Run, Little Girl (penúltimo capítulo)
Era uma tarde fria de um outono cruelmente gélido.Estava sentado na frente da TV com Jazzy nos meus braços.A porta se abre bruscamente e uma rajada de vento frio invade a casa quente.Meu pai entra e coloca seu casaco úmido na cadeira.
-Gostei da sua namorada, Justin.-ele disse friamente sentado na cadeira
Eu olhei rapidamente para ele.Meu sangue gelou e o coração veio a boca.
-Ela tinha cabelos lindos, cor de...sangue-ele disse se virando para mim, com um meio sorriso.
Levantei furioso do sofá e grudei ele pelo colarinho da camisa polo e senti o seu cheiro:eucalipto, alcool, nicotina e um perfume barato.
-Se você fez algum mal pra Alice, eu te estrangulo seu vagabundo!-arranjei coragem até aonde não tinha para dizer aquilo.Seus olhos se tornaram mais vermelhos e, daquela vez, eu estava com medo que ele quisesse cravar uma faca em mim
A Tv estava ligada em um volume baixo quase inaudível.Minha mãe estava lá na sua frente com os olhos marejados e um olhar distante.À dias ela estava assim.Talvez estivesse pensando no quão era desafortunada.Infelizmente era a verdade.Seus dois amores, levados pelas mãos da morte.Claro, um era meu pai e o outro era um animal nojento e repugnante.Mas ela os amava.
Subi as escadas rapidamente e entrei no quarto.Tirei meu casaco e o joguei de qualquer jeito sobre a cama.Uma fresta da janela estava meio aberta e fui até ela para fecha-la.Meio que vacilei ao toque na janela úmida e gelada.Espiei pela cortina e avistei uma sombra.Não muito densa mas meio distante,como se me observasse de longe. Temerosa, fechei a cortina rápido.Aquela sombra realmente me deu medo a ponto de meu estômago doer e se revirar.Uma sensação horrível me tomou e deitei de bruços na cama.Senti meu coração acelerar cada vez mais e minha cabeça latejar.Uma coisa ruim iria acontecer.Tentei ignorar a sensação e fechei meus olhos por algum tempo.
A cama macia e quente parecia melhor que nunca e foi impossível lutar contra o sono que me invadia lentamente.
Senti um vento gelado batendo contra minha nuca.Abri meus olhos com dificuldade, ainda vendo tudo embaçado; me virei e vi que a janela estava aberta.E eu jurava que eu tinha fechado antes de me deitar.
O céu já estava escurecendo em tons escuros de azul e laranja.Fechei a janela (novamente?) e fui para baixo, talvez comer alguma coisa ou assistir um filme.
A casa estava silenciosa e o único barulho que se ouvia era de alguns degraus barulhentos da escada enquanto eu descia.Minha mãe não estava mais lá.Cheguei mais perto da sala e um pote de pipoca estava jogado no chão, como se alguém havia deixado ali ás pressas além de a TV ainda estar ligada.Juntei a pipoca do chão e desliguei a TV.Peguei algo para comer e me sentei no sofá macio e confortável.A tarde estava muito, muito silenciosa.Voltei para cima e, ao passar pelo quarto de minha mãe, vi que a porta estava entreaberta e decidi ver se minha mãe estava bem.
As palavras sumiram da minha boca e o que eu pude fazer era soltar um grito rouco e desesperador, sem fôlego.
A roda de sangue tomou conta de toda a cama onde minha mãe estava, enquanto havia um corte imenso em seu pescoço.
"Não, não, não, acorda acorda Alice, acorda"-eu repetia mentalmente para mim enquanto fitava o corpo da minha mãe e suas órbitas vazias encarando o teto.
Um terror nunca descoberto dentro de mim se acendeu e eu comecei a chorar loucamente.Eu não tinha mais nada.Sem pai, sem mãe...mas eu tinha Justin!
Corri para meu quarto e procurei o celular.Liguei 1, 2, 3 vezes no celular dele mas só dava caixa postal.
Voltei para o quarto da minha mãe e, grudado em sua testa com uma fita adesiva amarela, havia um bilhete escrito "Bu!".O peguei e o li de novo tentando entender.Me virei e só lembro de ter caido no chão com força depois de ter levado um soco em um dos olhos.
Meu rosto estava úmido, e quando me levantei, vi que era a terra da floresta que grudava em minha pele.Minhas roupas já estava sujas, como se eu tivesse sido arrastada até aqui.
Agora sim eu estava entendendo tudo.
Era ele.Ela queria me matar.
Eu quis chorar, cavar um buraco naquela terra úmida e fofa e nunca mais sair de lá.Mas não era hora de seguir sentimentos tolos e meus instintos diziam "Corra!Corra que sua vida está em jogo."
E foi o que eu fiz.Corri como uma maratonista nos ultimos metros da corrida.Atravessei, eu acho, que metade da floresta até uma coisa presa na arvore me chamou a atenção.Cheguei mais perto pois a neblina espessa do local desfocava tudo ali.Tapei a boca para não gritar.Era um homem, com o galho da árvore atravessando seu tórax de uma maneira brutal e assassina.O sangue ainda pingava na grama rala fazendo uma pequena poça embaixo de si.Algumas lágrimas teimaram a sair, até que eu vi um bilhete perto do pequeno circulo de sangue no chão.
"Ola queridinha, espero estar gostando do passeio, prepare-se, porque você verá coisas incríveis por aqui!"-dizia o bilhete
Estremeci e olhei para todos os lados.Ele podia estar em qualquer lugar, à espreita de qualquer moita, pronto para o bote.
Mas acho que antes ele queria brincar de marionete.Comecei a andar pela floresta tentando achar uma saída que nunca aparecia.O céu já estava negro, e juntamente com o sol, toda a beleza que ainda podia existir naquela floresta fria havia se desaparecido.
Eu não sabia para onde olhar:para o chão, para os lados, para frente ou para trás.Ele podia estar me vigiando, rindo da minha tolice e pensando como ele me mataria.Já imaginava como era "Fogo ou enforcamento?Facadas ou tiros?"
Minha pele se arrepiou só de tentar entender o que se passava na cabeça de maníacos assim.
Precisava sair daquele lugar antes que se escurecesse de vez.Queria continuar viva.Queria tentar ter uma vida.Uma vida com Justin.Talvez filhos...um ou dois no máximo.E uma casa, grande e branca, em um suburbio de cidade grande.E nos sábados, todos, sem exceção, meus pais viriam jantar em casa e....oh.Bom, esquece.
Comecei a correr depois quando ouvi alguns passos atrás de mim.Ele estava proximo, podia sentir o cheiro de tabaco de longe.
Eu corria o mais rápido que podia,minhas pernas estavam dormentes e meus pés não me obedeciam mais.
Desde que ele chegou,o paradeiro de Stratford mudou completamente.
Agora,estou caminhando para morte,de certo.
Se eu não morrer agora,o resto da minha vida eu seria perseguida por suas sombras e atormentada pelos seus vultos.
Talvez essa floresta escura e úmida seja a minha ultima imagem da vida.
E se vocês querem mesmo saber,não vou estranhar o inferno,minha vida já é uma parte dele.
Agora, no céu não havia mais nada a não ser alguns pontos brancos espalhados aqui e ali e uma lua, cheia e formosa, em um branco frio e monótomo.
Eu não corria mais, estava caminhando.Não calmamente, mas estava.Já estava em lágrimas quando vi uma luz forte mais à frente, nem tão mais forte do que um poste de luz em uma noite escura.
Caminhei mais rápido e até que vi, para a minha felicidade, algum sinal de vida.
Era uma rua, não parecia ser muito movimentada mas...havia pessoas lá!Eu podia pedir ajuda ou sei lá...me esconder em algum lugar.
Senti uma coisa escorrendo perto dos meus olhos.Encostei a mão na testa e percebi que ela estava sangrando.Talvez por causa do soco que levei mas só agora o tinha notado.
Voltei a andar tentando ignorar a ardência do corte que se abrira no meu supercílio.
Um barulho alto veio de trás de mim.Um tiro.Senti um cheiro de pólvora de muito perto."Ele errou"-eu disse quase sorrindo de alegria por não ter morrido naquele exato momento.
Saí correndo pela calçada larga e atravessei a rua.
Mas ela não parecia tão vazia assim.
A ultima coisa que vi foi as lanternas do carro a poucos centímetros de mim.