Porque de caso pensado é mais gostoso
Um dia a gente aprende que as coisas importantes tem que ser pensadas antes, nem que seja só um pouco ou só um pouco antes. Eu sou uma pessoa de sorte, tenho pudores de assumir tanto quanto me sinto mal em negar isso. Sou fiel aos deuses do acaso e os deuses do acaso nunca me desapontaram. Não só sempre me ajudaram como, nos últimos tempos, têm me ensinado que quanto menos se conta com a sorte, mais sorte se tem. Até podia ser que decidindo na última hora pela dica de algum amigo, eu acabasse por votar em alguém legal e ajudasse a mudar o país. Mas olhando antes, lendo um pouco e decidindo com calma, as chances são bem maiores.
Meu primeiro contato com o processo eleitoral foi no último plebiscito pela forma de governo. Não lembro quantos anos tinha, mas lembro de ter feito uma pesquisa para a escola e ter passado duas tardes no centro de Poá perguntando às pessoas em qual forma de governo - Presidencialismo, Parlamentarismo ou Monarquia - votariam. Para as mais simpáticas, eu perguntava por quê. A maior parte respondia que "se com presidente era ruim, com Rei seria pior. E não dá pra entender direito como funciona esse negócio de parlamentarismo". Foi quando eu comecei a desconfiar que as coisas decididas nas urnas não eram tão bem pensadas assim. Mas eu assistia Blosson, e como ela, era toda empolgada com a ideia de votar e de mudar o mundo. Fiz 16 anos num ano ímpar e fiquei triste que não tinha eleição. No ano seguinte, fazia parte do clube dos eleitores mais felizes do mundo.
Desde então, voto todos os anos. O voto sempre foi obrigatório pra mim, menos por força de lei que por enxergar ali uma via. Em 2014 foi a primeira vez que pensei em anular, mas não, ainda acredito. Hoje, menos empolgada e cada vez mais desconfiada de que fazer um x de dois em dois anos não é a forma mais eficiente, nem a mais efetiva e, definitivamente, não é a única forma de mudar o mundo. Sim, eu ainda tenho essa bactéria resistente e persistente, que se aloja na alma, metaboliza realidade e excreta utopia, na vontade louca de mudar o mundo. Ela está sob controle com a ajuda de antibióticos fortíssimos, como o consumismo tecnológico e as questões da vida prática, mas não foi extirpada de vez.
O caso é que, hoje, dois de outubro, faltando três dias para a eleição, não é o momento ideal de questionar o processo eleitoral em si porque, ahn, porque qualquer tentativa de evitar que ele aconteça, neste momento, configura crime. A eleição vai acontecer, e votar ou não é escolha de cada um, porque, vamos combinar, quando a multa por não votar é mais barata que a passagem de ida e volta até o local de votação, a obrigatoriedade não é tão obrigatória assim.
Eu escolhi votar. E vou dizer em quem. Passei a tarde toda de hoje, conversando com gente, rindo ao telefone e lendo páginas e páginas de candidatos. A maioria acredita que a expressão "quero lutar" é um bom resumo de todas as propostas. Não é, #ficadica. E nem todo mundo acha que o trabalho só começa na campanha, não vê que a carreira política, como qualquer carreira, é (ou deveria ser) uma trajetória, construída com atos, pensamentos, preparações. Não se acorda de manhã, e diz, "é isso, serei engenheiro, vou fazer meu currículo agora e me candidatar àquela vaga que abriu." Felizmente, nem todo mundo pensa assim. Deu trabalho, mas achei em quem depositar um voto de confiança.
São 5 os trinlilin a serem ouvidos no dia de domingo. Cinco trinlinlins, cinco nomes.
Para Presidente da República, depois de um longo período de dúvida entre a Luciana e o Eduardo, fiquei com o Eduardo, o Jorge, não o morto. O objetivo aqui não é falar mal, e sim, falar bem, mas devo fazer constar que meu voto era da Marina até ela ser candidata, aí tudo mudou, principalmente ela. Por que EDUARDO JORGE (43-PV)? Porque embora eu seja bem partidária de uma utopia socialista, tenho pra mim que essa utopia deve começar no indivíduo, se começar de cima pra baixo, a ruptura econômica abrupta pode se transformar num desastre. Marx sabia disso, por isso a consciência de classe, não a Revolução, é o ponto mais importante da implantação do comunismo. É a minha ÚNICA crítica ao programa da Luciana. O Eduardo Jorge, por sua vez, propõe uma ruptura menos brusca nos pontos econômicos e dura e necessária em pontos sociais. A defesa aberta da descriminalização das drogas e a legalização do aborto, são cruciais para a sociedade. O incentivo ao vegetarianismo, é apenas a cereja do bolo. E que bela cereja. As respostas dele no Twitter contribuem para o ítem "fofura" no cartão de RPG dele.
Para Governador do Estado (SP), a vontade é de chorar, não de votar. O GILBERTO MARINGONI (50-PSOL) surgiu por exclusão. Assistindo aos debates, ele é o menos igual, lendo as propostas, parece um pouco diferente. Nem a cor dos ternos os candidatos variam. Todos de preto/azul-parecendo-preto, com o mesmo discurso "Alckimin é mau, São Paulo tem problemas", como se houvesse alguma novidade nisso. O primeiro debate parecia conversa de comadres, o último, conversa de bar. No corta corta, cheguei na página do Maringoni e achei razoável e honesto que o principal destaque no plano de governo seja a consciência de qual o papel do governo estadual na vida do cidadão. Como poder intermediário, não promete coisas que compete à prefeitura ou à federação, e se compromete com a questão social e com a diminuição da violência policial. É uma ruptura necessária num estado que, há 20 anos, só se preocupa com os problemas de quem ganha mais de 3 salários mínimos e olhe lá, porque até com a água potável acabaram. Já deu de PSDB por aqui né?
Para Senador, não tem como ser outro, EDUARDO SUPLICY (131-PT), a fofura aliada à tecla foda-se cada dia mais usada pelo Senador. Sempre votei nele e nunca me arrependi. Ele votou contra as determinações do partido em várias ocasiões, tem um mandato transparente, e umas propostas tão lindas quanto inalcançáveis, como a do plebiscito para interromper mandatos de presidentes congressistas não cumprirem suas promessas. É lindo, mas sabemos que não vai passar. Não importa, a reforma agrária e a reforma política também são objetivos dele, pelo menos um senador tem que se preocupar com isso.
Para Deputado Federal, eu cheguei no DOUGLAS BELCHIOR (5075-PSOL), também conhecido como Negro Belchior, por uma postagem da Aninha, uma amiga minha, no Facebook. Lendo, acabei lembrando que já tinha lido um texto do rapaz à época do caso do caso da campanha da banana, e acabei descobrindo que é natural da cidade onde passei boa parte da vida, Poá. A plataforma dele reuniu três pontos essenciais para qualquer legislador que se preze: anti-racismo, anti-machismo e anti-homofobia. Além disso, tem uma sessão muito interessante que demonstra a consciência de que ele não é candidato sozinho, não será eleito sozinho e não trabalhará sozinho. Poucos candidatos se lembram disso. O programa da candidatura é repleto de ítens fofos, como o ensino da História da África, já previsto em lei e descumprido por todo mundo, da desmilitarização das polícias e a cassação de concessão pública das emissoras que fomentam racismo/machismo/homofobia. Mais da metade a gente sabe que vai ser osso sequer entrar em pauta, mas é bom ter quem brigue por isso.
Deputado Estadual foi o que deu mais trabalho. Primeiro porque quase ninguém tem quem indicar. Segundo, porque a maioria dos candidatos acha que uma página no facebook é plataforma de campanha e tá bom. E terceiro porque tem muito candidato que resume tudo a "lutar pela causa da mulher", "lutar pelos animais", "lutar pelos direitos", como se fosse eleição para as cruzadas. Achei a ISA PENNA (50083-PSOL) na página "Vote numa Feminista". A garota é estudante, faz parte do centro acadêmico da PUC, cujas querelas com a controversa última gestão, tenho acompanhado. Tirando a tarifa zero para o transporte público (que eu, pessoalmente, acho irrealizável) o programa todo de propostas dela eu concordo. O toque de fofura, que me fez escolhê-la, foram os tópicos das ideias dela sob o codinome de "debates" e se organizam de forma a deixar bem claro que serão discutidos, não impostos. Sangue novo, gente em quem aquela bactéria ainda tem força. Gostei. http://isapenna50083.hospedagemdesites.ws/?p=18
E é isso. O texto já ficou suficientemente longo, não há nada mais a acrescentar a não ser um clamor pela consciência de que não dá pra ser realmente cidadão quando tem alguém em tal estado de privação de direitos que nem os enxergar como iguais somos capazes.
Boa escolha a quem decidiu escolher.
PS: Também cogitei os candidatos abaixo, e votaria neles se não pudesse votar nos meus. #ficadica, #vaique.
Luciana Genro
Carlos Giannazi
Maurício Moraes
Todd Tomorrow