Asquerosa - Parte II
2015
Finalmente o dia de gravar a cena do beijo havia chegado e Fernanda estava muito tranquila. Achava que já havia sofrido tudo que merecia e devia por Nathalia. Depois daquela noite, que parecia agora tão distante afinal mais de 20 anos haviam se passado de lá para cá, Fernanda havia esquecido muitas coisas. E só ela sabia como havia sido difícil. Contudo, ao contrário de Nathalia, ela tinha seus filhos para se apoiar. Agora ela já era avó, indicada a um Oscar... tantas coisas mudaram. Não havia mais espaço para Nathalia, o que não significava que ela não lembrasse com saudade do que havia acontecido. Foram os meses mais felizes e loucos de sua vida. Aquilo só poderia ter sido possível em 1991 mesmo.
Fernanda chegou ao set adiantada, como sempre. Estudou o texto novamente e pensou que não trazer suas emoções pessoais para sua cena com Nathalia seria quase impossível. É claro que se lembraria da voz dela gemendo em seu ouvido. De tê-la visto na sala, tão dona de si, tão anti-Nathalia ao desamarrar o roupão. Agora elas eram duas velhas, um pouco menos inconsequentes do que antes, e saberiam se comportar. Pelo menos era o que ela pensava.
Sem saber a razão, Nathalia acordou cedo e se arrumou como não fazia há muitos anos. Ter paciência para batom, secar o cabelo eram coisas desconhecidas por ela agora. Depois de algum tempo, o corpo torna-se um mero instrumento para se andar e falar, nada mais do que isso. Se ele presta para isso, então para que perder tempo se arrumando? Só que naquele dia ela queria, por algum motivo, parecer bonita. Por um instante achou impossível, velha como estava, as rugas e os cabelos brancos não podiam mais ser disfarçados. O que será que Fernanda iria achar? Será que ela ia gostar? E se não dissesse nada?
1991
Nathalia acordou às seis horas da manhã, quando o mundo ainda se preparava para se levantar. Sentiu que algo estava estranho e logo soube a resposta: era porque estava nua. Nua e outra mulher, igualmente nua, dormia no outro lado da cama. Não estava mais acostumada a dormir sem roupa, na verdade nunca gostara de sentir o próprio corpo roçar nos lençóis. Contudo, contrariando todas as leis do universo, ela havia gostado muito de sentir o corpo de outra mulher por cima do seu. Na noite anterior, apesar de ter tomado a primeira iniciativa, deixou Fernanda tomar as rédeas. Não reclamou quando ela demorou tanto tempo para se livrar do seu roupão, imaginou que ela gostasse de sentir a seda grudada na sua pele suada. Só depois de muito tempo ela finalmente tirou o roupão, vendo Nathalia completamente nua. Talvez ela não quisesse ver meu corpo, quem sabe. Mas sabia que não era verdade, pois quando o roupão finalmente caiu no chão, ela a ouviu sussurrar em seu ouvido: Você é linda, sabia? E as mesmas mãos que a haviam enlouquecido nas costas e na bunda agora a enlouqueceram nos seios. Só em lembrar Nathalia sentiu o corpo ficar mais uma vez quente. Levantou-se da cama, tomou um copo d’água com a geladeira aberta para se livrar daquele súbito calorão entre as pernas. Foi até a janela, com o roupão entreaberto, e acendeu um cigarro. Ela os tinha guardado para momentos de ansiedade e aquele era um deles. O que iria acontecer? Será que o amanhecer traria o inevitável e doloroso adeus? De repente, sentiu as mãos de Fernanda entrelaçarem-lhe a cintura e sua boca doce beijar-lhe o pescoço.
- Sem sono, é? - ela cochichou com uma voz tão doce que Nathalia sentiu as pernas amolecerem novamente. Não acreditava que pudesse sentir assim com alguém.
- Sou madrugadeira, você sabe... Não durmo muito. E você?
- Ouvi o barulho da geladeira e acordei. Tenho o sono leve. E esse cigarro aí?
O sorriso de Nathalia era uma das coisas que Fernanda mais apreciava. Talvez nem tanto quanto seus perfeitos quadris e coxas que não conseguiam ser escondidos pelo roupão. Fernanda sentiu vontade de abri-lo, mas pensou que já tinha sido demais ter transado com a Senhora Conservadora e achou melhor não abusar da sorte.
- De vez em quando tenho vontade de fumar. Só isso.
Lá vai ela, respondendo com o jeitinho asqueroso uma simples pergunta. Fernanda estava aprendendo a apreciar os mínimos detalhes de Nathalia, como a forma como ela colocava o cigarro entre os lábios e o tragava. Qualquer coisa que ela fizesse tornava-se pra lá de sensual e ela não entendia como uma mulher podia tornar as menores ações coisas grandiosas. Nathalia soprava a fumaça para não atingir o rosto de Fernanda. Formou-se entre elas uma cortina de fumaça que não impedia Nathalia de contemplar o rosto de Fernanda. Por quê ela a olhava tanto? Com aqueles olhos enormes, inquisidores. Como se me julgasse o tempo inteiro. Por trás da fumaça ela via o corpo de Fernanda, os seios fartos e os cabelos cheios. Ela parecia tão dona de si, nua em frente a janela, sem se importar se os vizinhos assistiam àquela cena bizarra. Ficaram em silêncio até o cigarro terminar. Um silêncio que carregava em si uma montanha de palavras não ditas. Nathalia esmagou o cigarro no cinzeiro. A fumaça se dissipou e elas voltaram a se enxergar nitidamente.
- Vamos dormir? - perguntou Nathalia.
Queria fechar os olhos e não ter que enfrentar aquela situação de ter alguém em sua casa. Alguém dormindo, partilhando da sua intimidade, vendo a escova de dentes em cima da pia, as toalhas atiradas pelo banheiro. Não. A privacidade era algo que ela gostava de preservar, mesmo conhecendo Fernanda há tantos anos.
- Vamos.
Fernanda tocou as mãos de Nathalia. Era engraçado como depois de tudo que fizeram, de trocarem saliva e suor um simples toque de mãos parecia profano. Os olhos de Nathalia se encheram de lágrimas. Depois da morte dos pais achou que nunca mais sentiria tanta vontade de chorar como naquele momento. Elas voltaram para a cama de mãos dadas. Nathalia se deitou de costas para a outra atriz. Não queria que ela a visse chorando, de novo não. Porém as lágrimas caíam seu consentimento, inundando o travesseiro. Sentiu as mãos de Fernanda acariciarem seu cabelo, fazendo cafuné. Ela se aproximou o suficiente para os dois corpos se encaixarem feito uma concha. Fernanda colocou a cabeça no ombro direito de Nathalia, que trouxe uma das mãos desta para sua cintura.
Dormiram profundamente.














