doctorlissa:
Com um ligeiro revirar de olhos, apenas para reforçar sua falsa pose de durona, Elissa caminhou em direção a Malcolm para que pudesse abraçá-lo. De fato sentira a falta do conforto que o cheiro, o contato, e a presença dele traziam a si. Por mais que pelos últimos meses estivesse tentando refrear como se sentia era bastante óbvio que já havia perdido as rédeas. Nas pontas dos pés a ex-corvina esticou-se para beijar suavemente o pescoço dele, como fazia todas as vezes em que estavam daquela maneira. - Eu deveria te expulsar pela audácia de insinuar que pareço ter 45. - resmungou, com um ligeiro bico, assim que afastou-se o suficiente para que pudesse fitá-lo. - Quanto as burocracias, bien, eu não tenho certeza em que fase de um relacionamento nos encontramos. Se é um rolinho… - revirou os olhos, mais uma vez exasperada, mesmo ciente que ele dizia certas coisas apenas para tirar aquele tipo de reação sua. - … então você realmente não tem qualquer obrigação de me fornecer informações. Pero, se é mais que um rolinho, e pelo tanto de tempo que estou te aturando… - disse com as sobrancelhas arqueadas e olhos ligeiramente semicerrados. - … então, bien, você não pode simplesmente sumir sem me causar dor de cabeça. Que bom que está sem nenhum roxo ou faria questão de reforçar cada um deles. Uh, Malcolm, sério, na atual conjuntura ou em qualquer cenário, é óbvio que vou me preocupar com você. Inflando seu ego já gigantesco; você é importante para mim, até demais, então, por favor, mande ao menos uma mensagem dizendo “estou vivo, mas ocupado” porque ao menos posso tentar seguir o restante do meu dia sem esperar a notícia da sua morte. - embora a ouvidos leigos pudesse soar exagerado de sua parte, Elissa tinha motivos de sobra para preocupações desmedidas. E tais preocupações voltaram a fortalecerem-se conforme o Fraser movia-se pela sala, como se buscasse por inspiração para dizer o que tinha em mente. Seu receio do que viria a seguir a fez sentar no braço do sofá, com as palmas das mãos sobre as pernas e o olhar fixo em Malcolm. Pela linguagem corporal podia perceber que o assunto seria incômodo, tanto para ele quanto provavelmente para si, o que a fez prender a respiração por um instante. Em seguida respirou fundo enquanto atentamente o ouvia destrinchar o que tinha levado-o a se ausentar. Os músculos nos ombros da ex-corvina estavam ligeiramente tensionados e a expressão em seu rosto certamente refletia certa inquietação. Engoliu em seco. - Bien… - murmurou projetando os lábios para frente antes de mordiscar o canto do lábio inferior. Novamente, involuntariamente, se viu cruzando os braços rente aos seios. - … sempre imaginei que em algum momento precisaríamos ter essa conversa. Pero, preferia que tivesse vindo diretamente a mim ao invés de ir atrás de informações em outros lugares. Apenas duas pessoas podem relatar o que houve: eu e Theodore, e ele certamente teria uma versão bem diferente da minha. - uma ligeira careta pontuou sua expressão ao citar o nome do ex. Elissa não costumava dizê-lo em voz alta, não que o tratasse como um tabu, mas porque não queria que ele se mantivesse presente na sua vida mais do que sempre estaria. Os consternados olhos castanhos procuraram pelos claros de Malcolm. A tonalidade indefinida era algo que sempre prendia sua atenção quando o fitava, naquele instante, por exemplo, pareciam mais azuis que de costume, numa intensidade similar a de chamas azuladas. - Hum, muy bien, creo que preciso contar algumas coisas sobre a minha vida pra dar contexto ao que aconteceu com Theodore. Prometo que tentarei ser sucinta e não entediá-lo. - disse tentando soar minimamente divertida quando sentia-se ligeiramente aflita - não por tirar aquele elefanta da sala, mas por receio do que viria após. - Eu faço terapia desde os três anos. Minha tia, que considero como mãe, achou que era importante para que eu pudesse lidar com o luto da morte dos meus pais biológicos e que também não sentisse que de certa maneira havia sido rejeitada por eles uma vez que priorizaram a profissão a cuidar de mim. Ponto número: receio de abandono. - pressionou os lábios brevemente antes de continuar o que já começava a acreditar que seria um imenso monologo. - Como pode ver, sou uma mulher latina, de baixa estatura, pele marrom, em um país de pessoas brancas de olho claro. Não sou vista como as outras mulheres. Sempre fui a solteira no grupo de amigas, especialmente na adolescência. Isso machuca, cria fragilidade. Ponto número dois: baixa autoestima. - uma ligeira careta voltou a pontuar sua expressão. Naquele momento era bem resolvida com a própria imagem, o que também era obra da famigerada terapia. - Dito isso, bien, foi através de Lorenzo que conheci Theodore. Eles eram amigos. Ou parceiros de negócios. Não sei ao certo. Mas um dia sai com Lorenzo e Theodore estava por lá, ele nos apresentou. Eu tinha 22 e ele 30, se me lembro corretamente. Minha experiência com relacionamentos era parca, com homens mais velhos era nula. Ele era bonito, inegavelmente, acho que fiquei deslumbrada, como uma tola. Vez ou outra ainda me pego tentando entender o que ele realmente queria comigo e presumo que talvez fosse um acesso facilitado a Lorenzo, não sei, enfim. Creo que é por isso também que Lorenzo pega tanto no seu pé. - encolheu os ombros como quem se desculpava, mas sua musculatura estava tão tensa que sentiu uma dor fina espalhar-se pela região. Voltou a respirar fundo antes de se pronunciar. - Não darei riqueza de detalhes, mas contarei o principal, para tirar suas dúvidas imediatas.Bien, você precisa entender que uma vez em um relacionamento abusivo demora até que se reconheça os sinais, as vezes sequer se reconhece. Eu não percebia, por exemplo, que no ano e meio que estivemos juntos fui me afastando de todas as minhas amizades. Ele tinha ciúmes dos homens. As mulheres solteiras não eram boas companhias. E ainda houve o afastamento do leito familiar. Faz parte do pacote o isolamento, para que não houvesse mais ninguém por mim além dele. - uma ruguinha formou-se no centro de sua testa enquanto algumas lembranças vinham à tona. - Perdi todos os meus amigos da época, só mantive o Patrick porque ele morava em outro continente e nos comunicávamos por e-mail, além do que, ele vivia o próprio relacionamento tóxico, sem fazer ideia, com aquela loira cretina. - resmungou sentindo o ranço por Laila aflorar. Naquele instante sentia coisas diversas, mas nada que a fizesse sentir-se em seu limite. Como alguém que trabalhava em saúde mental Elissa estava ciente até onde poderia ir. - Então eu comecei a estagiar no Mungus e meu tempo para relacionamento diminuiu drasticamente. Foi ai que os problemas se agravaram. Ele queria casar. Eu não queria. Eu tinha 24 anos, ainda na faculdade, de forma alguma queria parar minha vida para virar dona de casa. Ele não gostou. As brigas se tornaram mais comuns. Mais intensas. Eu tentei terminar algumas vezes. Cheguei a terminar. Mas ele não me deixava em paz. Aparecia no meu trabalho, na faculdade, em qualquer lugar que eu estivesse e arrumava confusão com quem estivesse comigo. Eu me sentia confusa, sozinha, amedrontada. E ele soube como usar a manipulação, a intimidação, o isolamento, explorar minhas fragilidades. Foi essencialmente psicológico e emocional. Não chegou ao físico. - embora tenha passado perto, completou mentalmente, recordando-se das vezes em que fora puxada pelo braço e como por algum tempo detestara que a tocassem na região sem prévia autorização. - Em meio a tudo isso, e não consigo explicar nem para mim mesma como aconteceu, eu engravidei, entrei em pânico porque tomei todas as precauções, afinal a última coisa que queria era um vínculo permanente com alguém que buscava maneiras de me desvincular. Quando decidi que levaria a gravidez adiante sequer precisei avisá-lo porque ele já sabia. E aparentemente estar gerando uma criança deu a ele a sensação de que eu o pertencia. Novamente ele insistiu no casamento e eu me recusei. O mesmo ciclo de perseguições se repetiu, mas dessa vez foi um pouco pior já que comecei a ter picos de pressão que afetavam o bebê. Tive que trancar a faculdade e me afastar do estágio mais cedo que gostaria porque por orientação obstétrica precisava ficar em repouso. Foi só aí que recorri a minha família. Eu não queria envolvê-los até então, eles me orientaram a pedir uma medida restritiva, eu procurei por Aiden, e ele me auxiliou nesse processo. Mas nem cheguei a usá-la porque quis o universo que Theodore morresse nesse meio tempo. - a ex-corvina piscou vezes repetidas para afastar as poucas lágrimas que sequer havia percebido que se acumulavam em seus olhos. Recordar o que foram os piores anos da sua vida não lhe inspirava mais crises de ansiedade, mas deixava um rastro de tristeza, especialmente por Owen ser filho daquele indivíduo. - Theodore inspirou o que há de pior em mim. Eu senti alívio na morte do pai do meu filho. Por muito tempo me senti péssima por essa sensação, mas hoje entendo que se ele ainda estivesse vivo eu não teria paz e meu filho sofreria ainda mais alienação parental na Escócia. - murmurou, voltando a encará-lo, enquanto levantava-se para aproximar-se dele. - Como pode perceber eu não sou assim tão melhor que ele e muito menos melhor que você. - pontuou, tentando recobrar algum humor a um clima que estava definitivamente pesado. - Malcolm… - chamou baixinho no instante em que ficou exatamente a frente dele, pouca distância, mas ainda respeitando seu espaço pessoal. - … eu agradeço o seu cuidado comigo, o seu tato de querer tocar no assunto sem que isso desperte traumas. Acontece que, como profissional de saúde mental, e alguém que faz terapia há anos, eu vivo com a ideia de que preciso encarar meus traumas, entender onde machuca, me conhecer o máximo possível. Logo nada disso chega a ser retraumatizante porque suprimir nunca foi uma opção. Recordar me deixa introspectiva, entristecida, e me faz questionar o porquê não percebi os sinais antes. É óbvio que há marcas, e você conhece parte delas. Por que acha que fui para outro continente depois que nos beijamos? Em níveis emocionais, românticos, não me relacionei com ninguém desde Theodore, primeiro porque eu tinha um bebê pra cuidar, segundo porque mães solteiras são vistas como passatempo, terceiro porque sim eu tenho gatilhos e ainda não tenho certeza de como vão se manifestar numa relação. Então nós nos conhecemos e de todos os indivíduos nesse planeta eu me vi enamorada por você antes mesmo de algo entre nós acontecer. - ela curvou brevemente a cabeça para a direita, um biquinho trêmulo pronunciou-se nos lábios cheios. - Por fim, você não deve se sentir responsável por coisas que não fez. Vocês são pessoas distintas. Muito distintas. E você adorava bater nessa tecla quando nos conhecemos. Não é possível que agora eu tenha que convencê-lo disso. - disse de maneira muito honesta. Como quem havia convivido com os dois, não podiam existir pessoas mais opostas. - Theodore é meu passado. Seu passado. Eu sempre vou precisar lidar com alguns traumas que ele me trouxe, mas não posso me privar de viver por conta dele. Não posso permitir que ele tire mais isso de mim, que tome mais esse controle sobre a minha vida. Além do mais, não quero me privar da sua companhia porque você teve a infelicidade de também sair do útero daquela megera. Excusa, eu sei que ela é sua mãe mas, uh.- as últimas palavras carregavam o peso do seu desgosto pela ex-sogra. Detestava a ideia de que as mães eram culpadas pelo comportamento dos filhos, mas era óbvio que entre outras coisas Theodore era reflexo da criação que recebera. - Además, certamente minha família vai achar estranho que esteja envolvida com alguém de sobrenome Fraser, e isso me preocupa. No caso me preocupa que eles sejam grosseiros com você por algo que não te compete, especialmente quando as chances de Loreno estar panfletando um dossiê com todas as suas transgressões é enorme. - embora intentasse jocosa sabia que Lorenzo era realmente capaz de tal ato. - Sou uma mulher adulta que pode tomar as próprias decisões. Se você e eu quisermos ninguém mais tem nada a ver com isso. Mas confesso que estou achando uma graça que uma vez na vida não sou eu surtando nessa amizade amistosa com benefícios. - disse com um sorrisinho mínimo tomando o canto de seus lábios. Elissa colocou as mãos sobre os braços dele para que pudesse descruzá-los e em seguida entrelaçou os dedos de suas mãos aos dele. - Você já me pediu desculpas hoje mais que na soma do último ano. Está tudo bem. Eu tinha em mente que precisaríamos ter essa conversa se você fosse tomar coragem de pegar na minha mão e assumir… - embora a última frase soasse como uma provocação, Thorne estava sendo honesta sobre o restante. - … e sim eu entendo as implicações desde o instante em que quis muito beijar sua boca e surtei bastante a respeito. No momento conformada que seu carisma é envolvente demais e que não posso passar muitos dias sem querer te enfiar uma bolsada. - o tom leve e ligeiramente divertido logo fora substituído por um semblante mais sério, comprometido. - Malcolm, eu quero estar com você. Eu gosto de estar com você. Mais que isso. Você me faz bem. Não pense nem por um segundo que projeto em você uma imagem que não te pertence. Eu só peço que tenha paciência para lidar comigo porque, bien, eu posso me retrair sem mais nem menos, e nada disso tem a ver com você, mas com meus traumas se manifestando. Então se você realmente quer dobrar a meta precisa estar ciente disso. - gentilmente apertou as mãos dele, como quem procurava por acolhimento. - E ser mais romântico pois estou realmente me sentindo desaplaudida. Mas longe de mim trazer infelicidade para minha filha mais velha destruindo o sonhos dela de me ver como a namorada séria do aclamado Pipi.
Mesmo que parecesse distante na maior parte do discurso de Elissa, devido à imobilidade e o olhar fixo na ex-corvina para se atentar à linguagem corporal dela, ele a ouvira do começo ao fim. Captara tudo. Cada palavra incitando um terror na alma. Cada palavra abrindo para a realização de que, embora ela tivesse se expressado abertamente, com pontos de tensão recorrentes, ele não era um tipo de chave para reparar feridas profundas. No entanto, sabia que poderia agir como um efeito amortecedor. Comportamento do qual assumira por praticamente toda sua vida, sendo quase um muro entre Scott e o restante dos Fraser. Como atualmente era um muro entre o misterioso retorno do seu pai e o restante dos Fraser. Literalmente, não se importava de receber o soco, mesmo que não fosse propriamente direcionado à sua pessoa. E sabia que absorvera toda aquela verdade de Elissa consciente de que, se Theodore tivesse vivo e a conhecesse à época, se comportaria da mesma maneira. Sendo o muro. O que ampliava aquele mistério, que não necessariamente deveria ser visto de tal forma, pois, durante o relacionamento dos dois, sequer estava no cerne da vida do irmão mais velho. Sequer escutara o nome de Elissa. Naquele momento, ele sabia que deveria se manter no presente, já que não haveria condições e nem tempo de processar toda aquela revelação dolorida. Teria que condensar as emoções afloradas e que avermelharam seu rosto para dar uma resposta adequada. Emoções que endureceram suas sobrancelhas arqueadas em um estarrecimento silente. Porém, seu cérebro sabia agir rápido quando necessário. Como revelar que não tinha muita noção dos recursos para ajudá-la, ou até mesmo para não se tornar um completo campo minado que espelhasse Theodore. E ela poderia dizer o quanto fosse que não eram parecidos, mas havia algo geracional no sangue de cada um dos Fraser e esse algo era raiva líquida. Borbulhava, arrancando toda a racionalidade. Subitamente, ele puxou o ar, se deixando nortear por outros tópicos mentais, resultantes daquela conversa. Não sabia o que fazer, como se comportar, e o caminho de volta à ela parecia mais estreito. Mais difícil. Talvez, porque a relação deles nunca tivera um contexto de relação. Nunca jogaram uma bomba que estabelecesse uma ruptura. Sempre ficaram naquele lance de amizade amistosa e uma verdade como a de Elissa enrijecia a situação. Aniquilava aquela ideia que, agora, soava mais como outra espécie de muro. Um que tornava tudo mais confortável. Um que estavam sentados há muito tempo e estar ali, decidindo a palavra seguinte, era um salto. Encerrava um ponto solto, que nunca pedira um tipo de nó. Ainda mais vindo de alguém que nunca estivera em um relacionamento sério. No entanto, dar o nó era evidente, tão quanto necessário, desde o instante que decidira saber mais daquela história. Desde o instante que decidira aparecer na soleira da casa de Elissa. Sentiu-se em completo estado de autocombustão e notou que precisava se distrair. Era o que costumava fazer quando se sentia tenso, ou quando entrava em lares onde havia alguém para apagar as memórias. Observou alguns quadros de família espalhados em pontos extremamente visíveis na sala e foi fácil encontrar uma dela com Owen. Imagens estáticas que ele também tinha autorização de eliminar caso fosse necessário para evitar questionamentos da vítima ou de algum delinquente. Ser obliviador requeria mais cuidado em comparação aos trabalhos de alto escalão do Ministério da Magia. Era quase impossível ignorar a presença do Departamento que comandava quando uma merda acontecia e vinha acontecendo muitas desde que o mundo bruxo resolvera se tornar um caos em que ninguém se sentia muito seguro. E pensar na carreira prontamente o relembrou do que fazia: ele mexia com mentes o tempo inteiro, na maioria das vezes sem nenhum tipo de consentimento. Sua equipe era acionada, os danos eram analisados e o passo seguinte era fazer o nascido-trouxa simplesmente esquecer. Parecia simples, como na cartilha, mas o Fraser sabia que era difícil e pensar na carreira permitiu que o processar da conversa começasse pra valer. Bastava um comparativo. Manipular mente. Sem deixar rastros. Ele sempre tirava um pedaço de alguém, mesmo que em um período de tempo muito curto. Era um pedaço de qualquer maneira e dificilmente se sentia bem na hora da partida, embora fosse realmente cirúrgico e rápido no que fazia para não deixar o ambiente se infiltrar no seu sistema. E sempre dizia a mesma coisa à sua equipe: entre com a mesma velocidade que pretende sair. Caraminholas que poderiam se prolongar se não fosse se sentir interpelado pela sombra de Theodore no fundo da sua mente. Como se quisesse afirmar que ele não era tão diferente. Ele só tinha autorização do Ministério para manipular tudo. Se uma pessoa despertasse da perda da memória, por algum infortúnio mágico que, logicamente, ainda não existia, a não ser a base de muita tortura com a Maldição Cruciatus, seria traumatizante. E ele poderia ter aprendido a se distanciar da dinâmica, mas registrava tudo. Estava em cada reporte seu no final do dia. Como no reporte de Elissa que ampliou o terror em sua alma, impulsionando-o a se virar na direção dela. Seus orbes estavam com uma tonalidade mais intensa e profunda, sendo o único ponto de revelação de como aquela história mexera em todos os seus nervos, apesar do seu rosto ainda estar enrijecido de raiva. Tinha noção de que não era uma boa pedida se esparramar em pura raiva, mas Theodore nunca lhe dera opções de sentir nada de diferente quando mencionavam seu nome. Unindo a emoções de desprezo que pareciam tê-lo encolhido na sala. - Você não precisava ter me contado tanto, mas agradeço por isso. - ele quebrou o silêncio, consciente, ao menos, de que a verdade de Elissa não era algo fácil de compartilhar. O agradecimento era honesto, aliviando minimamente a raiva de suas feições. - O que me faz pensar agora no trabalho difícil de que terei que contar alguma piada para que você não fique introspectiva e nem entristecida. Ou então te deixar com meu celular para ver uma série de vídeos das minhas cabras. - ele emendou, com um sorriso quase invisível. A mínima abertura em seus lábios dissipou o ar, oxigenando seu cérebro, permitindo-o praguejar: - Blaigeard! - xingar Theodore de bastardo em gaélico era como reviver tempos perdidos dentro do clã Fraser, quando, no fundo, queria xingá-lo de outras maneiras sem correr o risco de perder o nariz. - Escuta, de verdade, eu não queria que revivesse tanta coisa. E você está correta sobre esse desgraçado ser nosso passado e também tenho essa política dele não me tirar mais nada. Isso já jovem, quando decidi ir atrás do Scott. Ele e toda a família tiraram meu irmão de mim e Scott sempre foi a única família que eu realmente tive. E me importo. Agora, ele entrará em crise, porque tem você e Owen, que são minha família também e juro por Deus, Elissa, que se Theodore tivesse vivo, eu forçaria uma amizade com Lorenzo pra dar umas porradas naquele filho da puta! - ele disparou, a voz saindo mais embolada por causa do sotaque escocês que se tornava grave e mais fechado quando se emputecia. Lembrou-se claramente do inferno que ele tivera que lidar ao ser ainda o “irmão mais novo”, pois, mesmo Scott sendo reconhecido no mundo bruxo como aborto, Theodore não conseguia lidar com nenhuma figura masculina que pudesse macular sua ascensão como líder dos Fraser. Paranoico ainda era muito pouco pela forma como ele agia e começara a cercá-lo. - Pra você saber, ele me via como ameaça constante, sendo que nunca tive interesse de assumir o clã e nem vontade de bater de frente com ele. Sem contar que minha mãe jamais me consideraria, não é à toa que só me tornei útil por não haver mais nenhum herdeiro homem na linhagem dela. Mas eu saí da frente e isso, infelizmente, abriu o inferno para William. Isso nunca o impediu de nos perseguir também e pontuar que, especialmente eu, poderia traí-lo a qualquer momento. E ele sabia como me provocar, sempre xingando Scott e eu sempre metendo o murro na cara dele. Em vez dele se conformar em apenas falar mal de mim e usar do charme de psicopata pra ganhar uma plateia, ele tinha que mostrar que eu era um desequilibrado. - emancipar-se do clã tinha sido a única forma que Malcolm encontrara para ter uma vida e para, ao menos, não perder o resto da mente. - Quando soube que ele morreu, senti alívio. Um alívio tão grande que enchi a cara no mesmo dia, sem me sentir errado por isso. Era como saber que eu poderia ter uma vida normal de volta, que Scott poderia ter paz também. Foi o dia mais feliz da minha vida. - e o mesmo suspiro de alívio, quase angustiado, daquele momento se apresentou, afrouxando mais a passagem de ar para seus pulmões. - Quando vocês estavam juntos, eu já estava bandeado em Londres. Se eu soubesse, eu teria te ajudado, Elissa. Você teria aguentado menos aquela criatura, juro por Santa Margaret! - ele declarou com um calor excessivo de indignação. - Mesmo consciente de que, provavelmente, não mudaria em nada. Mas, ao menos, já daria em uma história diferente. Você ficaria menos tempo refém. Você seria retirada disso. Sou muito teimoso quando quero proteger alguém e imagino que isso não te conforta agora. Porque aconteceu. Não tem como alterar. Mas, se um dia você quiser tirar ele da sua mente, eu posso te ajudar. - aquela era a linha tênue das suas habilidades. Tirar o sofrimento. Era a única razão que não o fazia relutar, nem pensar duas vezes, na hora de administrar o Obliviate. Ele fizera aquilo por Margaret, um segredo que iria com ele para o caixão. - Soa ilegal, pode ser que seja, mas se um dia parecer impossível, eu nasci dotado de mudar algumas coisas do hipocampo. - ele conseguiu abrir mais o sorriso, pois nada melhor para ele que soar que brincava quando falava sério. - Mas, pontuando na realidade, nada do que eu disser pode ser reconfortante. Como sei que não tem como voltar no tempo para remediar isso. Só que saiba, Elissa, que o que não pude fazer antes, eu posso fazer agora. Pode contar comigo para o que precisar. - a veemência era transparente nos lábios que se transformaram brevemente em uma linha rígida. - Aliás, me senti ofendido. - ele começou a perambular pela linha da estante da sala, de um lado para o outro, com as mãos no bolso da calça. - Quando você resolveu tirar umas férias longe de mim. - parando de andar, ele jogou a cabeça para trás, a fim de olhá-la com deboche. - E estamos juntos no que condiz a minha querida mãe. Detestá-la é uma questão de caráter. - ele revirou os olhos e voltou caminho até empacar diante de Elissa de novo. - Se você diz que, até aqui, eu não fiz nada de errado, a não ser tirar um defunto do inferno neste presente momento, vou acreditar em você. Porque eu quero manter o que temos, mas não quero ser seu campo minado. Não sou perfeito, apesar de totalmente adorável, esquentadinho, que gosta de brigar, mas estou aqui por você, porque me preocupo com você, e quero te manter pelo tempo que for possível na minha nobre vida. - ele nivelou o olhar, para ter certeza de que ela ouviria as palavras seguintes. - Óbvio que não vou entender nada do que você passou, mas você pode se acolher em mim. Eu não entendo nada de diversidade também, pois sou um homem básico. Como disseram no chat da Grifinória dia desses. Básico branco e sem lábios. Mas, a título de curiosidade, você abalou minhas estruturas desde o dia 1! E eu não pensei nada do que você acabou de dizer. Nada de mulher latina solteira, mas a mulher da bolsa maligna que começou a me desafiar no intento de não beijá-la a cada expressão invocada. - ele tocou o queixo dela suavemente, se sentindo mais confortável em sorrir. - O mais bizarro é que não me considero ciumento e sei que é uma palavra péssima, porque Natalie já me explicou ser um lance de posse. Só que era aquela inquietude de caras mandando flores para sua garota e eu querendo saber quem era o ousado pra avisar que a garota já tinha o garoto dela. - ele declarou, falsamente estarrecido, como um adolescente. - Nunca liguei de você ser mãe. Acho sua baixa estatura um charme que orna demais com sua vontade de querer me matar diariamente. E que pena que os caras escolheram suas amigas feias, porque eu certamente escolheria você. - ele se atreveu a se aproximar, mantendo uma brecha segura para Elissa. - Sobre os gatilhos, eu espero que daqui em diante você me conte mais sobre isso. Melhor, que você me mostre quando acontece esses engatilhamentos pra eu te ajudar melhor e quais meus comportamentos erráticos - e não vale pedir pra eu parar de cair em briga, porque a briga me persegue, tá? - o formigamento na ponta de seus dedos o instigaram a tocar a pintinha mais marcante do rosto de Elissa, encantado. Conteve um suspiro patético ao sentir a pele dela vibrar no tremor de quem estava se segurando firme demais para não desabar. - Você é a mulher mais linda que eu já vi. E, se você ainda quiser ficar comigo, eu poderei te dizer isso todo santo dia. Daí você conta pro Lorenzo que sou legal pra gente ter privacidade... Aliás, não tiro o direito dele sobre te proteger. Eu teria feito o mesmo. - concordar com aquele homem misterioso feria sim o seu orgulho, mas não era algo relevante para o momento. - Vamos pensar que, quando sua família souber de nós, vou ter que estar presente pelo impacto e para ser esculachado ao vivo. Minha vida sempre foi sobre ser esculachado, impressionante. - ele tocou o centro do tórax, com as mãos unidas, como quem se lamentava. Seu sorriso se ampliou ao vê-la um pouco mais relaxada. - Eu ainda acho que deveria ter te avisado sobre o que fazia, mas era também um fato que você tentaria me impedir, especialmente quando resolvi ir para o lugar que quase me matou. Mas juro que fui bem recebido. O máximo é ter conquistado uma maldição. - ele deu de ombros fazendo piada de si mesmo. - Agora, sobre pegar na mão e assumir! Caramba, Elissa, na cara machuca! - em um movimento gentil, ele ergueu as mãos unidas e depositou um beijo amoroso em cada dorso das mãos dela. - Assim tá bom? Afinal, eu preciso reforçar a piada de Darius sobre eu ter a primeira namorada aos 32 anos. Não consigo viver sem ser o centro das atenções! Mas melhor ainda quando você reconhece minhas qualidades para além do desejo de querer me dar bolsadas constantemente. - ele revirou os olhos, falsamente entediado. Em seguida, ele puxou o ar, voltando a assumir a postura atenta, racional e cuidadosa. - Eu também quero estar com você, mas como nunca tive um relacionamento, e considerando que somos dois adultos de agendas cheias, eu sequer elaborei a respeito. Sequer sei como fazer isso. Parecia bom para nós dois a amizade amistosa, mas desejos mudam várias coisas. Você me faz esquecer da minha melhor qualidade: ser sistemático 24 horas. E isso é bom quando estou com você, porque passo horas pensando muito e com você eu não preciso pensar. A não ser agora um pouco mais, porque, além de pegar na sua mão e te assumir, eu quero ser capaz de cuidar de você e te dar a segurança que você merece. Em qualquer instante que você precisar. E não se preocupe, porque, pode não parecer, eu tenho paciência. Sou paciente. Eu te espero. - as palavras saíram com uma facilidade espantosa, até mesmo para ele que, realmente, nunca tivera um relacionamento. Nunca se preparara para encontros ou para dizer alguma palavra romântica. Sequer sabia se era romântico, mas poderia ver isso depois. Afinal, sentiu que precisava trocar o aconchego das mãos unidas para abraçá-la com força. Criando o mesmo movimento de erguê-la minimamente no ar, sempre lhe arrancando uma risada estridente. O calor entre os corpos era reconfortante, tumultuando seus pensamentos, mas de um jeito bom. Particularmente interessante. - Romântico! - ele repetiu a palavra, anuindo a cabeça positivamente. - Vou ter que me virar e considero uma boa oportunidade de dobrar a meta. Se quiser, posso fazer o seu jantar, enquanto a dondoca descansa no sofá, toma seu vinho e vê o que um homem vegano pode criar sem esforço. Acho que é um bom ponto de partida, não? Pra começar a relação em solo firme? - as últimas palavras saíram sussurradas, seus olhos flertando a boca de Elissa, incitando emoções mistas que confrangiam no centro do seu peito, fazendo-o conhecer outros tipos de impulsividade. Gentilmente, a colocou de volta ao chão e afastou os cabelos do rosto dela carinhosamente. - Enquanto você decide, eu tenho que tomar um segundo para aplaudir minha namorada, com licença. - ele não a soltou, mas a segurou firme pela cintura, enquanto a outra mão se apoiou gentilmente no queixo dela. Inclinou-se, curvou-se, encontrando os lábios dela. Um segundo, o choque instantâneo, reverberando tudo que sentia e que permanecera preso entre receios e conjecturas durante semanas. Tudo, se expandindo para fora dos seus sentidos.
















