astridgenealogist:
Ouvir pétite etoile foi como sentir que alguém apertava todos os seus nervos de uma vez. E, como resposta, sua postura envergou ao mesmo tempo que seus olhos já estreitos conquistaram um brilho mordaz de descontentamento. Fazendo-a, sutilmente, afastar os cabelos dos ombros, em um trejeito que poderia beirar a impressão de esnobismo, mas era a mania perfeita para ganhar tempo enquanto pensava em uma resposta. E havia tantas. Ardendo na língua. Desde a mais cortante aplacada pela sua súbita mudez – e a mudez deveria ser o suficiente para sair daquele espaço que parecia tão apertado quanto a sensação dos nervos afinando, esticando sua pele em uma rigidez que se estendeu pelo seu maxilar. Afunilando emoções relacionadas ao homem à sua frente que ela soube barrar ao se dar conta do risinho ordinário dele. Lembrando-a que era exatamente aquilo que ele queria: que perdesse a compostura. – Não impede, mas você sempre teve mania de grandeza. Algumas coisas não mudam com o passar do tempo. – e ela poderia ter emendado com as conversas estúpidas entre ele e Malcolm no chat do reencontro, mas tinha a razão a seu favor de novo, onde conseguia ter a capacidade de fragmentar as ideias rapidamente para não trocar os pés pelas mãos. Ponto que dizia demais da sua própria personalidade, contida, mas que não dispensava o azedume que se alastrava a cada nova palavra dispendida naquilo que não poderia ser chamada de uma conversa. Mas, por alguma razão, não conseguia se mover para dar fim naquilo, principalmente pela grande necessidade de rebater quaisquer que fossem os raciocínios amorais do ex-grifino. Ao ponto de rir de modo baixo e com elegante desdém. – Como disse, mania de grandeza. – ela repetiu firmemente, girando a aliança de noivado de modo inconsciente. – Mencionar ciúme de Alice é a grande prova disso e é o que chamaria de desespero para chamar atenção. Chega a ser engraçado, mas, pelo menos, você teve um acerto: posso ter vários assuntos tirados de museus, mas você não consta na lista. Ao contrário da sua percepção, pelo visto, ao ponto de tentar ser espertinho com uma argumentação fajuta. Tudo bem, o que importa mesmo é que Alice está bem e segura. Apenas… Por meros segundos nostálgicos, pensei que você estava usando-a porque não conseguiu fechar, bem, certas feridas, hum? – o encerramento do seu argumento pendeu ao sarcasmo que recolheu o riso prontamente. Só que estava autoconsciente demais e continuou a girar aliança fervorosamente, como se ela mesma pudesse controlar o contrair dos próprios nervos que ardiam a cada instante que Darius se achava com a razão de respondê-la. Interrompendo a atitude para sumir dali, mas, no mínimo, deixara uma mensagem. E isso lhe serviu para desbloquear do cérebro o movimento para sair de perto de Darius. Porém, o primeiro passo paralisou no mesmo instante que, de repente, ele resolveu se mover na sua direção. Dando um breve atrito nos seus sistemas que, com o passar dos anos, deixaram de reconhecê-lo. Nem sequer ousara tirar uma prova, mas, daquela distância, podia confirmar que ele não mudara fisicamente tanto assim. Apenas havia o acréscimo de quem continuava um metido a vaidoso, dono de marcantes olhos azuis que sabiam ser sinônimos de grande cilada. Recuou em descrédito pelo que ele se atrevera a dizer e que inflamou ainda mais os nervos que pareciam se esforçar demais para desatrofiarem o que trabalhara para não mais sentir quando o assunto era Darius na sua vida. Uma pessoa que nem conseguia tratar mais como uma espécie de ex, visto que o dito relacionamento que tiveram acontecera há anos luz e ela mesma tratara de bloquear tal tragédia. De início, tinha sido complicado, pois não era uma pessoa que lidava bem com evasivas. Era como se tudo no mundo a irritasse e tinha consciência da raiz do problema — e era extremamente familiar. Depois, foi se tornando mais fácil e tinha que agradecer em parte a Gabriel, uma das poucas figuras asiáticas que passara a se identificar e fora ele que, de certo modo, se transformara em uma ponte entre ela e Vincent. E, por um segundo, se perguntou se Gabriel estaria bem depois de aparecer com a cara machucada. E, no segundo seguinte, percebeu que deveria retomar à cautela, pois Darius não poderia estar falando sério com aquele tom presunçoso, julgando uma parte da sua vida que não estava aberta para avaliação de terceiros. – Você ultrapassou o limite. – ela avisou e seus olhos ganharam uma multitude de emoções que a impulsionou um passo à frente. Sentiu-se afrontada. – Eu posso ter me adaptado a pensar em várias coisas desagradáveis sobre sua existência, mas acho que você evoluiu do pior jeito imaginado ao expor esse argumento que só teve a intenção de diminuir as minhas escolhas. Quando isso me parece ter mais a ver com você que comigo, afinal, você sempre provou ser incapaz de fazer as suas próprias escolhas, não é? – ela sorriu, hostil, deixando os braços caírem ao lado do corpo para dificultar seu próprio desejo de estapeá-lo. – Não vou articular em cima do seu aparente vazio, mas, uau!, pode se dar uma estrela por alcançar esse nível de atacar com farpas servidas em folha de seda. E, não que lhe caiba, mas eu estou satisfeita com a minha vida tediosa. É realmente o que sempre quis. – Astrid empinou o queixo e mordeu a própria língua para barrar o restante da informação que não faria bem a nenhum dos dois. Ainda mais quando seu corpo promovia ondas de raiva por reconhecer a antiga ferida de ter sido quase largada por Darius e como isso a motivou a reestruturar toda a sua visão sobre relacionamentos e sobre o quanto poderia entregar a uma pessoa sem se perder no caminho. Só havia ela mesma de garantia, diante de qualquer tragédia, para retornar para si mesma. – Não preciso dos seus parabéns, mas chega a me admirar que você tenha ousado a dizer o que claramente não sente. – e todas aquelas conclusões eram meros refletores que Astrid sempre pensou que poderia conter, mas parecia uma intervenção estar diante do ex-grifino, a quem encarou no mesmo patamar. E gostaria de não ter sentido nada quando a injeção da presença dele invadiu seu organismo.– Se lhe resta um pouco de memória, você deve saber que minha antipatia por você não é gratuita. Ela sempre foi muito bem direcionada a quem nunca demonstrou interesse por nada além de si mesmo e agora vejo como isso sempre foi sua maior qualidade. Combina com você, de certo modo, especialmente por nunca se preocupar com o que as pessoas possam sentir no meio do caminho. É realmente formidável como você não cresceu, Darius. – de novo, ela se deu por encerrado e ficou aliviada por ainda conseguir se mover, pois, mesmo diante de uma administrável proximidade, era como se ele estivesse em todos os cantos, sufocando-a. Mas, antes de sair de perto de quem já estava chamando mentalmente de um grande trambolho, se sentiu no direito de finalizar, com a voz implacavelmente suave, o que nem sequer começara. – Sobre sua indicação, nada do meu traquejo social me incomoda. A indiferença… Deve te machucar, não?
Não era do feitio de Darius grandes ingestões alcoólicas, ainda assim, estava grato ao universo, e a presença de Brianna, por não ter ingerido uma gota sequer até aquele instante. A sobriedade permitia que estivesse em maior controle de si mesmo, de como percebia seus arredores, da extensão daquele maldito dom que por muitas vezes parecia muito mais uma maldição, e naquele exato instante lhe dava a maior possibilidade de se atentar a cada movimento, cada palavra, cada mínimo gesto advindo de Astrid. Era bizarro que tantos anos depois estar diante dela, aparentemente sozinhos, trouxesse à tona com tamanha facilidade tantas emoções que até então, de maneira consciente, se recusaria a reconhecer. Parecia, estranhamente, que estava despido de sua pele e que seus nervos estavam exposto de tamanha a facilidade com a qual ela conseguia atingi-lo com meia dúzia de palavras meticulosamente calculadas para feri-lo, ao menos assim acreditava. Darius manteve-se encostado em uma das colunas do corredor deserto, a distância que os separava parecia muito diminuta com relação a realidade, tamanha era a crescente sensação de que Astrid ocupava todos os espaços. Sua respiração mantinha-se no compasso da normalidade, toda sua postura indicava neutralidade, mas bastava um olhar mais atento para perceber o misto de emoções que refletia-se nas íris azuladas. De maneira falsamente distraída deslizou as pontas do polegar e do indicador pela barba em seu queixo enquanto, mais uma vez, mantinha o olhar atento diante da mulher que parecia furiosa diante de si. Um breve contentamento, por ser capaz de tirá-la de cerne com tão pouco, o envolveu. - Uau! Você ainda sabe sorrir. - comentou em uma falsa surpresa que era reforçada pelo breve arquear de suas sobrancelhas. - Mesmo esse sorrisinho petulante e sarcástico já é alguma coisa. Prova que você não é tão robótica como sua sobrinha jura que é. Mas ainda mantenho como preferência aquele sorriso que chegava até aos seus olhos. Tempos mais simples. - comentou e embora quisesse mais uma vez irritá-la, a última parte era uma verdade e uma lembrança longínqua. Durante o tempo em que estiveram juntos, no auge da adolescência, arrancar sorrisos e risadas de Astrid o deixava extremamente satisfeito por fazê-la relaxar da postura sempre tão rígida. Era de se admirar que um dia tivessem se relacionado quando eram tão opostos um ao outro - o que, provavelmente, era exatamente o que o atraíra a priori, as diferenças. Darius prosseguiu a observando, digerindo cada palavra ácida desferida em sua direção. A tensão no ambiente parecia palpável, quase insuportável, e se tivesse juízo teria refletido que o melhor que podia fazer pelos dois era afastar-se ao invés de chafurdar em um passado longínquo demais, entretanto, como um bom grifino, não havia uma contenda em que entrasse que não estivesse disposto a dobrar a aposta. Além do mais, a postura de Astrid era absurdamente irritante. - Infelizmente não lembrava de você como uma pessoa divertida. Talvez esse seja um novo traço de personalidade. - pontuou, num tom de voz que se equiparava ao dela, baixo, conciso, mas que inegavelmente carregava ondas de sarcasmo. Envolvido com a presença da ex-corvina mal se dera conta que ao curvar-se para frente, para que pudesse ouvi-la melhor e para que ela o ouvisse melhor, o cordão que carregava no pescoço e cujo pingente fora o último presente de Astrid para si antes do término, escorregara para fora da camisa. Racionalmente nem saberia explicar o porquê ainda o usava, mas poucas vezes o tirara do pescoço desde que ganhara. - Well, darling, em qual momento exatamente passei do limite? Quando não aceitei em silêncio sua provocação nada sutil? Você poderia ter seguido seu caminho e conseguido informações de Alice diretamente ou com outra pessoa. Mas, bem, aqui estamos, e não pela minha mania de grandeza ou porque tenho tendência a menosprezar suas escolhas, mas sim porque você, mais uma vez escolha sua, resolveu que seria interessante me alfinetar sobre algo que até onde sei não deveria te causar qualquer impressão. - embora, à parte de suas funções diplomáticas, fizesse parte de seu treinamento profissional manter frieza e distância em situações de conflito, jamais conseguiria sustentar tal postura diante de Astrid. Suas palavras carregavam um misto nada sutil de ironia e irritação. Ela era provavelmente a única pessoa que conseguia entrar embaixo de sua pele com tamanha facilidade. Nada acostumado a lidar com emoções como aquelas que Scamander lhe proporcionava Darius era muito menos racional do que deveria. - Muito me lisonjeia que tenha reservado tempo na sua vida perfeita para pensar em que tipo de pessoa me tornei. Em suma, conclusões precipitadas, o que não é uma novidade vindo de alguém que apenas enxerga qualquer situação da perspectiva do próprio umbigo. Mais, desrespeitosas, com relação a Alice, especialmente se acredita que me aproximaria dela por um reflexo seu. - enquanto se pronunciava mais uma vez deu passos em direção a ela sem que sequer se desse conta do que realmente fazia. Mente e corpo não pareciam fluir em sincronicidade. Com a proximidade era inevitável não ser atingido pela fragrância do perfume dela. Darius engoliu em seco. Para a sorte de ambos, apesar da espiral de pensamentos confusos e sensações inexplicáveis ele continuava tendo aquele maldito dom que permitia que impedisse de ser pego desprevenido. Sem pensar muito a respeito envolveu o braço esquerdo de Astrid com sua mão direita aproveitando-se da porta aberta do banheiro atrás de ambos para que pudessem entrar até que o corredor estivesse vazio novamente. A sensação da pele macia dela sob seus dedos irremediavelmente despertou-lhe lembranças impróprias. - Darling, antes que você me mate estou apenas evitando que saiam por aí inventando qualquer besteira sobre nossa simplória conversa. Longe de mim manchar sua ilibado reputação. Logo menos você pode voltar pra sua vida de Wendy e poderei me reunir a trupe dos garotos perdidos. - murmurou, com breve ar de divertimento, fitando-a nos olhos com mais intensidade do que deveria. Inevitavelmente vê-la escorada na maldita porta com a expressão de quem poderia estapeá-lo o recordava novamente da adolescência em algumas de suas corriqueiras brigas de casal. - Mas já que a madame resolveu bancar a espertinha cheia de razão, aproveitarei a oportunidade. Gosh, tantas conclusões a meu respeito, Astrid, fazem até parecer que convivemos pelos últimos quatorze anos. Faz parecer que montei um triplex tão grande na sua cabeça quanto o que acredita que montou na minha. Porque, afinal, se você é assim tão madura e indiferente por qual motivo ainda se incomoda tanto? Ou, usando sua teoria, será que não foram só as minhas feridas que não cicatrizaram? - questionou, franzindo brevemente o cenho, ao apoiar-se na pia logo ao lado da porta. Afastar-se fisicamente era essencial para sua integridade física e capacidade de raciocínio. Entretanto, se um corredor largo parecia estreito para ambos, um lavabo parecia ainda menor. Era como se o perfume de Astrid e o calor do corpo dela preenchesse cada mínimo espaço vago. - Se quer saber, minha memória segue intacta. Ainda acredito que tive boas intenções ao não desejar que minha namorada, que imbecilmente amava para caralho, ficasse presa a mim enquanto morava do outro lado do planeta. Obviamente uma ideia imatura e idiota que me fez atravessar a porra do continente para revê-la e tentar conserta a possível cagada já que ela não se dignou a me responder. Fria tal qual uma pedra de gelo. Nem sei porque me surpreendi a época. Entretanto, bastou chegar por aqui para entender que aparentemente alguém estava muito ansiosa para seguir em frente com a vida. Então, bem, sim, sua antipatia me soa gratuita. - disse, pausadamente, ao novamente aproximar-se dela. As íris azuladas transpareciam todo ressentimento que aquela história ainda gerava em si. Astrid fora sua última, e única, namorada, depois dela compromisso estava fora da agenda de Darius. - Eu posso não ter crescido, petite etoile, mas assumo minhas responsabilidades, reconheço meus erros, e jamais usaria outra mulher para tapar a porra do vazio que você fez questão de deixar. Era isso que você queria ouvir, não era? Satisfaz seu fucking ego ressentido? Me humilha o suficiente? Espero que sim. - pontuou, deslizando a ponta da língua pelos lábios, enquanto mantinha o olhar preso ao dela. Adrenalina parecia encher suas veias obrigando seu coração a bombear o sangue com mais força e rapidez. Respirou fundo quando atrevidamente empinou o queixo dela com seu indicador direito para que pudessem melhor se encarar. - Pode dizer e pensar o que quiser de mim, seu direito de estar equivocada é respeitado. Mas vou continuar no meu direito de rebater sempre que possível, especialmente a falácia da falta de preocupação com os sentimentos alheios. Embora, bem, seja inegável seu acerto em não considerar minhas felicitações como das mais honestas. - a proximidade o fazia murmurar de maneira que ela só era capaz de ouvi-lo por conta do excesso da proximidade, que o fazia também sentir as pontas dos dedos formigarem pelo desejo de tocá-la novamente.












