Quatro anos atrás eu escrevi um texto dizendo porquê eu tinha votado na Dilma. Quatro anos atrás eu estava convicta que o governo petista nos dois mandatos do Lula era a melhor coisa que tinha acontecido ao Brasil e, por isso, deveria continuar com Dilma. Quatro anos atrás, eu pensei "em time que está ganhando a gente não mexe".
Quatro anos se passaram. Não posso dizer que Dilma me decepcionou - ao contrário, ela foi bastante continuísta nas melhorias já feitas durante o governo Lula e implementou alguns novos programas (como o Pronatec) e mexeu em coisas (como a criação da Comissão da Verdade) que precisavam ser feitas. Entretanto, nesses quatro anos a minha visão política foi se alinhando cada vez mais a esquerda e, com isso, o PT foi deixando de me representar pouco a pouco.
Minha candidata no primeiro turno foi Luciana Genro. Não foi a mais simples das opções porque, como eu disse há 4 anos, Aécio seria um forte concorrente e isso, por si só, me fazia querer votar em Dilma para não dar chances para um segundo turno.
Mas Luciana defendia bandeiras que eu considero justas - a equiparação salarial entre homens e mulheres, os direitos LGBT, a laicidade estatal, a tributação de grandes fortunas, a regulamentação da maconha, o direito do corpo da mulher e por aí vai. Foram essas bandeiras que me fizeram integrar os 1,6 milhão de pessoas que votaram 50. Me incomodou muito que Dilma, apesar de mulher e ateísta, não tenha se preocupado com algumas destas questões.
Eu sei, entretanto, da importância, das diferenças e, principalmente, das funções dos três poderes. Legislativo, executivo e judiciário são, ao mesmo tempo, independentes e interdependentes. Se um poder se sobressai ao outro, as coisas deixam e funcionar no processo político.
Os deputados e senadores, por exemplo, são os responsáveis por criar projetos de lei, isto é, documentos que preveem nossos direitos e deveres como cidadãos. Ou seja, muitos avanços dependem deles. Se o presidente passa por cima desse poder e determina alguma coisa por decreto, essa determinação não foi democrática. É, portanto, uma soberania do executivo sobre o legislativo, também conhecido como ditadura.
Muita gente, porém, faltou na aula de história que explica a diferença dos três poderes, então só acha importante eleger candidatos de cargos executivos, quando, na verdade, o executivo pouco faz sem o apoio do legislativo. E o judiciário? Bom, o judiciário não tem eleição direta. Mas é responsabilidade dele de investigar e manter executivo e legislativo trabalhando em prol da democracia.
Pois bem. Digressão a parte, Luciana não foi para o segundo turno. Uma pena para os ideais políticos, porém uma coerência pelo simples fato de que sem base aliada no legislativo, um governo do PSOL não teria muita força executiva. Restavam Dilma e Aécio numa disputa entre PT e PSDB, como tem sido nos últimos 12 anos.
Aí eu volto no que eu disse quatro anos atrás - é pra frente que se anda. Olhando o modelo de governo PSDBista no meu estado natal, que eu tanto amo mas tanto sofro, não dá pra eleger um partido com histórico de panos quentes e falcatruas varridas para debaixo do tapete. Não dá para votar num partido que faz "As Meninas" ter razão - onde o rico cada vez fica mais rico e o pobre cada vez fica mais pobre. Não dá para votar a favor de manter a polícia militarizada. E, principalmente, agora sobre o candidato em questão, não dá para votar num homem machista e debochado. Simplesmente não dá.
A minha opção, portanto, foi Dilma de novo, mas não pelos mesmos motivos que me levaram a votar nela da primeira vez (embora eu simpatize muito com a figura Dilma Rousseff). O que não dá para deixar barato, porém, é a ignorância (no sentido real de falta de conhecimento e no sentido atribuído de truculência) vencer o debate. Então vamos aos fatos:
- é mesquinhez falar que o Bolsa Família foi responsável pela reeleição dela: R$ 77 (com teto de R$ 252) não mudam as nossas vidas médias no conforto dos nossos lares médios, mas tira da miséria milhares de brasileiros;
- um voto vale exatamente um voto: pouco importa em quem você votou; pouco importa quem você é, qual seu nível de instrução, onde você mora e quais posses você tem, o seu voto vale exatamente o mesmo que o voto do cidadão ao lado - seja ele o Silvio Santos ou o morador da periferia que madruga todo dia para pegar o ônibus lotado em direção ao centro onde ele trabalha ou estuda. Um voto vale um voto, pare de se achar melhor por qualquer que seja o motivo;
- democracia não é só se o seu candidato ganhar: você pode - e deve! - cobrar o candidato que foi eleito de fazer as melhorias necessárias na sua cidade/estado/país, só tenha certeza que você está reclamando pelo motivo certo e à esfera correta de poder;
- impeachment não é bagunça: o povo tirou o Collor do poder no processo de impeachment porque foi comprovado crime político. Você não pode pedir impeachment de um governante que não cometeu nenhuma improbidade administrativa pura e simplesmente porque ele (ou ela) não é o candidato que você escolheu. Deixe de ser mimado e se achar o dono da razão universal e aprenda a viver democraticamente;
- maioria eleitoral é maioria eleitoral: teve cidades em que a diferença na disputa de votos foi de 5 votos. Ainda que essa fosse toda a diferença nessa eleição, essa maioria teria definido o presidente eleito;
- procure as fontes: como jornalista e como cidadã é um apelo que eu faço: vamos ler um pouco mais o jornal, procurar melhor a fonte, ver a mesma notícia em outros veículos antes de determinar que qualquer coisa é realidade absoluta do universo e sair reproduzindo aquilo que nem um disco riscado (vivi numa era que ainda existia vinil, beijos);
- e, por fim, vamos estudar um pouquinho mais de ciências humanas (história, geografia, sociologia, política). Não só no momento pré-vestibular, mas para a vida. Se a gente não olha para o que passou, não tem chance de entender e planejar o que está por vir.
É isso. Espero que ninguém tenha perdido amigos por causa da acalorada disputa de xingamentos e argumentos vazios e que a gente dê realmente um passo a frente no processo democrático desse nosso maravilhoso país tropical onde a gente vive em busca de um fusca, um violão e uma nega chamada Teresa.