Undine não conseguia imaginar até onde ia exatamente a liberdade que o seu guardião concedia a ela, pois, até então, nunca havia testado os limites liberais que eram impostos pelo mais velho. E se o próximo plano mirabolante consistisse apenas em pedir autorização?! Poderia funcionar perfeitamente, oras! Leviathan era o seu melhor amigo, ele entenderia as suas necessidades de se aventurar um pouco, a sereia esperava que sim. Pensando nisso, uma das mãos se levantou e ela a gesticulou em um símbolo de “espere”. —— Sim, nós temos uma vantagem… E podemos ter outras, mas isso não importa por agora, uh? Tudo que você precisa pensar é para onde nos levará nos nossos próximos passeios. Apenas me diga onde te encontrar e eu estarei lá. —— e poderia ser muito confiante da sua parte, mas o fato é que tentaria conseguir uma permissão da mais apropriada. Se não conseguisse, daria um jeito, como sempre fizera. Mas, bem, que o futuro ficasse para outro momento, tinham o agora para aproveitar. E a conversa que mantinham fazia com que ela refletisse a respeito do seu pai. Se o general tinha chances de escolher Theo para ser o protetor de Undine? Ah, não que quisesse soar desanimadora, mas as chances eram muito baixas. O sereiano era deveras protetor com a sua filha, todos os membros da corte dos mares sabiam, e o processo seletivo para escolher os responsáveis para cuidarem de seu bem mais precioso era, no mínimo, mais rígido do que muitos soldados aguentariam. Sendo assim, os seus lábios se uniram em um sorriso consolador e a sua mão se estendeu a mão de maneira que pudesse acariciar o braço do outro em uma espécie de carinho de consolo. —— Quer saber, Theo? Não importa se meu pai pudesse pensar que você me deixaria morrer espatifada como um mosquito no nosso primeiro passeio. O que importa é que eu me sinto segura com você. Então, por favor, nunca me deixe morrer espatifada como um mosquito. Até porque ele te mataria… e eu voltaria para te assombrar. —— complementou posteriormente, dando um leve tapinha no braço do rapaz. E suas palavras não se tratavam apenas de falácias para animá-lo, não mesmo, a confiança de Undine no feérico era genuína, tanto é que ela não se arrependia de segui-lo para onde quer que fosse. —— Você diz isso porque ainda não conheceu nenhuma má humorada. Elas continuar a te elogiar, mas sempre tem algo para se queixar. — — o seu rosto se contorceu em uma careta e a sua língua se estalou no céu de sua boca conforme a sua cabeça se balançava em uma negação. Ela não poderia descrever o quão irritante era quando aquilo acontecia! Talvez, futuramente, buscasse alguma para ele apenas para comprovar o que dizia. […] Posteriormente, tudo que esperava era que eles saíssem de uma vez, porém a movimentação gentil em seus fios de cabelo a pegou de surpresa. E, ainda que ela não soubesse o que esperar daquilo, Undine permaneceu quieta ao passo que o rapaz mexia em seus fios; seu rosto sendo capaz de expressar a sua confusão com o ato. —— O que está fazendo? —— ela perguntou baixo, demorando mais alguns segundos para perceber que ele formava algum penteado com o seu cabelo. Espere! O seu cabelo estava desajeitado demais ou o quê? Não que fosse desleixada com a sua aparência – certamente, não era — mas, geralmente, não era como se a sereiana procurasse fazer muitas invenções em seus fios. Não tinha muitas habilidades para isso e, internamente, julgava ser humilhante fazer com que suas amigas a arrumassem constantemente. O que sua mãe diria a respeito daquilo? Podia até mesmo escutar o sermão a distância! Todavia, a resposta da parte do rapaz aconteceu pouco depois e ela se sentiu aliviada pelo motivo para aquilo. —— Ahn… Claro! Eu não costumo me incomodar muito, mas obrigada pela gentileza. Dessa vez, não vou precisar comer cabelo. —— complementou com um tom risonho, lembrando-se momentaneamente do incômodos que os fios havia lhe causado da última vez e permitindo que um riso baixo escapasse de sua garganta. Os esguios braços se firmaram em torno do pescoço de Theodoric e os seus lábios terminaram por formar um sorriso sincero com as suas palavras, seu coração dando uma leve palpitada de felicidade pelo comentário tão espontâneo. —— Ahn… Eu agradeço, Theo. —— sussurrou para ele, antes de apoiar o rosto contra o peitoral do outro. —— Mas essa é a primeira vez que me chamam de rostinho de bolacha… Isso quer dizer o quê exatamente? Eu sou tão comestível como um biscoito, eu tenho buraquinhos na pele que nunca me avisaram ou meu rosto é achatado como um deles? Me ajude a levar o elogio para o lado bom da coisa, se existe um. Se não existir, minta, por gentileza.
O feérico esperou com que a sereia concluísse o seu pensamento, não sendo capaz de evitar o cenho franzido com a fala completa da outra, imaginando o que ela faria para estar presente quando ele lhe convidasse para um passeio, no entanto, ele apenas assentiu. Theo raramente duvidava do que Undine era capaz de fazer, mesmo que pudesse soar surpreso ao vê-la se desvencilhar de Leviathan com facilidade, ainda assim não se surpreendida. Conhecia-a por tempo o bastante para ter certeza que se ele falasse para estar na torre de astronomia à meia-noite, ela o estaria. E, bem, isso havia lhe dado até outra ideia, mas deixaria para comentar posteriormente. Um passeio de cada vez. “Estarei contando com suas habilidades de sereia ninja.” Caso Undine pudesse ver o efeito que suas palavras tiveram em Raignald possivelmente seria contagiada pela emoção do feérico. Theo sorria abertamente com o fato de a outra demonstrar tamanha confiança em si, assegurando que se sentia, de fato, segura em seus braços. No entanto, ele apenas pigarreara a fim de afastar a emoção de sua voz, negando com a cabeça. “Eu nunca deixaria você morrer espatifada como um mosquito! Eu só não sabia que a chuva fazia suas pernas virarem uma cauda e que você ficava mais pesada assim…” Muito mais pesada; embora não fosse algo que um cavalheiro diria para uma dama, o moreno não se importou totalmente. A intimidade era um problema, de fato. “Mas seria o fantasma mais legal que assombraria alguém.” Concluiu em seguida, embora não sonhasse com o assombro de um fantasma para si. Conviver com mortes o tempo todo era o bastante para Theodoric e ele não desejava que uma dessas mortes se transformasse em uma maldição. E, claro, não desejava ver Undine morrer tão cedo, afastando, assim, o pensamento para o mais profundo de sua mente, ignorando completamente aquela ideia. Já era o bastante pensar no que poderia acontecer a Donn em um futuro próximo. O sentimento negativo, portanto, fora tomado pela força de vontade de Theo em simplesmente não pensar em assuntos ruins. Era como o elfo lidava com os mesmos, aliás; sempre os empurrando para o mais profundo, fazendo um amontoado que não visitaria em vida, se possível. “E nem quero conhecer, por favor! Já basta a irmã de Donn falando na minha cabeça.” E o próprio que, embora fosse o melhor amigo, ocasionalmente tinha opiniões sobre Raignald. Organizar o cabelo de Andrina fora uma tarefa fácil, até; Julen, embora guardada as proporções, sempre o obrigava a trançar o cabelo que era grande demais para uma pixie tão pequena. “Eu posso te ajudar nas próximas vezes, se quiser. Eu realmente gostei de você assim. E fadas não podem mentir, lembra?”Ainda estavam no ar quando dissera isso, ajeitando-a melhor em seus braços para que o voo não fosse, em nenhum momento, um perigo como o de outrora. “Rosto de bolacha quer dizer que ele é redondo; suas bochechas são cheinhas. Não quer dizer que tem furos nem nada. Na verdade, para uma pessoa que fica muito tempo debaixo d’água, sua pele é bonita.” […] Os pés de Raignald tocaram o chão úmido pelo orvalho com o céu já brincando com suas cores. Bem a tempo! Ao comemorar em sua mente, deixara Undine descer de seus braços, muito embora tenha mantido uma de suas mãos entrelaçadas a da sereia. Por alguma razão, ele não queria a soltar naquele momento, sentindo-se confortável demais com o toque da morena para que a deixasse ir antes que tivesse de deixá-la em seu quarto na ANA. “Eu sei que você deve estar se perguntando onde estamos e o que vamos fazer” – Theo começou, antecipando qualquer fala da sereia. “Viemos ver o nascer do sol!” Anunciou olhando para o céu e, antes que a outra pudesse falar algo, novamente se antecipou: “Eu sei que você não pode ver o nascer do sol, mas você pode sentir isso. Só deixe os primeiros raios virem sobre o seu corpo” e, mesmo que tivesse certeza do que falava, sua face se aquecia com o constrangimento de uma possível escolha errada. “Lá vem…” Anunciou se aproximando um pouco mais de Undine, as íris azuladas observando os raios solares antes de voltarem para a face da sereiana. “Eu sei que você ainda não entende todas as cores, mas imagine isso como um amarelo. Essa cor é como-como um banho quente depois de um dia de chuva; algo que relaxa o seu corpo e aquece ele por completo. É o mesmo que estar com alguém que você gosta. Você não se preocupa com nada porque está com a melhor pessoa do mundo naquele momento. Seu corpo está relaxado e aquecido nos braços de alguém.” Concluiu com um sorriso contente por ver sua expressão, antes de lançar novamente sua atenção para o evento que acontecia naquela manhã. Como um ato comum do dia-a-dia, inconscientemente, Theodoric trouxera o corpo de Undine para mais perto, abraçando-a com o braço esquerdo. “Bom dia, Dine.” Sussurrou em seu ouvido.