The Final Finally (CAPITULO FINAL)
10 ANOS DEPOIS
O trânsito em Toronto estava cada vez mais caótico. O cheiro da fumaça negra do carro à frente se concentrava bem no meu campo de visão. Nunca gostei de carros. Sempre poluindo o planeta e...matando pessoas. Bom...não gosto deles desde que eu me lembro, na verdade.
Naquele momento, eu apenas queria sair daquela máquina com quatro rodas e correr para o parque. Lá era o único lugar em Toronto que me proporcionava paz. Não queria ir à aquela porcaria de "sessão de terapia". Não queria me lembrar do meu passado, por algum motivo. Preferia assim. estava feliz com Sam, ele era um marido excelente e me dera duas filhas lindas, nada além do que eu sempre desejara...uma família.
Os anos no orfanato foram tensos. Lembro-me até hoje das paredes brancas e doentias que estavam presentes em toda a construção e daquela comida nojenta. Havia tantas crianças lá que eu dividia o quarto com oito delas. Cada uma tinha uma história: Rosie, ela tinha 7 anos e vira o assassinato da mãe solteira.Aimee tinha 12 e perdera os pais em um acidente de carro (mais um motivo pelo meu ódio por carros).Nora tinha a minha idade quando fui parar lá, e ela nunca conhecera os pais, viveu sua vida inteira naquela prisão doentia. Havia muitas histórias horripilantes por lá, mas sempre me pegava perguntando à mim mesma "Mas e eu, qual é a minha história?".
Disseram que foi em um fim de tarde de um outono impiedoso, em uma cidadezinha chamada Stratford.Uma senhora ligara para a ambulância dizendo que havia uma garota desmaiada no meio da rua com muito sangue escorrendo pelos braços e pela cabeça. Quando o socorro chegou, eu continuava desmaiada, e só fui acordar dois dias depois, em Toronto, totalmente inconsciente.
Não sabia sequer meu nome muito menos dizer á quem eles deveriam ligar para avisar o acontecido. Lembro do período que passei no hospital como pequenos fragmentos de um sonho borrado e não nítido. Tudo fora pacato demais.Eu havia quebrado o braço e tinha uma sutura em meu supercílio. Duas vezes por semana, eu consultava um psiquiatra, como se isso fosse me ajudar á recuperar a memoria. Lembro um pouco de sua fisionomia: barba mal feita, óculos fundo de garrafa, uma barriga de um tamanho considerável e um otimismo irritante de que eu recuperaria minha memoria logo. Ele estava tão errado.Eu sequer me lembro meu nome e esse cara quer que eu recupere toda a merda do meu passado?-eu pensava revoltada.
Chegando ao orfanato, tive que escolher um nome.Foi estranho, mas legal, acho que todo adolescente desejaria escolher seu nome.Escolhi Riley.Passava uma certa paz e serenidade a mim ao pronuncia-lo.E eu iria ficar sem sobrenome algum até que uma família me adota-se.
Dois anos se passaram e eu já perdia as esperanças de ser adotada em plenos 19 anos.Lá, ouvi muitas histórias assustadoras de tirar o sono e te fazer dormir de luz acessa.As crianças viviam em um estado precário.O governo não enviava dinheiro á instituição havia anos e ela estava sobrevivendo apenas de doações.Nesse período de tempo, me aproximei de uma jovem com quem eu partilhava o quarto.Seu nome era Mia, tinha 18 anos e tinha visto seus pais e seus avós sendo brutalmente assassinados por pacientes psicóticos de seu pai, um psiquiatra famoso em uma cidade mais ao norte.
Ela tinha sonhos incrivelmente pertubadores.Ela nunca contava tudo, começava a falar e já desabava em lágrimas.
Normalmente eram réplicas bem mais sangrentas e psicopáticas do assassinato que ela presenciou.Isso era realmente muito para uma criança aguentar.Era muito sangue, muita desgraça.
Finalmente, ela foi adotada por uma família espanhola que estava indo viver no Canadá.Mia iria ser feliz.Teria irmãos, uma mãe bondosa e um pai atencioso.Na sua despedida, ela desejou a mesma sorte á mim, e disse que queria me ver em breve.
Alguns meses depois da partida de Mia, um casal (uma mulher pálida e loira, com olhos azuis penetrantes e mãos pequenas acompanhada de um moço alto de cabelos grisalhos e um sorriso amarelo) disse á coordenadora do orfanato que estavam interessados em me adotar.Na entrevista, tentei ser eu mesma, mas eu tinha medo de falar alguma besteira e eles não gostarem de mim.
Eu fazia algumas piadas e a mulher sempre ria delas.O homem era sério e perguntava como eram minhas notas e meu comportamento em sala.Eu não era uma aluna exemplar, mas um B dava as caras no boletim ás vezes.
No final do dia, os levei para passear no jardim do orfanato.Era a parte que eu mais gostava de lá, na verdade...a única.
Naquela noite, dormi pensando em como seria dormir em uma cama confortável, com um travesseiro fofo e comer comida comestível e não a gororoba que serviam no orfanato.
Cinco meses depois, eu já fazia parte da familia Austin.A Sra.Hannah Austin agora era a minha mãe e o Sr.Kane Austin era meu pai.Eu estava tão feliz com a ideia que por muitos momentos esqueci de que...eu havia esquecido.Ainda precisava frequentar o psiquiatra às terças, e eram nas terças que eu lembrava da minha situação.Tomava remedios caríssimos e muito fortes.Mas eu achava isso uma tremenda besteira.Eu estava bem, não queria lembrar.
Na faculdade, conheci Sam.Era inteligente e romântico, eu gostava mesmo dele, mas não o amava.
Uma voz sobrenatural em minha mente dizia que havia alguém...alguém que ainda se importasse comigo; alguém da minha "vida passada".
Já tinha pensado em procurar essa pessoa, mas por onde começar?
Até que nasceu Morgan e tive que dedicar 100% do meu tempo á ela e à casa, e três anos depois nasceu Judy.
E quando eu vi...não precisava mais de nada.Eu tinha tudo o que desejara desde sempre...desde que eu acordei inconsciente naquele mórbido hospital até os tempos de hoje.Eu estava feliz.Mas eu mal sabia, que faltava algo.
Alguma peça que eu tinha o pressentimento que me levaria ao passado, tão indesejado até agora por mim.
Um dia, enquanto bebia café e lia ao jornal da semana, percebi uma reportagem interessante sobre serial killers e um deles atacou em Stratford, exatamente na época que eu morava lá, de certo.Seu nome era Jeremy Bieber, ou se preferir, "O assassino da floresta".Os numeros de mortes eram chocantes.Quase 20 mortes em um mês.De acordo com o jornal, o próprio filho mais velho o entregou a polícia e depois, se mudou para Toronto com os irmãos mais novos.
Li e reli aquela noticia com a impressão de que se lesse nas entrelinhas, descobriria algo sobre mim, eu não sabia de onde vinha essa intuição, mas não era normal.Então decidi ir á bibliotecas em busca de jornais locais de Stratford na época do ataque do famoso "Assassino da Floresta".
Nada que seria útil foi achado exceto uma coisa.Havia uma reportagem que associava o desaparecimento da namorada do filho do serial killer com os seus ataques.Havia dois parágrafos falando que sua mãe havia morrido também nas mãos do serial, horas antes da menina fugir para a floresta e nunca mais aparecer.
Comecei a procurar por mais reportagens associadas ao nome da menina, Alice Carter.Uns a consideravam uma assassina, por acharem que ela matou a propria mãe e depois fugiu.Uns acham que está morta em algum lugar .Mas outros, já pensam que ela pode estar por ai, se escondendo ou até mesmo vivendo uma vida normal.Em uma reportagem, pude ver o dia de seu desaparecimento.Meu coração quase saiu pela boca quando vi que ela desapareceu exatamente dois dias antes de eu acordar no hospital.
Eu tentava tirar essa ideia de Alice Carter da cabeça.Eu NÃO era Alice Carter.Disse a mim mesma mais de mil vezes que não queria me conectar ao passado, mas eu andava tão obcecada com a ideia que eu estava com insônia nos ultimos quatro dias.
Sam disse que minha terapia não estava funcionando e que estava me deixando paranoica, então, arrumou outro psiquiatra para me tratar
"Me tratar"- isso soa como se eu fosse louca, como se eu tivesse algum distúrbio mental.
Eu não tinha que ser tratada!Eu estava ótima e não precisava ir mais ao psiquiatra.
Depois que as meninas foram à escola, Sam me pôs no carro e me levou até a clínica psiquiatrica.Iria consultar meu novo medico.
Esperei alguns minutos, olhando a parede branca e mórbida, como às do hospital em que fiquei.O lugar tinha cheiro de alcool-gel e o chão era impecavelmente limpo.
Quando a secretária mandou eu entrar, senti um pequeno frio na barriga.Sam olhou para mim e balançou a cabeça, me encorajando como se estivesse dizendo "Vai ficar tudo bem, querida.Estarei aqui fora te esperando".
Entrei na sala e me sentei na cadeira confortável de frente para o psiquiatra.
Minha respiração se descompassou quando levantei o olhar para encarar o médico.
Seus cabelos loiros refletiam perfeitamente a luz da lâmpada e seus olhos eram de uma cor suave e tenra.
Seus lábios entreabertos tinham cor de cereja e suas mãos cruzadas sobre a mesa dava à ele um ar profissional.
Tentei focar em seu rosto sem deixar transparecer meu espanto ao ve-lo, porque eu sabia quem ele era, alguma coisa dentro de mim dizia isso.Talvez devemos ter nos encontrado na cafeteria ou até mesmo na fila do supermercado.
Ele me encarava de um modo assustado, como se houvesse visto um fantasma.Olhei para todos os lados e percebi que ele realmente olhava para mim, imóvel.
Seus lábios abriam e fechavam mas nenhum som saiam deles.
Agora eu que estava começando a ficar assustada pelo jeito que ele me olhava.Talvez já havia passado alguns minutos e nada tinha sido pronunciado por nenhum dos lados.
Até que abaixei o olhar para sua mesa e vi uma placa de alumínio escrito com letras formais e pretas o seu nome:Justin Bieber.

















