(In)compatíveis: Personagens principais
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Capítulo 3 – “Estamos quites agora?”
Os dias passaram mais rápido do que imaginávamos, o fim de semana se aproximava e meu humor não poderia estar pior. Eu só acho que se a vida fosse mesmo justa, em vez de menstruar, as mulheres receberiam um simples email da Mãe Natureza todo mês dizendo "Você não está grávida. Tenha um bom dia", mas infelizmente isso nunca vai acontecer. Querer ficar deitada o dia inteiro é pedir demais?
— Bom dia flor do dia – Dan brinca ao ver minha feição irritada quando chego à cantina e jogo minha mochila na mesa.
— Mau dia! – saio para comprar algo para comer.
— Melhor a gente nem conversar hoje com ela, vocês já sabem o motivo – ouço a Mari avisar os outros na mesa e eu agradeço mentalmente por isso. Quando volto, vejo alguém sentado no meu lugar.
— O que você está fazendo no meu lugar, Pedro? – pergunto irritada.
— Ele tem seu nome por acaso? – ele me olha sem ter noção do perigo.
— Minha mochila está aí, é mais que o suficiente para indicar que eu estava aí. – cruzo meus braços e aperto meus punhos.
— Isso não é mais um problema então. – ele sorri ao tirar ela da mesa me fazendo ficar boquiaberta. Ouço as meninas murmurarem algo sobre ele estar morto. Sem pensar duas vezes, o empurro da cadeira com força até ele cair no chão, depois me sento e pego minha mochila.
— Qual é o seu problema? É só um lugar, Melissa! – ele levanta e me olha com o rosto vermelho.
— O problema é que você resolveu me irritar no dia errado.
— Então para você todo dia é um dia errado, porque você aparenta não ter a capacidade de ser educada e gentil. Você me julga tanto, mas fique sabendo que você não fica atrás. Aliás, eu nem sei como alguém consegue ficar com você. – cada palavra me atinge como um soco e mesmo que meus olhos tenham ficado marejados, eu não me permitiria chorar na sua frente.
— Não fale como se não tivesse ficado comigo. – ri sem humor não conseguindo falar mais que isso.
— Por causa de um jogo. Apenas. – ele me olha com um ar de desprezo e sai andando.
— Você tá bem? – as meninas me olham preocupadas e eu aceno com a cabeça. – Amiga, ignora o que ele falou, você sabe que não é verdade. – Mari mexe no meu cabelo tentando me acalmar.
— Eu sei. – fungo e respiro fundo. – Eu só vou dar uma volta antes de entrar. – pego minha mochila e me levanto forçando sorrisos.
— Mas e seu lanche? – a ruiva pergunta confusa porque eu o deixo na mesa.
— Pode ficar, eu não estou mais com fome.
Começo a vagar pelo colégio sem rumo chorando silenciosamente enquanto ouço um cover de Elastic Heart. Como alguém pode ser tão rude? Eu sei que não sou a pessoa mais fácil de lidar, mas ele não precisava ter falado daquela maneira. O sinal soa, indicando o início das aulas e eu corro assustada em direção a sala por ter perdido a noção do tempo e ter me atrasado. Por sorte a professora ainda estava na sala de professores quando eu cheguei.
— Por que seu rosto está vermelho? – Bea pergunta ao me ver.
— Eu estava correndo – o que em parte era verdade, mas não era o real motivo. – Alguém tem água?
— Se você encher, sim. – Mari me joga sua garrafinha amarela.
— Só vou porque estou com sede – pego a garrafinha e vou até os bebedouros cantando baixinho. Quando volto dou de cara com o Pedro, mas finjo que não o vi. Eu não vou deixar ele estragar meu dia. – Aqui está – sorri entregando para a Mari.
— Alguém está de bom humor agora. – ela percebe.
— Eu decidi que não vou deixar nenhuma opinião alheia me afetar hoje – olho de relance para o garoto de cabelos castanhos aparentando estar inabalável.
— Essa é minha garota – Bella sorri orgulhosa.
As horas passam e o intervalo chega. Eu e as meninas saímos comentando sobre a Bea e o Brad que às vezes somem para darem uns amassos.
— Melissa? – ouço meu nome ser pronunciado e ao reconhecer o dono da voz paro de rir.
— O que você quer? – pergunto indiferente.
— Será que podemos conversar às sós? – ele olha para as meninas que estão prestando atenção à conversa atentamente.
— Não tem nada que você não possa me falar na frente delas. – cruzo meus braços e o encaro esperando alguma resposta.
— Okay. – ele suspira passando a mão no cabelo. – Eu acho que peguei pesado com você novamente...
— Você apenas acha? – o interrompo.
— Posso continuar? – ele parece estar querendo fazer as pazes.
— Claro. – dou de ombros para continuar indiferente à situação.
— E mesmo que eu adore ficar te provocando, ficar brigado com você é meio chato. Então... – percebo que ele está sendo sincero e me seguro para não sorrir.
— Você quer se desculpar?
— Eu não peço desculpas – ele ri nervoso.
— Então o azar é seu, porque eu não vou voltar a falar com você – passo por ele esbarrando em seu ombro.
— Melissa! – ouço ele resmungar e apenas ignoro.
— Por um segundo pensei que vocês iam fazer as pazes. Fiquei frustrada agora. – ri da Mari reclamando e vou para a fila da cantina com elas.
— Qual o problema em pedir desculpas? Não é como se eu estivesse matando o orgulho dele com isso. – falo despreocupada.
— Talvez a Mari possa descobrir, já que toda hora ela e o loiro de olhos azuis estão conversando – Bella empurra a morena com o ombro e a mesma cora.
— Humm. – eu e a Bea brincamos.
— E eu não sabia disso? – olho para a Mari fingindo estar ofendida.
— Vocês são tão exageradas. – ela revira os olhos. – Ele é legal e a gente só está conversando – ela tenta fingir que não é nada demais.
— Então por que você ainda está vermelha? – a loira provoca.
— Okay, eu acho ele bonito – ela confessa.
— Quem é bonito? – ouvimos uma voz masculina e começamos a rir.
— Fala para ele, Mari – pressiono ainda rindo e olho para o Raff que aparenta estar curioso.
— É... um personagem de uma série que eu gosto – ela gagueja um pouco, mas consegue escapar.
— Qual é o nome dele mesmo, Mari? Raphael? – a ruiva sorri diabolicamente e a morena lança um olhar mortal para ela.
— Qual é essa série? – o loiro pergunta confuso.
— Shadowhunters. – ouço o Daniel responder e a Mari soltar a respiração aliviada.
— Ah, eu não assisto essa, mas eu comecei a assistir aquela que você me indicou – ele começa a falar com a Mari e o Dan com a gente.
— Por que você não deixou ela se enrolar, Dan? – a ruiva resmunga.
— Eu não sou mau igual você, Bella. – ele aperta o queixo dela e ela revira os olhos rindo.
— Eu só estava tentando ajudar – ela dá de ombros e eu paro de prestar atenção quando recebo uma nova mensagem de um número desconhecido.
Se eu te pagar o almoço hoje eu consigo me redimir? – P.
Sorri discretamente e começo a escrever uma resposta.
Me: Está tentando me subornar, Pedro? Que feio, mas eficaz J
Pedro: Estamos quites agora?
Me: Se trazer meu chocolate favorito junto sim
— Com quem tá conversando? – Bea pergunta sussurrando.
— Com um certo idiota que não pede desculpas. – bloqueio meu celular e olho para ela sorrindo.
— Mas vocês não discutiram há uns 5 minutos? – ri da expressão surpresa dela e compro meu lanche.
— Ele me fez mudar de ideia – vou para a mesa com ela, deixando os outros 4 para trás.
— Vocês dois estão ficando? – ela pergunta com um tom mais alto e eu bato no braço dela de leve.
— Ew, não. Ele vai pagar meu almoço – ri e me sento.
— Duvido que você não queira ficar com ele de novo. – reviro os olhos ainda de bom humor.
— Depois de ele ter dito que só ficou comigo por causa do jogo? Não, obrigada. – bebo um pouco do meu suco.
— Advinha que vai dar uma festa sábado? – a ruiva chega pulando.
— Quem? – perguntamos rindo dela enquanto o pessoal se senta.
— Alex – Dan pega um dos meus cookies e eu bato em sua mão.
— Eu te odeio. Sempre estragando meus planos – Bella se vira pra ele com o semblante fechado.
— Vocês duas são egoístas sabiam? Querem exclusividade para tudo, até para contar uma novidade que nem é a maior do ano. – ele continua comendo meu cookie apesar da minha feição emburrada.
— Quem é Alex? – Raff pergunta. Desde a festa de recepção ele não parou de andar junto com a gente.
— Um amigo nosso...
— Ele é mais que seu amigo na verdade, Mel. – a loira acrescenta mexendo em seu cabelo e sorrindo levemente.
— Apenas uma amizade colorida, nunca passou disso, Bea – reviro os olhos rindo, mas logo fico pensativa. – Por que ele não me falou antes da festa? – resmungo.
— Você checou seu celular nos últimos 10 minutos? – minha prima pergunta e eu nego. – Respondido então. Já pedi para ele colocar todos os nossos nomes na lista.
— Colocou o do Pedro, Raphael, Julie e Brad? – ela assente. – Ótimo! – sorri e conversamos sobre outras coisas até o sinal tocar.
(...)
— Você vai mesmo comer isso tudo? – Pedro pergunta surpreso ao ver meu prato cheio. Mas dessa vez ele estava exagerando, não era como se eu tivesse feito uma montanha de comida.
— Sim! – respondo sorrindo. – Acho que você deve ter percebido que eu amo comer, já que é a segunda vez que você se “redime” me comprando comida. – sento na mesa de frente para ele.
— Agradeça ao Daniel. – ele ri fraco. – Mais alguma coisa que eu deva saber? – ele me olha e começa a comer.
— Bom, sua ex está olhando aqui e eu tenho quase certeza que ela está me queimando com os olhos — aceno para provocá-la e ele olha na direção que estou acenando.
— Esquece a Camy. Um dia ela supera. – ele dá de ombros rindo e volta a olhar para frente.
— Okay – começo a comer e ficamos em silêncio por um tempo. Acho que a respiração dele não me irrita mais como antes.
— Melissa? – ele quebra o silêncio quando acaba de comer.
— Pode me chamar de Mel – dou de ombros.
— Mel, eu menti hoje de manhã – assumo uma expressão confusa e ele continua. – Eu não fiquei com você só por causa do jogo, eu só falei aquilo porque fiquei irritado quando você me empurrou. E ficar brigado com você é um saco porque você não sai da minha cabeça desde aquele dia. Deve ser algum tipo de karma, sei lá. – fico um pouco boquiaberta porque definitivamente eu não esperava ouvir aquilo.
— Está falando sério? – olho para ele.
— Queria não estar, você é bem chatinha às vezes sabia? – ele brinca e eu rio.
— Não mais que você – sorri bebendo meu refrigerante.
E por mais incrível que pareça, nós passamos algum tempo juntos sem discutir. Claro que ficamos nos provocando, mas nada demais. Ele já não é mais insuportável para mim.
(...)
Finalmente é sábado! A semana letiva terminou e junto com ela os piores dias do meu mês. O quarto da Bella está virado do avesso de tanta roupa espalhada. Como ela ainda não tem uma colega de quarto, decidimos nos arrumar e encontrar todo mundo aqui já que iríamos juntos para a casa do Alex.
— Estamos em 9, certo? – Raff para na nossa frente contando. – Eu não vou beber hoje, então Pedro, Brad, Bea e Julie vêm comigo?
— Eu levo as outras 3 malucas – Dan destrava seu carro.
— Você me respeita, Parrish! – aponto o dedo, mas acabo rindo.
— Vem logo! – sou puxada pela Mari.
Durante o caminho ligamos o som bem alto e fingimos estar com microfones, no banco de trás estava eu e a Mari abraçadas fingindo sermos uma dupla enquanto os outros dois conversavam e riam.
— Chegamos! – Dan estaciona um pouco longe da casa e nós descemos animadas enquanto entramos na casa que estava cheia. – Quando alguém quiser ir embora me manda mensagem ok? – ele nos olha e nós assentimos. – Ótimo, vejo vocês em algumas horas. – ele pisca e eu faço careta porque entendi o que ele quis dizer.
— Cozinha? – pergunto para as duas assim que ele sai.
— Achei que você nunca ia perguntar. – Bella nos puxa sem se importar em esbarrar nas outras pessoas.
Saímos de lá com seis copos, dois para cada e então começamos a procurar nosso pessoal, o que foi uma missão falha, já que os meninos sumiram. Desistimos e quando chegamos na pista de dança improvisada, encontramos a Bea e a Julie.
— Ainda bem que vocês apareceram. Vocês acreditam que aqueles três idiotas sumiram? – Julie fala indignada e eu rio.
— Não surpresa, no momento que a gente entrou o Daniel fez a mesma coisa.
— Vamos dançaaaar?! Eu adoro essa música! – a loira começa a dançar e fazemos o mesmo.
Uma música se tornou várias e mesmo sem usar saltos, minhas pernas pediam descanso. Eu nem vi o Alex ainda, eu sinto saudades dele. Deixo as meninas lá e começo andar pela casa.
— Oi gata está procurando boa companhia? – um garoto aleatório para na minha frente.
— Estou, mas com você por perto vai ficar muito mais difícil encontrar. – sorri falso e continuo andando, mas ele volta a falar comigo.
— Ei espera gata, vamos conversar. Eu queria te conhecer. – respiro fundo para ter um pouco de paciência.
— Posso te fazer uma pergunta? – pergunto sem nenhuma emoção transparecendo.
— Claro – ele sorri.
— Você sabe qual a diferença entre ir a uma festa e ir a um circo?
— Não sei, qual é? – ele pergunta confuso.
— Quando você vai ao circo os palhaços não falam com você. – sorri ao deixar ele boquiaberto e vou para a cozinha encher meu copo. Fico encostada numa parede e observando as pessoas por alguns minutos até outro garoto vir falar comigo.
— O que essa garota linda está fazendo sozinha? – reviro os olhos com o tom sedutor e não me dou nem o trabalho de olhar.
— Olha, eu não estou com paciência para aguentar mais um idiota mexendo comigo, então antes que eu me irrite, por favor sai daqui. – bebo um gole de vodka e continuo a olhar para frente.
— “Por favor”? Esse colégio está te mudando mesmo, Mel – escuto uma risada conhecida e me viro na hora.
— Alex! – sorri ao vê-lo.
— Em carne e osso, mas um pouco mais gostoso. – ele se exibe e eu nego com a cabeça rindo antes de abraçá-lo.
— Que saudades! Eu estava te procurando, aliás, essa festa tá muito boa e... – começo a falar sem parar.
— Calma aí garota. Isso é vodka com energético? – ele cheira meu copo e eu rio.
— É... Você sabe que isso me deixa agitada.
— Onde estão as meninas? – ele olha ao redor.
— Dançando – dou de ombros. – Sabe de uma coisa? A gente deveria fazer o mesmo. – viro o restante da bebida que contém em meu copo e pego em sua mão indo até o aglomerado de pessoas.
— Pensei que estava com saudades de mim. – ele fala enquanto me segue.
— E eu pensei que gostava quando eu dançava com você – paro e coloco meus braços entorno de sua nuca.
— Nós podemos fazer as duas coisas. – ele beija meu pescoço enquanto fala e embora eu adore quando ele faz isso, prefiro acabar logo com essa distância beijando-o, mas sem parar de dançar.
— Eu não acredito que você vai ficar comigo a festa inteira – ri após ter se passado mais de uma hora e ainda estarmos juntos.
— Por que não? Tá interessada em alguém? – ele morde meu lábio.
— Eu estou ficando com o dono da festa, quem eu iria querer? – falo sorrindo e o beijo.
— O que você acha de irmos para o meu quarto? – ele pergunta entre o beijo.
— Não vai acontecer, vão sentir sua falta – sorri e lhe dou um selinho.
— Deixa eles sentirem. – ele ri e tenta me convencer beijando meu pescoço. Esse babaca sabe meu ponto fraco.
— Tentador, mas não – me afasto um pouco e arrumo meu cabelo.
— Você me deixa louco sabia? – ele passa a mão em seu maxilar enquanto me olha.
— Yeah, desde o dia que te conheci – sorri orgulhosa. – Vou ao banheiro ok? – dou um beijo rápido no Alex e saio.
Meu erro foi ter aberto a porta sem bater: havia um casal praticamente transando na bancada.
— Procurem um quarto! – falo assim que me deparo com aquela cena.
Eles se desgrudaram na hora e fizeram cara de assustados. Por dentro eu estava quase morrendo de rir. Era uma cena engraçada até.
— Desculpa moça! – o garoto fecha a calça rapidamente.
— Ai meu deus que vergonha! – a garota desce o vestido e arruma o cabelo.
— Relaxa! Mas usem camisinha! – ri fraco e eles acabam saindo do banheiro. Bom, melhor para mim. Faço o que preciso, me olho no espelho e vou até onde estava com o Alex, mas não o encontro lá.
Eu sabia que ele ia fazer isso, Alex é muito galinha. Não consegue ficar preso por muito tempo. E é por isso que nos damos tão bem.
Me: Vamos embora??
Dan: Me encontra aqui na frente da casa, as meninas estão aqui.
Vou até onde ele diz e encontro todo mundo, incluindo o Alex.
— Eu falei que ia ficar com você a festa inteira. – ele sorri e pega na minha mão.
— Inacreditável. – ri e abraço a cintura dele, depois olho ao redor e só então vejo a Mari e o Raff ficando. – Quando isso aconteceu? – pergunto surpresa e o Brad que está encostado no carro com a Bea na sua frente responde:
— Há uma hora atrás quando você ainda estava sumida.
— É... Depois que eu achei o Brad e a Julie começou a ficar com um menino X, ela cansou de segurar vela e foi te procurar. – a loira completa. – Mas acho que ela achou ele primeiro.
— Eles são fofos. – sorri ao olhar para eles trocando carícias.
— Nós somos fofos. – Alex resmunga e eu rio.
— Não somos não! Ainda mais você.
— Se não fosse por mim você ia passar parte das suas férias chorando vendo comédias românticas e se enchendo de sorvete. – ele finge jogar o cabelo e isso só me faz rir mais.
— Tem razão. – sorri e dou um selinho nele.
— Ai gente, eu amo tanto vocês. Por que a gente não dança? – Bella chega bêbada e nos abraça de maneira desajeitada.
— Eu cuido dela – Dan ri em negação antes de pegá-la pelas coxas e colocá-la em seu ombro indo para o carro.
— Acho que é melhor eu ir. – me viro para o Alex que resmunga.
— Por que não dorme aqui? Eu te levo para o colégio ou para casa amanhã. – ele sorri malicioso e eu reviro os olhos achando graça da sua insistência.
— Desiste Alex – apoio minhas mãos em seu peitoral e o olho.
— Okay, mas eu mereço um beijo pelo menos. – o puxo pela nuca e colo nossos lábios, aprofundando o beijo logo em seguida, que aos poucos se tornou mais intenso. Nós sempre fomos como uma chama. Quando nos afastamos vou até a Mari e o Raff.
— Mari você vem com a gente ou vai com o Raff? – olho para ela que sorri.
— Eu vou com ele, mas ainda temos que esperar o Pedro.
— Julie você vem com a gente então. – puxo ela.
— Vocês iam me deixar aqui? – quando estamos entrando ouço o Pedro chegar.
— Não, você vai com os quatro – aponto para os dois casais e ele nos olha com uma cara engraçada.
— Para eu ficar segurando vela? Ah fala sério! Eu sei que tem mais um lugar aí. – ele vem até nós e eu faço o Dan ligar o carro.
— Até tem, mas você demorou demais, tchau! – mando beijo rindo enquanto saímos de lá.
— Você é má! – Julie comenta rindo.
— Eu sei – rimos mais quando vemos que a Bella está dormindo no banco da frente.
— Quem de vocês vai cuidar dela? – Dan pergunta olhando no retrovisor.
— Eu não! – falamos juntas e fazemos um toque de mão.
— Sério que eu vou ser babá da Bella? – ele resmunga.
— Não vai ser a primeira vez – dou de ombros.
— Sempre sobra pra mim né? – ele acaba rindo.
Chegamos ao colégio antes que os outros, nós três vamos para o corredor feminino, já que o Dan estava carregando a Bella. Me despeço deles e quando chego no quarto apenas me jogo na cama para dormir.
(...)
Acordo e me espreguiço ainda deitada, o que me dá vontade de voltar a dormir.
— Finalmente você acordou – ouço a voz da Mari e então olho para ela.
— Desde quando você está acordada? – pergunto rouca.
— Há umas duas horas. – ela dá de ombros. – Mas eu estou quase saindo já. – ela fala animada.
— Você vai pra casa? – esfrego meus olhos e me sento na cama.
— Não, eu vou ficar aqui esse final de semana, mas eu vou almoçar com o Raff. – ela sorri após falar e eu fico boquiaberta.
— Me leva? – faço uma cara pidona e ela nega.
— Não.
— Por que não? Eu aceito ficar de vela. Por favoor! – me levanto e vou até a cama dela deitando lá de forma espaçosa.
— Okay, mas pelo menos chama o Pedro. – ela dá de ombros.
— Por que ele? – pergunto confusa.
— Por que não? Vocês almoçaram juntos há alguns dias.
— Você tem razão. – dou de ombros. – Vou tomar um banho rápido e vou lá falar com ele. – me levanto e procuro alguma roupa leve já que estava calor.
— Te encontro no refeitório então. – ela acena e sai.
Tomo meu banho e me arrumo como o habitual, porém faço um rabo de cavalo. Pego meu celular e saio do quarto, chego até o quarto dos meninos em poucos minutos. Bato na porta algumas vezes e espero.
— Olha só quem aprendeu a bater na porta. – Pedro aparece sem camisa e se encosta no batente da porta. Acabo encarando seu corpo mais do que deveria e murmuro um “uau”. – Meus olhos ficam aqui sabia? – ele brinca apontando para seus olhos e eu volto à realidade.
— Engraçadinho, mas eu vim aqui para te convocar a almoçar comigo. – sorri de forma meiga.
— E por que eu iria? – ele arqueia as sobrancelhas.
— Porque eu não quero ficar de vela sozinha. – falo o real motivo para eu ter ido lá.
— E eu tenho cara de castiçal por acaso? – ele cruza os braços e franze as sobrancelhas.
— Depois de ontem? – faço uma expressão pensativa. – Sim! – ele revira os olhos e suspira.
— O que eu ganho em troca? – agora é minha vez de franzir as sobrancelhas.
— O que te faz pensar que você vai ganhar algo? Eu só estava tentando de te poupar de almoçar sozinho. – dou de ombros.
— Você que não quer almoçar sozinha. – ele arqueia uma sobrancelha me provocando.
— Ok, você venceu! Agora pode colocar uma camiseta e ir comigo? – ele me encara com um sorriso ladino. – Por favor? – praticamente imploro e ele ri saindo da porta.
— Entra aí. – faço o que ele diz e vejo o quarto vazio.
— Dan não está aqui? – me sento na cama arrumada e vazia.
— Não, ou ele saiu bem cedo ou não dormiu aqui. – ele diz enquanto procura algo no guarda roupa;
— Ele deve estar com a Bella. – dou de ombros e o garoto de olhos castanhos me olha confuso.
— Os dois ficam?
— Não! – começo a rir. – Eles são amigos de infância, assim como eu e o Dan. Nós três crescemos juntos. Se fosse para acontecer algo já teria acontecido.
— Se você diz… – ele veste uma camiseta azul marinho e vem na minha direção. – Vamos?
— Claro, eu estava quase dormindo aqui com a sua demora. – brinco e saio com ele.
(...)
— Eu não vou assistir esse. – Pedro faz uma careta e eu reviro os olhos me jogando na cama.
— Você que me chamou para assistir filme com você, então acho justo eu escolher qual a gente vai ver. – cruzo meus braços.
Após ter almoçado com a Mari e o Raff, ele me chamou para assistir filme já que os outros dois resolveram jogar tênis. Agora estamos no meu quarto tentando decidir entre Ted e Uma comédia nada romântica.
— Por que você não concorda com o que eu escolhi? – ele me olha de braços cruzados.
— Por que é ridículo. – me sento – A história de um ursinho de pelúcia que ganha vida e age como um humano? Não obrigada, eu passo.
— Ele é hilário e pelo menos não é um clichê: garota conhece garoto, tem um drama no meio da história que impedem os dois de ficarem juntos, mas eles superam e ficam juntos no final. – ele coloca defeitos na minha escolha.
— Você está sendo ignorante. Mas eu tive uma ideia melhor: Vamos decidir em três rodadas de pedra, papel e tesoura. – sugiro e ele aceita. – Pedra papel tesoura – Pedro ganha e me mostra a língua. – Quantos anos você tem? – questiono sua maturidade.
— Pedra papel tesoura – ele não me responde e jogamos de novo, mas dessa vez eu ganhei.
— Quem ganhar agora vence. Tá com medo? – provoco. – Pedra papel tesoura. – começo a fazer uma dançinha ridícula quando ganho. – Eu ganhei, você perdeu! – fico repetindo isso e ele se joga na cama.
— Okay! Eu entendi. – ele puxa meu braço e me fazendo deitar na cama.
— Quanta delicadeza. – murmuro com ironia e dou play no filme.
— Só assiste. – o garoto de cabelos castanhos resmunga e eu sorri levemente.
(...)
— Admite! – quando o filme acaba ajoelho na cama ficando de frente para o Pedro com um sorriso divertido no rosto.
— Admitir o que? – ele pergunta despreocupado.
— Que você gostou do filme e que não é um clichê comum.
— Eu faria se fosse verdade. – ergo uma sobrancelha e ele suspira. – Ok, até que é legal. Eu não tive vontade de dormir. – ele tenta parecer indiferente.
— Eu sabia! – jogo meu cabelo para trás convencida e me sento na cama.
— No próximo final de semana poderia ter outra festa a de ontem. Foi bem legal, tirando a hora que eu fiquei de vela.
— Verdade, foi bom reencontrar alguns amigos. – sorri pensativa.
— Quem era aquele cara que estava com você? – franzo as sobrancelhas.
— Alex... – antes que pudesse continuar ele me interrompe:
— O dono da festa? – Pedro pergunta surpreso.
— E meu amigo. – acrescento.
— Você beija seus amigos daquele jeito? – ele ri fraco e eu também.
— Alguns sim. – admito me lembrando de quando eu tinha várias amizades coloridas.
— Eu sou seu amigo? – de repente seu semblante fica sério e seu olhar se direciona à minha boca. A mudança de atitude repentina me impressiona e eu olho em seus olhos vendo suas pupilas dilatadas. Eu não queria me afastar e nem faria isso. Parte de mim sempre teve uma queda por ele, mas eu ignorava devido ao seu jeito maçante.
— Você quer ser? – sussurro e ele se aproxima colando nossos lábios. Sem pensar duas vezes aprofundo o beijo segurando em seu rosto. Senti novamente aquela sensação gostosa que senti da primeira vez. Não era como um frio na barriga, mas tinha o efeito de um chocolate em momentos estressantes e eu adoro chocolate. Continuamos assim por vários minutos até decidirmos assistir outro filme, que provavelmente estava na metade quando pegamos no sono.
Mariana narrando...
Após horas volto cansada para o dormitório e quando abro a porta me deparo com uma cena que me surpreendeu um pouco: Melissa e Pedro dormindo abraçados com a televisão ligada. Era algo fofo de se ver, então decidi tirar uma foto para colocar de ícone no grupo que fizemos e troco o nome do grupo para “Se odeiam?”. Eu sabia que uma hora ou outra eles iam acabar se entendendo e deixar as implicâncias de lado. Sorri satisfeita, pego uma troca de roupa e vou ao banheiro tomar um banho para ir ao dormitório do Raff. Melhor deixar os pombinhos a sós.
— Se você não tivesse tirado a foto eu juro que não teria acreditado. – o loiro de olhos azuis fala assim que me encontra no corredor.
— Oi Raff, tudo bem? Comigo também, obrigada por perguntar. – brinco e ele circula minha cintura com seus braços me selando várias vezes.
— Desculpa. – acabo sorrindo com o seu gesto.
— Eu também fiquei surpresa. Eles estavam se dando bem hoje, mas não pensava que era tanto. – faço menção em me afastar e ele me puxa de volta. – O que? – ri fraco.
— Não me larga. – o loiro fala manhoso e eu me derreto.
— Desse jeito eu vou me apaixonar. – abraço sua nuca e inclino minha cabeça para olhá-lo.
— Pode se apaixonar, porque eu estou na mesma situação. – escondo meu rosto em seu ombro envergonhada e ele dá uma pequena risada.
— Te deixei constrangida? – olho para o Raff negando e sorrindo. – Tá com fome? – concordo com a cabeça. – Vamos à cantina, então. – ele me solta e segura na minha mão.
Se isso for um sonho, eu não quero acordar.
Melissa narrando...
Seguro uma mecha do meu cabelo e fico passando no rosto do Pedro que ainda estava dormindo. Tento ao máximo não rir dele fazendo biquinho e tentando se afastar, mas falho e solto uma gargalhada que o acorda.
— Olá Belo Adormecido. – encosto na cabeceira ficando sentada.
— Hey? – ele murmura rouco e se ajeita na cama. – Você também dormiu. – Pedro esfrega os olhos e eu fico olhando para ele.
— Mas eu acordei com o meu celular. Aliás, olha isso. – estendo meu celular que está aberto na conversa do grupo.
— Nos flagaram. – ele ri e olha para mim.
— Yeah, vamos mandar uma foto como resposta. Faz uma cara fingindo que me odeia. – abro a câmera.
— Mas eu ainda te odeio. – olho para ele mostrando a língua. – Okay. – fazemos caretas e depois enviamos a foto com a legenda “Sim” em resposta ao título do grupo. – Agora posso fazer uma coisa já que te odeio? – franzo as sobrancelhas confusa.
— Que tipo de coisa?
— Te beijar? – acabo rindo com sua resposta.
— Idiota! – bloqueio meu celular.
— Eu acho que é um sim. – ele me beija o que me faz sorrir.
E nós teríamos ficado mais tempo juntos se não fosse a Mari chegando meia hora depois expulsando o Pedro porque amanhã era segunda-feira e todo mundo teria que acordar cedo. Típico dela fazer isso.
Extra (Felipe): Natal, tias chatas e chifres.
Como prometido, estou soltando a ceninha extra baseada em uma ask que Lipe respondeu há uns tempos, no Tumblr dele, sobre uma suposta briga que ele teve com uma tia no Natal. Espero que gostem da ceninha e que possam matar um pouco a saudade do Lutador com ela! <333 Caso alguém queira ver a pergunta que originou esse post, basta clicar aqui. Enfim, boa leitura, amorinhas! <33
E comentem, fala sério. Tadinha de mim.
(peço desculpas pelos possíveis erros).
Se havia uma coisa que eu detestava eram as reuniões familiares no Natal.
Não que eu odiasse toda a minha família ou fosse algum tipo de antissocial que preferia passar as festividades trancado no quarto, jogando videogame. Não era bem isso. O problema é que eu possuía um número considerável de parentes no lado da minha mãe e, exclusivamente no Natal, todos se reuníam na minha casa para a ceia. E isso incluía aqueles primos chatos que só via uma vez no ano e os tios barrigudos que fazem piadas estúpidas.
E, é claro, também inclua a minha tia-avó Betânia. Ou, O capeta de peruca, como eu e meu irmão Henrique costumávamos chamá-la quando mais novos.
Tia Beth fazia jus a todos os estereótipos de tia velha irritante e incoveniente. Ela se separou do marido ainda nova e, após seu divórcio, nunca mais se relacionou com nenhum outro homem. Desse modo, também nunca teve filhos. Acho que isso explicava o motivo dela se intrometer tanto em nossas vidas. Talvez não ter netos para chamar de seus a frustrasse um pouco.
Ainda assim, bastava a velha abrir a boca para toda a pena que eu sentia de sua condição solitária se dissipar. E isso ocorria em todas as festas que a encontrava, pois, sabe-se Deus porque, ela insistia em grudar em mim. Vai ver meu charme rompia as barreiras da idade.
— Felipe, você está me ouvindo?
Pisquei algumas vezes, despertando de meus pensamentos. Eu estava há uns 20 minutos escondido no corredor, observando os sofás da sala serem completamente ocupados por meus parentes e tentando evitar ao máximo todos, até ser encontrado por minha mãe e tia Beth e ser obrigado a acompanhar a conversa delas sobre o preço de alguma coisa na feira.
— Estou, mãe. O que foi? — Perguntei, encarando a senhorinha de óculos redondos e cabelos tão loiros quanto os meus parada diante de mim.
— Sua tia lhe fez uma pergunta, não seja mal-educado!
Eu desviei o olhar dela para tia Beth, e precisei fazer um certo esforço para disfarçar minha repulsa. Betânia era da mesma estatura de Mamãe — as duas beiravam 1,50m e batiam praticamente em meu ombro —, mas sua coluna era curvada e seus cabelos já estavam grisalhos.
— Sim? — Questionei-a, tentando não soar tão rude quanto gostaria.
— Perguntei como está no colégio — Ela sorriu. Sua dentadura era esquisita. Meu estômago embrulhou. — Está se comportando bem?
— Sim, estou — Assenti, retribuíndo seu sorriso sem muito ânimo. — Está tudo indo super bem.
— Então parou de se envolver em brigas? — Suas sobrancelhas se arquearam. — Eu sempre disse para Lúcia que essa história de boxe iria deixar o filho mais violento, mas ela insistiu em manter...
— Na verdade, Tia Beth, o boxe é justamente o que me deixa menos agressivo — Rebati, impaciente. A velha tinha mania de falar sobre meus problemas de comportamento e temperamento forte em toda reunião familiar. E ela sabia o quanto eu odiava aquele assunto. — Eu soco sacos de areia para não socar o nariz das pessoas. Sem as aulas de luta, eu possivelmente estaria socando alguém agora. Talvez uma velhi...
Antes que pudesse terminar a frase, senti um beliscão forte em meu ombro. Grunhi, surpreso, e notei o olhar de minha mãe pesando sobre mim. Um olhar quase mortal, que dizia claramente ‘mais uma palavra e você está morto’. Calei-me no mesmo instante.
— Se você diz... — Tia Betânia respondeu com indiferença, parecendo não notar que há segundos eu quase ameaçara atacá-la. — E como vai a sua namorada, aquela pequenininha? Laura, não é?
— Lara — A corrigi, cruzando os braços. — E ela vai bem, mas não somos mais namorados.
— Como assim? — Seus olhos azuis arregalaram-se.
— Nós terminamos — Dei de ombros.
— Mas vocês homens são todos iguais mesmo! — Ela bradou, elevando sua voz de forma repentina. Franzi o cenho, confuso. — Você não tem vergonha não?
— Desculpe, não estou entendendo... Vergonha de quê?
— De deixar um chifre na cabeça da garota, ora! — O julgamento e ira em sua voz era quase palpável.
— Você está insinuando que eu traí ela? — Arqueei as sobrancelhas, incrédulo, e não consegui controlar o riso. — Só pode ser brincadeira. Não houve traição alguma!
— Ah, me poupe, garoto. Por que outro motivo você terminaria o namoro, se não por outro rabo de saia?
— Existem muitos outros motivos para terminar um relacionamento — Afirmei, soltando um longo suspiro. Controle-se, Felipe. Controle-se. Ela é apenas uma senhora. — E a razão pela qual o meu terminou só diz respeito a mim e a Lara. Mas não houve traição, está bem?
— Você acha que eu nasci ontem, Felipe? — Seu tom permanecera estupidamente alto. — Vocês são assim. Ficam com uma mulher, usam ela, e depois quando enjoam, a jogam fora e arrumam outra. Não sabem valorizar o que tem em casa.
— Tia Beth, eu posso assegurar que meu filho não faria algo assim... — Minha mãe afirmou de forma doce, tentando tomar partido, mas a senhora irritante colocou a mão em sua face e não a deixou prosseguir.
— Nem adianta Lúcia, é seu filho. Óbvio que você vai o defender.
— Sinceramente, eu não vou perder meu tempo aqui ouvindo isso — Rolei os olhos, impaciente. — Tenho mais o que fazer.
Sem olhar para qualquer uma das duas, eu me encaminhei em direção a sala. Não iria ficar ali servindo de saco de pancada para uma velha mal amada e frustrada sexualmente. Tia Beth parecia sentir prazer em me irritar.
Será que ela tinha uma paixão secreta e doentia por mim? Sempre achei que ela demorava demais tocando em meus braços quando ia me cumprimentar. Só porque era idosa, não significava que não pudesse sentir essas coisas. Ela não era cega, afinal.
Qualquer que fosse o motivo, eu estava pouco me fodendo. Aquela mulher era doida.
— Vai atrás do rabo de saia que destruíu o seu namoro? Eu bem que avisei a Lara para manter distância de você. Sabia que não prestava — Tia Beth gritou, e sua fala final me fez interromper o percurso e virar-me novamente em sua direção.
Ela fez o quê?
— Você fez o quê, sua velha maluca?
— Felipe... — Minha mãe se adiantou, esticando a mão até meu ombro. Empurrei-a antes que me tocasse.
— Não mãe, chega! — Bradei, levando a mão ao cabelo e puxando-o de forma irritada. — Eu estou cansado de ouvir merdas e ficar calado. Você... — Apontei para a senhora de cabelos grisalhos a minha frente, que encarava-me com uma expressão assustada. — Só porque você foi chifrada por mais de dez anos pelo seu marido e não conseguiu arranjar nenhum homem depois disso, não significa que todas as mulheres passem pelo mesmo. Talvez não tenha encontrado ninguém porque é insuportável de conviver. Já parou pra pensar nisso?
— Felipe!
— Eu não tenho culpa se essa velha claramente sofre por falta de sexo, está bem? Alguém por favor compra um vibrador pra ela. Já deviam ter feito isso há uns 20 anos!
— Felipe Vieira, calado agora! — Mamãe gritou novamente meu nome, dessa vez num tom muito mais agressivo. Eu me calei no mesmo instante, chocado, e só então notei que toda a família assistia nosso pequeno show da sala. E todos os olhos estavam especificamente focados em mim.
Engoli em seco, desviando o olhar das duas e sendo dominado por aquele silêncio constragedor que se seguira após a discussão. E então, poucos segundos depois, o barulho alto de alguém tossindo dominou o ambiente e acabou com a falsa paz implantada.
— A Tia Beth está passando mal! — Meu tio Carlinhos fora o primeiro a gritar, fazendo-me voltar a encarar a velha com quem acabara de brigar.
Ela estava roxa. Quase da cor de uma uva. Suas mãos pressionavam seu peito e minha mãe a acudia enquanto ela tossia sem parar. Eu me adiantei em sua direção, tentando socorrê-la, mas dois tios entraram em minha frente e a carregaram as pressas para fora do corredor.
— Alguém chama uma ambulância! — Gritou uma de minhas tias.
— É melhor levar ela pro hospital no carro mesmo — Outra rebateu.
— Peguem um copo de água! — Berrou um primo.
E enquanto isso, eu assistia aquela cena petrificado, pensando em como aquele seria o último natal que passaria com aquela família. Eu seria deserdado por matar minha tia-avó.
— Cara, você está muito fodido — Uma mão apertou forte meu ombro e, ao me virar, deparei-me com Henrique ao meu lado. Ele sorria, parecendo se divertir com a situação, enquanto remexia em seus cabelos loiros.
— Você acha que eu matei ela?
— Acho que não — Ele franziu o cenho, negando. — Vaso ruim não quebra, irmãozinho. Você é a prova disso.
Eu ri, tentando acreditar em suas palavras. Eu não gostava de Tia Beth, mas não queria ser o responsável por mandá-la ao caixão. Pelo menos, não queria que todos soubessem que fora eu. De qualquer forma, com ela viva ou morta, assim que as coisas se acalmassem, eu iria ter que lidar com a ira de meus pais. E a encarada quase assassina que minha mãe me dera naquele instante era a maior prova disso. Eu estava realmente muito fodido.
Aquele Natal iria entrar para a história.
Capítulo Vinte e Três
Plot twists são aquelas reviravoltas que alteram completamente o curso da história. Escritores e roteiristas amam isso. E aparentemente o universo também.
Heather sempre amou plot twists. Na ficção. Porque na vida real as coisas são um pouco mais complicadas. E duram mais que qualquer filme de duas horas de duração ou um livro de trezentas páginas.
Assim que chegou a casa, notou uma movimentação na cozinha e decidiu ir até lá para pegar um copo d'água e tentar se distrair com algum assunto banal que seu pai traria a tona em algum momento.
– Olá? – ela chamou. Da última vez que entrou na cozinha sem avisar, quase matou a mãe de susto.
– Estou na cozinha, filha. – ouviu Diana responder. Esperou um pouquinho antes de entrar, tentando de decidir se conversaria com a mãe ou não. Afinal, quais eram suas opções? Sofrer em silêncio ou desabafar com a pessoa que mais a amava no mundo?
– Precisa de ajuda, mãe? – Heather não tinha realmente a intenção de ajudar, apenas queria algo para distrair-se dos últimos acontecimentos, e estava muito cedo para bebidas alcoólicas.
– Bem, se puder, corte as frutas por favor. – Diana pediu, um pouco agitada, tentando preparar o café da manhã em pouco tempo a fim de não se atrasar. – Seu pai precisa comer mais frutas, legumes e verduras, mas ele é tão teimoso!
Diante do suspiro da mãe, a moça sorriu pensando em como os pais cuidavam um do outro.
– Dia corrido hoje? – a mais nova perguntou, fingindo estar concentrada em picar frutas. Mas Diana Dean não era boba nem nada, conhecia a filha como a palma da mão e notou assim que a moça entrou na cozinha que algo não estava em seu perfeito estado.
– Vamos só ao laboratório buscar alguns exames dos animais e trabalhar em cima dos resultados. – ela respondeu, observando a filha, que respondeu com um muxoxo. – Heather, o que está te incomodando, querida?
– Filha, por que vocês não deixam essa infantilidade de lado por um pouco e aproveitam o pouco tempo que ainda tem juntos? – Diana suspirou. – Jovens adultos são tão dramáticos.
Heather picava as frutas em silêncio, reagindo às palavras da mãe apenas por expressões faciais.
– Na idade de vocês, quando eu fui passar um semestre lecionando fora, eu e seu pai resolvemos as coisas de uma maneira mais simples e madura. – ela riu, lembrando da cena. –Na cara ou coroa.
– Maneira madura. – a moça resmungou, mas Diana não se importou.
– Eu precisava me decidir em menos de doze horas, e eu não sabia o que fazer. – ela então sorriu de leve. – Então o seu pai, que na época tinha um pouco menos de juízo do que tem agora, pegou uma moeda do colega de quarto dele e tentamos a sorte.
– E o que aconteceu? – Heather pareceu ficar interessada no fim daquela história. Mal conseguia acreditar que os pais haviam passado pelo mesmo que ela e Matt estavam passando.
– Eu fui. – Diana sorriu. – E nós não estaríamos aqui se eu não tivesse ido.
– Como assim, não estaríamos aqui?
– Esse trabalho que eu e seu pai temos na Nova Zelândia eu consegui por conta daquelas aulas anos e anos atrás.
Heather continuou a ajudar a mãe, pensativa. Tentava encontrar uma forma de fazer aquilo tudo funcionar.
A estrada parecia não ter mais fim. O sol brilhava forte no céu enquanto Matthew dirigia de volta para Mount Maunganui. Tentara amenizar o desconforto da viagem ligando o rádio, que tocava The Chain. O rapaz sempre ouvia essa música com os pais, fanáticos por Fleetwood Mac.
Enquanto tentava não de concentrar na sensação sufocante que estar dentro de um carro, dirigindo por um asfalto quentíssimo, sob um sol escaldante. Morgana, deitada no banco traseiro, estava claramente incomodada, resmungando de tempos em tempos.
– Calma, menina. – Matt sorriu. – Estamos quase chegando.
Matt havia feito uma viagem de quatro dias para conversar e organizar com fornecedores como as coisas seriam feitas dali em diante. Quatro dias de longas discussões que deixaram o rapaz exausto.
Assim que entrou na cidade, notou como estava calma. A onda de turistas havia deixado a baía de Plenty, mas voltaria logo. O rapaz sempre gostou de ver as ruas cheias de pessoas, de vida. Porém tinha de admitir que a cidade tinha lá seu charme quando poucos moradores caminhavam pelas calçadas.
Ao estacionar em frente o bar do avô de Luke, o rapaz observou o carro de Eleanor parado logo em frente a escada que levava a porta da casa do rapaz. Respirou fundo, fazendo um carinho em Morgana, que tentava a todo custo se livrar da coleira.
– Merda. – xingou, descendo os degraus em uma velocidade mais baixa que a geralmente usada. Sabia o que poderia ouvir e pior ainda, sabia que os amigos teriam profunda razão.
Bateu na porta de madeira escura, manchada pela umidade trazida pela brisa. Esperou alguns segundos e então bateu novamente, dessa vez com mais intensidade. Ouviu passos do lado de dentro e o click da chave destrancando a porta. Luke estava sem os óculos e de cabelos curtos e um sorriso enorme nos lábios.
– Vejam só! – o rapaz exclamou, puxando o amigo para um abraço forte. Luke Armstrong nunca teve medo de demonstrar afeto pelos amigos, nunca poupou energia para demonstrar que os amava. – Entre, Matt, Lea está aqui também. Estamos escolhendo um filme para assistir.
Algo no tom caloroso da voz do amigo fez com que o coração de Matthew batesse apertado, dolorido. Como se já sentisse saudade sem nem mesmo ter partido.
– Você viu a Heather? – Matt perguntou, tentando soar descontraído e calmo, quando na realidade estava desesperado.
Luke riu e suspirou, cansado. Estava formulando uma resposta que agradaria tanto Matt quanto a Heather, quando Eleanor se aproxima com um balde de pipoca.
– Matthew cansou de bancar o adulto e trouxe essa bunda de volta pra casa? – resmungou, mastigando pipoca e abraçando o rapaz logo em seguida. – Senti falta do seu mau humor característico.
Eleanor Parrish não costumava ser delicada em palavras e ações. Eram raras exceções.
– Também senti sua falta, Lea. – ele riu. Morgana bebia água numa tigela que Luke havia pego.
Tudo parecia tão rotineiro, mas ao mesmo tempo Matthew tinha a sensação de despedida. A mesma sensação de quando as aulas estão acabando e você não pode esperar para poder ficar em casa dormindo, mas também sabe que nada será como antes. Seus colegas prometem manter contato, mas todos sabem que não será bem assim.
– Heather disse que não estava muito legal e que iria ficar em casa. – Eleanor respondeu simplesmente, deixando Matt preocupado. – E não faça essa cara pra mim!
Luke observava a cena do balcão na cozinha, servindo refrigerante em três copos descartáveis, apenas balançando a cabeça diante a teimosia do amigo e da mania que a namorada tinha de dizer tudo o que lhe vinha à mente.
Esperou alguns segundos e então bateu novamente, dessa vez com mais intensidade. Ouviu passos do lado de dentro e o click da chave destrancando a porta. Luke estava sem os óculos e de cabelos curtos e um sorriso enorme nos lábios.
– Vejam só! – o rapaz exclamou, puxando o amigo para um abraço forte. Luke Armstrong nunca teve medo de demonstrar afeto pelos amigos, nunca poupou energia para demonstrar que os amava. – Entre, Matt, Lea está aqui também. Estamos escolhendo um filme para assistir.
Algo no tom caloroso da voz do amigo fez com que o coração de Matthew batesse apertado, dolorido. Como se já sentisse saudade sem nem mesmo ter partido.
– Você viu a Heather? – Matt perguntou, tentando soar descontraído e calmo, quando na realidade estava desesperado.
Luke riu e suspirou, cansado. Estava formulando uma resposta que agradaria tanto Matt quanto a Heather, quando Eleanor se aproxima com um balde de pipoca.
– Matthew cansou de bancar o adulto e trouxe essa bunda de volta pra casa? – resmungou, mastigando pipoca e abraçando o rapaz logo em seguida. – Senti falta do seu mau humor característico.
Eleanor Parrish não costumava ser delicada em palavras e ações. Eram raras exceções.
– Também senti sua falta, Lea. – ele riu. Morgana bebia água numa tigela que Luke havia pego.
Tudo parecia tão rotineiro, mas ao mesmo tempo Matthew tinha a sensação de despedida. A mesma sensação de quando as aulas estão acabando e você não pode esperar para poder ficar em casa dormindo, mas também sabe que nada será como antes. Seus colegas prometem manter contato, mas todos sabem que não será bem assim.
– Heather disse que não estava muito legal e que iria ficar em casa. – Eleanor respondeu simplesmente, deixando Matt preocupado. – E não faça essa cara pra mim!
Luke observava a cena do balcão na cozinha, servindo refrigerante em três copos descartáveis, apenas balançando a cabeça diante a teimosia do amigo e da mania que a namorada tinha de dizer tudo o que lhe vinha a mente.
– Eu não vou te falar nada, Matthew. – Eleanor falou, adotando uma postura rígida, apontando o indicador em direção ao rapaz. Respirou fundo, irritada, abrindo e fechando a boca algumas vezes. – O que você tem nessa sua cabeça no lugar do cérebro? Uma noz?
Luke não conseguiu segurar a risada, atraindo olhares duros de ambos.
– Sabe o que te torna ainda mais idiota e irritante, analisando apenas essa situação? – a moça questionou e recebeu um muxoxo negativo em resposta. – O fato de você, em nenhum momento, ter pensado em como nós seríamos afetados pelas suas decisões.
Matt não conseguiu reproduzir nenhum som, nenhuma palavra nem ao menos um movimento. Sentia-se de fato pertencente a família Stone.
– Eu acredito que somos parte importante da vida uns dos outros. – ela suspirou, tentando controlar as emoções dentro de si. Raiva, tristeza e algo que ela não soube nomear ocupavam todo o seu corpo, controlando suas palavras e ações. – Você é uma parte importantíssima da minha vida, da minha rotina. Eu te vejo todo maldito dia, Matthew. Eu esperava que isso fosse valer algo.
– Então você acha que eu devo ficar? – ele questionou, porém se arrependeu de tê-lo feito no momento em que a expressão no rosto de Eleanor se tornou cada vez mais frio.
– Eu não seria tão egoísta a ponto de exigir que desista dos seus sonhos para ficar aqui me fazendo companhia. – ela riu, adotando uma pose digna de Fiona Parrish. – Nenhum de nós faríamos isso, querido.
– Então por que raios está tão magoada comigo?
– Você está agindo como todo o resto da sua família: deixando a gente de fora da sua vida quando lhe interessa.
Ela deu as costas pro rapaz, pegando a bolsa jogada na bancada e saiu pela porta dos fundos. Luke permaneceu em silêncio, esperando o amigo se manifestar.
– Ela é boa. – Matt coçou a barba e riu. – Estou me sentindo um lixo.
– Lixo é muito pesado. – Luke falou, a expressão facial de quem pedia perdão. – Mas sem dúvidas, narcisista.
A praia estava vazia, como era de se esperar. Depois de nadar por algum tempo, Heather decidiu voltar para casa, pois a água estava ficando gelada.
O tempo voa quando estava dentro do mar, submersa em suas águas hora calma, ora tempestuosas. Perdia a noção do tempo com a mesma facilidade que o vento sopra a areia.
Talvez era por causa do poder de distração que o oceano proporciona. Quando precisava desligar-se dos problemas, era só sentar-se na areia da praia e esperar que a brisa levasse para longe todas as suas preocupações.
A água salgada ainda batia na metade das coxas da moça quando ela avistou Matthew parado no meio da praia, observando-a. Um arrepio lhe tomou o corpo e ela não quis admitir que aquilo havia sido uma resposta a presença do rapaz.
Os passos dados até ele pareciam ser mais pesados, mais lentos e afundar mais ainda na areia. Era como se toda a confusão de sentimentos dentro dela se tornasse matéria e passasse a pesar centenas de quilos.
– Olá. – Matt tentou sorrir, mas estava apreensivo demais para que qualquer tentativa de sorriso desse certo.
– Olá.
Heather continuou parada à alguns metros de distância do rapaz, sem saber se falava tudo o que sentia ou se dava um tempo para as coisas se resolverem por si só.
– Eu gostaria de pedir desculpas pelos últimos dias. – o rapaz começou, dando dois passos à frente. – Eu fui estúpido, egoísta e mesquinho. Eu não sei nem por onde começar a me desculpar por ter sido um lixo.
A moça ainda permanecia em silêncio, ponderando sobre o que responder. O seu lado sentimental queria correr e pular nos braços do rapaz, mas o lado racional tinha medo. E ela detestava ter medo. Ela temia ser sugada pra dentro daquela bagunça que era o rapaz e se machucar no caminho. Os sentimentos de ambos não pareciam ser gentis um com o outro.
– Por favor. – ele suspirou, fechando os olhos. Parecia estar sentindo dor, uma dor aguda. – Por favor, fala alguma coisa.
– Eu não sei o que dizer. – e ela foi sincera. Nenhuma frase que tentasse formular naquele momento iria fazer sentido ou expressar o que ela sentia. Suspirou, cansada de toda aquela complicação, quando tudo poderia ser bem simples. Pelo menos ela queria que fosse.
– Precisamos conversar. – a voz do rapaz era grave e atraiu a atenção de Heather. – Gostaria de lhe dizer algumas coisas antes de ...
Ele não conseguiu terminar a frase. E nem precisou, pois a moça entendeu o que ele queria dizer com aquilo que ficara preso em sua garganta.
– Tudo bem.
Matt soltou a respiração que nem havia se dado conta de que estava prendendo e sorriu um pouco.
– Eu conheço um lugar bem bonito apenas algumas horas daqui. – ele começou, analisando as feições da namorada. – Podemos passar o fim de semana lá, caso queira. É calmo, bonito e poderemos conversar. O que me diz, Heather Louise?
Ela fez uma careta ao ouvir o nome dela sair de forma doce e despojada da boca dele.
– Tudo bem. Eu vou.
Morgana permanecia deitada no colo de Heather, mesmo ficando com grande parte do corpo no banco do carro. A moça fazia carinho no pelo macio e longo da cachorra, enquanto observava as paisagens maravilhosas pela janela traseira.
– Estamos quase chegando – Matthew anunciou, provocando um sorriso contido na garota, que mesmo com a consciência gritando que aquela viajem era um erro tremendo, decidira ir, apenas pra ver no que iria dar. Heather começava a se perguntar se era masoquista. – Você vai amar. Eu costumava vir aqui quando criança, até que meu irmão caiu em uma das trilhas e quebrou o braço e mamãe nos proibiu de voltar.
– Lembra o Havaí. – Heather comentou, o pensamento distante, divagando entre as memórias da infância na ilha e no que imaginava ser Matthew Stone antes da fase adulta. – Eu costumava ser guia em algumas trilhas nos fins de semana, só pra ganhar uns trocados. Parece que tudo aquilo aconteceu em outra vida.
Matt fez uma curva a direita, indo em direção a um pequeno chalé, cercado de árvores e coqueiros. Ao estacionar o carro, Morgana desceu correndo, latindo para todos os pássaros que estavam nas árvores.
– Você precisa ver isso. – Matt parecia uma criança quando tomou Heather pela mão e a conduziu até a parte de trás do chalé. A moça ria de maneira sincera, pela primeira vez em dias, e parecia ter retirado um peso imenso do peito. – É a melhor parte da nossa viagem.
Heather parou boquiaberta assim que deram a volta no chalé. Um lago imenso estendia-se até onde a vista alcançava. A água era límpida e possuía um tom de azul claro que deixou a moça maravilhada.
– Se existir o Paraíso, deve ser aqui. – brincou a moça, com um sorriso no rosto que fazia o coração de Matthew saltar.
– Vamos entrar? – o rapaz perguntou, indicando o lago com o polegar, abrindo um sorriso sapeca, seguido pela moça.
– É claro!
Heather sempre quis ter alguém para acompanha-la em suas aventuras. Um irmão, uma irmã ou um primo. Amigos que gostassem de agir sem antes planejar muita coisa. Mergulhos em corais, trilhas em florestas e montes, procurar por cachoeiras, lagos e riachos. E encontrar isso em Matthew a deixava extasiada.
Heather era completa por si só, mas com Matt, ela transbordava.
– Você não está com vergonha, né? – o rapaz arriscou, visto que a moça estava parada, com as mãos na barra da camiseta. – Eu viro de costas, se te fizer se sentir melhor.
– Idiota. – ela riu, rolando os olhos, retirando a camiseta. – Não há nada aqui que você já não tenha visto.
Ela riu mais ainda quando notou o rapaz engolindo seco e corando um pouco. Se aproximou do rapaz um pouco mais lento do que o necessário, apenas apreciando o efeito que tinha sobre ele. Parou em frente ao rapaz, a poucos centímetros de distância e sorriu, travessa.
– Vai ficar só olhando?
O rapaz riu e pegou a namorada no colo, correndo em direção ao lago, pulando com ela ainda em seus braços.
Ao submergir, ambos sem fôlego, rindo e Heather ainda presa ao corpo do rapaz, trocaram um sorriso que continha todas as emoções que ambos tinham problemas para transformar em palavras, frases e diálogos.
– Eu te amo tanto. – ele sussurrou, acariciando o rosto da namorada, que suspirou e encostou a cabeça no ombro do rapaz.
– Eu te amo mais. – sorriu triste e depositou um beijinho na base do pescoço do namorado, enquanto tentava, a todo custo, não chorar. Estava nos braços de seu primeiro amor e logo isso mudaria.
– Por favor, não chora. – o rapaz pediu e ela se afastou um pouco, para olhá-lo nos olhos. – Durante esse fim de semana nada mais existe, nada além de você e eu.
Heather apenas sorriu. Sorriu pois não havia o que dizer. Era tudo o que tinham e deveriam aproveitar aqueles preciosos momentos. Por isso, a jovem beijou o rapaz com urgência e saudade, antecipando todos os sentimentos vindouros.
Passaram as horas seguintes entre beijos, risadas e brincadeiras, apreciando a paisagem e a companhia um do outro.
– Eu estava lendo sobre a França. – Heather começou, receosa de tocar naquele assunto. Porém, uma hora tinha de ser feito. – E descobri que os franceses acreditam que virar a baguete de ponta cabeça dá azar. Também descobri que eles consomem cerca de 11 bilhões de taça de vinho por ano.
– Você se daria bem lá, então. – Matt riu, acompanhado da moça, porém com menos intensidade. Ele se sentou direito, ainda ao lado de Heather, ponderando sobre o que falar. – Eu deveria ter te contado desde de o começo sobre os meus planos, deveria mesmo, e tenho vontade de bater com a cabeça numa pedra toda vez que lembro da burrada que cometi, de achar que você não entenderia.
Heather estava sentada olhando o horizonte, ambos esperando o pôr do sol. Ela tomou a mão do rapaz e entrelaçou os dedos nos dele.
– Baby, não fique se culpando. O que está feito, está feito. Estamos bem agora. – ela sussurrou, doce. Beijou os lábios do rapaz novamente e ele deitou a cabeça no peito dela, ambos em silêncio, enquanto o sol ia embora.
Os minutos foram passando e passando, a escuridão da noite foi tomando todo o lugar, apenas iluminado pela lua.
– Como você está se sentindo a respeito disso tudo? – Heather questionou.
– Eu me sinto dividido. Eu tenho uma vida toda aqui, tenho amigos, tenho família, tenho você. – suspirou. – Mas por outro lado, eu sempre sonhei com isso. As coisas sempre foram meio atropeladas na minha vida. Lidei com coisas que não queria muito cedo e deixei oportunidades passar por falta de orientação, por que era jovem e inexperiente. E só agora estou tendo essa oportunidade.
Heather acariciava o cabelo do rapaz, escutando com atenção e sentindo o peito apertar ao se identificar com algumas coisas.
– Não desperdice, meu amor. – ela aconselhou.
– Mas é um ano! – ele exclamou. – Eu não quero passar tanto tempo longe das pessoas que eu mais amo. Eu não quero passar um ano longe de você!
Instantaneamente, um arrepio tomou o corpo de Heather, e ela não soube dizer o real motivo.
– Quando deixei o Havaí, confesso que não tinha muitas perspectivas de mudança. Porém, durante pouco mais de um ano que estou aqui, tudo mudou. Eu mudei, minha rotina mudou, minhas vontades e desejos mudaram, minha perspectiva de vida mudou, Matt. – ela confessou. – Eu sou uma pessoa completamente diferente de quem eu era um ano atrás.
Matt não sabia o que dizer. Apenas ficou olhando para Heather, iluminados pela luz da lua, em silêncio, quando notou que ela tinha um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos.
– Um ano te muda muito, Matt. – ela soluçou. – Eu e você vamos continuar tendo o mesmo sentimento um pelo outro quando estivermos mudados por 365 dias?
– Vamos nos preocupar com o agora, Heather.
Ela se levantou e estendeu a mão em direção ao rapaz, que aceitou prontamente. Em silêncio, ela o guiou até o chalé, tentando não se preocupar com o tempo e o futuro.
Dicas para NÃO seguir na divulgação da sua história.
Um dos maiores problemas para nós, jovens escritores da internet não-remunerados-e-sofredores, está na divulgação de nosso trabalho. Criar um livro extraordinário, super bem estruturado e futuro best-seller? Puft, fácil! Mas promover ele e fazer as pessoas perceberem que estão perante um futuro best-seller pode ser um pouquinho mais complicado. Sem a fórmula certa, alguns acabam não atraindo o número almejado de leitores e perdem o estímulo na postagem e escrita de suas obras. Uma dosagem exagerada (ou escassa) de divulgação pode ser fatal para a estadia de um autor iniciante na plataforma.
Inspiradas nessa tragédia, nós do WW resolvemos reunir os erros mais comuns cometidos no processo de promoção e difusão da história — os quais você definitivamente não deve seguir. E não se preocupe caso se identifique com um (ou alguns) deles, pois ainda há tempo para reverter a situação e divulgar com sucesso seu trabalho! Pronto(a) para ter acesso a nossa listinha negra? Então pega o caderninho e anota todas essas dicas em vermelho:
Obs: Alguns desses tópicos já foram ditos, de forma sintetizada, neste outro post aqui, caso queiram dar uma olhada. De qualquer forma, estaremos retomando eles nessa postagem e acrescentando novos.
O que não fazer na divulgação da sua história:
Publicar 3001 postagens ao mesmo tempo.
Uma regra fundamental a ser seguida na hora de divulgar sua obra é possuir paciência. Se você for daqueles apressadinhos, que gostam de expor tudo que prepararam em uma só tacada, vai acabar tendo problemas. A verdade é que não adianta soltar 10 banners detalhadamente editados no photoshop no mesmo minuto e esperar que seus parceiros/outros escritores rebloguem todos — porque acredite, eles não vão. O segredo é ter calma e saber dosar a quantidade, para não exagerar, lotar a dash e terminar por apenas irritar os seguidores já alcançados. Estipule datas para postagens, tenha um cronograma organizado e bem planejado. Mantenha seus leitores interessados, não enjoados. Um post de divulgação por dia já é mais que suficiente.
Encher o saco do amiguinho para ler sua história.
Não há mal algum em convidar leitores/escritores para acompanhar sua história. Na verdade, essa é uma tática que pode ser bem útil, caso aplicada de forma correta. O problema está na insistência dela. Você chamou o @ para acompanhar sua história e ele nunca deu as caras? Desista, bola pra frente. As pessoas não são obrigadas a acompanhar o que você escreve apenas porque as convidou. Haverão bolos de todos os tipos, por todos os motivos. Alguns convidados irão ler o início e depois parar; Outros só farão uma visitinha ao blog, enquanto os demais nem sequer irão abrir a página do navegador — seja porque a história não os agrada, eles não possuem tempo ou por simplesmente você ser um pé no saco. Não dá pra saber com precisão, então apenas lide com isso e pare de incomodar o coleguinha. Se ele quiser ler o que você escreveu, ele vai ler.
Postar edições/trechos de divulgação sem revisão.
Não são apenas os capítulos da sua história que devem ser bem revisados e editados com constância; Também é fundamental que ocorra uma inspeção naquele seu banner/quote que será utilizado para divulgá-la. Como você espera atrair leitores quando há erros ortográficos na própria propaganda da obra? Você precisa, desde já, atrair o leitor, criando uma boa imagem para aquilo que está “vendendo”. Uma vez reblogado, seu post com erros pode circular por inúmeros outros blogs, e não há nada que poderá fazer em relação a isso (fora sentar, chorar e desejar a morte, claro). Então, muita atenção na hora de postar algo, pequeno gafanhoto.
Pedir divulgação constantemente para os coleguinhas, mas não retribuir o favor.
Já ouviu falar daquele ditado “uma mão lava a outra”? Pois é, ele pode ser muito bem aplicado a essa situação. Se você é do tipo que vive pedindo ajuda dos amiguinhos escritores para reblogar seus capítulos/spoilers/edições/seja lá o que for e anunciar seus novos projetos, mas quando chega na hora de retribuir o favor, ignora plenamente as postagens alheias e segue a vida feliz, tenho um aviso para te dar: Você não está passando batido(a). Os parceirinhos notam. E não gostam nada disso. A questão é que talvez eles apenas sejam educados demais para te destratar e parar de te ajudar. Então, caro autor oportunista e sem coração, é aconselhável que dê um basta nessa sua atitude e passe a retribuir o favor de seus companheiros, pois a divulgação é uma via de mão dupla. Quanto mais você ajuda, mais será ajudado (e o oposto disso também é verdadeiro).
Enviar sua história para estantes sem antes ler todas as informações e preencher corretamente as fichas.
Há muitos blogs de escrita no Tumblr que ofertam espaços exclusivos para a exposição de histórias em suas páginas, as quais chamaremos de estantes por aqui (e se pra você está errado, caguei, estou no meu cantinho). Elas são uma ótima ferramenta de divulgação, mas é preciso que você tome cuidado na hora de as aderir. Preste atenção naquilo que é exigido nas regras para envio de cada uma e siga detalhadamente cada passo. Observe o que é pedido nas fichas; Nada de enviar capas com medidas erradas, informações incompletas e/ou desnecessárias e obras inadequadas para aquele blog específico (Alguns aceitam apenas originais, como nós do WW, por exemplo). Evite transtornos bobos. Você pode ser vetado da divulgação e gerar um mal estar com o dono do blog apenas por não ler atentamente ao que era pedido.
Atualizar seu blog uma vez por mês e achar que leitores cairão do céu.
Não adianta: Se você quer ganhar seguidores, você precisa ao menos estar ativo. As pessoas não surgirão magicamente no seu blog e passarão a acompanhá-lo com uma atualização a cada 30 dias. Não é preciso, necessariamente, haver um post enorme diário na dash; Um reblog, um recadinho para dizer que está presente já faz a diferença. Estar sempre gerando movimento é fundamental para não entendiar os leitores já fixos e atrair novos. Atualize sempre, constantemente, ainda que não pareça receber resposta imediata. Não é mantendo o blog parado que você conseguirá algo, migo(a).
Fazer drama de estrela que “não possui leitores” em uma semana de postagens.
A divulgação é um processo lento. Se você acredita que, com uma semana de divulgação e posterior postagem, já vai possuir centenas de seguidores e dezenas de comentários, muito possivelmente irá se decepcionar. Não é bem assim que funciona, caro coleguinha afobado. Leva tempo para seu blog ganhar conhecimento e as pessoas passarem a acessá-lo. A suposta “fama” não é algo que cai da noite para o dia, é necessário muito trabalho e persistência. Então, se com pouquíssimo tempo de divulgação você já está fazendo dramas, chorando por “não possuir leitores” e “postar para fantasmas”, tenha certeza que as coisas não irão para frente. Dessa forma, você não irá alcançar mais seguidores, e sim afastá-los. Ameaçar parar de postar com mero um capítulo lançado não vai comover ninguém, acredite. Experimente permanecer divulgando sua história (garanto que será mais eficaz).
Achar que a divulgação da sua história acaba após a postagem do primeiro capítulo.
Esse é um ponto que, de certa forma, se conecta um pouco com o anterior. Afinal, muitos escritores acabam cessando a divulgação de suas histórias após o ínicio oficial das postagens, o que resulta em um posterior desânimo devido a fraca presença de leitores (e aí começam os surtos de abandono após a primeira postagem). A questão é que a divulgação nunca deve parar. Não importa se você ainda vai começar a postar, está no primeiro capítulo ou já liberando os agradecimentos; Divulgar sua história é algo que sempre deve fazer, independente de onde esteja nela em termos de escrita. É um trabalho constante e necessário sempre, caso almeje continuar crescendo.
E é isso, meu caro amigo escritor (ninja da divulgação)! Essas são algumas dicas que você não deve seguir ao promover sua web. E se está passando longe de todas elas: Meus parabéns, está no caminho certo! Muito possivelmente alguns pontos acabaram sendo esquecidos nessa matéria, mas esperamos que, de alguma forma, ela lhe tenha sido útil. Qualquer dúvida, basta nos chamar na ask! E se gostou desse post, não esquece de deixar um coraçãozinho e reblogar (também precisamos nos divulgar né, migos). Um beijo no heart de vocês!
Escrito por Bia (depois de séculos de total procrastinação).

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Um Conto do Leste: Spoilers – A Morte não Discrimina.
“Nesses alicerces ruinosos eu quase consigo ver as cúpulas de minha antiga casa. As imagens dos que se foram perambulam pela minha mente, bem como as tediosas horas de estudo que já não me servem de muita coisa (...). Ainda assim... apesar das tragédias, sou grato. Não ao mundo que me tirou tudo, mas a você que me salvou das chamas que transformaram o resto em cinzas. Por isso odeio esse silêncio! Somos uma dupla! Eu não o julgaria, Pasha, nem se me confessasse um crime... eu acabaria por lhe dar razão, pois o coloco em um pedestal: elevado sobre todos os outros seres, como Tânia faz com a figura dos mártires.”
- Mikhail Andreyevich Karev
Capítulo novo disponível sexta-feira. Para ler as partes já postadas clique aqui
“Os olhos doces e puxados daquele rapaz tornaram-se um refugio para Alina. Muito mais do que um fisioterapeuta estagiário, ali ela via um amigo.”
Spoiler do capítulo 03
Esfreguei meus cabelos tentando pensar e dei um passo em direção a figura frágil e assustada da menina. Mesmo sem ter pra onde recuar, ela queria se afastar de mim. Seus extintos estavam certos. Ela tinha visto tudo. Ela me reconheceria. Ela me entregaria. Ir para a prisão estava fora de cogitação. O que eu devia fazer com ela? Matá-la também? (Dark Paradise - Prólogo)
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