quem engole vidro.
Sorri para a cena
porque às vezes amar
também é aceitar
que outro alguém conseguiu tocar
o lugar onde você nunca mais quis morar.
Desejei felicidade a vocês dois.
E desejei de verdade.
Talvez essa tenha sido
a parte mais cruel.
Depois disso
restou o eco.
A casa vazia da memória.
O lado frio da cama.
A madrugada mastigando meu nome
devagar.
Abracei o desapego
como quem abraça um cadáver
tentando fingir que ainda existe calor.
E então você voltou.
Não como retorno,
mas como fantasma.
Como essas músicas antigas
que tocam em lojas aleatórias
e arruínam o resto do dia.
Pergunto-me:
quem abandonou quem primeiro?
Talvez ela tenha ido embora
no mesmo instante
em que percebeu
que seus olhos já não carregavam amor —
apenas lembranças fatigadas
tentando imitar sentimento.
Dizem que o amor nunca acaba.
Mas olhando para você
pela última vez,
entendi que às vezes ele acaba sim.
E o que permanece
é apenas hábito,
saudade,
e a arqueologia de duas pessoas
tentando encontrar ouro
onde já só existe poeira.
Porque um caçador de rubis
jamais se contentaria com um diamante.
E assim terminou nossa história:
sem tragédia,
sem tempestade,
sem despedidas cinematográficas.
Apenas terminou.
Romeu nunca pertenceu a Julieta.
Pertenceu apenas
à ideia desesperada
de ser amado eternamente.











