Um  - A good girl don’t run away in the first day
Eleanor Geller encarava seu reflexo no espelho emoldurado, enquanto penteava as longas mechas loiras de seu cabelo. O cabelo da garota era lindo, comprido, claro e brilhoso como a luz do sol, mas, ela o achava sem graça, sem brilho. Não eram nem de longe bonitos como os de Elena, sua irmã mais velha, que estava na faculdade e namorava o quarterback do time. Elena era bonita, inteligente, atraia os mais diversos tipos de homem e chamava atenção por onde quer que fosse, totalmente o oposto de Eleanor, que passava despercebida pelos olhos de todos, ou pelo menos costumava passar.
Fora no Natal, meses apĂłs o sumiço de Dianna Ross, que Elle começou a passar mal. As coisas começaram a ficar embaçadas para ela e a menina acordou no hospital. Descobriram que ela estava desnutrida e com anemia, descobriram tambĂ©m, com o tempo, que a jovem Geller bebia shampoo para vomitar depois das refeições. Eleanor era magra, tĂŁo magra quanto as modelos que vocĂŞ vĂŞ em revistas como a Vogue, mas, ela nĂŁo se via assim. Pelo menos nĂŁo antes de passar cerca de cinco meses internada em uma clĂnica em Los Angeles.
-Você está linda, querida! – Falou Charles Geller, pai da garota, encostado na porta do quarto branco.
-Obrigada, pai. – Elle arrumou a bainha saia azul marinho antes de se virar. Ela parecia uma daquelas bonecas de porcelana, estava pronta – ou quase – para encarar o primeiro dia de aula.
Charles Geller era um dentista bastante ocupado. Entretanto, depois do escândalo que expusera o problema de sua filha, ele tentava passar um bom tempo em casa, para ter certeza de que Elle estava se alimentando bem.
-Vai dar tudo certo, querida. As pessoas nem devem se lembrar de nada. – o Sr. Geller tentou animar a filha, ao perceber que ela estava um pouco assustada em voltar para a antiga escola.
Eleanor não respondeu. Forçou um sorriso e assentiu com a cabeça, sabia que Charles estava se esforçando para fazê-la se sentir melhor. Deu alguns passos até o pai e beijou sua bochecha e saiu do quarto, descendo as escadas de madeira da casa e indo em direção a porta. Elle arregalou os olhos assim que a abriu.
-O que? Não achou que eu iria te deixar em paz na volta as aulas, achou? – Steven Edwards tinha um metro e setenta e oito e dentes muito brancos. Mostrava a maioria deles através do sorriso largo que apresentava. Ele estava vestido com seu velho suéter azul, exatamente da cor da saia de Elle, como se os dois tivessem combinado ou algo parecido.
A loira não respondeu nada, apenas envolveu o pescoço de Steven em um abraço apertado. Os dois haviam se tornado melhores amigos ainda no jardim de infância, Elle não sabia dizer muito bem como tinha acontecido, mas, ela sabia dizer que Steve era a melhor pessoa que conhecia e estava extremamente feliz em vê-lo ali.
-Queria dizer que estou muito magoado por não ter me contado da sua volta, eu teria vindo antes. – Continuou o garoto, pegando a sacola de livros dela e começando a caminhar, esperando que a mesma viesse com ele.
-Eu precisava de um tempo para me acostumar com a casa novamente. Precisava ficar quieta no meu quarto um pouco. – Elle deu de ombros e continuou a caminhar. A Goldenville Academy não ficava muito longe dali e Steven gostava de caminhar, era bem mais divertido do que simplesmente pegar um ônibus.
-Entendi... – Steven torceu os lábios, fazendo com que Elle desse uma risada, ela sempre achara engraçado quando ele fazia isso. – Bem, tenho de te avisar que muita coisa aconteceu enquanto esteve fora. Mas, nĂŁo se preocupe...Vou te colocar a par das novidades. –  E entĂŁo ele deu aquele sorriso de salvador da pátria. – Certo, primeiro, sua amiga Liana quer se declarar rainha da escola e virou uma vadia total manĂaca por assinaturas de anuário. – Steve fez uma careta e revirou os olhos. – Os Tigers chegaram as quartas de final do Ăşltimo estadual, sĂł estou dizendo isso porque parece ser importante para todo mundo e ah, Mason Marshall foi o primeiro aluno do High School a conseguir entrar no time.
Elle parou de ouvir depois dessa notĂcia. Mason Marshall era simplesmente o cara mais bonito da Goldenville Academy e Eleanor tinha nĂŁo uma queda, mas, um penhasco inteiro por ele desde que ele interpretara A Bela Adormecida com ela na sĂ©tima sĂ©rie. Ele era tĂŁo perfeitamente bonito que chegava a doer. Tinha cabelos castanhos brilhosos, um sorriso encantador e covinhas, Mason tinha as covinhas mais bonitas de todo o mundo. Ela conseguia imaginar ela e Mason sendo novamente o prĂncipe e a princesa, quem sabe Rei e Rainha do baile? Bem, ela seria a rainha dele se ele quisesse...
-Mitchie Cooper foi pega com uma garrafa de bebida dentro da escola, dá pra acreditar nisso? – Os olhos de Elle se arregalaram. Mitchie odeia bebida. Ou pelo menos odiava. – E bem, a escola agora está basicamente dividia em três grandes grupos sociais com suas rainhas vadias tornando aquele lugar um pequeno inferno, mas, os muffins que você adora da Srt. Petterson continuam intactos. Bem-vinda de volta!
- Ei, ei...Vai com calma ai. Mitchie está bebendo? Mas, ela odeia isso. – A loira fez uma careta. – Como isso aconteceu?
-Eu não sei. Olhe, como eu disse, as coisas estão bem diferentes por aqui. – Ele deu de ombros.
-Me explique isso dos três grupos. E onde está Brett? Por que não mencionou ela em algum feito esplendido ou salvando a escola de ser essa bagunça?
Brett Arsenwood era sem sombra de dúvidas a pessoa capaz de arrumar bagunças. Sempre fora muito boa em argumentos e em diplomacia, talvez devesse isso ao seu pai, o famoso advogado Richard Arsenwood. Era ela quem costumava manter Dianna na linha, quando a mesma vinha com ideias mirabolantes demais, era ela quem cuidava para que os punk e os mórdon não começassem uma guerra dentro da escola, em geral, era basicamente ela quem mantinha a paz.
-Bem... – Steven suspirou, já avistando as paredes com tijolos pintados da Goldenville Academy, ela se parecia bastante com a fachada da Brown, porque os arquitetos da cidade gostavam de copiar coisas. – Depois do verão em que...aquilo aconteceu com você, Brett foi para um intercâmbio em Londres, ela ficou em primeiro lugar na lista com uma nota absurdamente alta e pode escolher o lugar que quis. Então, basicamente a escola perdeu sua pacificadora e sua rainha suprema. – Steven se referia a Dianna com a “rainha suprema”, assim como a maioria dos nerds e o resto da “plebe” escolar. -  E agora nós temos essa guerra entre Kendra Burks, Liana Rockfeller e Melissa Petrusic para ver quem está no comando.
Eleanor teve de pensar um pouco, para associar cada nome a imagem das garotas. Kendra Burks tentara por muito tempo entrar no grupo das garotas e ser amiga de Dianna, mas, sem muito sucesso, afinal, um ano atrás, Kendra usava um aparelho estranho e saias folgadas demais para o seu tamanha, fazendo Elle se perguntar como ela tinha conseguido chegar a concorrĂŞncia de “Rainha da Escola”. Melissa Petrusic era uma riquinha sem sal, sem senso de moda ou noção, que achava que podia dar ordens por ser de uma das famĂlias fundadoras da cidade. Liana Rockfeller era a Ăşnica pessoa que realmente tinha alguma chance de se tornar rainha da escola, ou pelo menos essa era a visĂŁo que Elle tinha, Lia era engraçada, tinha belas roupas e o anuário dela? Bem, esse sempre estava lotado, quase tĂŁo lotado quanto o de Dianna costumava ficar.
-Bem, não é como se eu fizesse parte do Clero ou da Realeza dessa escola, pelo menos não mais... – Disse Elle, lembrando do como ela, Brett, Mitchie, Dia e Lia costumava andar por aqueles corredores como se dominassem o mundo. Tudo isso graças a confiança e habilidades de Dianna para a socialização. - ...Então acho que posso suportar essa briga.
-É só o último ano, acho que você vai sobreviver. – Steven soltou uma risada baixa.
Os dois amigos estavam em frente aos enormes portões da Goldenville Academy quando Elle sentiu um frio na barriga. E se as pessoas a olhassem com aquele olhar de julgamento? E se ninguém além de Steven quisesse sentar perto dela depois do almoço? E se ela fosse obrigada a falar sobre seus problemas alimentares em público? Os pais de Eleanor tinham passado semanas conversando com ela e tentando explica-la que tudo ficaria bem e a garota tentara se convencer disso, entretanto, naquele instante ela estava com medo.
-Ei...relaxe, vai dar tudo certo. – Steve sorriu com tranquilidade, como se nada pudesse dar errado. Entretanto, Elle já tinha listado pelo menos vinte coisas que poderiam dar errado. – Qual a sua primeira aula?
- Literatura Inglesa.
-Damn it. Eu tenho quĂmica. Hm... – Entortou o lábio. – Nos vemos no almoço?
Elle assentiu com a cabeça e deu um beijo na bochecha do amigo antes de começar a andar.
-Vai dar tudo certo, vocĂŞ Ă© incrĂvel! – Ele falou um pouco mais alto, agora que ela já estava um tanto longe.
Parecia que todos os olhos estavam voltados para ela, era assustador. Tudo o que a jovem Geller queria fazer era cavar um buraco e sumir daqui, não ter de encarar ninguém e ficar quieta, sozinha em seu quarto. O que Dianna faria se estivesse ali? Bem, ela provavelmente soltaria uma piada e diria para Elle levantar a cabeça e deixar de ser uma garotinha chorona.
-Desculpe! – Uma voz baixa soou pouco tempo depois que Elle sentiu um esbarrão.
-Tudo bem. – Ela ergueu a vista, para falar com quem quer que tivesse esbarrado. Então acabou encontrando os olhos azuis.
Jordan Arsenwood era, por um ano inteiro, o irmão mais velho de Brett. Os dois eram parecidos, tinham olhos azuis, nariz arrebitado e ele era quase tão pálido quando a própria Elle. Entretanto, diferente de Brett que tinha o cabelo loiro escuro, o de Jordan era castanho. Mas, ele era lindo, exatamente como um Arsenwood costumava ser.
-Hey...Você voltou. Tinha ido para onde mesmo? – Ele ergueu uma das sobrancelhas.
Por um momento, Elle se perguntou se aquela era uma pergunta de mal gosto, mas entĂŁo, lembrou que Jordan nĂŁo era a pessoa mais informada do mundo. Sempre que as garotas iam a casa dos Arsenwood, Jordan ficava trancado no quarto, ou na casa da árvore apontando seu telescĂłpio para onde quer que fosse, na escola sĂł se via o garoto sentado com Drake Winikov, um intercambista que ninguĂ©m sabia dizer de onde tinha saĂdo.  Inclusive, Elle estava surpresa do garoto ter lhe feito uma pergunta e nĂŁo apenas passado calado por ela.
-Bem...eu...estava num SPA...para...relaxar. – Aquilo não era mentir. Talvez distorcer a verdade? – Hm...Brett ainda está fora?
-Sim. Mas, ela chega amanhã. Meus pais vão dar uma festa de boas-vindas, seria legal se você fosse. – Ele arrumou os óculos, era meio vintage mas, de alguma forma, aquilo ficava bem nele. – Olha, eu tenho de ir...Tenho francês agora. – Falou apontando para a sala de aula.
-Tudo bem eu tenho...literatura inglesa.
-Boa sorte com o Mr. Turner. – Ele falou e sorriu antes de se virar.
Aquela fora a conversa mais duradoura que tivera com Jordan desde sempre. Acreditava até que essa fora a conversa mais duradoura que qualquer uma das garotas já havia tido com ele, nem mesmo Dianna conseguia despertar no garoto uma conversa que arrancasse dele mais de dez palavras, a frase mais longa que ele já tinha dito a Liana fora “A Brett está na aula de piano.”
SĂł depois que Jordan sumiu de seu campo de visĂŁo, entrando na sala de aula foi que ela percebeu que ele tinha acabado de fazĂŞ-la um convite. E que ele nem se quer sabia do fato de ela ter ido para uma clĂnica de reabilitação, aquilo nĂŁo era relevante para ele, nĂŁo importava.
E, de repente, Elle ficou feliz por isso.
A loira deu passos animados até seu armário, precisava pegar o livro antes de ir para aula, que aliás, não era a parte que a animava, mas, se o fato de pelo menos alguém - No caso, Jordan - não saber do escândalo que do natal.
Os armários da GoldenVille Academy eram pintados de vermelho, Elle sempre gostara do contraste com a parede, seu armário era próximo ao de duas garotas do último ano, que na verdade, ela só tinha visto umas duas vezes, mas, aquilo não era importante, o importante é que quando Elle colocou 638 em sua combinação e abriu o armário, não haviam apenas os livros e as coisas que ela deixava nele, havia uma pequena caixa marrom, a qual ela cuidadosamente abriu. Arregalou os olhos. Um livro vermelho com alguns riscos apareceu para ela. Na capa, estava a pergunta que não queria calar.
“Quantos segredos você é capaz de guardar?”












