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Oi, como você está? Dormiu bem? Espero que sim, porque uma boa noite de sono pode determinar se seu dia será bom ou ruim, e eu sei que você tem dificuldade para dormir e como você tem muitos dias ruins. Lembrar disso me faz pensar o quão sortuda eu sou por essa única coisa tão simples, o ato de dormir, definir meus dias atuais. Desculpe caso isso lhe ofenda, mas eu já vivi muita coisa, apesar de ainda não serem coisas o suficiente. Você ainda irá descobrir, afinal, você sou eu e eu sou você. Espero que essa informação possa lhe trazer algum conforto nos momentos difíceis.
Mas não é sobre isso que quero falar. Aqui no futuro, as coisas estão ficando cada vez mais esquisitas e assustadoras. Todos aqueles filmes distópicos que olhávamos mostrando guerras, tramóias e conspirações, eram previsões bem próximas da realidade (inclusive, desculpe usar a palavra “tramóias”, ando lendo muitos livros estrangeiros traduzidos para o português e me sinto uma forasteira traduzindo meus próprios pensamentos). A gente não tem mais medo de não sobreviver por causa dos nossos pais, agora, é mais sobre o preço das coisas básicas e o risco eminente de uma bomba nuclear. É até engraçado como essas coisas funcionam.
Apesar disso, hoje eu acordei com um estranho, porém quase idílico, sentimento de paz. Me lembrou quando, após um dia de chuva, você (no caso, nós) ia brincar sozinha de caçar fadas nos fundos da casa da nossa vó, perto do rio. Aqui onde eu moro, não tem rio, não tem grama com aquelas pequenas flores rosas e amarelas, não tem pedras escorregadias cheias de musgo mas tem paz, na medida do possível. E isso demorou muito mais para crescer do que uma floresta inteira, e como uma floresta, ela tem seus ciclos dentro de nós.
Falando em ciclos, notei outra mudança essa manhã. É final de março, e depois de dias quentes e abafados, a chuva lavou todo o suor dos prédios e das calçadas como uma ducha fria no verão. Enquanto escrevo essa carta para você, a brisa fria entra pela grande janela da sala no nosso apartamento no quarto andar, me obrigando a perceber a mudança em minhas preferencias referente ao verão.
Eu imagino que você, como defensora ávida dessa estação, possa estar indignada com essa informação e talvez até repensando a nossa amizade - mas entenda, eu não preciso mais do verão para brincar de sereia na piscina ou de casinha naquelas tocas que se formavam nas partes ocas dos arbustos. Não preciso mais do verão para comer as frutas direto das árvores com a nossa mãe ou para usar as roupas mais curtas possíveis nas festas que íamos clandestinamente (acho que você não chegou nessa fase ainda, mas será mais cedo do que imagina, infelizmente). Nesse corpo amadurecido pelo tempo, o frio veste melhor. É como um manto que mantém todas as coisas importantes guardadas e aquecidas dentro de mim.
Você parou de brincar de sereia tem muito tempo, e você parou de objetificar seu corpo (ou melhor, deixar objetificarem seu corpo) tem menos tempo do que gostaria, além do mais, ser mulher parece ter ficado mais perigoso com o passar do tempo - e ainda dizem que ele cura tudo - mas não quero te aborrecer com as estatísticas atuais e arrancar a sua última faísca de esperança em um mundo igualitário para as pessoas e para a natureza. Por isso, o verão é como uma roupa velha que não me serve mais, e talvez eu esteja projetando todas minhas (nossas) mudanças de perspectiva nessa em específica para aliviar o peso do tempo sobre nós. Por sorte (eu já disse como andamos sortudas ultimamente?) hoje acordei em paz, consequentemente, aceitando o fato irremediável de que tudo passa, e se você acumular sabedoria como acumulará anos de vida, aprenderá a achar conforto no desconhecido.
Preciso ir agora, mas saiba que sempre poderá contar comigo. Com carinho, você mesma, só que mais velha.
The Wounded Deer (or The Little Deer), Frida Kahlo, 1946
Oil on masonite
Badgalshei via twitter
final cadence for joão miranda

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Coined Bluetooth Headphones by Zeina Issa.
Guillemot Cove Trail, April 2019
Nam June Paik, Gold TV Buddha, 2005
pires
eu quero criar arte mas eu sinto que me falta experiência, repertório, vivências significativas. to me sentindo com a profundidade de um pires, tudo parece tão achatado hoje em dia, feito pra consumir mais e mais.
eu quero criar arte mas que seja algo intragável - esquisito, feio. eu quero que doa, que doa como uma vingança pra quem merece e como uma melancolia familiar para quem conhece o consolo que até o abismo mais profundo pode gerar.
eu quero criar arte mas eu to me sentindo com a profundidade de um pires. comportada demais, educada demais, compreensíva demais, metódica, cuidando da saúde, meditando e respondendo emails. eu faço chás com as plantas da horta no terraço do meu apartamento, minha garganta nunca esteve melhor e minha voz atrofiou, esqueci como gritar - você é louca? por que tá gritando? - talvez realmente não tenha motivos pra gritar (quem eu quero enganar? sempre tem motivos pra gritar)
eu quero criar arte mas colocando esse bolor de sentimentos no papel enquanto sujo os dedos com giz, aquarela e tinta acrílica. isso significaria tirar de mim, por pra fora, o resto de profundidade que eu tenho. será que eu vou me sentir mais vazia depois disso? ainda mais achatada?
eu quero criar mas talvez não me falte experiência ou repertório, só me falte coragem, e nesse caso, eu prefiro acreditar que eu quero criar mas estou me sentindo com a profundidade de um pires

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Jervis Bay, Australia by Alien Shores Imagery
sinto saudades do mar
kavita shetty by dean raphael

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Mais uma volta ao sol.
Um marco totalmente simbólico para a os humanos, já que na prática isso não muda nada em nossas vidas, ainda mais agora com a modernidade nos desconectando tanto da natureza e seus ciclos. O fato dessa comemoração ser um dos poucos rituais que todos nós concordamos em participamos em conjunto, como humanidade, me deixa reflexiva e um tanto emotiva. Além do mais, eu sempre fico surpresa no início de mais um ano, como se eu não soubesse que estaria aqui, passando por mais um desses rituais, e que meu corpo e minha mente chegariam tão longe (e juntos ainda por cima).
E esse é sentimento que eu carrego desde criança, o sentimento de não-pertencimento. Eu lembro de só me sentir real quando estava sozinha, de preferência na natureza ou em algum lugar isolado, como o moinho abandonado do outro lado da rua da casa dos meus avós no interior, nos campos de flores amarelas no fundo do pátio deles, explorando a fazenda em que meu pai trabalhava, comendo as frutas direto do pé, ou subindo nas arvores dos lugares mais isolados do meu bairro. E mesmo nesses momentos, eu só me sentia real porque é como se eu estivesse em outro lugar, que não esse mundo, em um espaço coberto pelo manto seguro da minha imaginação.
Com o tempo, eu fui perdendo esse manto. A vida adulta veio e me deixou totalmente exposta a realidade, eu passei a me sentir sempre um pouco menos real, como se todo mundo que conversasse comigo por muito tempo poderia ver através de mim como se eu fosse um fantasma ou como se eu tivesse que me beliscar para acordar de um sonho - daqueles bem realistas porém ainda assim esquisitos - mas eu nunca acordei. Desde então eu sempre fui meio molenga, sem ter minha imaginação para me solidificar, passei a usar essa minha falta de solidificação para me encaixar nos lugares, sempre de forma esquisita e desconfortável.
Por isso, eu ando pensando bastante naquela criança sozinha brincando na grama, segura pelo frágil domo da própria inocência e na minha relutância de deixar ela em paz analisando cada momento que alguém quebrou a sua colorida e reluzente cúpula de proteção, me deixando agora nua no mundo - e me fazendo acreditar que isso também é algo ruim.
Mas se tem uma coisa que o ritual de passagem para um novo ano ensina, é deixar o passado ir para abrir caminho para o futuro - mais do que promessas de um futuro melhor, esse ano eu decidi aceitar a nudez da realidade e me contentar com o aqui e o agora, quem sabe pela primeira vez na minha vida.
Tudo que o passado tem pra me dizer, já ecoa dentro de mim. Está na hora de fazer novas perguntas para o vento, e honrar aquela criança selvagem acolhida pelas árvores e pelas flores do campo, aceitando os ciclos da natureza e vivendo todos eles com a intensidade que o universo plantou dentro de mim.
cr: Joel Sartore, 2012
"On a lodge terrace in Queen Elizabeth National Park, a photographer's butter and roll prove irresistible to the local lunchtime crowd. East Africa is home to many species of weaverbirds, known for their skill in building nests."
for National Geographic's Visions of Earth
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