amargaridah:
Por exercício de tamanha sabedoria, Margaret se referia a uma lista eterna de tudo que se tratava aos comportamentos do irmão mais novo, bons e ruins, e que a ajudaria a anunciar os mais assertivos para determinada situação. Raramente falhava, acertando-o nos nervos que proporcionariam automaticamente um mal-estar entre ambos. Não sentiu como uma grande estúpida pela resposta dele, mas sim como se ele tivesse acessado às suas memórias ao ter refletido minimamente sobre os pais que não estavam mais vivos. O que começara com Claire parecia ter findado com a partida para o além de Joseph e ela sentia muitíssimo alívio com aquilo. Não pelo fato de que agora assumia o clã dos Fraser, mas porque os episódios traumatizantes que ainda arranhavam a parte mais funda do seu cérebro, comprimidos por uma série de outros traumas que tratara de tomar as próprias providências, justamente por ter um orgulho maior que qualquer parte da Escócia, moviam uma raiva silente. E aquela raiva a impedia de aceitar ficar por baixo, principalmente na estrutura de clãs. Miseravelmente, acabara provocando muito contra ela mesma, devido ao defeito soberbo de querer ser melhor que todos e de querer provar pontos. Um bico desconfortável moldou seus lábios, seguido de um estalido da língua de insatisfação, apenas pela lembrança ter se tornado um tantinho mais corpórea. Pela lógica, achou mais sensato focar no desabafo atropelado de William, enquanto observava a movimentação de enfermeiras, checando as incubadoras. Seu olhar já sabia localizar perfeitamente a sobrinha, que continuava quietinha, sem saber que do outro lado do vidro residia uma crise sobre sua existência. - Não digo mentir, mas omitir, sim. - confessou Margaret. Seria surreal se concordasse com aquele ponto para alimentar seu ego, mas viveram nos Fraser. Compartilharam uma dinâmica que os obrigara a criar defesas. Automaticamente, criar os próprios macetes que funcionavam sob estado de sigilo. - Podemos começar com seu relacionamento com Georgia, o que não nos traz lembranças admiráveis. Eu tive que ir a fundo para saber o que o deixava tão inquieto, de um jeito diferente da dita cuja que não deve ser nomeada. Quando soube onde você estava no Natal em que acabou expulso de casa, bom, me admira que nenhum Mackenzie tivesse descoberto antes. - Margaret não entraria em detalhes sobre ter perseguido o rastro de William para saber onde ele se metera naquela noite caótica. Desde aquela época, tinha suas fontes, que se tornaram imprescindíveis para assumir o posto atual. Era quase como se compartilhasse a mesma agenda de mercenários de Malcolm, resolvendo o mistério em curto espaço de tempo e que ainda pulsava como a referência sobre como passara a ser tratada por Joseph nos dias, semanas e meses posteriores da debandada do favorito. Criando uma ferida de mágoa profunda pelo rapaz ao seu lado. Ela deslizou os dedos pela franja, como se não se importasse com o viés da conversa em torno do “falecido”. - Há uma palavra mágica nessa sentença e ela é referência. Pela falta de uma boa, você precisa encontrar seu próprio modelo. Ou criar um. Basicamente a regra de uma mãe tendo que se espelhar em outras mães boas para conseguir ser uma mãe melhor que a que teve. Parece uma explicação esdrúxula, mas é a única coisa que você pode começar a fazer. - ela explanou, virando-se minimamente para ele de novo. - Pelo que vi no chá de bebê, a quantidade de homens ao redor deve servir de alguma coisa. Quem sabe, você precisa começar do zero. Imagino que seja impossível se desvencilhar, parece normal ter essa primeira aflição que move um ponto sensível, mas, William, se você fosse um fio de Joseph, Georgia já teria te enviado a dez palmos da terra. - e dizia aquilo por ter tido um preview dos ânimos da namorada do seu irmão. Era um ânimo Mackenzie, que poderia se tornar ainda pior se tivesse sido moldado dentro do cerne familiar. Claro que se dissesse aquilo soaria ofensivo, não tinha como, mas considerando que Nicholas Mackenzie dividia o mesmo DNA que Georgia, aquele clã só não contara com dois malucos por falta de
oportunidade. - Sim, você sempre foi emocionado. E sempre encheu o saco de uma maneira peculiar, elevando as coisas a uma altura desnecessária! Ser negativo não vai trazer conforto. - ela murmurou a última frase, como se tivesse intenção de poupar a audição do ex-corvino. Sorriu, com diminuto deleite do esculhambamento do Fraser. - Queria ter um emocional maior que uma colher de chá para confortá-lo como claramente precisa, mas meu lado cirúrgico diz que você precisa descansar e esperar. Nada vai acontecer com a sua filha. Ela tem sangue escocês. Vai resistir! - ao contrário de William, Margaret ainda permanecia enraizada dos pés à cabeça com sua adoração pela Escócia. O que a fez rir minimamente à menção de Duncan Mackenzie, um aliado do pior jeito difamatório possível. Ainda tinha emoções mistas pelos clãs, mas poderia ser mais deselegante em dizer que Claire tinha no DNA dois tipos de sangue de barata. - Ela já tem segundo nome de Ministra. Eleanor. Muito mais bonito que Claire. - ela disse de pirraça e realmente para o bel-prazer de desprezar o nome da progenitora. - Para se sentir útil, cuide dos presentes que dei. Obviamente que coloquei as instruções, pois sei que você não assimilou nem metade do que eu disse. - e por nunca ter sabido das condições do irmão, ela se irritava o tempo todo de ter que repetir as coisas. Conforme entendia, nos tempos que ainda era capaz de ouvir Claire, conseguia ser mais delicada, mais atenciosa. Uma versão sua que parecia uma espécie de delírio. Tudo que ficara era a mesma sensação que compartilhava sobre a mãe e o pai: que William nunca se importara com o que ela tinha a dizer. - Mas funciona se você acredita. E o teste da moeda pode ser feito quando Eleanor estiver bem e saudável. Não me vá já descer e enfiar a moeda na mão da menina. - ela revirou os olhos, como se pudesse vê-lo fazer realmente aquilo. - A sua querida mãe disse que eu deixei a moeda cair. Eu não estava quando foi sua vez. - ela contou, com um breve sorriso desgostoso. - Deve ter sido aí que o falecido resolveu me tratar como uma espécie de sinistro, mas já era assim por eu ter nascido mulher. Capaz que você tenha segurado a moeda firme, apenas para alimentar falsas esperanças. - ela deu de ombros, pois, de fato, o lance da moeda não importava mais para medir a miséria que os Fraser, de maneira geral, se entregaram com o passar dos séculos. Sem nenhuma administração adequada, o que a deixava com um tanto de indignação por saber o quanto os Mackenzie, e até mesmo os Munro, eram impecáveis naquele quesito. - Se vale de algo também, vamos pensar que Georgia passa bem. Está confortável. O que deveria influenciar em você se dar um pouco de desconto e não acreditar que pode ultrapassar o vidro. - ela o empurrou delicadamente para trás, pois parecia que o objetivo dele era testar se era o homem invisível. - Aliás, você sabe que eu jamais ficaria na sua casa. Questão de princípios. No entanto, se você quiser jantar, eu posso cumprir esse gesto de caridade. Pela necessidade de te tirar daqui. - ela tirou as luvas e as colocou dentro do bolso do casaco. - Mas, antes, o que realmente te incomoda sobre a ideia de espelhar Joseph? Sei que há assuntos geracionais, que podem ser capturados com períodos de terapia, mas sério que esse é seu medo irracional? Sei que soo mesquinha, mas você nunca teve nada a ver com ele. Você foi criado pela mãe. O que me faz dizer que você tem energia feminina e imagino que vá me devolver a carta dos seus rompantes de raiva, mas isso foi resultado do falecido. O resultados podem ser alterados, como um tratamento, que imagino que faça. O que já te tira dessa ilusão ordinária.
No instante em que calou a boca William começou a questionar-se se não havia dito mais que deveria. Via de regra não era muito sua vibe fazer confissões, mas Margaret, assim como Georgia, era hábil em tirar de si até mesmo o que não sabia que precisava compartilhar. Uma vez que já havia aberto a maldita boca, e que nada podia mais fazer a respeito, ouviu em silêncio a irmã discorrer suas sempre cirúrgicas impressões. Desde a infância Margaret funcionava como seu elo com os pés no chão, o famoso choque de realidade, uma vez que não existia ninguém mais racional e analítica do que ela. Ele por outro lado era o oposto. Pensava demais. Sentia demais. E era um descompensado emocional - o que vinha tratando com a terapia pelos últimos anos. - Aye! Levando em conta as referências masculinas lá de casa fico feliz em ouvir que tenho energia feminina. - e realmente ficava, embora discordasse. Ainda que seus rompantes de violência não tivessem mais ocorrido continuava convivendo com o receio de perder o controle sem mais nem menos, e não queria de forma alguma ser esse tipo de referência para a bebê que descansava atrás do vidro. - Wee man! Você me faz a pergunta e você mesmo responde. - arqueou brevemente uma das sobrancelhas enquanto a fitava, um ligeiro sorriso moldou o canto de seus lábios. Não sentia muito humor, mas era sua maneira de ganhar tempo. E precisava desse tempo para organizar seu quase sempre confuso fluxo de pensamento. Sempre havia muito pululando entre seus neurônios, mas desde que soubera que seria pai as lembranças de Joseph iam e vinham com mais frequência, especialmente quando se achava fisicamente cada dia mais similar a ele. Assim ao fitar a mais velha apontou para o próprio rosto. - Me deparo com a lembrança dele toda vez que me olho no espelho. - uma careta pontuou suas feições. - E sei que é irracional, mas sempre surge aquela vozinha maligna no fundo da cabeça pra me atormentar sobre a possibilidade de não ser só o físico semelhante. É bobeira. Provavelmente resposta do trauma, algo a conversar com a psicóloga. - e Joseph era basicamente a fonte de todos os seus traumas. Fora ele o responsável, direta e indiretamente, por todos os momentos mais difíceis de sua adolescência. E nem mesmo a morte do indivíduo tinha trazido alívio a William uma vez que o desgosto pela figura paterna seguia vivo, assim como o receio de um dia espelhar quem ele era. - Aye! Mas claro que você está certa, Georgia já teria me enterrado no quintal, com o auxílio de Fallon, se meu comportamento fosse tão cruel quanto o dele. Como disse, é bobeira emocional minha. Acho que estar mais ciente de que sou responsável pela vida de uma outra pessoa me deixa inquieto, especialmente porque desejo que ela tenha uma infância e adolescência bem diferente da nossa. Se vai ser Ministra ou não, já não sei. Mas com os exemplos femininos que ela terá ao redor, wee man, imagino que ela só não será o que não quiser. - um suspiro resignado escapou a ele. Colocar em palavras o que vinha consumindo seu pensamento parecia ter tirado parte de um peso de cima de seus ombros. - Claro que sei que você não aceitaria a casa, mas ofereceria assim mesmo. - deu de ombros, movendo-se para que pudesse mais uma vez observar a filha dormindo através do vidro. Tão pequena e tão pacífica, seguia o aterrorizando a ideia de trazê-la para o caos do mundo. - Pode deixar que esperarei ela ter alguns meses para fazer o teste da moeda. Com sorte ela segura esse troço, mas sem repetir a minha propaganda enganosa. Mais uma vez obrigado pelos presentes, significam muito. - disse, com um menear de cabeça, ao virar-se novamente em direção a ex-corvina. - Pois muito que bem, longe de mim recusar o convite de uma digníssima líder de clã para o jantar. Mas preciso passar em casa para botar comida para minhas outras crianças, tomar um banho e me tornar um sujeito apresentável para andar na sua companhia. - e precisava mesmo, pois tinha noção de que não estava na melhor das aparências enquanto Margaret parecia impecável como de costume, uma verdadeira lady. - Uill. Só preciso avisar Georgia antes. Você vai comigo até minha casa ou prefere que te encontre no seu hotel? Aliás, onde você está hospedada? - questionou finalmente movendo-se para despregar-se da bendita parede onde pelos últimos dias passara a maior parte de seu tempo.




















