Rachel tinha acabado de deixar a casa de Lyana. Ela receberia visitas dali a pouco, e não queria atrapalhar, porque, além de tudo, ela era só uma amiga. Ela não andou muito, virou duas quadras e logo deu de cara com a padaria com qual seu pai era dono. Adentrou e o cheiro de pão fresco preencheu suas narinas.
Ela podia morrer agora de tão satisfeita que estava.
A padaria não era lá tudo isso. Seu pai era um senhor de idade já, e por isso não se preocupava em caprichar muito. Sua mãe tratava de deixar os pães prontos para a clientela, e ela nunca amara sua mãe, tanto quando ela fazia aqueles pães franceses frescos.
Eles faziam isso mesmo para passar o tempo. A conta bancária era bem alta, para fazê-los se esforçar todos os dias ao acordar cedo, não valia a pena.
O balcão expunha várias guloseimas, e Rachel teve que passar direto por ele para não cair em sua tentação.
— Pai?— ela chamou, pois o ambiente estava vazio, exceto por uma mulher e seu filho, em uma das mesas do lado de fora.
O homem que começara a perder seus cabelos com a velhice, apareceu na porta da dispensa, que também levava a casa que eles moravam.
— Querida — o pai sorriu, fazia tempo que não a tinha visto. — O que aconteceu que resolveu vir ver seu velho?
Ela sorriu e aproximou-se, abraçando-o.
— Estava na Lyana, e resolvi dar uma passadinha. A mãe está?
Seu pai assentiu e apontou para o andar de cima.
— E como ela está? Não quero incomodá-la. Da última vez quase me espancou porque à acordei — ela riu.
— Está bem, sim — seu pai respondeu, entre um sorriso e outro. — Pode ir lá falar com ela se quiser, dessa vez não tá dormindo.
Rachel assentiu e passou pelo balcão e a dispensa, começando a subir algumas escadas, que a levaram para o andar de cima, para a casa. O local estava arrumado como sempre, isso a deixou com inveja, pois sua casa costumava viver uma bagunça. De cômodo em cômodo, Rachel caminhou silenciosamente até o quarto da mãe.
Quando chegou ao mesmo, encontrou a mãe de pijama, em frente à tela do computador. Seus óculos postos e os lábios comprimidos em desconfiança.
— Mãe?— ela chamou. A mulher virou-se para ela e sorriu abertamente. Levantou-se e veio saltitando até onde estava parada. Elas deram um breve abraço. — O que a senhora está fazendo?
A mulher riu e voltou para o computador, apontando para a tela. Rachel sentou-se no beiral da cama da mãe, observando o jogo.
— É pôquer — disse, por fim. — É bem legal, quer jogar? Eu acabei de perder, mas essa guria, a Júlia, ela é bem boa. Boa moça é ela. De sangue azul.
Rachel riu baixinho e assentiu.
— Legal. Só vim para dizer um “oi”, mesmo — contou ela. — Não posso demorar, tenho que passar na casa de Harry e resolver alguns assuntos da faculdade — ela sorriu e a mãe encarou-a desconfiada.
A mulher apoiou os cotovelos na mesa e sorriu, sonhando.
— Esse Harry, bom moço não é? — a mãe estufou o peito. — Sempre soube que vocês ficariam juntos.
Rachel contraiu o rosto, em desgosto e riu.
— Não estamos juntos — confessou.
— Estão. Seu pai me contou.
— Ah, então é o loirinho! Como é mesmo o nome dele? Aquele bonitinho e das bochechas rosa?
— O Matheus? — Rachel franziu a testa, em duvida.
— Matheus, é esse o nome dele? — a mãe sorriu. — Que estranho. Mas então, é ele não é?
— Não, eu e Matheus não temos nada, também.
— Mas seu pai disse que ficou sabendo...
— Não, nunca aconteceu nada — Rachel riu, sem graça. — Nada, é sério.
A mãe virou-se para ela, em duvida.
— Amigos, ué — ela respondeu, mantendo a calma e com vontade de rir.
— Amizade entre homem e mulher não existe — sorriu a mãe.
— Ah, não? — Rachel questionou irônica. — Papai não gostaria de saber do tal Fred no seu celular...
— Mas eu e Fred somos diferentes — ela sorriu. — Ele era do colégio.
— Matheus e Harry são da faculdade...
— Então você é uma encalhada? Nem seus amigos da faculdade te querem...
A boca de Rachel virou um grande “O”.
— Eu? — ela riu maléfica. — Nem sou.
— Ainda se faz... Mereço?
— Tudo bem — a mãe deu pra trás. — Foi bom te ver, querida. O que fez no cabelo?
— Cortei, a senhora gostou? É pra simbolizar um novo começo. Um novo semestre, uma nova mudança.
— É — ela sorriu. — Diferente. Diferente é legal.
Rachel encarou o relógio e levantou-se da cama.
— Preciso ir mãe, outro dia eu volto tudo bem?
A mulher assentiu e mandou um beijo no ar. Então Rachel desceu as escadas. Na dispensa encontrou seu pai, onde se despediu também.
— Estou indo — gritou, fechando a porta e sorrindo largo.
Rachel começou a tomar seu rumo para fora da padaria, porém algo a impediu e ela não conseguiu mover-se nem mais um passo. O sorriso sumiu, tomado pela surpresa.
O cabelo estava diferente, ela percebeu. Estava mais “atual”. O corte de antes era bem estilo Justin Bieber e isso o fazia ser zoado na época do colégio. Mas ele não ligava muito. As roupas também estavam diferentes. A cor parecia um tipo de padrão, porque ele estava dos pés a cabeça de preto. Até a touca que caía para trás, através do vento que a empurrava. Mas o olhar. O olhar de Adam Barden ainda era o mesmo. Os olhos azuis não podiam passar tão despercebidos. Ele estava quase irreconhecível, mas seus traços ainda eram memoráveis para a garota.
Ela, no exato momento, tentou disfarçar que tinha o reconhecido e voltou para a dispensa. Já sentia a ardência em suas bochechas. Seu pai ainda estava lá, quando a viu voltar. Ele segurava algumas caixas e olhou-a estranho.
— Você não ia sair? — ele perguntou confuso. — Eu achei que...
— É — ela enrolou — resolvi ficar um tempo a mais. Faz tempo que não visito você e a mamãe, não é? — sorriu sem graça, xingando-se por suas desculpas estúpidas. Nem ela mesma acreditara nisso.
O pai sorriu, agradecido. Colocou as mãos em seus ombros e a abraçou novamente.
— Obrigado, filha! Você é um amor de pessoa.
— É, só vou ficar mais um tempinho, também. Então, pai, como anda as coisas aqui na loj...
— Tem alguém aqui? — ela ouviu a voz de Adam Barden questionar.
— Tem alguém na loja — seu pai balançou as caixas. — Já que vai ficar aqui mais um tempo, se importa de atender? É rápido, só vou deixar as caixas lá em cima e te ajudo, se precisar, ainda.
E o plano de Rachel fugir-se de Adam tinha ido completamente para o ralo.
— Ah, tem certeza? — ela desconversou. — Talvez eu possa levar às caixas lá pra cima. O senhor já tá velhinho...
Seu pai fez sua melhor expressão de desgosto e começou a subir as escadas, elevando as caixas em sua cabeça.
— Velho — ele repetiu, sorrindo orgulhoso. — Mas não fraco, querida.
E lá se foi sua última chance. Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo para trás e caminhou de volta para a padaria, como se não tivesse fugido daquele momento. Tentou não olhar no rosto de Adam, apesar de conseguir ver seu corpo através do vidro.
— Ah, oi — ele disse, quando a viu. — Eu ia querer... hum...
— Pode escolher — ela sorriu, dando-lhe as costas e abrindo a geladeira de refrigerantes. Começou a olhar um por um, como se estivesse realmente interessada.
— Essa coxinha aqui — concluiu Adam, então. — De frango, por favor.
Rachel escolheu a Pepsi, por fim. Fechou a geladeira e suspirou, obrigando-se a olhar para Adam Barden. E merda. A merda dos olhos azuis.
Caminhou até a vitrine e a abriu, e com cuidado e o necessário, retirou a coxinha de Adam.
— Só uma? — ela perguntou, encarando-o cara a cara, finalmente.
— Já nos conhecemos? — ele perguntou, desconfiado. — Você me lembra de alguém...
— Lembro? — fez-se de desentendida.
— Sim — ele sorriu. — Já devo ter te visto antes — ele pareceu olhar Rachel com profundidade. — Qual seu nome?
Ela não tinha pensado em mentir de primeira, mas obrigou-se a dizer:
— Rachel! — Ele havia dito antes. — Ai meu Deus, como não te reconheci? Você é a Rachel! Nós namorávamos no nono ano!
— Adam? — ela até tentou parecer surpresa.
No fundo, uma parte dentro de si gritou de alegria por ele ter se lembrado dela.
— Isso mesmo — ele confirmou. — Nossa, como você está diferente. — Ele sorriu, animado. — Cortou o cabelo — ele cerrou o pescoço com as mãos — e até mudou a cor.
— É, você também mudou — reconheceu ela, retribuindo o sorriso.
— Que doido! — admirou ele, mas no fim, acalmou-se. — Ainda vou querer minha coxinha — falou. — Duas.
— Ah sim — concordou Rachel, entregando-lhe a primeira. — São seis reais.
Adam começou a retirar o dinheiro do bolso.
— Pode ser frango também — ele disse.
Rachel pegou outra coxinha de frango e entregou-lhe. Recolheu o dinheiro que Adam lhe entregou e colocou-o no caixa.
— Mas, o que te traz aqui? — ela perguntou, tentando manter algum assunto.
— Nós viemos para estudar. Talvez no fim do ano voltemos para Santa Catarina, mesmo.
— Ah, é? E como tem sido lá?
— Muito bom — ele sorriu, animado. — As praias são ótimas, até pude praticar aquele surf que sempre tive vontade. Aqui em São Paulo até tem praias, mas não tão boas... se é que você me entende — ele sorriu.
— Ah, sim — Rachel concordou, sem graça. Ela não entendia, nunca tinha ido pra lá, de qualquer jeito.
Uma moça jovem dos cabelos escuros apareceu na porta da padaria. Ela parecia ter a mesma idade dos dois.
— Adam — ela o chamou, irritada. — Vamos logo, o táxi já chegou. Era só pra comprar uma coxinha, não encomendar o assassinato do Lula.
— Ah — ele virou-se para Rachel, envergonhado. — Foi bom te reencontrar. Talvez eu te veja mais por aí.
— É, foi bom te rever também.
Adam deixou a padaria, com as coxinhas em mãos. E juntos, os dois jovens entraram no táxi.
Rachel respirou fundo, e apoiou o rosto nas mãos, encostada na vitrine.
Sabe aquela coisa do cabelo novo, e tudo novo? Ela começara a achar que o efeito era bem ao contrário...